Num aperto de mão com olhos de sorriso verde mareante apresentou-se pelo nome de Kairós. Era ali que a viagem começava.
Já não estava mais acostumada com a bondade do mundo e me intrigava um pouco as boas ações sem qualquer pretensão. Seu Luiz, nosso guia nativo, filho de índio, conhecedor de todas a plantas medicinais da mata foi nos buscar no porto de Santarém. Chegávamos de 40 horas de viagem rio abaixo, o percurso dura mais tempo nas épocas de seca, é preciso margear, centrar, margear de novo para fugir dos bancos de areia. Foi bastante tempo para ver o rio, aprender a gostar de dormir em rede e ver umas crianças lindas.
Com o sol amainado, entramos na floresta antes das quatro da tarde. Daria tempo de chegar com o fim do dia, no local onde passaríamos a noite. Na mochila somente o essencial, a rede, uma manta, um muda de roupa, água e nada mais. Não convinha levar peso para uma caminhada de quase 10 quilômetros.
De árvore em árvore Seu Luiz ia nos dizendo de sua propriedade, para que servia, como deveria ser utilizada. A lasca de quinino, dentro da garrafa de água, que deveria ser consumida aos poucos. Agachado no chão com um pedaço de galho começou a chafurdar num buraco a procura de algo que provaríamos: formiga. Minha única resistência era de que suas patas se agarrassem a minha traqueia, pelo mal feito de comê-las vivas. Tratei de mordê-las, o que veio depois da crocância foi um perfume que povoou o meu hálito com aroma de limão. Delicioso.
As árvores são altíssimas. Para que caibam todas na mata, crescem um com tronco muito longo, espigado, para só então bem lá no alto se abrir em copas. Algumas estavam reviradas com raiz e tudo e fiquei pensando na força do vento que foi capaz de arrancá-las inteiras. Nessas travessias Seu Luiz me ensinou a andar com 'pé de papagaio' sobre os troncos, o que significa espalmar os dedos no sentido diagonal para que não perder o equilíbrio.
Pedi a ele que me avisasse se o Uirapuru cantasse, o Eros amazônico. Dizem que, quem houve seu raro canto pode pedir o que quiser... Respondeu que não me preocupasse. Eu saberia caso ele cantasse. O canto é tão lindo e único que toda a floresta silencia para ouvi-lo quando de suas raras aparições.
A caminhada me colocou em bicas, não sou de transpirar mas esse caminhar me deixou como se tivesse passado dentro de um rio.
Quando finalmente chegamos na maloca onde passaríamos a noite, algo nos esperava: uma luminosa lua cheia, que permitia divisar os contornos das árvores. Foi feita uma fogueira para avisar aos bichos que estávamos fazendo um pouso por ali. Comida não tinha. Apenas pão, água, alguma castanha e um amendoim que foi socializado entre nós cinco. Montamos nossas redes embaixo da palhoça, os dois meninos dormiram ao relento, o biólogo caiu num sono tão profundo que imaginei que estivesse morto. Seu Luiz prometeu que ficaria de vigília. Em algum momento, percebi que se retirou sozinho por um atalho da mata. Passou um tempo por ali, muito provavelmente conversando com alguma de suas entidades. Voltou anunciando que a noite estava garantida, que seria de sossego. Acho que acreditou tanto no que disse que o escutei roncar na rede ao lado. Eu, pelo meu turno, fui acometida de uma enxaqueca tão feroz, que não me deixou dormir a noite toda. Deve ter sido algo por encomenda do universo. A dor que não me deixou dormir, me fez perceber todos os barulhos da mata, posso garantir que aquilo é uma quizumba sem sossego, quando uns param outros começam. O mais variados alaridos, uivos, sons melancólicos, metálicos (que segundo o Seu Luiz era de escorpião, e a receita para que fosse picado era "só "se pendurar num galho de árvore, imitar o macaco prego, que o veneno sairia do corpo... eu pensando...como é que era isso de imitar um macaco...?). Ele disse também, que não me preocupasse com a onça. Ela seguia as passadas pela mata e com a pata direita colocada em cima das marcas humanas deixadas, se o passo fosse frio, a onça reconheceria quem tem medo, e era atrás dessa pessoa que ela viria... Ouvimos também as suas estórias de boto (e que ninguém ouse questionar sobre a veracidade desses fatos...) Acreditam tanto em boto como em Curupira. Era bom que eu acreditasse também, seria mais seguro me cercar de fé para que passasse uma noite sem as seduções e enganos da floresta
.
Sem pregar o olho, pude ver todo o percurso da lua por cima de nossa casa coberta com folhas de babaçu, até que a perdi de vista, no extremo oposto de onde a vi nascer. Enquanto estava por de cima da casa, pelos vão das palhas iluminava o chão de terra batida por debaixo da minha rede. Parecia que o céu tinha invertido-se e que meu chão tinha se transformado em um chão de estrelas. As árvores eram invadidas por sua luz prateada e foi graças a ela que durante a noite quando precisei ir ao banheiro, não pisei em uma aranha que tinha o tamanho da minha mão.
Não sou uma mulher de coragem para coisas tão naturais, ao contrário de minha intrépida companheira de viagem, que depois dessa noite me confessou que até o último minuto teve dúvidas sobre a minha ida até lá. O fato é que, em nenhum momento me senti desprotegida ou com medo por estar ali, tão distante e ao mesmo tempo tão próxima do que nos faz sentir apenas como essencialidade.
Não acredito em forças femininas que protegem as mulheres nas florestas. Não acredito em elfos, duende ou fadas. Acredito apenas que ao adentrar na mata devemos ter respeito e acima de tudo amá-la, respeitosamente.
De alguma forma o espirito da floresta esteve comigo naqueles momentos e não só naqueles momentos.
Quando o dia amanhecia tive a impressão de que chovia. Era um farfalhar de folhas docemente sopradas pelo vento da manhã. Era a voz do Tapajós sussurrando com suavidade intensa em meus ouvidos e por quem, antes que eu soubesse, já me encontrava completamente seduzida.
O Uirapuru não cantou, mas conheci o Paquerador que fica fazendo fiu-fiu pela mata.
Algumas experiências, ou talvez as mais significativas de nossas vidas, não são contadas na inteireza.
É preciso saber guardar algum silêncio para que o inefável aconteça.
*Kairós é o tempo qualitativo dos gregos, o momento oportuno e único e que esteve conosco nessa viagem.