quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

as filhas de ninguém

Era já de tarde, nas horas em que não se distinguem pessoas. O sol ia atravessado o dia sem contar quantas eram. Caminhava por aquela ruas de chão batido, seguindo um canto lamentoso, que parecia mais de morte  que uma cantiga de roda. As meninas estavam de mãos dadas formando um circulo ondulante, a mulher que era velha, cantava a sua lamúria. Fiquei de longe para que não sofressem de serem observadas. Quando terminaram fui achegando e perguntei se eram filhas suas. Disse que eram filhas de ninguém e 'se criavam-se' por conta de Deus. Aqueles vestidos curtos e puídos de tanto tanque, os cambitos secos, os cabelos enosados,  dava a impressão de que Deus não estava cuidando tão bem assim daquelas crianças.

Milho Verde, Mg, 2010.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

fala aí Ana Júlia

"O movimento estudantil nos trouxe um conhecimento muito maior sobre política e cidadania, do que todo o tempo em que estivemos sentados e enfileirados em aulas padrões". Ana Júlia, 16 anos

A roupa era colada no corpo, do decote até o tornozelo, o cabelo preso com um rabo de cavalo pendulava direita-esquerda-esquerda-direita, um corpão bem feito capaz de evocar desejos não sublimados de 8 a 80, e a voz continha decibéis muito além de minha capacidade de tolerância auditiva. O que saia daquela boca era ainda mais inacreditável... Eu, caminhando atrás desse fenômeno, imaginava que a qualquer momento a moça ensejaria uma sessão de pole dance, bem ali, no meio do corredor. Minha curiosidade carregada de inquietação não cansava de se perguntar qual seria a função daquela criatura naquele estabelecimento. E pergunto. A resposta me deixou ainda mais perplexa "conciliadora de conflitos escolares"...ai...meus sais...!!!

Enquanto minha cicerone desfilava aos berros pelos corredores, eu me entretinha como essa volta no tempo. Essa escola pública estadual aqui na rua da minha casa, tombada pelo acervo estadual, permanece com os mesmos corredores de ladrilho vermelho no piso, as paredes são pintadas até a metade com tinta óleo de tom amarelo desmaiado, alguns móveis da entrada são originais como um porta chapéu, por exemplo. Quem estudou em escola pública reconhecerá esse descrição.

Meu encanto se esvanece.Começo observar que todas as janelas tem grades, todas as portas tinham cadeados, a biblioteca tinha uma porta de madeira e outra porta de ferro sobreposta com cadeados, trancas, e tudo o mais que permitisse excluir os livros de qualquer acesso humano. Aliás, nunca era aberta aos alunos (muitos sequer sabiam de sua localização ...) A pessoa responsável pela sala estava de licença há alguns meses, um motivo a mais para permanecer trancada. De repente me dou conta que não sei mais onde estou e que a única diferença entre essa escola e a penitenciária é que quando entro numa penitenciária sei onde estou entrando e ali, no lugar de escola encontrei uma prisão, em todos os sentidos.

Desde que escola se transformou num business de sucesso, onde é possível manter o cliente fidelizado por longuíssimo prazo, aceitamos a falência da rede pública de ensino mandando os nossos filhos para colégios particulares, que nos arrancaram o coro sem dó nem piedade e que ainda assim, discursamos com veemência sobre a importância desse "investimento".

Tenho visto algumas críticas sobre a ocupação das escolas públicas e acho isso de uma injustiça cruel. Alguns carregam no verbo chamando os jovens de vagabundos/baderneiros. Penso que não. Estava mais do que na hora desses jovens que não tiveram ( e não terão) o mesmo ponto de partida de nossos filhos, botarem a boca do trombone. A discurso de Ana Júlia me emocionou e deveria ser a fala de muitos. Resta-nos enxergar que vivemos num pais que precisa mudar e, o único instrumento para isso chama-se educação com qualidade, com professores isentos que saibam iluminar caminhos ao invés de pregarem as suas próprias ideologias. A função primeira da educação é formar pessoas com capacidade para escolher. Ana Júlia "escolheu" quando foi discursar pra aqueles ignóbeis representantes da sociedade nacional. Nossos filhos, com a nossa anuência e patrocínio, poupados pela redoma do ensino particular, não seriam capazes de uma fala tão pertinente como a dela.

E ontem, nosso temerário presidente que quer mudar o ensino médio através de medida provisória criticou a ocupação de escolas no Paraná, começando sua fala assim: "...o que mais existe hoje é um desrespeito às instituições ..." Ele deve entender do que fala, não é mesmo?

Torço para que o movimento estudantil ressuscite a partir dessas ocupações e que outras Anas Júlias surjam como exceção pra a obviedade dos tão empobrecidos caminhos oferecidos pela falta que a educação tem nos feito. Quem sabe, assim, em 2018 algum candidato lembre de incluí-la prioritariamente em sua proposta de governo, porque estudante secundarista também vota!!


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Num aperto de mão com olhos de sorriso verde mareante apresentou-se pelo nome de Kairós.  Era ali que a viagem começava.
Já não estava mais acostumada com a bondade do mundo e me intrigava um pouco as boas ações sem qualquer pretensão. Seu Luiz, nosso guia nativo, filho de índio, conhecedor de todas a plantas medicinais da mata foi nos buscar no porto de Santarém. Chegávamos de 40 horas de viagem rio abaixo, o percurso dura mais tempo nas épocas de seca, é preciso margear, centrar, margear de novo para fugir dos bancos de areia. Foi bastante tempo para ver o rio, aprender a gostar de dormir em rede e ver umas crianças lindas.

Com o sol amainado, entramos na floresta antes das quatro da tarde. Daria tempo de chegar com o fim do dia, no local onde passaríamos a noite. Na mochila somente o essencial,  a rede, uma manta, um muda de roupa, água e nada mais. Não convinha levar peso para uma caminhada de quase 10 quilômetros.

De árvore em árvore Seu Luiz ia nos dizendo de sua propriedade, para que servia, como deveria ser utilizada. A lasca de quinino, dentro da garrafa de água, que deveria ser consumida aos poucos. Agachado no chão com um pedaço de galho começou a chafurdar num buraco a procura de algo que provaríamos: formiga. Minha única resistência era de que suas patas se agarrassem a minha traqueia, pelo mal feito de comê-las vivas. Tratei de mordê-las, o que veio depois da crocância foi um perfume que povoou o meu hálito com aroma de limão. Delicioso.

As árvores são altíssimas. Para que caibam todas na mata, crescem um com tronco muito longo, espigado, para só então bem lá no alto se abrir em copas. Algumas estavam reviradas com raiz e tudo e fiquei pensando na força do vento que foi capaz de arrancá-las inteiras. Nessas travessias Seu Luiz me ensinou a andar com 'pé de papagaio' sobre os troncos, o que significa espalmar os dedos no sentido diagonal  para que não perder o equilíbrio.

Pedi a ele que me avisasse se o Uirapuru cantasse, o Eros amazônico. Dizem que, quem houve seu raro canto  pode pedir o que quiser...  Respondeu que não me preocupasse. Eu saberia caso ele cantasse.  O canto é tão lindo e único  que toda a floresta silencia para ouvi-lo quando de suas raras aparições.

A caminhada me colocou em bicas, não sou de transpirar mas esse caminhar me deixou como se tivesse passado dentro de um rio.

Quando finalmente chegamos na maloca onde passaríamos a noite, algo nos esperava: uma luminosa lua cheia, que permitia divisar os contornos das árvores. Foi feita uma fogueira para avisar aos bichos que estávamos fazendo um pouso por ali. Comida não tinha. Apenas pão, água,  alguma castanha e um amendoim que foi socializado entre nós cinco. Montamos nossas redes embaixo da palhoça, os dois meninos dormiram ao relento, o biólogo caiu num sono tão profundo que imaginei que estivesse morto. Seu Luiz prometeu que ficaria de vigília. Em algum momento, percebi que se retirou sozinho por um atalho da mata. Passou um tempo por ali, muito provavelmente conversando com alguma de suas entidades. Voltou anunciando que a noite estava garantida, que seria de sossego. Acho que acreditou tanto no que disse que o escutei roncar na rede ao lado. Eu, pelo meu turno, fui acometida de uma enxaqueca tão feroz, que não me deixou dormir a noite toda. Deve ter sido algo por encomenda do universo. A dor que não me deixou dormir, me fez perceber todos os barulhos da mata, posso garantir que aquilo é uma quizumba sem sossego, quando uns param outros começam. O mais variados alaridos, uivos, sons melancólicos, metálicos (que segundo o Seu Luiz era de escorpião, e a receita para que fosse picado era "só "se pendurar num galho de árvore, imitar o macaco prego, que o veneno sairia do corpo... eu pensando...como é que era isso de imitar um macaco...?). Ele disse também, que não me preocupasse com a onça. Ela seguia as passadas pela mata e com a pata direita colocada em cima das marcas humanas deixadas, se o passo fosse frio,  a onça reconheceria quem tem medo, e era atrás dessa pessoa que ela viria... Ouvimos também as suas estórias de boto (e que ninguém ouse questionar sobre a veracidade desses fatos...)  Acreditam tanto em boto como em Curupira.  Era bom que eu acreditasse também, seria mais seguro me cercar de fé para que passasse uma noite sem as seduções e enganos da floresta
.
Sem pregar o olho, pude ver  todo o percurso da lua por cima de nossa casa coberta com folhas de babaçu, até que a perdi  de vista, no extremo oposto de onde a vi nascer. Enquanto estava por de cima da casa, pelos vão das palhas iluminava o chão de terra batida por debaixo da minha rede. Parecia que o céu tinha invertido-se e que meu chão tinha se transformado em  um chão de estrelas. As árvores eram invadidas por sua luz prateada e foi graças a ela que durante a noite quando precisei ir ao banheiro, não pisei em uma aranha que tinha o tamanho da minha mão.

Não sou uma mulher de coragem para coisas tão naturais, ao contrário de minha intrépida companheira de viagem, que depois dessa noite me confessou que até o último minuto teve dúvidas sobre a minha ida até lá. O fato é que, em nenhum momento me senti desprotegida ou com medo por estar ali, tão distante e ao mesmo tempo tão próxima do que nos faz sentir apenas como essencialidade.

Não acredito em forças femininas que protegem as mulheres nas florestas. Não acredito em elfos, duende ou fadas. Acredito apenas que ao adentrar na mata devemos ter respeito e acima de tudo amá-la, respeitosamente.

De alguma forma o espirito da floresta esteve comigo naqueles momentos e não só naqueles momentos.

Quando o dia amanhecia tive a impressão de que chovia. Era um farfalhar de folhas docemente sopradas pelo vento da manhã. Era a voz do Tapajós sussurrando com suavidade intensa em meus ouvidos e por quem, antes que eu soubesse, já me encontrava completamente seduzida.

O Uirapuru não cantou, mas conheci o Paquerador que fica fazendo fiu-fiu pela mata.

Algumas experiências, ou talvez as mais significativas de nossas vidas, não são contadas na inteireza.
É preciso saber guardar algum silêncio para que o inefável aconteça.


*Kairós  é o tempo qualitativo dos gregos, o momento oportuno e único e que esteve conosco nessa viagem.





sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Coração de Leão - filme

Peguei o bonde andando e gostei muito. Coração de Leão um filme argentino (claro!) onde o protagonista é "diminuído" digitalmente para interpretar León, um anão de 1,35 que compensa a pouca estatura com a bossa de um agradável sedutor.

A pretendida de León é uma advogada que embora divorciada continua tendo o ex marido como sócio no escritório. A comédia pula para drama de uma cena para outra, onde a imperdível para mim é quando o dito ex marido adentra a sala de Ivana (a linda Juliana Diaz), e não "enxerga" León sentado na bergere. Discutindo e batendo as mão no encosto da cadeira onde o sedutor está sentando, vai tornando a cena cada vez mais constrangedora para todos, até para quem assiste.  Ou então, quando a secretária do escritório, uma bem treinada sacana do mundo corporativo que joga em todos os times, tenta arrancar de Ivana a confissão de que está se relacionando com um anão. Ao final a fala se torna séria ao mensurar em como podemos nos tornar hipócritas em nossas escolhas, em se tratando de atender nossas exigências de idealizações do ego.  A cena de Ivana diante da pequenez da camisa dele pendurada no cabide também é um deleite de observação.

O filme é grande ao tratar de escolhas subjetivas pautadas no que o senso comum determina e acaba por nos determinar. Além disso, mostra o preconceito sem o pieguismo do politicamente chato.

Não gostei do final previsível demais, mas que não vou contar pra ninguém porque não sou chata.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Domingo perfeito tem:
jabuticabas no café da manhã
versos de Bandeira com jeito de Drummond.
Tem dia nublado em
cama sem fim
bossa nova
vinho branco.
Tem um acomodar-se em sonos
E em amores.





sexta-feira, 16 de setembro de 2016


Hoje ela acordou desacontecida da vida.

Num tava nem um pouco a fim de conversa amanhecida.

Que fosse logo falando o que era de futuro. O que tinha sido, nunca foi acontecido.
E no mais, que ficasse tudo igual: nem vivido, nem morrido.

É tanta coisa que acontece, que a gente vai desacontecendo dentro da gente...

Foto: Katia Gardin


terça-feira, 6 de setembro de 2016

Doces sírios



Eu nunca gostei de repartição pública e elas nunca gostaram de mim. Ontem fui pegar uma reles assinatura de uma funcionária nem tão graduada ou ocupada assim, mas ela ficou uma hora como o meu papel em cima da mesa até assinar e colocar um carimbo...quando me devolveu teve o cuidado de dizer "pronto" "já" assinei. Esse "já" para ela é natural, para mim...bem, deixa pra lá.

Pego a Marginal e vou nos 50 permitido. Estranhei bastante no começo, hoje acho que está correto. Vou em direção ao Brás tenho bastante tempo, meu celular está molhado pela garrafa de água que tombou na minha bolsa. Sem horário, sem telefone, penso em dar uma bica nele e lançá-lo no rio, assim posso me livrar de todos os grupos de whatsapp, seria libertador... Mas sem celular estou sem Waze e me perdi. Entrei numa rua bem estreita que começou bem e foi ficando cada vez mais fina e mais esquisita, adoro quando colocam a placa de rua "sem saída" bem no fim da rua... Percebi que tinha entrado numa roubada, fui dando ré na estreiteza, desviando de postes, latas de lixo e guias, fiz a curva e continuei no meu de fasto, de repente saindo de uma das casa, um homem quase chama a minha atenção "onde a senhora vai dando ré na contra mão..." resolvo ser amável diante da inamabilidade. Ele é bem alto tem o corpo todo tatuado, está saindo de bicicleta e em cima da sua cabeça a placa anuncia em letras garrafais para as pessoas pedidas "tarô cigano", quase peço pra ele puxar umas cartas na ausência do meu Waze. Pondero que não. Tenho horror de ciganos desde que fui roubada por uma no Chile... que situação...! Ele me explica como sair dalí fazendo volteios com as mãos, finjo que entendo aquela profusão de virar a direita e esquerda, me dá guarida e chego de ré até o final a rua. Faço os volteios e dou de cara com dois caminhões da prefeitura que retiram das calçadas as mudanças dos que moram ali na rua, colados ao muro, subo um pouco na guia e consigo finalmente sair. Lá está o cigano tatuado, de novo, numa outra esquina apontando de cima da bicicleta a direção que devo tomar. Aceno para meu Waze cigano.

Estou próximo do Largo do Pari e me lembro que ali em frente existe uma loja de doces sírios maravilhosos. Vejo as torres da igreja, estaciono, as portas estão abertas mas a igreja é de Santo Antonio e por pior que esteja a situação para esse Santo eu não peço mais nada. Da última vez que entrei ali eu me casei. Dizem que é melhor se alinhar com São José para esse tipo de aflição.

A loja não existe mais naquele lugar, mas virando a esquina descubro outra que venho a saber é a mesma que eu procurava. Está bem menor, mas a quantidade, beleza e variedade da vitrine, me deixa namorando os doces já que naquela igreja eu não entro mais. Tenho dificuldade em escolher diante de tal variedade ( ao contrário do que acontece com o Santo...). Sempre fico assim diante de muitas possibilidades, escolho, peço um expresso, tomo sem açucar por pura ironia, para brindar com a funcionária pública. Me delicio completamente. A segunda-feira vai dando seis da tarde, fico pensando como é bom estar perdida pela cidade e ter doces sírios para gente namorar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Laços

laços de fita
no cabelo,
no vestido da menina

laços de amizade
de amor
de família
fraternos

laços sociais

laços matrimonias

comerciais

laços no embrulho do presente,
do passado

laços eternos

se tudo são laços...
...então (?)....:
Ata-me
(mas não me prenda)

Claudia Casimiro


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

de lembrar e de recordar

E porque talvez falasse numa outra língua, num outro idioma, que estranhamente me parecia tão próximo da ideia que tinha de algumas palavras; e que por isso, sentia que nossos símbolos iam se aproximando. E porque, falava também, de algumas coisas bastante estranhas mas que faziam à mim todo o sentido, como se as tivesse  ouvido desde sempre, passamos a procurar juntos algumas definições que se encaixassem num outro novo idioma que estávamos a um passo de criá-lo, a fim de ordenar nossas metáforas. E a coisa toda foi evoluindo de uma forma tal, carregando do mais puro sentido além de letras e sons,  estabelecendo algumas novas conexões feitas também de silêncios, que acabaram por fim, a falar de dois seres humanos.

Para mim, memória e lembrança eram similares. Sempre gostei de ler para os meus ouvintes um conto de 
Dostoiévski ( O Mujique Marei), onde o autor relata uma passagem de seu duro exílio na Sibéria.  Tentar escapar seria uma morte tão certa como era o branco que cobria tudo ao seu redor. Para sobreviver, agarrava-se a uma lembrança doce, sobre um rude camponês que conheceu quando era ainda criança. E pela força dessas memórias conseguiu sobreviver ao cárcere. Eu costumava dizer então, durante nossas leituras em grupo,  sobre a importância das 'memórias que nos salvam'. Aquelas que surgem de recônditos muito esquecidos para nos emprestarem uma sobrevida naqueles momentos em que a vida parece deixar de fazer sentido.

Esse me amigo de fala estranha, me dizia então, da diferença entre recordar e lembrar. Recordar de 'ri-cordare', passar duas (ou várias vezes) pelo coração e lembrar (cujo seu contrário é esquecer...), estaria ligado a memória e aos processos puramente mentais. Esquecer passa a ser, portanto, simplesmente deixar de sentir. A beleza dessa construção que diferencia recordação e memória, essa nova ideia onde recordar é dar corda com o coração tornando impossível  esquecer das coisas aprendidas com amor. É assim, que posso ainda recordar e sentir nos meus cabelos os dedos de dona Tita, que me fizeram adormecer naquele fim de tarde, mesmo sendo eu uma criança insone. Isso me fez entender porque esse acontecimento aparentemente tão banal, me vinha ao coração nos momentos em que precisei de um lugar seguro, de uma recordação que me salvasse, mesmo que dizer sobre isso, possa parecer algo absolutamente tão fora de contexto.

O que muda para mim é saber que as "re-cordações" que nos salvam são aquelas que puderam acessar nossos corações e que nos revisitam com a força da felicidade já vivida mas, que tem gosto de coisa sempre nova. Que não se perdem nem no tempo nem na distância porque com elas criamos o nosso jeito de amar e de não esquecer.


sexta-feira, 29 de julho de 2016

Chegar caminhando

Ele queria chegar até a vila mas não pela estrada. Tinha que ser pelo meio do pasto, atravessando o rio, pulando a cerca. Para não contrariar e porque ele nunca tem tempo de vir comigo, aceitei suas condições. As vacas para mim não são animais sagrados. Elas me olham com uma cara de muito pouco caso enquanto mascam. Meus sapatos não eram adequados, não gosto de pisar onde não vejo, com o capim até o joelho fica fácil pisar numa víbora adormecida. Elas são meu objeto de terror. Seguíamos e o dia quase indo. Quando penso que já tinha deixado para trás as cobras, o rio, as vacas, começo a ouvir latidos. Muitos latidos. Ele me diz que tem um sitio por onde temos que passar que tem muitos cachorros. Nessa hora estive ao ponto de cometer um infanticídio. Para que não me arrependesse de tê-lo matado, imaginei como pudesse subir em alguma daquelas árvores e ele que se virasse para ir na frente, chamar alguém para me resgatar. Cruzei os dedos em figa como fazia quanto criança na presença de cachorros, repetindo mentalmente "são-roque/são-roque/são-roque" e atravessamos os cães.

Liberta, começamos a conversar. Passou alguém a cavalo tocando uma vaca e ele me pergunta como era possível alguém pode viver num lugar daqueles, acordando e fazendo todos os dias as mesmas coisas, sem nunca ter saído dali para conhecer um outro mundo. Sugeri que quando encontrasse mais alguém pela estrada, fizesse essa pergunta. Mas que fosse sútil. Que começasse uma conversa pelas beiradas, puxando assunto devagar, de um jeito que parece que não sabemos mais como fazer.

Não demorou muito e apareceu um cachorro preto, logo atrás com passos lentos uma senhora de banho recém tomado, dava sentir o cheiro de sabonete misturado com roupa lavada e secada ao sol. Estava agasalhada, alí sempre faz um friozinho. Falamos primeiro com o cachorro. Chamava-se "Negrinho". Ela começou contando que ele estava sem pelos nas ancas porque alguém fez a mardade de jogar água fervendo nele. Que ficou muito queimado e ela com pena do bicho começou a cuidar dele, passando pomada com cinza de fogão à lenha e assim ele foi se fazendo dela. Agora, num larga mais dela de jeito nenhum. Onde ela ia o Negrinho ia atrás. Depois apontou a casa onde morava, falou dos filhos que tinham ido embora pra cidade, do neto que aparecia nas férias. Por fim veio a pergunta, se gostava de morar ali? Vixe Maria! Nasceu e morou ali a vida toda. Teve um ano em que os filhos quiseram levá-la pra cidade, ela foi. Acabou adoecendo e teve que voltar. Ali, era bom demais porque era sussegadinho.
Convidou para ir passear na casa dela qualquer dia desses. Despediu-se com um "Deus acompanhe" e  foi caminhando atrás do Negrinho.

Nós dois continuamos nossa volta para a casa, morro acima, dessa vez pela estrada de terra. Ali, o cachorro pode ser chamado de "Negrinho" sem que ninguém pense em fazer um boletim de ocorrência por preconceito em relação a uma raça inteira. Ali existem algumas outras coisas que estão além e aquém de normatizações sociais. Existe um tipo de sabedoria de quem trabalha a terra e sabe como lhe é difícil tirar frutos se não existir uma dose generosa de paciência, resignação e amor. Ali, existe uma forma de viver onde o mundo intelectualizado não consegue adentrar, porque está tão saturado de hipóteses, percepções teóricas, onde o ser humano passa a ser invisível por falta de uma tese que o acompanhe.
Não dissemos mais nada sobre isso. Não sei se João teve a resposta que procurava, se percebeu esse momento ou se ainda é muito jovem para entender o que os velhos dizem. Todos precisamos de um tempo para viver, perceber, e é bom que isso venha aos poucos, sussegadinho, para que a gente não tenha pressa em "contrariar" a natureza.




sábado, 16 de julho de 2016

quem pode amar?

Enquanto o dia nascia entre plúmbeo e um sol teimoso dourando os prédios, fui tomada por Eros.

Eros, sendo filho de Riqueza com Pobreza, não pode ser uma coisa nem outra. Filho que é, herdou essas duas possibilidades. Daí a imperfeição do amor.

O amor é aquilo que estamos dispostos a doar a ele. Se pouco ou muito, é o reflexo de nossa própria disponibilidade. Por outro lado (como tudo na vida), o excesso ou a falta perfazem o descompasso que tanto pode saciar irremediavelmente como carenciar insustentavelmente.

O amor não se mede em xícaras, colheradas, pitadas, como em uma receita.

O amor se mede tão somente pela nossa aptidão em adotá-lo, a capacidade para suportá-lo e nas ausências que se possam notar.

O amor é o maior dos desequilíbrios entre a falta e a completude e aí reside a sua natureza e sentido.

Não vivenciar esse desequilíbrio, perder-se em explicações nos faz esquecer o seu propósito

E para isso e só por isso foi feito: para amar...!

As explicações não revelam o amor e sim a sua falta.  Ou a falta que ele nos faz.



Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade ANDRADE, C. D. Obra poética, Volumes 3. Lisboa: Publicações Europa-América. 1989.


sexta-feira, 10 de junho de 2016

A primeira vez na escola



Se os primeiros sentimentos que nutrimos pela mãe são tão fortes e poderosos ao ponto de nortear nosso relacionamento com o mundo, seria válida a premissa de que a primeira impressão é a que fica? Traduzindo isso por sentimentos e emoções poderíamos dizer que toda vez que tomamos contato com o novo, criamos por ele uma forma de sentir que norteará nossos  padrões futuros?

Estou lendo Melanie Klein, a psicanalista austríaca, que tendo aprofundado a obra de Freud, foi quem mais analisou e pensou sobre os sentimentos infantis. É dela a expressão "seio bom/seio mau" nas relações que envolvem os bebês e suas mães.

Tenho sete anos e vou pela primeira vez para uma escola. Com dois irmãos acima e dois abaixo, presumo que minha mãe se esqueceu de mandar estudar e quando se lembrou, já tinha passado a minha idade para o pré-primário. Pré-primário era a primeira fase escolar antes da alfabetização. Dava-se com mais ou menos 06 anos de idade e não era obrigatória. Naquele tempo mães ficavam em casa e essas casas tinham quintal, de modo que as escolinhas como instituições sociais nos moldes de hoje,  não existiam.
Pois bem, queimei essa fase do pré-primário e de um dia para outro me vejo de uniforme, sapato preto com cadarço, dois números maior que meu pé, saia de prega quadriculada de preto e branco, camisa branca com o mapa do Estado de São Paulo bordado em vermelho com o nome da escola rodeando-o.

É obvio que essa imediatez educacional, somada ao meu estarrecimento escolar me colocaram muito assustada.

Essa minha entrada imediata e sem prévias para a escola foi tão assustadora e impactante que me pôs muda. Pela primeira vez me vejo fora da proteção do circulo familiar para adentrar numa outra estrutura, com pessoas todas desconhecidas, com as quais eu não tinha a menor facilidade em me comunicar. Lembro-me de uma vez ter chegado em casa e confessado à minha mãe esse meu desconforto, de passar quatro horas sem abrir a boca. Meu medo era chegar em casa e não saber mais como falar. Não me lembro dela ter me respondido alguma coisa.

Não sei como consegui aprender a ler, porque somar até agora não aprendi direito. Eu queria muito ir para escola. Pegava escondida a cartilha Caminho Suave, que era do meu irmão e ficava tentando decifrar o que eram aquelas coisas que se pareciam com letras, formavam palavras e sons e contavam estórias. Era tudo o que eu queria: poder ler as estórias com autonomia, sem precisar contar com a boa vontade de um alfabetizado.

Mesmo com essa minha boa vontade em ir para a escola, meu desempenho foi sofrível. Mas tive sorte. Nesse meu primeiro contato com as letras tive um "seio bom". Minha estimada primeira professora, presumo que pressentia as minhas dificuldades mas nunca me retaliou. Lembro-me que tinha um olhar por mim tão acolhedor, criando uma cumplicidade, uma ponte, entre as minhas dificuldades e a sua enorme paciência com os meus vacilantes primeiros passos.

Quando digo que tive sorte foi por ter me deparado com uma primeira professora dotada de generosidade e bondade. O que teria sido de mim, caso tivesse que deparado de imediato com algumas outras professoras que tive depois? Loucas ensandecidas, desordenadas das coisas, atos e palavras. Atiravam toco de giz para pedir silêncio, isso quando não era o próprio apagador da lousa que voava entre nossos cérebros... Tive uma outra que desdenhava declaradamente do menino mais pobre da sala. Chamava-o de burro, pegava a borracha e esfregava na sua nuca dizendo que era para apagar "de vez" as idiotices que fazia no papel. Nunca me esqueci do Brás. Essas seriam o que Melanie Klein chamou de "seio mau".

Na hipótese de meu primeiro contato não ter sido com a Dona Zezé, será que seria possível avaliar o que teria acontecido comigo? Eu sei. Mesmo tendo nutrido loucamente o desejo de aprender a ler, muito provavelmente eu teria passado a odiar a escola. Se isso tivesse de fato acontecido, é muito provável que eu tivesse me transformado num ser abominável dentro da sala de aula e trataria com a mesma agressividade os professores. Porque esse seria meu primeiro sentimento em relação à escola. E se a primeira impressão é a que fica, muito provavelmente, não teria tido condições de desarmar essa cilada. Minha boa relação com a escola só pode constituir-se positivamente porque meu primeiro sentimento foi de acolhimento e paciência, estruturando em mim condições para suportar o que ainda estava por vir.

Será que não vale a pena pensar em como estamos apresentado o mundo às nossas crianças? Isso vale primeiramente para as mães, nossa primeira fonte de contato com os afetos. E depois, pensar na escola como uma grande oportunidade para encontrar o "seio bom", que nutre, que cuida para o mundo que virá. Não é demais lembrar que a escola tem entrado cada vez mais cedo na vida dos bebês. A escola vai ensinar nossos bebês a enxergarem o mundo e talvez por isso, essa reflexão mereça ser bastante sensível.

Melanie Klein
(1822-1960)




terça-feira, 7 de junho de 2016

depoimentos leituracura

Lemos o texto "O peru de Natal" de Mário de Andrade. Nesse texto, Mário nos fala de um pai de "alma cinzenta", homem honrado e trabalhador mas um "desmancha prazeres"; voltado para o bem estar da família mas que os privava de prazeres e por isso não tem receio em pensar que odeia o pai morto. Resolve então, depois da morte desse pai, fazer um Natal de verdade. Esse Natal de verdade tem que ter peru, com duas farofas, cerveja gelada, a primeira a ser servida será a mãe, que em outros natais sempre servia a todos e acabava por comer somente as lascas do peru e mesmo assim no dia seguinte, garimpadas entre as sobras da festa ...

Um dos participantes da roda de leitura, muito jovem por sinal, rebelou-se completamente contra o próprio pai. Disse  ter nascido por um acaso qualquer, abandonado, e criado por uma tia e pela avó, que sempre o lembraram ser ele um grande estorvo. Disse que ninguém nunca o amou na vida. Percebo que os outros participantes da roda tentam ampará-lo, tentando fazê-lo perceber outros pontos de vista, como por exemplo a  falta de condição que os próprios pais tinham em criá-lo, por conta do álcool, drogas, etc, etc. Ele se inflamava mais ainda.

No encontro seguinte me trouxe esse texto, escrito de próprio punho dizendo o seguinte;

" Meu Pavão, minha unção...
Hoje acordei pensando o que é ter um pai, pai coruja, pai Deus, pai companheiro ou até pai irmão.

Mas nesse momento tive uma reflexão, que nosso pai é a nossa visão de vida, de alegria, de cura e até de tristeza.

'Me sinto' que o mundo começou e as portas se abriram, onde vi meu grande pai sorrindo, enquanto eu acordava para viver". (sic)

#Leituracura que acontece no Arsenal da Esperança, um abrigo masculinos para homens adultos.
São Paulo 06.06.2016


Link com o texto Peru de Natal na íntegra http://www.cocminas.com.br/arquivos/file/O%20peru%20de%20Natal%20MARIO%20DE%20ANDRADE.pdf

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Por onde andam as palavras?


Tem um livro que gostei muito ("Trem noturno para Lisboa"). Não sei se são ecos da minha cabeça mas me parece em que algum ponto desse romance nos é perguntado "para onde se encaminham as palavras que não são ditas?" Não saberia situar onde essa frase está ou se de fato existe pois o meu exemplar está todo grifado dos trechos que chamaram a minha atenção. A segunda coisa que gosto nesse livro é que o seu título virou uma expressão idiomática na Europa, querendo se referir a uma pessoa está pronta para tomar um rumo diferente na vida. O  sujeito acorda e ao invés de tomar um café,  toma um trem noturno para Lisboa ( foi isso o que aconteceu com o nosso homem do livro). A ideia toda me parece além de muito romântica bastante eficaz e juntar essa duas peças pode ser algo tão humanamente impossível quanto poético...

A terceira coisa que gostei é que foi escrito por um professor Suíço de filosofia que leciona em Berlim.

Imaginar que rumo tomaram as palavras que não foram ditas talvez a estória pessoal de cada um possa falar por si.  Se mediante o que dizemos e não dizermos operamos os acontecimentos de nossas vidas, talvez sejam um motivo a mais querer conhecê-las antes de pronunciá-las. Colocar nossas palavras em ações significa  falar ou silenciar (irremediavelmente) quando a ocasião exige.

Muito além das palavras que não foram ditas é necessário pensar  quais conhecemos para situar esse ou aquele fato, traduzir sentimentos que irão modelar não simplesmente nossa forma de entender o mundo mas como nos relacionamos com esse mundo e muito além disso, como as palavras permeiam nossos relacionamentos interpessoais.  A palavra como forma estruturante do pensamento é de vital importância desde as primeiras comunicações que estabelecemos com os nossos bebês, o que pode nos levar a avaliar o grau de importância das primeiras falas maternas e seus reflexos num ser em constituição. Mais adiante, deparamo-nos com a alfabetização como processo de cognição. Os idiomas onde estamos inseridos criam a nossa forma de pensar, modelando nosso pensamento em relação recíproca e inversa temos também nossos pensamentos modulando nossas palavras. Talvez dai a importância de ampliarmos nosso repertório linguístico para nos sentirmos parte do mundo.

A linguagem envolve portanto aspectos mentais. E o que existe de tão ameaçador em nosso momento atual, onde se preconizam mudanças políticas e sociais? Duas coisas me chamam bastante a atenção: a miopia com que se pretende avaliar e prognosticar soluções ( os que querem e exigem solução para ontem e não se satisfarão com nada..), fruto de pensamentos mal modulados; a outra questão é o empobrecimento do vernáculo, criando receitas de comunicação editadas em forma de cartilhas políticas, com palavras contextualizadas para criar uma narrativa própria de interpretação desses ditos fatos políticos, sociais e mais perigosamente: culturais.

A linguagem é símbolo. É o que nos separa dos animais e quanto menos palavras, menos capacidade de pensar (nesse ponto o diálogo também já foi para as cucuias...) E para quem acha que tudo isso é coisa pouca, Jung nos deixa um recadinho: adoecemos quando perdemos a capacidade de simbolizar...
Ou seja, a nação que se empobreceu porque abandonou as palavras, não soube buscar formas para ampliar o seu repertório linguístico fatalmente lerá em cartilhas editadas e prontas para o consumo. Daí palavras sendo distribuídas e amplificadas como mantras, onde metade defende que sim e metade defende que não.  Na fusão  dessas duas partes bem poucos tem clareza para  opinarem através de seu próprio pensamento pois o desconhecimento das palavras tem feito muita falta, levando muitos, inevitavelmente, a serem catequizados.

O trem noturno para Lisboa partirá com muitos assentos vagos, não por falta de demanda, mas porque a senha para o ingresso é a palavra que deixou de ser apreendida.  É lamentável mas é a vida.

"...e compreendia tudo com uma rapidez e uma exatidão que, depois do espanto inicial, me deu medo, pois a sua percepção derrubava todas as barreiras protetoras.
Nos anos que se seguiram passei a fugir toda vez que alguém começava a me compreender. Isso melhorou. Mas uma coisa permaneceu: não quero alguém que me compreenda totalmente. Quero passar pela vida sem ser reconhecida. A cegueira dos outros é a minha segurança e  a minha liberdade." pg 446 -  Trem noturno para Lisboa - Pascal Mercier.

#leituracura



quarta-feira, 18 de maio de 2016

Essa garoa fina, chuvinha de molhar bobo, não combina com os propósitos  de caminhar tão cedo... Para não desanimar vou pensando em Eduardo Galeano, quando disse  que as longas caminhas por la rambla de Montevideo con su perro tinham o efeito de economizar em terapia.

Nessas primeiras horas matinais tem muito lulu sem as luloucas. Chuvinha miúda e chapinha são seres incomunicáveis. Tem sim, muito cão acompanhado de cuidador e me vem à ideia os negócios paralelos que são criados nos interregnos desse amor entre o homem e a criação. (Aspas: de onde venho, tudo o que é bicho é tratado genericamente por "criação").

Fiquei pensando que nesse novo e admirável mundo eufemista,  também não posso mais falar 'cão' ou 'cachorro'. Outro dia, uma hóspede me perguntou se poderia vir com seu 'amorzinho'. Subentendi meio reticente quanto à minha capacidade interpretativa, e por fim declarei que não aceitávamos 'pets'. Indignou-se contra esse meu preconceito, digno de  mudar essencialmente quem sou como pessoa, simplesmente porque não quero pelos e patas pela casa. Por fim quem dançou de verdade foi o namorado, que ficou sem o fim de semana na montanha. Prevaleceu o 'amorzinho' em detrimento do amorzão.

Olho para uma esquina da Oscar Freire (onde o aluguel é caríssimo) e vejo "padaria para pets" .  Paro para constatar melhor,  e vejo que é também sorveteria...meu espanto vai aumentando... nem sabia que gato gostava de sorvete...?! Fico com as ideias na cabeça se esse tipo de negócio pode dar certo (e toda vez que tenho essa dúvida já é um claro sintoma de que vai prosperar, porque coisas loucas acontecem nesse mundo eufemista de lulus e luloucas. Sei também que vai me chover crítica, irão dizer que sou insensível aos amores petianos, me defendo já, antes de fúrias e perda de amizades que também já fui mãe de cachorro, mas não consigo,  de verdade (!!), deixar de pensar em vários absurdos, que tanta gente não se dê conta que para produzir ração também precisa plantar soja (um dos itens da composição de ração animal, além de putrefatas farinhas de víceras...). E produzir ração também polui, envenena tanto quanto produzir alimentos para seres humanos em grandes escalas. Os investimentos para pets dariam para matar boa parte da fome no mundo. Ando mais um pouco e minha indignação aumenta. A poucos metros da sorveteria para cães e gatos, vejo em letras não garrafais (porque aqui tudo precisa ser discretamente hype) "spa para pets".

Volto, porque a chuvinha começa a virar toró. A caminhada virou questão existencial permeada de afetividade transferencial incognicível e como não sou Galeano, minhas caminhadas não são excludentes de terapia.


terça-feira, 19 de abril de 2016

Cântico

Por razões que não cabem esmiuçar e com os fatos ressoando à distância, me lembro de algumas coisas bem pouco usuais à uma mulher que esperava um filho e resolve mudar-se sozinha de casa e de cidade.

Tinha preparado para você um quarto com uns ursinhos bem  graciosos. Naquele tempo era assim: rosa para meninas, azul para meninos e amarelo para não sei. Queria me surpreender com seu nascimento por isso quis tanto esperar... e nessa espera, sem desejar saber o seu sexo, preparei o seu quarto em tons de amarelo suave, quase palha.
Com essa minha súbita mudança e,  já contando com  sete meses de gravidez, fiz questão de reproduzir,  novamente,  o mesmo amarelo, os mesmos ursinhos  no quarto novo, da cidade nova.

Tinha alugado uma casa pequena, que ficava no alto de um terreno e nunca me senti tão sozinha em toda a minha vida.

Depois do nascimento da criança, passávamos os três em casa: o bebê, o cachorro e eu.

Conforme ia escurecendo eu ia me amedrontando. Talvez porque morar em casa fosse uma situação nova para quem estava habituada a viver em apartamento;  talvez porque a maternidade mexesse demais comigo. Sentia uma responsabilidade enorme em cuidar de um ser tão diminuto que dependia de mim em todas as circunstâncias. E porque tinha, por último e mais verdadeiramente,  medo de ladrão.

Uma das noites enquanto te  amamentava, escutei cair tudo lá fora na área de serviço, muito provavelmente pela passagem de um gato. Mas,  quando se tem (muito!!) medo não é a imagem de um gato que primeiro vem à mente.

Nossos dias transcorriam entre fraldas, noites insones, gatos no quintal e uma coisa muito particular que aconteceu numa madrugada. Era um mês de junho bem frio, devia ser por volta de quatro ou cinco da manhã. Eu o amamentava sentada na cadeira de balanço, enquanto te segurava entre os meus braços, com um dos meus pés procurava acariciar os pelos do Dun-dun,  que por esses tempos andava enlouquecido de tanto ciúme.
Foi assim que comecei a ouvir um coro de vozes femininas. Confesso que num primeiro instante aquilo me assustou bastante. Num instante seguinte,  me deixei levar pela beleza das vozes e logo depois quando as vozes já pareciam  sumir para mais longe, foi ficando um  rastro com cheiro de perfume, de flores...  Fechei os olhos e senti uma paz tão transbordante e profunda, que permaneci num estado de latência.  O nosso fiel escudeiro, que era um schnauzer estridente, sequer latiu.

Quando amanheceu, pensei que deveria ter ido até a janela, ter olhado para rua, ver quem eram as mulheres que estavam me  proporcionando aquela mansidão. Não fiz nada e como não conhecesse vizinhos, também não perguntei a ninguém que pudesse  me informar o que poderia ter sido aquilo. Fiquei numa dúvida muito grande, pois sendo a casa no alto do terreno,  longe da rua,  aquele cântico de sublimes vozes parecia estar na janela do corredor lateral, muito próximas de nós.

Muitos anos depois, comentando sobre isso com uma amiga, ela me disse que eu tinha tido um encontro com o divino. Não sou mistica, e talvez seja muito mais temente que crente, e não sei João, o que foi que nos aconteceu de verdade.  Talvez tenha sido uma procissão acontecida naquela madrugada gelada ou tantas de outras experiências e sensações que nunca vou saber  como te explicar direito.
Porque os momentos divinos, filho, são assim mesmo: cheios de não explicações.






segunda-feira, 4 de abril de 2016

quero crer
que vi o mar
amando
e que o mar
me viu
amada
Praia de Carneiros - Pe

quinta-feira, 31 de março de 2016

Parreirais

Todas as casas da minha infância tiveram parreiras. Daquelas que dão uvas. Primeiro era um cachinho, bem miudinho, descoberto entre as folhas. A folha da parreira é peludinha num dos lados, gostoso de ficar passando os dedos bem de mansinho. Tem também aqueles enroladinhos que parecem umas espirais verdes, que vão se formando, igual um enroladinho de cipó.
Era preciso ter tolerância para ver aquele cachinho crescer e depois amadurecer. Vigiava todos os dias. Não contava para ninguém, subia no muro e ia dar uma olhadinha. Se um dos irmãos soubessem, iiii.... estava perdida! Arrancariam o cacho que eu estava esperando crescer, só para me sacanear.
Quando a calma permitia, era uma delícia poder comer a fruta que tinha esperado amadurecer em segredo. Sempre tinha um gomo que não vingava. Esse era o "gominho de Deus". Arrancava o gominho, deixava na madeira do forro da garagem e explicava pra Deus onde o tinha deixado, pra que ele viesse buscá-lo. Eu ainda não tinha incorporado o sentido da onipotência. Naquele ninguém era besta de mexer. Era pecado mortal. Além de tudo, o Papai Noel não trazia presente para quem desrespeitasse a norma.

Um dia, estava embaixo daquela parreira, acocorada em cima de um botijão de gás. Seguia minha mãe com os olhos, vestindo os varais com as nossas roupas lavadas. Ela sempre ocupada com alguma coisa da casa. Eu do nada lhe perguntei - e até hoje não sei como isso me veio à mente: por que é que as pessoas se casam?

Ela parou de fazer o que estava fazendo, o que era coisa bem rara. Minha mãe sempre foi o tipo de pessoa onde a obrigação vem antes da diversão. Olhou para mim, de um jeito pensativo, caminhou na minha direção e respondeu: "as pessoas se casam, porque se gostam tanto que não conseguem mais morar separadas".

Nessa breve e curta resposta, minha mãe criou em mim esperanças que até hoje, tendo eu o dobro da idade que ela tinha naqueles dias, não consegui desbaratar.

Mesmo sabendo que a junção dessas palavras não são garantias de uma performance satisfatória, acabei criando uma persecutória sinapse entre casamento, amor, morar junto.

De qualquer forma, até hoje me vejo sem resistências diante de uma parreira. É inevitável imaginar o que vai brotar dali, o que se esconde por entre folhas e o que amadurece docemente.





quarta-feira, 23 de março de 2016



Sou brasileira (acima de tudo), tenho formação jurídica, portanto, jamais defenderia atos contrários à Constituição Federal. Me reservo, no entanto, o direito de considerá-la em alguns artigos uma verdadeira piada...

Todo brasileiro deveria ter um exemplar em casa e principalmente LER!!!! Leitura altamente recomendada para todos aqueles que nela acreditam como se acredita em Deus. Cláusulas pétreas em forma de dogmas (e quem quiser, que acredite que as coisas são "exatamente" assim...)


Para quem nunca pegou uma CF nas mãos, pode começar pelo artigo 5 "todos são iguais perante a lei". Só que, num cochilo do legislador, faltou acrescentar " mas uns são mais iguais que outros".

Tem várias outras pegadinhas bem matreiras, porque, nunca é demais lembrar que as leis são feitas por homens. Isso quer dizer que quando estamos falando de ética ou justiça não estamos falando de leis. Leis são sancionados e promulgadas por esses mesmos homens que precisam ter garantias constitucionais para toda as sacanagens que executam, não mais na calada da noite, mas, em plenos clarões de nossa amada pátria mãe gentil. Exemplo disso: foro privilegiado.

Também não estou aqui defendo o "caos", num mundo onde não existam leis; onde todos possam fazer o que bem entendem sem que devam qualquer tipo de satisfação ou reparação à coletividade. Quero simplesmente dizer que dentro dos princípios legais "alguns" podem e os demais ( que somos nós) que se resignem...

Realmente, não vai ter golpe.

Num pais que vende combustível adulterado, remédio adulterado, dá pedaladas fiscais, patrocina eleições com dinheiro desviado de corrupção, me responde com sinceridade: você acredita mesmo que as nossas urnas eletrônicas são invioláveis???? Invulneráveis??? Claro, que são invioláveis, pelos mesmos motivos que vivemos num Brasil onde as leis FUNCIONAM para os pobres e RESOLVEM os problemas dos ricos.

Então, que tal a gente ficar combinado assim: não vai ter golpe e sim contra-golpe? Será que assim conseguimos agradar gregos e troianos?

Para o dia de hoje recomendo "Antígona", na voz de Creon ; "não é possível conhecer perfeitamente um homem e o que vai no fundo da sua alma, seus sentimentos e seus próprios pensamentos, antes de o vermos no exercício do poder, senhor das leis". Essa é a tragédia de Sófocles, século IV A.C, no grande dilema sobre o direito natural e o direito positivo (escrito pelos homens).
‪#‎leituracura‬.

O poder não corrompe, apenas mostra quem somos nós!

quarta-feira, 9 de março de 2016

Viajar pela terra

Por uma estrada de terra carrego comigo toda a minha ancestralidade.

Carrego meu avô paterno, na direção, com chapéu de abas largas socado até as pestanas, colarinho abotoado até o último botão. Ao lado,  minha avó com um lenço amarrado no cabelo, preso com um nó em baixo do queixo, para evitar a poeira por certo, porque, não era mulher de tolas vaidades que temesse desmanchar o penteado. No banco de trás íamos tantos quantos coubéssemos, disputávamos as janelas a tapas (e  não literalmente). Íamos todos amontoados sem dispersar qualquer centímetro, viajamos com entusiamo como se estivéssemos indo sempre pela primeira vez, mas, íamos sempre para o mesmo lugar.
Meu avô, com o passar dos anos dirigia cada vez com mais lentidão, quem ia na porta do lado do passageiro ia arrancando com as mãos os capins da beira da estrada.

Carrego meu avô materno. Numa noite de chuva, no banco traseiro de um Karman-ghia branco, íamos eu e minha avó materna, essa sim, super vaidosa, cabelo ralo e desfiado de laquê até o último topete, óculos de grau com armação grossa, super vintage. Na direção minha tia recém habilitada, num carro que sapateava pelo barro, os vidros embaçados pelos vapores de nossas tensas respirações, ao lado meu avô que nunca dirigiu na vida, dando pitacos, indicando caminhos e procedimentos na escuridão daquela noite. Confesso que me sentia bem pouco segura com aquelas suas recomendações inabilitadas ...

Carrego meu pai. Ou nesse caso, ele me carrega, pois nunca me deixa dirigir o seu carro, diz que sou barbeira, que não sei dirigir na terra, talvez saiba em São Paulo, naquela terra de gente doida, mas aqui não!
E se põe a falar, contar estórias, emendando um assunto no outro. Felizmente, não preciso nunca me preocupar em responder nada! Ele já tem todas as respostas mesmo... Sou poupada, posso apreciar a estrada com tranquilidade, ver o dia bem cedo, prestar somente atenção nas entrelinhas do que ele me conta. Ouvi-lo declamar poesia entre um interregno de pensamento e outro. Postular sobre as sua teorias de vida (que são muitas...). Já sugeri e deixei na sua cabeceira um caderno para que fosse escrevendo seus aforismos... Conhece todos os personagens que passam por aquela estrada, sabe da vidas, das estórias e das agruras de cada um deles. Poucos souberam manter as terras herdadas, muitos tem agora uma velhice sofrida, com ares de cansaço, mas ainda conservam a disposição para uma prosa ou ficam felizes quando são visitados. Me dou conta que meu pai sempre foi um louco pouco varrido, que anda sempre com pressa, muitas coisas para resolver... (sempre!). Conserva até hoje uma vitalidade e uma crença invejáveis.  Faz odes à terra, declara seu amor à sua fecundidade. Não percebo a sua idade e imagino que poderia ter usufruído um pouco mais de sua companhia, se não tivesse me mandado para tão longe, para viver numa terra de pessoas que são "doidas"...

E gosto de dirigir por estrada de terra, principalmente se estiver sozinha. Vou  mergulhando em umas brumas de imagens poeirentas, curvas, e sentindo, me conduzo cada vez mais inteiramente por onde mora o meu interior.

Foto Paulo Kawall

quarta-feira, 2 de março de 2016

Premir com suavidade
                    sentimentos

Tratar com doçura
                   emoções

Olhar para bem longe
com olhos de quem procura
                                encontrar...
Não acabar
                                 começar.

começar - encontrar - emoções -sentimentos

Amar de novo.




quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Receita de Homem


                                                                                             (para Vinícius de Moraes)



Os muito bonitos que me perdoem, mas  inteligência é fundamental.

É preciso que haja qualquer coisa de vivência, cortesia e muito pé no chão.

Não há meio termo possível.
É preciso que traga em si em partes harmônicas com a mesma medida: doçura e firmeza.

Ao olhar para uma  mulher, é preciso, é absolutamente preciso que esses olhos sejam só para ela.

Que acaricie braços, alguma coisa além da carne.
Que tenha caráter.
Que abra e feche portas.

Nádegas são importantíssimas.
Boca, então, nem se fale, que beije com certa maldade inocente, com muita pertinência e bastante correspondência.
É preciso que o antebraço seja bem bonito e termine em ombros firmes.

É preciso que seja pontual na palavras (e no tempo). Um homem de vernáculo fraco é como um rio sem ponte.

Que tenha fé em Deus, não fale nunca Dele e se esqueça sempre de ir à missa.

Que cuide bem da aparência, muito mais embaixo do chuveiro do que na frente do espelho.

Que tenha lances de super-herói.
Sempre conheça em qualquer cidade do mundo, o melhor lugar para ver o por do sol, um  restaurante legal e um lugar escondido onde ninguém ainda pisou.

Que seja alto, mulheres gostam de saltos.

Que tenha conta na florista e entenda de geopolítica.

Que tenha mãos grandes e precisas como as de um cirurgião, olhos que sejam de preferência profundos, quentes e verdadeiros.
E que se coloquem sempre lá no invisível, onde existam
estrelas e alguma poesia.

Que não lhe falte dinheiro, tempo e bom gosto para aproveitar a vida.

Tenha amado já muito e errado e agora esteja disposto a amar direito.

Que eu não seja nunca a primeira, para poder ser a última.

Que surja, não venha; parta, não vá.

Que aprecie bebidas fortes porque não dá pra confiar num sujeito que não seja um bom bebedor de whisky.

Que exale sempre o impossível cheiro, cante sempre o inaudível canto, de sua combustão não deixe nunca de ser o que procuro; entre efemeridades traga sua incalculável imperfeição e  constitua a coisa mais perfeita de toda a criação inumerável.

E, se eu me morrer de amores, que me pague (ao menos) o enterro e as flores.

#minhabrincadeira com o grande "poetinha", Claudia Casimiro


quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A Cor do Paraíso

O que a gente não sabe é que além do fundamentalismo, conflitos, petróleo, conturbado programa nuclear, o Irã (também!) produz poesia. A poesia  é a forma dominante de sua literatura e pouco chega até nós, tanto pela falta de tradução como por uma tendência  dos meios em só divulgarem produção cultural Ocidental.

Existe por lá um tipo milenar de dança, ginástica, treinamento mental conhecido como Zurkhaned, que parece um tipo de transe, que mistura reza, música e principalmente poesia, com alguma semelhança e que deu origem aos Derviches, os rodopiantes da Turquia, um dos espetáculos mais bonitos que já vi na terra, pelo que nos traz de significados e história.
Os  praticantes de Zurhaneh (tanto quanto os Derviches) ajudaram a derrubar governos. A Revolução Iraniana começou com um sarau, que depois de dez dias de recitais de poesia se transformou em protesto.

Mas não era nada disso o que eu queria dizer. Quero falar de um filme que vi ontem " A Cor do Paraíso", a estória de um garotinho cego, educado em uma escola especial em Teerã, que está entrando de férias e aguarda que o pai venha buscá-lo para levá-lo para casa. Essa espera é longa... O pai viúvo, procura uma nova esposa e enxerga o menino como um empecilho para a sua empreitada casamenteira.

A fotografia do filme é linda, mostra o Irã rural e  montanhoso, a avó que parece saída de nossas estórias infantis, que acolhe o neto mediante a indiferença do pai;  a casa e os campos floridos como um conto de fadas, a doçura de uma estória simples, de como é possível através da ausência de um dos sentidos, depurar a alma, conversar e entender os pássaros; saber que está sendo sequestrado pelo próprio pai, pelos barulhos que ouve numa estrada distante. Manter-se amoroso e delicado e  morrer sem sucumbir a pior dor humana: a dor de ser indiferente.

Paraíso em persa antigo é uma alusão aos magníficos jardins persas. Os iranianos conhecem bem a força poética das palavras, mais uma evidência de que muito além de conflitos, sabem como produzir, também, poesia, a mais sutil e refinada forma de beleza.




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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Amor por Decreto

Decreto é um instrumento legal destinado a ser cumprido. Carrega na sua essência uma mera exigência, exequível sem discussão, sem choro e sem vela.

Num mundo de relacionamentos e relações instantâneas acaba surgindo a figura do agente como vitimado, ou seja, agimos de acordo com o que queremos, fazemos coisas aos atropelos, não temos tempo necessário para conhecermos o outro nem damos tempo para que nos conheçam.
Saímos (ou "saem" como queiram), estropiados de relacionamentos fugazes, sem aprofundamento e muitas vezes sem qualidade. Aí é que entra o agente-vítima. Agimos e depois delegamos ao outro todos os reflexos de nossa frustração. É bom lembrar que até chegarmos a frustração percorremos um caminho iniciado pelo desejo pessoal;  na etapa seguinte lançamos esse desejo ao outro e quando não correspondidos nos sentimos traídos, e escolhemos o nome de traição porque não sabemos que o verdadeiro sentimento é de fato uma frustração.

Se desejo é algo pessoal, a frustração (que dele é decorrente) também o é. E  por isso, por mais  que inventemos  palavras, formas elaboradas de descrever ou interpretar o que sentimos, estamos apenas intelectualizando nossos próprios sentimentos, deixando de focar no mais simples, perdendo a possibilidade de entender porque chegamos a isso ou aquilo, ou porque não chegamos a canto algum.

O que ocorre nesse atropelo de sentimentos e fugacidades, é uma tentativa desesperada de tentar impor ao outro o que é o nosso desejo. Temos aí  então nascendo o "amor por decreto", que inclui revindicações desmedidas, condições unilaterais, exigências imediatas, tudo sem a participação do outro. E é claro,  quando fazemos "tudo sozinhos" nos sentimos sobrecarregados e precisamos com urgência aliviar a nossa própria carga para continuarmos a caminhada, muitas vezes em busca de um caminho novo... A mesmice precisa ser vencida (também!) rapidamente. E como temos muita pressa de nos livrarmos de sentimentos incômodos, deixamos o que nos aborrece para procurar outra forma mais leve, menos angustiante de nos  relacionarmos, sem nos darmos conta de estarmos num círculo repetitivo de afetos sequencialmente uniformes, uma gangorra de sentimentos inconclusos, um mar sem fim de possibilidades com grau praticamente inexistente de satisfação.

Tem solução? Não sei. Tem formulas! Em qualquer livraria vai ter muito bem exposta uma vasta literatura te vendendo as "pistas"...   Só que as vezes a  vida te pede uma pouco mais de calma, o corpo pede um pouco mais de alma.

E o amor que é tão raro, não vai acontecer por meio de um Decreto,


quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Assim te desejo

Te desejo aos poucos
para que amanhã continue te desejando.

Te desejo devagar
para que a pressa de nossos desejos
não nos consuma impiedosamente.

Te desejo com a sede
de quem está no deserto
sorvendo-o gota a gota.
(Não te desperdiço).

Te desejo como se fôssemos amantes
e não houvesse  a possibilidade de
um novo encontro.

Te desejo resignada como os que
já se perderam para sempre.

Te desejo agora (!)
porque sei que no próximo segundo
vou te desejar
ainda mais.




quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

As lágrimas suas

Hoje pela manhã quando passei a mão sobre o seu rosto estava molhado. E veio molhando as pontas dos meus dedos, o dorso, a palma da minha mão.

Você não disse porque chorava. Suas lágrimas reluziram contra a claridade. Lindas.

Você não quis dizer. Eu também fiquei em silêncio. Não caberiam palavras atrapalhando seu choro. Devia ser coisa séria, mas não eram por mim, nem por você e nem por nós.
Fiquei com as mãos molhadas, não quis secá-las na roupa, achei que suas lágrimas mereciam ir secando aos poucos, se evaporassem até que sua dor sumisse.

E eu, que quase não choro mais, fiquei guardando seu pranto entre as palmas das minhas mãos.