Mundo horizontal. Cacofonia. Marca de sabão em pó.
Tudo parecia mais fácil quando tínhamos papéis previamente definidos a desempenhar. Escolher uma profissão para as mulheres era fácil: professoras. As precursoras que nos levaram ao massivo e maçante mercado de trabalho, formando uma legião feminina de trabalhadoras, mães-esposas-empresárias-gestoras em todos os níveis-etc etc etc.
O homem poderia escolher entre ser médico, advogado ou engenheiro.
Na maior parte dos lares o homem provia e a mulher cuidava. O pacto estava claro, simples e sem muitas cláusulas. As possibilidades de rescisão desse "contrato" eram remotas. A segurança matrimonial e cuidado com os filhos estavam sendo atendidos. Saímos desse lar com um modelo emprestado de nossos pais e aí a coisa mudou. Completamente.
Na hora de escolher nossa profissão (mulher já não podia mais ficar em casa) era preciso recorrer ao auxílio de um novo profissional que nos aplicasse um teste vocacional. Já tínhamos perdido todos os elos com nossas vocações primevas, teríamos que trilhar a difícil escolha por uma multiplicidade de profissões e graduadas definir um plano de carreira. Tudo muito urgente. E sem uma maternidade que brecasse essa acelerada ascensão.
Nessa labuta de escolhas e mazelas, perdemos nossas referências de quem é o pai, a mãe e o filho. Muitas das mulheres tornaram-se fálicas, os homens passaram a engravidar (ouço isso de alguns homens quando suas mulheres engravidam: "estamos grávidos"). E os filhos... bem, esses assumiram a liderança da casa. Determinando o que comprar no supermercado, escolhendo o destino de férias e até o modelo de carro da família.
Voltando as profissões, muitas se derivaram, outras foram simplesmente extintas e muitas outras novas (que nem sabemos direito no que as pessoas trabalham) surgiram.
O mundo passa a ser isso: horizontal; perdeu-se a verticalidade que conhecíamos no âmbito familiar, profissional, social e de convívio. Padecemos juntos ante milhares de escolhas que precisamos fazer todos os dias. Comprar uma marca de sabão em pó no supermercado passou a ser uma escolha amplíssima, nesse diminuto tempo digital de que dispomos.
Tudo e todos os segmentos sociais ganharam algum tipo de voz. Todas as esferas sociais elegem algum tipo de representação seja ela centrada em um porta voz, em seus ícones ou seus símbolos. Delegamos, fazemos escolhas e as vozes aumentam.
Ouvimos cada vez mais a palavra "coletivo". O indivíduo está contido em algum desses "coletivos" que muito antes de escolher talvez já tenha sido inserido, encapsulado. Todas as vozes clamam, falam, exigem, se posicionam ao mesmo tempo. Fruto disso, entre muitas vozes em uníssono o que ouvimos é uma diáfana cacofonia.
A multiplicidade de vozes mescladas, embaralhadas, cruzadas não nos dá mais a oportunidade de entender pelo que se clama e o pior: não conseguimos mais ouvir a nossa própria voz.
Toda sorte de cura, terapias, meditações, novidades espirituais surgem também como um novo e promissor mercado: o Nirvana é logo ali. E 2016 está aí para te mostrar isso!
Diante das mudanças comportamentais, da ausência de papéis a representar, do modus operandi novo de viver, que parece tão cheio de oportunidades e tão pouco limitadas o nosso mundo ficou grande demais.
Os problemas assumiram escalas mundiais angustiantes e de não solubilidade. Essa nova dimensão do mundo, as vozes cacofônicas acabam de colocar o ser em estado catatônico.
A catatonia da angústia de não ouvir mais a própria voz, de não saber mais quais são as suas crenças ou quais lhes foram introjetadas através de minuciosos e capciosos sistemas de subliminaridade: não reconhece mais o que é seu e o que lhe foi emprestado desse maravilhoso mundo vasto.
Manuais e promessas de felicidade pululam à sua frente. Muitos acreditam e repetem que o que importa é "ser feliz" sem imaginar que se esse estado de êxtase (que é momentâneo) durasse tempo integral, o ser desejoso de tanta felicidade enlouqueceria em questão de dias.
Nunca foi tão fácil e tão difícil viver. As mesmas portas abertas pela manhã ao nascer da aurora, mudam de endereço antes que o sol se ponha. A casa, as noticias e o mundo não são mais o mesmos que deixamos de manhã quando saímos para o trabalho.
Nossas referências variam diante da multiplicidade de vozes ouvidas ao longo do dia. Fala-se o tempo todo, todos juntos, o intervalo de silêncio para a escuta não existe mais. Não reconhecemos mais o tom de nossas vozes. Esquecemos nosso timbre original. A cada impulso de dizer o que realmente pensamos outra voz interna já nos censurou. Damos ouvido ao mundo e deixamos com a maior urgência que outros falem por nós.
Nada é bom ou ruim Se criamos tantos paradoxos é porque precisamos deles para descobrirmos novas fórmulas. O grande desafio, talvez, do ser pós moderno seja acima e apesar de todas as possibilidades, encontrar o que está para dizer a sua voz interior. E nisso, ninguém vai poder te ensinar. Nem todas as técnicas, nem todos os ares nem todos os mares.
O caminho para dentro de si, para trazer à tona o indivíduo pode não ser o mais fácil, mas certamente será a única jornada que ainda pode valer a pena.
Pense nisso na próxima vez em que precisar escolher no supermercado a marca do seu sabão em pó.
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
domingo, 13 de dezembro de 2015
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Baile
Falamos de baile, você disse canteiro, minha dislexia auditiva entendeu "carteiro". Me lembrei de cartas e bailes, bailes e cartas, acordei pensando em você.
Era tempo de primeiros amores. Silenciosos, ocultados, timidamente pueris. O salão com piso em parquet lustrado, arandelas laterias com luzes coloridas, mesas com toalhas brancas, vestido longo, novo, perfume, penteado, salto e orquestra.
Sabia que você já tinha chegado na cidade porque tinha ouvido dizer (e eu fazia de conta que não tinha ouvido...) ou, porque, você já tinha "afundado" passando de carro pela rua da casa da minha avó, onde nós, as meninas, ficávamos sentadas nas muretas da varanda, esperando por esse momento.
Te via de longe, te perdia de vista. Você sorrindo pelo salão, conversando com um e outro. Disfarçava. De repente nossos olhos se cruzavam e tornavam a baixar num desvio rápido de quem não quer ser visto olhando o que interessa. A espera era longa, longuíssima. Já sabia que teria que esperar pelo primeiro intervalo, segundo intervalo, para só então ver você se aproximando, eu tinha vontade de sair correndo, cavar um buraco no chão, minhas pernas começavam amolecer, as mãos gelando, a boca secando. E você chegando cada vez mais perto, me tirando para dançar. Primeiros nossos olhos se encontravam, você era o primeiro a sorrir, segurava na minha mão e ia me levando mais para o centro do salão. Nunca me lembrei da música que tocavam. Me atrapalhava com os passos. Você me fazia rir para que minha timidez fosse sendo vencida aos poucos, sem nunca ter chegado ao fim completamente. Não me lembro nunca de ter pousado meu rosto no teu ombro como via as outras meninas fazerem. Sempre mantivemos um distância regular obrigatória entre nossos corpos, determinada pelo meu pai, de dois palmos de distância. Dali para frente já sabia que dançaríamos juntos até que o baile acabasse, que no dia seguinte já era o dia de você ir embora de novo. Então começariam a chegar as cartas.
Procurava notícias suas na caixinha do correio. Era a primeira coisa que fazia quando chegava do colégio. Sábado era uma tristeza, não tinha carteiro. Reconhecia de longe a sua letra, muito mais bonita que os meus garranchos, guardo de memória até hoje o seu endereço. Lia e relia a carta procurando entonações, um lapso, um vírgula, um porém desapercebido, alguma reticência que pudesse dar algum novo sentido a tua escrita. Imaginava a tua casa, onde você teria sentado para me escrever, em que horas... Decorava cada letra, lia escondida no banheiro, trancada no quarto, embaixo da parreira, do coqueiro, na lavanderia. E te respondia. Milhares de rascunhos minuciosamente picados eram lançados no lixo. Até que viesse uma nova resposta e tudo começava de novo. Não falávamos de nós, dos bailes, nada. Éramos absolutamente impessoais, falávamos de amenidades (essa palavra aprendi com você). Não sei quanto tempo durou isso mas sei que tinha um bom maço de cartas, atados por um laço de cetim, fui precisando de uma caixa cada vez maior para guardá-las. Nós fomos crescendo, mudando de jeito, deixando de ir aos bailes. Deixando de mandar cartas.
Quando me mudei para São Paulo, voltamos a nos encontrar, fomos amigos de verdade, nunca conhecemos o gosto do beijo um do outro. Nunca falamos de nós e daqueles tempos. Eu continuava guardando as suas cartas. Você sabia que eu adorava dirigir, então, sempre arrumava um pretexto para me botar no volante, acho que gostava de passear comigo pela cidade, enquanto eu dirigia o carrão do seu pai. Eu já estava me tornando uma moça bastante opinativa, discutíamos politicamente. Eu te acusava de ser reacionário, você caia na risada enquanto tentava me convencer com argumentos (pouco convincentes) porém inteligentes de aluno do ITA.
No dia da queda do muro de Berlim você me telefonou avisando para que eu ligasse a televisão. Você viajou, me mandou um postal de longe. Nossas vidas foram tomando outros rumos.
Quando pensei em me casar, achei que não seria de bom tom continuar guardando as suas cartas, juntei-as de uma só vez, botei-as fora. Joguei junto a fita que as uniam desfazendo o laço.
Era tempo de primeiros amores. Silenciosos, ocultados, timidamente pueris. O salão com piso em parquet lustrado, arandelas laterias com luzes coloridas, mesas com toalhas brancas, vestido longo, novo, perfume, penteado, salto e orquestra.
Sabia que você já tinha chegado na cidade porque tinha ouvido dizer (e eu fazia de conta que não tinha ouvido...) ou, porque, você já tinha "afundado" passando de carro pela rua da casa da minha avó, onde nós, as meninas, ficávamos sentadas nas muretas da varanda, esperando por esse momento.
Te via de longe, te perdia de vista. Você sorrindo pelo salão, conversando com um e outro. Disfarçava. De repente nossos olhos se cruzavam e tornavam a baixar num desvio rápido de quem não quer ser visto olhando o que interessa. A espera era longa, longuíssima. Já sabia que teria que esperar pelo primeiro intervalo, segundo intervalo, para só então ver você se aproximando, eu tinha vontade de sair correndo, cavar um buraco no chão, minhas pernas começavam amolecer, as mãos gelando, a boca secando. E você chegando cada vez mais perto, me tirando para dançar. Primeiros nossos olhos se encontravam, você era o primeiro a sorrir, segurava na minha mão e ia me levando mais para o centro do salão. Nunca me lembrei da música que tocavam. Me atrapalhava com os passos. Você me fazia rir para que minha timidez fosse sendo vencida aos poucos, sem nunca ter chegado ao fim completamente. Não me lembro nunca de ter pousado meu rosto no teu ombro como via as outras meninas fazerem. Sempre mantivemos um distância regular obrigatória entre nossos corpos, determinada pelo meu pai, de dois palmos de distância. Dali para frente já sabia que dançaríamos juntos até que o baile acabasse, que no dia seguinte já era o dia de você ir embora de novo. Então começariam a chegar as cartas.
Procurava notícias suas na caixinha do correio. Era a primeira coisa que fazia quando chegava do colégio. Sábado era uma tristeza, não tinha carteiro. Reconhecia de longe a sua letra, muito mais bonita que os meus garranchos, guardo de memória até hoje o seu endereço. Lia e relia a carta procurando entonações, um lapso, um vírgula, um porém desapercebido, alguma reticência que pudesse dar algum novo sentido a tua escrita. Imaginava a tua casa, onde você teria sentado para me escrever, em que horas... Decorava cada letra, lia escondida no banheiro, trancada no quarto, embaixo da parreira, do coqueiro, na lavanderia. E te respondia. Milhares de rascunhos minuciosamente picados eram lançados no lixo. Até que viesse uma nova resposta e tudo começava de novo. Não falávamos de nós, dos bailes, nada. Éramos absolutamente impessoais, falávamos de amenidades (essa palavra aprendi com você). Não sei quanto tempo durou isso mas sei que tinha um bom maço de cartas, atados por um laço de cetim, fui precisando de uma caixa cada vez maior para guardá-las. Nós fomos crescendo, mudando de jeito, deixando de ir aos bailes. Deixando de mandar cartas.
Quando me mudei para São Paulo, voltamos a nos encontrar, fomos amigos de verdade, nunca conhecemos o gosto do beijo um do outro. Nunca falamos de nós e daqueles tempos. Eu continuava guardando as suas cartas. Você sabia que eu adorava dirigir, então, sempre arrumava um pretexto para me botar no volante, acho que gostava de passear comigo pela cidade, enquanto eu dirigia o carrão do seu pai. Eu já estava me tornando uma moça bastante opinativa, discutíamos politicamente. Eu te acusava de ser reacionário, você caia na risada enquanto tentava me convencer com argumentos (pouco convincentes) porém inteligentes de aluno do ITA.
No dia da queda do muro de Berlim você me telefonou avisando para que eu ligasse a televisão. Você viajou, me mandou um postal de longe. Nossas vidas foram tomando outros rumos.
Quando pensei em me casar, achei que não seria de bom tom continuar guardando as suas cartas, juntei-as de uma só vez, botei-as fora. Joguei junto a fita que as uniam desfazendo o laço.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
O pastor me chamou pela televisão
Ela disse que gosta de coxinha da jaca. Diante de tal exotismo não arrisquei perguntar se tal iguaria seria coisa doce ou salgada. Depois me disse que falava como os animais, que levava o maior lero com eles.
Enquanto enchia uns galões d'água, pude verificar a veracidade dessa afirmação. Apareceu o cavalo e ela começou: "E aí cara, tudo bem? Hein? Veio me dar bom dia? Conta aí, como estão as minas... já sei: não quer me contar, né? Hummmmm..." e foi...
Quem já passou por uma separação sabe da dureza desse luto. E ela estava assim. Chorava muito, não conseguia mais cuidar das casa, das crianças. Uma amiga resolveu levá-la para o Centro Espirita. Quando o médium lhe perguntou o que estava acontecendo, ela se agarrou com ele, com a cabeça no seu ombro se debulhou em lágrimas, explodindo em soluços incontroláveis, encharcando toda a manga do traje branco, deixou o homem ensopado. Ele percebeu que era muito sério, recomendou um longo tratamento. Muitas voltas até o Centro, uma rosa vermelha que deveria ficar na sua cabeceira durante uma semana e depois trazê-la de volta ao Centro. Foi fazendo o indicado, no sétimo dia ouviu um estrondo na sala, o gato havia alcançado uma lembrança do ex casamento que estava guardada dentro de um armário, que caiu por cima da rosa e se despedaçou no aguaceiro com tudo o mais que já estava despedaçado.
Continuou indo ao Centro mesmo sem aparente melhora de seu estado de espirito.
Continuava em casa no circuito cama, pijama e lágrimas até que o controle remoto da televisão despencou pelo chão, mudou de canal sozinho e ela começou ouvir vozes. "Ei você que está ai, sofrendo, chorando, que terminou um casamento, eu preciso falar com você". Ainda de quatro no chão com o controle da mão ficou olhando para tela. E ele continuava " Hoje vou estar em Barueri". E pensou: se pelo menos fosse em Alphaville... "No km 20 da Castelo Branco" . Do lado de casa... Ela foi se arrumando, desgrenhando o cabelo, se levantando do chão, vestiu roupa e foi para a Igreja.
Um tanto de gente, aquela coisa forte, fervendo, parecendo o Rock in Rio, aquele uuuuuuuuuuuuuuu, e o Centro Espirita ficou parecendo água com açúcar diante do pulso daquela energia. Fechou os olhos, começou a orar, se entregou. Quando abriu os olhos um circulo imenso se fazia ao seu redor, tomou um susto e pensou: "agora chegou a hora do dinheiro, se eu soubesse que ia ter tanta gente teria passado no caixa eletrônico".
Foi para casa. No jardim da casa encontrou a irmã socióloga preocupada e atéia, que lhe perguntou por onde ela andava: " Eu nem te conto... fui no culto". Como assimmmmmm!!!!?? "O Pastor me chamou pela televisão".
Desde aquele dia ela nunca mais chorou. Continua gostando de coxinha de jaca, falando com o cavalo, com as pedras do caminho, com as águas da cachoeira e acho que, também, está começando a curtir um amor novo...
Enquanto enchia uns galões d'água, pude verificar a veracidade dessa afirmação. Apareceu o cavalo e ela começou: "E aí cara, tudo bem? Hein? Veio me dar bom dia? Conta aí, como estão as minas... já sei: não quer me contar, né? Hummmmm..." e foi...
Quem já passou por uma separação sabe da dureza desse luto. E ela estava assim. Chorava muito, não conseguia mais cuidar das casa, das crianças. Uma amiga resolveu levá-la para o Centro Espirita. Quando o médium lhe perguntou o que estava acontecendo, ela se agarrou com ele, com a cabeça no seu ombro se debulhou em lágrimas, explodindo em soluços incontroláveis, encharcando toda a manga do traje branco, deixou o homem ensopado. Ele percebeu que era muito sério, recomendou um longo tratamento. Muitas voltas até o Centro, uma rosa vermelha que deveria ficar na sua cabeceira durante uma semana e depois trazê-la de volta ao Centro. Foi fazendo o indicado, no sétimo dia ouviu um estrondo na sala, o gato havia alcançado uma lembrança do ex casamento que estava guardada dentro de um armário, que caiu por cima da rosa e se despedaçou no aguaceiro com tudo o mais que já estava despedaçado.
Continuou indo ao Centro mesmo sem aparente melhora de seu estado de espirito.
Continuava em casa no circuito cama, pijama e lágrimas até que o controle remoto da televisão despencou pelo chão, mudou de canal sozinho e ela começou ouvir vozes. "Ei você que está ai, sofrendo, chorando, que terminou um casamento, eu preciso falar com você". Ainda de quatro no chão com o controle da mão ficou olhando para tela. E ele continuava " Hoje vou estar em Barueri". E pensou: se pelo menos fosse em Alphaville... "No km 20 da Castelo Branco" . Do lado de casa... Ela foi se arrumando, desgrenhando o cabelo, se levantando do chão, vestiu roupa e foi para a Igreja.
Um tanto de gente, aquela coisa forte, fervendo, parecendo o Rock in Rio, aquele uuuuuuuuuuuuuuu, e o Centro Espirita ficou parecendo água com açúcar diante do pulso daquela energia. Fechou os olhos, começou a orar, se entregou. Quando abriu os olhos um circulo imenso se fazia ao seu redor, tomou um susto e pensou: "agora chegou a hora do dinheiro, se eu soubesse que ia ter tanta gente teria passado no caixa eletrônico".
Foi para casa. No jardim da casa encontrou a irmã socióloga preocupada e atéia, que lhe perguntou por onde ela andava: " Eu nem te conto... fui no culto". Como assimmmmmm!!!!?? "O Pastor me chamou pela televisão".
Desde aquele dia ela nunca mais chorou. Continua gostando de coxinha de jaca, falando com o cavalo, com as pedras do caminho, com as águas da cachoeira e acho que, também, está começando a curtir um amor novo...
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Nada tanto no mundo me intrigou mais as ideias senão o ser humano. Em algumas circunstâncias, também, o ser não humano.
Sempre quis conhecê-lo. Imaginava que isso fosse possível viajando, trabalhando, observando. Pensei em buscá-lo nos livros e nessa última hipótese me apaixonei pelas estórias inventadas e pelas reais. E foi sim, através da leitura, que aprendi um pouco mais sobre o que aguçava a minha inquieta curiosidade.
Há dois anos, quando idealizei o projeto Leitura-cura, que consiste em rodas de leitura para vulneráveis, através de um processo de ressignificação de estórias permeado pelo universo da literatura, fui me dando conta que para conhecer um pouco mais sobre o ser humano era preciso afrouxar os cadarços das minhas vivências, flexibilizar, abandonar julgamentos, ter muitas dúvidas - (sim!!!!) elas surgiram bastante fortes em muitas ocasiões - mas, as certezas voltavam a cada novo encontro.
A proximidade do que buscava era tão e puramente conhecer uma realidade, num universo de estórias de dor, abandono, descaso e indiferença, onde naquele ambiente a excluída era eu. E não sendo parte, fui entendendo que o ser humano não encontrará a sua dignidade enquanto o julgarmos com os mesmos padrões com que nos julgam os nossos pares. A chave para o outro, o desconhecido, é tirar o pé da nossa realidade como centro ou respostas para o mundo.
O respeito pelas nossas estórias, o valor que cada uma delas pode ter, a possibilidade de imaginar novos enredos, a reescrita dos capítulos mal concluídos, as páginas que antes de serem viradas precisam de uma segunda leitura, o perdão e o amor, dessas coisas é feito o Leitura-cura.
Na busca por essa aproximação através do universo sensível da literatura foi possível estabelecer a minha própria transformação e meu mundo foi se enchendo cada vez mais de letras, palavras, versos e seres humanos, muito mais que humanos.
Hoje comemorando dois anos de projeto, agradeço à todos que como eu ainda sonham.
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| Arsenal da Esperança |
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
casal perfeito
Observar sem ser observada é uma arte. Você disfarça, fica acompanhando os gestos lentos, rápidos, sutis, harmoniosos ou o contrário. Vai te dando uma pista sobre a pessoa ou um pouco além, fico imaginado como é a vida dela, profissão, onde mora, enfim. Esse exercício pode ser ainda mais degustativo se você estiver viajando, fora, num lugar onde sequer consiga decifrar uma letra sonora das palavras.
Eu estava sozinha, porque assim quis Deus, e desacompanhada porque o universo me pregou uma tremenda peça e não tinha como partilhar daquela cidade que para mim não é cidade e sim uma poesia.
Com 516 mts de extensão e tendo levado quase duzentos anos para ser construída, sobre o Rio Moldava está a Ponte Carlos. Li em algum romance que se um casal vier, cada um de uma extremidade dessa ponte, chegar ao centro e ali declarar o seu amor, esse amor se tornará eterno.
Escolhi uma das ruazinhas medievais que saem da ponte e decidi almoçar na calçada, na sombra de um ombrelone. Observava as pessoas, algumas tão turistas como eu. Na mesa ao lado surgiu um casal, trazendo dois filhos já adultos, supus que eram gêmeos, os pais os acomodaram nas cadeiras, percebi que os cercavam de cuidados muito especiais para que estivessem confortáveis. Parecia haver um acordo tácito entre os pais para que cada um cuidasse de um dos filhos, que sozinhos não eram capazes de tomar o suco, segurar talheres, se alimentarem. O casal estava feliz, conversavam calorosamente, brindaram e ficaram de mãos dadas depois do brinde. Seus olhares se derramavam em carinho entre si e para os filhos. Parecia um almoço de comemoração ou simplesmente de dias que eram comemorados todos os dias. Essa cena me perpassou a mente algumas vezes durantes esses anos e nem sei por que hoje me lembrei dela. Talvez por que tenha registrado essa ideia romântica da cidade e acabei vendo de verdade um casal que se amava.
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| Praga |
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
Por onde andar
Antes de iniciarmos a leitura do texto perguntei aos presentes qual o caminho preferiam: longo ou curto? As vozes em uníssono responderam que preferiam os caminhos longos. Na sequência lhes perguntei qual o caminho praticavam, o riso uníssono, mudou de ideia e escolheu o caminho curto.
Nesse texto de Nilton Bonder que fala sobre encruzilhadas, caminhos longos e curtos, curtos e longos, ganha evidência o imediato do que procuramos, o instantâneo de nossas relações, o alto grau de solvência das mesmas, a volatilidade de sentimentos, a pasteurização de ideias, resumo da ópera: o barato que sai caro. O quão pouco refletimos, o quanto atribuímos aos outros nossas falhas; o mundo tendo que fazer conosco uma "mea culpa", para darmos conta de percorrermos cada vez mais agilmente os caminhos curtos, mas, que podem ser longos. Uma repetição em série do reiniciar práticas desgastadas de relacionamentos, amores, trabalho, escolhas e o embotamento dos nossos sonhos, que é o grande prêmio que nos espera no final desse campeonato de longas distâncias curtas.
Esse texto foi lido em um abrigo masculino de São Paulo, e sobre a extensão dos caminhos por nós escolhidos ficaram algumas frases para o registro desse encontro:
"O fato de estar morando aqui, num abrigo, é uma caminho curto ou longo ?"
" Eu não quero que no meio caminho tenha uma menino para me dizer qual é o caminho curto ou longo. Eu quero EU (!!) poder decidir que caminho tomar".
"Tem caminho curto: R$ 70,00 reais por dia pra ser olheiro do tráfico".
" A droga, o álcool, o crime, o jogo, a prostituição é o caminho curto".
"O caminho curto é mais sedutor. É o mais fácil. O longo é o mais difícil porque precisa ser construído".
"Todos nos estamos aqui porque pegamos um atalho, um caminho curto..."
Para quem quiser, aí vai a íntegra do texto de Nilton Bonder:
http://reginavolpato.com.br/blog/2010/01/18/o-longo-caminho-curto-o-curto-caminho-longo/
Com um mundo tão repleto de sedutoras possibilidades, tão grande como tão pouco pleno, é (apenas) provável que o encantamento possa ressurgir depois da curva de um caminho curto ou longo e, somente a sua estória pessoal será capaz de contar qual deles você preferiu. O importante é não perder o passo: partir, andar, voltar, porque a vida pode ser tudo, menos uma linha reta.
Projeto #leituracura para vulneráveis.
domingo, 1 de novembro de 2015
Augustine
Augustine para Charcot
- Os seus livros não falam sobre o amor.
- O que sabe sobre o amor?
- Muita coisa. Já recebi cartas...
Augustine (19 anos) é a paciente histérica de Charcot (59 anos).
As cenas transcorrem em cores anoitecidas, a doença de Augustine, a esperança de que Charcot a cure.
Um corpo jovem e lindo, esquadrinhado anatomicamente pelas mãos de Charcot, a procurar uma doença que não está no corpo, a alma como seu abrigo inacessível. A resistência de um homem maduro lutando contra o indefensável desejo de um corpo jovem, solicitante, suplicante. A transferência e a contratransferência entre paciente e médico.
O amor que Augustine conhece somente através de cartas. Das que chegam, das que bastam e daquelas que nunca foram suficientes. Amor não vivido caído na alma como patologia. Mal sem cura.
O querer ser curada e ao mesmo tempo permanecer doente de amor.
O que teria curado Augustine?
O aconchego?
A possibilidade de ser correspondida?
#rodaludicadefreud
- Os seus livros não falam sobre o amor.
- O que sabe sobre o amor?
- Muita coisa. Já recebi cartas...
Augustine (19 anos) é a paciente histérica de Charcot (59 anos).
As cenas transcorrem em cores anoitecidas, a doença de Augustine, a esperança de que Charcot a cure.
Um corpo jovem e lindo, esquadrinhado anatomicamente pelas mãos de Charcot, a procurar uma doença que não está no corpo, a alma como seu abrigo inacessível. A resistência de um homem maduro lutando contra o indefensável desejo de um corpo jovem, solicitante, suplicante. A transferência e a contratransferência entre paciente e médico.
O amor que Augustine conhece somente através de cartas. Das que chegam, das que bastam e daquelas que nunca foram suficientes. Amor não vivido caído na alma como patologia. Mal sem cura.
O querer ser curada e ao mesmo tempo permanecer doente de amor.
O que teria curado Augustine?
O aconchego?
A possibilidade de ser correspondida?
#rodaludicadefreud
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
Conceito alheio
Mundo conceitual. Diante de tantas possibilidades, diante de tudo de muito, fica difícil escolher. Não bastasse um mundo que tem muito de tudo, quanto você pensa que encontrou o que precisava, acaba caindo numa dúvida atroz e cruel diante das possibilidades, variedades e multiplicidades.
Outro dia entrei para tomar um cafezinho. Café, sabe o que é. A atendente não se deu por satisfeita com a meu simples desejo por um café. Disparou um arsenal de possibilidades e combinações ( aromatizado, coado, prensado, a vácuo, decantado, com ou sem cafeína, diversos tipos de grãos...). A cada momento que imagina estar chegado perto do fechamento de pedido surgiam novas variantes. Ela começou num tom professoral a me dar uma aula sobre as diversas formas de preparo do dito cujo, fui me desligando da conversa e quase esqueci que tinha entrado ali somente para tomar um café.
Entrei numa padaria. Vieram na porta me buscar e sorridentemente me perguntaram se eu conhecia o conceito da casa. Eu só queria um pão. A coisa se repetiu. Antes que pudesse acessar o pão nosso de cada dia precisei ouvir uma missa sobre a casa, o pão, o fermento que era do tempo de Cristo. O pão não era nada de mais, meio igual, parecido, como os outros que já conheço...
Outra coisa que nunca funcionou para mim foi loja de departamentos. Dessas imensas que vendem de barco até dedal de costura. Vários andares, sobe para cá, desce para lá. Não consigo escolher nada. Saio em pânico e me sentindo levemente incapacitada para o consumo como é necessário ser para viver num mundo que te oferece muito de tudo.
O que dizem por ai, é que hoje em dia não basta consumir, você precisa viver uma "experiência" de consumo e para que isso aconteça... haja discurso para dourar a pílula!
E cardápio de restaurante então...!! É bom sentar com tempo e sem fome para se divertir lendo tudo o que está escrito.É tanta invencionice descritiva que aguça muito mais a falta de paciência do que as papilas gustativas.
Num mundo que tem tanto de tudo é preciso que cada coisa tenha seu "conceito" e que exista alguém por trás escrevendo esse conceito e outra na sua frente (com o texto muito bem decorado!) para te explicar o conceito que as coisas tem.
Foi notícia nessa semana, a faxineira que entrou na galeria e limpou toda "obra de arte conceitual", que era constituída de bitucas de cigarros, garrafas vazias, que lhe lembraram um fim de festa. Foi metendo a vassoura e limpando tudo porque na hora da faxina não tinha ninguém para lhe explicar que aquele monte de lixo é coisa que gente bacana gosta de ver e de achar que está vivenciando uma expressão artística. E muito provavelmente a galeria deveria ser muito bem "conceituada" para abrigar obra tão "conceituada" de tão "conceituado" artista plástico.
Nessas de conceito, outro dia comprei um livro conceitual. O escritor é deficiente fisico e suas obras também vêm com alguma deficiência ( meu livro não tem capa, aparece toda a costura e colagem da lombada). Legal, gostei disso. Só que o livro minha gente (!!!), li de fio a pavio, e nunca nenhum livro me intrigou tanto: eu não entendi um dedo da história que ele pretendeu contar...
Me senti igualzinha a faxineira da galeria de arte.
E de conceito em conceito parace que está tudo meio desconcertado. A gente consume e descarta sem nenhum princípio de prazer e menos ainda de satisfação. É preciso inventar todos os dias novos conceitos para um mundo que tem sede, mas, que não sabe mais onde encontrar água.
Outro dia entrei para tomar um cafezinho. Café, sabe o que é. A atendente não se deu por satisfeita com a meu simples desejo por um café. Disparou um arsenal de possibilidades e combinações ( aromatizado, coado, prensado, a vácuo, decantado, com ou sem cafeína, diversos tipos de grãos...). A cada momento que imagina estar chegado perto do fechamento de pedido surgiam novas variantes. Ela começou num tom professoral a me dar uma aula sobre as diversas formas de preparo do dito cujo, fui me desligando da conversa e quase esqueci que tinha entrado ali somente para tomar um café.
Entrei numa padaria. Vieram na porta me buscar e sorridentemente me perguntaram se eu conhecia o conceito da casa. Eu só queria um pão. A coisa se repetiu. Antes que pudesse acessar o pão nosso de cada dia precisei ouvir uma missa sobre a casa, o pão, o fermento que era do tempo de Cristo. O pão não era nada de mais, meio igual, parecido, como os outros que já conheço...
Outra coisa que nunca funcionou para mim foi loja de departamentos. Dessas imensas que vendem de barco até dedal de costura. Vários andares, sobe para cá, desce para lá. Não consigo escolher nada. Saio em pânico e me sentindo levemente incapacitada para o consumo como é necessário ser para viver num mundo que te oferece muito de tudo.
O que dizem por ai, é que hoje em dia não basta consumir, você precisa viver uma "experiência" de consumo e para que isso aconteça... haja discurso para dourar a pílula!
E cardápio de restaurante então...!! É bom sentar com tempo e sem fome para se divertir lendo tudo o que está escrito.É tanta invencionice descritiva que aguça muito mais a falta de paciência do que as papilas gustativas.
Num mundo que tem tanto de tudo é preciso que cada coisa tenha seu "conceito" e que exista alguém por trás escrevendo esse conceito e outra na sua frente (com o texto muito bem decorado!) para te explicar o conceito que as coisas tem.
Foi notícia nessa semana, a faxineira que entrou na galeria e limpou toda "obra de arte conceitual", que era constituída de bitucas de cigarros, garrafas vazias, que lhe lembraram um fim de festa. Foi metendo a vassoura e limpando tudo porque na hora da faxina não tinha ninguém para lhe explicar que aquele monte de lixo é coisa que gente bacana gosta de ver e de achar que está vivenciando uma expressão artística. E muito provavelmente a galeria deveria ser muito bem "conceituada" para abrigar obra tão "conceituada" de tão "conceituado" artista plástico.
Nessas de conceito, outro dia comprei um livro conceitual. O escritor é deficiente fisico e suas obras também vêm com alguma deficiência ( meu livro não tem capa, aparece toda a costura e colagem da lombada). Legal, gostei disso. Só que o livro minha gente (!!!), li de fio a pavio, e nunca nenhum livro me intrigou tanto: eu não entendi um dedo da história que ele pretendeu contar...
Me senti igualzinha a faxineira da galeria de arte.
E de conceito em conceito parace que está tudo meio desconcertado. A gente consume e descarta sem nenhum princípio de prazer e menos ainda de satisfação. É preciso inventar todos os dias novos conceitos para um mundo que tem sede, mas, que não sabe mais onde encontrar água.
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
O amor se perdeu
no meio do livros
dentro do álbum de fotografias
na cama desfeita
nas faixas do Long Play.
Se perdeu na espera
e também na presença.
Nos excessos
e na ausência de ausências.
Num domingo de sol
Numa quarta feira escura.
Nos nossos medos e na nossa falta de modos
O amor se perdeu e não pode mais ser encontrado.
E quando voltou, as portas estavam todas fechadas
não tinha ninguém na casa
na vida
e na alma
daquele que tinha saído pela rua
para procurar mais um novo amor.
no meio do livros
dentro do álbum de fotografias
na cama desfeita
nas faixas do Long Play.
Se perdeu na espera
e também na presença.
Nos excessos
e na ausência de ausências.
Num domingo de sol
Numa quarta feira escura.
Nos nossos medos e na nossa falta de modos
O amor se perdeu e não pode mais ser encontrado.
E quando voltou, as portas estavam todas fechadas
não tinha ninguém na casa
na vida
e na alma
daquele que tinha saído pela rua
para procurar mais um novo amor.
| Cartagena |
terça-feira, 13 de outubro de 2015
HER
Imagine uma voz levemente doce, que parece estar sempre sorrindo quando fala com você, tem senso de humor (dos bons!), mesclado com pitadas de sensualidade. Essa voz que fala com você todos os dias, sabe tudo sobre as suas preferências alimentares, sociais e profissionais. Resolve as questões que entulham sua caixa de mensagens, a sua vida pessoal, despacha assuntos deixados ao sabor do acaso e por fim, mesmos sendo um sistema operacional inteligentíssimo, consegue o inusitado no dias de hoje: te emocionar.
Ele, que está do outro lado da tela, um pacato escritor de vida solitária, é o usuário desse sistema operacional. Tem uma vida relativamente organizada, sem sobressaltos ou emoções como convêm às vidas estruturadas pós modernidade. Com o passar dos dias, vai se estabelecendo um certo nível de intimidade pessoal, com a necessidade de falar com Samantha, cada vez com mais frequência (e o tom começa a apimentar-se...), num deleite estonteante dessa voz que é de Scarlett Johansson.
Mesmo sendo ela um sistema operacional dotado de inteligência artificial e mesmo sendo ele um escritor habituado a criação de um mundo ficcional o inevitável aconteceu: apaixonaram-se.
Não vou contar a história porque o filme merece ser visto. Deixo para que confiram.
O que me chama a atenção mais e mais, não é negar ou reafirmar os erros, riscos ou ineficiência das relações puramente virtuais. Não há como negar o mundo que estamos vivendo. O problema não está em eximir-se ou negar-se a essa nova modalidade de vivência. A questão é não perceber e se deixar levar pela enorme e insofismável capacidade do ser humano de fantasiar. Deixando de fantasiar talvez desista, também, modo 'continuum' de viver. Não posso crer que as donzelas ou donzelos de priscas eras não fossem também vitimados dessa capacidade ilusória, seja na insinuação de um tornozelo que despontava por debaixo de uma saia longa, fosse na espera de uma carta através de um mensageiro ou da visita de um pombo correio.
Fantasiar é tão humano como frustrar-se. E aí cada um ingere as doses que melhor lhes convenham. Saber lidar com essas contingências talvez seja a razão de nossos percalços, deambulações e buscas.
Só de brincadeira outro dia, resolvemos usar o "Siri" a mulher da Apple que sabe de tudo e responde todas as questões, tal qual a Samantha do filme "HER". A filha de minha amiga perguntou para Siri como a sua mãe poderia arrumar um namorado. Veio lá uma porção de links para sites de relacionamento. Eu, um pouco mais preocupada com as questões da engenharia doméstica perguntei para Siri quem poderia arrumar a cozinha aqui em casa, obviamente, ela me mandou uma lista com endereços de lojas onde se vendem máquinas de lavar louça...
C' est la vie!
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Ser fera
Todo mundo sabe onde o calo aperta. Será mesmo?
Desde que desistimos de nossa porção instintual para adentrarmos no adequado, na aceitação pelo próximo, no emprego garantido, na complacência das crenças que são muito mais alheias do que nossas, nos distanciamos do natural, enveredamos por um emarando comportamental para dar conta de viver o nosso social de cada dia. E foi aí a coisa ficou difícil. Entre nossos instintos e nosso ser social sentimos falta de nossa jornada ancestral.
Dizer que somos livres é uma quimera tão distante como imaginar que receitas prontas possam nos trazer a felicidade em doses generosas, contínuas e sem interrupções, ou pior, como querem muitos, de forma perene.
Alguns vivem o que tem para ser vivido, outros não fazem contas, outros se alimentam de maneira que encontraram para se salvarem e outros mergulham tão profundamente na existência que não encontram senão o caos. Seria possível, então, redimir-se da angustia de viver? Também não tenho essa resposta, pois, como me considero do grupo que sofre dia sim dia não, procuro mediar minha desolação com uma boa dose de poesia para que minha reflexão não se torne por demais estreita ou que venha a aprisionar-me, como a um pássaro que é obrigado a cantar mesmo estando numa gaiola.
O caminho para fora da gaiola, pelo menos para mim, é o conhecer-se.
Num outro dia conversava sobre isso com um amigo que de pronto me respondeu que agora era muito tarde para enveredar-se por rotas nunca dantes navegadas, pois descobrindo-se não ser quem sempre julgou ser, talvez, ficasse ainda pior se colocasse outra pessoa no seu lugar...
Talvez, tenha sido isso o que Kafka sentiu quando metamorfoseou-se numa barata. Esse pensamento de todo verossímil, certamente condiz com nossas recusas em mergulharmos em nós mesmos, encontrar nossos fantasmas, atar mãos com as nossas fragilidades. Por uma outra via, pode ser a única oportunidade para descobrirmos que nossos medos nunca passaram de fantasias, que existir é um pouco além de estar correto num mundo mutável e que nossa inflexibilidade não condiz com as nuances mutantes do universo. Somente podemos mudar o que conhecemos. O que não conhecemos permanece como ignorância. Sem conhecimento não se operam mudanças, apenas ingerimos paliativos goela abaixo, trocamos uma fantasia por outra e continuaremos, em suma, sendo o ser que nos aprisiona. Cantaremos presos e trocaremos de sapato um pelo outro, indefinidamente, mas o calo vai continuar doendo.
Pessoas tem adoecido mais e mais e mais pela falta de auto se conhecerem.
Tomamos emprestado uma estrutura tão sólida e impenetrável criada antes mesmo de nascermos que o mais palatável é não improvisar. Seguimos por searas conhecidas, o novo nos assusta, confundimos nossas crenças com nossos desejos, nos misturamos coletivamente em tantas alegrias inventadas que muitas terminam muito antes que o arco iris se dissipe na paisagem. Nos ensinaram a esquecer como ser bicho, um exemplo disso é descobrir porque determinado representante do sexo oposto nos atrai mais ou menos e tentar atribuir essas nossas escolhas às convenções sociais ou ao papo cabeça, esquecendo que, o que nos impulsionada, verdadeiramente, é uma questão de feromônios. Nossos cheiros ancestrais não se perderam por mais que os anúncios de perfumes te mostrem homens e mulheres sedutores, sofisticados em algum paraíso distante onde você nunca terá a chance de colocar os teus calos doídos.
Perdemos de tal modo a intimidade com a nossa natureza instintual ao ponto de preferirmos o sintético, o asfalto, a sobrecarga de trabalho para poder comprar mais e mais e mais o que temos tempo de menos para usufruir. E muitas vezes o que é pior: o que estamos procurando não existe como produto manufaturado.
Enquanto nos renegamos como animais criamos tantas lógicas e contra lógicas que nos confundimos, perdemos o fio da meada, nos descompatibilizamos com a natureza, criando um mundo tão próprio quanto inacessível. Inacessível leia-se: para a primeira pessoa do singular.
Obviamente não consegui me explicar muito claramente para esse meu amigo de formação cartesiana. Não consegui arrastá-lo para entro de si, pois isso é uma missão que demanda tempo, pressupõe acima de tudo auto querer.
Quase terminando nosso café, ele disse que nessa semana estava pensando em enforcar um dia de trabalho (como nunca tinha feito na vida..) ... passar o dia na praia.., pisar na areia e ver as estrelas mais perto do mar. Eu não disse nada, fiquei pensando com os meus botões que o caminho para o instintual é inerente a esse contato com a natureza e, o primeiro passo para dentro de si é dar essa forcinha, reconhecer-se como parte e voltar a pertencê-la para pertencer-se.
Chegando em casa lhe mandei a indicação de uma pousada no Sahy. Espero que tenha botado o pé na areia, visto as estrelas, ouvido o mar e bem... virado fera.
Desde que desistimos de nossa porção instintual para adentrarmos no adequado, na aceitação pelo próximo, no emprego garantido, na complacência das crenças que são muito mais alheias do que nossas, nos distanciamos do natural, enveredamos por um emarando comportamental para dar conta de viver o nosso social de cada dia. E foi aí a coisa ficou difícil. Entre nossos instintos e nosso ser social sentimos falta de nossa jornada ancestral.
Dizer que somos livres é uma quimera tão distante como imaginar que receitas prontas possam nos trazer a felicidade em doses generosas, contínuas e sem interrupções, ou pior, como querem muitos, de forma perene.
Alguns vivem o que tem para ser vivido, outros não fazem contas, outros se alimentam de maneira que encontraram para se salvarem e outros mergulham tão profundamente na existência que não encontram senão o caos. Seria possível, então, redimir-se da angustia de viver? Também não tenho essa resposta, pois, como me considero do grupo que sofre dia sim dia não, procuro mediar minha desolação com uma boa dose de poesia para que minha reflexão não se torne por demais estreita ou que venha a aprisionar-me, como a um pássaro que é obrigado a cantar mesmo estando numa gaiola.
O caminho para fora da gaiola, pelo menos para mim, é o conhecer-se.
Num outro dia conversava sobre isso com um amigo que de pronto me respondeu que agora era muito tarde para enveredar-se por rotas nunca dantes navegadas, pois descobrindo-se não ser quem sempre julgou ser, talvez, ficasse ainda pior se colocasse outra pessoa no seu lugar...
Talvez, tenha sido isso o que Kafka sentiu quando metamorfoseou-se numa barata. Esse pensamento de todo verossímil, certamente condiz com nossas recusas em mergulharmos em nós mesmos, encontrar nossos fantasmas, atar mãos com as nossas fragilidades. Por uma outra via, pode ser a única oportunidade para descobrirmos que nossos medos nunca passaram de fantasias, que existir é um pouco além de estar correto num mundo mutável e que nossa inflexibilidade não condiz com as nuances mutantes do universo. Somente podemos mudar o que conhecemos. O que não conhecemos permanece como ignorância. Sem conhecimento não se operam mudanças, apenas ingerimos paliativos goela abaixo, trocamos uma fantasia por outra e continuaremos, em suma, sendo o ser que nos aprisiona. Cantaremos presos e trocaremos de sapato um pelo outro, indefinidamente, mas o calo vai continuar doendo.
Pessoas tem adoecido mais e mais e mais pela falta de auto se conhecerem.
Tomamos emprestado uma estrutura tão sólida e impenetrável criada antes mesmo de nascermos que o mais palatável é não improvisar. Seguimos por searas conhecidas, o novo nos assusta, confundimos nossas crenças com nossos desejos, nos misturamos coletivamente em tantas alegrias inventadas que muitas terminam muito antes que o arco iris se dissipe na paisagem. Nos ensinaram a esquecer como ser bicho, um exemplo disso é descobrir porque determinado representante do sexo oposto nos atrai mais ou menos e tentar atribuir essas nossas escolhas às convenções sociais ou ao papo cabeça, esquecendo que, o que nos impulsionada, verdadeiramente, é uma questão de feromônios. Nossos cheiros ancestrais não se perderam por mais que os anúncios de perfumes te mostrem homens e mulheres sedutores, sofisticados em algum paraíso distante onde você nunca terá a chance de colocar os teus calos doídos.
Perdemos de tal modo a intimidade com a nossa natureza instintual ao ponto de preferirmos o sintético, o asfalto, a sobrecarga de trabalho para poder comprar mais e mais e mais o que temos tempo de menos para usufruir. E muitas vezes o que é pior: o que estamos procurando não existe como produto manufaturado.
Enquanto nos renegamos como animais criamos tantas lógicas e contra lógicas que nos confundimos, perdemos o fio da meada, nos descompatibilizamos com a natureza, criando um mundo tão próprio quanto inacessível. Inacessível leia-se: para a primeira pessoa do singular.
Obviamente não consegui me explicar muito claramente para esse meu amigo de formação cartesiana. Não consegui arrastá-lo para entro de si, pois isso é uma missão que demanda tempo, pressupõe acima de tudo auto querer.
Quase terminando nosso café, ele disse que nessa semana estava pensando em enforcar um dia de trabalho (como nunca tinha feito na vida..) ... passar o dia na praia.., pisar na areia e ver as estrelas mais perto do mar. Eu não disse nada, fiquei pensando com os meus botões que o caminho para o instintual é inerente a esse contato com a natureza e, o primeiro passo para dentro de si é dar essa forcinha, reconhecer-se como parte e voltar a pertencê-la para pertencer-se.
Chegando em casa lhe mandei a indicação de uma pousada no Sahy. Espero que tenha botado o pé na areia, visto as estrelas, ouvido o mar e bem... virado fera.
terça-feira, 15 de setembro de 2015
sábado, 12 de setembro de 2015
Amor bandido
Ontem estive em um encontro inédito e inimaginável há alguns tempos atrás. Tanto pelas minhas intenções e também, para um mundo que parece querer mudar (ou se não isso) ao menos está se disponibilizando para ouvir assuntos desagradáveis, sobre pessoas desagradáveis.
Sei que muitos não lerão o próximo parágrafo, portanto, minhas chances são tão escassas de ser lida e compreendida como a possibilidade de encontrar alguma saída para o assunto pautado num encontro sobre a situação das mulheres encarceradas. E, pasmem vocês, acontecido dentro de um dos mais elitistas recintos educacionais: a Fundação Getúlio Vargas. Compunham a mesa mulheres ( obviamente!) falando para uma platéia quase que exclusivamente feminina (obviamente!). Nessa mesa algumas representantes de instituições ligadas ao sistema prisional, uma professora/pesquisadora/escritora e uma representante de tudo o que se discute através de estatísticas, trabalhos acadêmicos e outras milhares de algumas boas intenções: uma ex detenta.
Na primeira fala já senti uma idiossincrasia. Tratava-se de "revista vexatória", que é revista sofrida por mulheres que visitam homem na penitenciária. Você pode passar diante de um presidio masculino e se surpreender com as filas que se formam em dias de visitas e detectar que em presídios femininos essa fila não existe. E porque? Por que a grande maioria das mulheres presas não recebem visitas. Daí, para mim pelo menos, o descompasso do primeiro tema trazido à discussão.
Quando a mulher é condenada por ter cometido um crime a sentença vai um pouco além das laudas escritas por um juiz. Assinam essas mesmas folhas completando uma condenação extensiva, os maridos/companheiros, os pais e os filhos. A criminosa deixa de ser esposa, filha e mãe. Ela falhou diante dos olhos de todos, pois, não cumpriu seus papéis de cuidadora ( papel intrinsecamente atribuído à mulheres, lembra das filas nos presídios masculinos...? ). Não soube ser mãe e envergonhou os pais e familiares. Salvo raríssimas exceções, essa mulher está só!
Alguns indicadores apontam que 65% das mulheres estão presas por tráfico de drogas. Em muitos casos assumem a liderança do tráfico quando o companheiro vai preso, em outros, são meramente as "mulas". E num argumento perverso costumo dizer (e pelos relatos pessoais que ouvi dentro das penitenciárias), essas prisões são frutos de um amor bandido. O amor que compromete não através de sentimentos mas lhes custa a liberdade, a autoestima e, invariavelmente, a solidão no cárcere. Nessa mesma ordem.
Um assunto que não foi tratado é que os homens ( muito ao contrário das mulheres) dificilmente se submetem a gama de pré requisitos para se se cadastrarem para visitas intimas. Ou seja, os homens não dão as caras por lá. Resultando: em busca de contato físico, para satisfação de desejos sexuais muitas se tornam temporariamente lésbicas.
Um outro aspecto perverso dessa distinção comportamental de gênero, é que a mulher quando "seu" homem vai preso, ela corre para o advogado, move mundos e fundos para o libertá-lo e o homem, por sua vez, quando a companheira vai presa também corre para o advogado, mas, para tratar do divórcio.
Que ninguém imagine em algum momento que esse tipo de abordagem pretenda transformar instituições prisionais em paraísos de encontros íntimos ou que se pretenda transformar as prisões em lugares tão maravilhosos que ninguém queira sair de lá. As prisões e os crimes continuarão existindo e sendo praticados. O ser humano não se livrará espontaneamente de sua índole transgressora, somos todos perversos, alguns com melhores formações e diferenças de oportunidades conseguem se livrar desse jugo instintual, sublimando nossas zonas escuras em alguns casos nos tornando, inclusive, beneméritos de causas sociais.
Faltou dizer nesse encontro ( e isso considero crucial) que mulheres dão à luz, mesmo estando presas... e o que acontece com essas mães e com essas criaturas recém paridas presas nesse emaranhado de leis que "pegam" e "não pegam" no nosso vasto país...
Ao final dos pronunciamentos todas as questões foram dirigidas para a ex detenta, formou-se um grupo em torno dela, de jovens futuros gestores de políticas públicas, que terão a possibilidade de olhar para essa e muitas outras questões tão amargas e aflitivas socialmente. Seguirão em frente com um pouco mais de maturidade, deixando um pouco para trás a força e fúria universitária, porém, que não se percam seduzidos por um mundo que precisa tratar de questões indigestas agora para ter o que comer amanhã.
O evolução das penas é uma contingência histórica, crimes devem ser punidos (sempre) sem dúvida alguma. Nosso Estado determina que as funções da pena são ressocialização, reintegração e reeducação e não dá conta de cumprir nenhuma dessas premissas. Podemos imaginar, portanto, que todas as prisões são contrárias aos fundamentos da própria lei? Será que o ser humano aprende alguma coisa coisa a partir de um sistema que impõe tão somente a culpa jurídica? Existem crimes que poderiam estar penalizados com medidas socioeducativas eficazes para que o Brasil deixasse de ocupar o desprestigioso quarto lugar em encarcerados no mundo? Como fazer para que as nossas cadeias deixem de formar melhores bandidos do que nossas escolas conseguem formar melhores alunos? A chapa esquentou...
Eu, da minha parte e já bem distante de um impulso juvenil, me dou cada vez mais conta que tive sorte. Entrei na fila certa e não posso dizer o que teria sido de mim, caso não tivesse tido pai, mãe, escola, dentista a cada seis meses, a benção da minha madrinha e uma medalhinha de "agnus dei" que ganhei no dia do meu batismo, e que me lembrei de trazer comigo no dia em que vim morar na cidade grande. Não pretendo que ninguém pense como eu, apenas imagino ser possível ouvir pessoas, fatos e outros pontos de vistas não para "resolver" o mundo e sim para revolver ideias, estigmas, pensar o mundo de uma forma um pouco menos maniqueistamente indolor.
Sei que muitos não lerão o próximo parágrafo, portanto, minhas chances são tão escassas de ser lida e compreendida como a possibilidade de encontrar alguma saída para o assunto pautado num encontro sobre a situação das mulheres encarceradas. E, pasmem vocês, acontecido dentro de um dos mais elitistas recintos educacionais: a Fundação Getúlio Vargas. Compunham a mesa mulheres ( obviamente!) falando para uma platéia quase que exclusivamente feminina (obviamente!). Nessa mesa algumas representantes de instituições ligadas ao sistema prisional, uma professora/pesquisadora/escritora e uma representante de tudo o que se discute através de estatísticas, trabalhos acadêmicos e outras milhares de algumas boas intenções: uma ex detenta.
Na primeira fala já senti uma idiossincrasia. Tratava-se de "revista vexatória", que é revista sofrida por mulheres que visitam homem na penitenciária. Você pode passar diante de um presidio masculino e se surpreender com as filas que se formam em dias de visitas e detectar que em presídios femininos essa fila não existe. E porque? Por que a grande maioria das mulheres presas não recebem visitas. Daí, para mim pelo menos, o descompasso do primeiro tema trazido à discussão.
Quando a mulher é condenada por ter cometido um crime a sentença vai um pouco além das laudas escritas por um juiz. Assinam essas mesmas folhas completando uma condenação extensiva, os maridos/companheiros, os pais e os filhos. A criminosa deixa de ser esposa, filha e mãe. Ela falhou diante dos olhos de todos, pois, não cumpriu seus papéis de cuidadora ( papel intrinsecamente atribuído à mulheres, lembra das filas nos presídios masculinos...? ). Não soube ser mãe e envergonhou os pais e familiares. Salvo raríssimas exceções, essa mulher está só!
Alguns indicadores apontam que 65% das mulheres estão presas por tráfico de drogas. Em muitos casos assumem a liderança do tráfico quando o companheiro vai preso, em outros, são meramente as "mulas". E num argumento perverso costumo dizer (e pelos relatos pessoais que ouvi dentro das penitenciárias), essas prisões são frutos de um amor bandido. O amor que compromete não através de sentimentos mas lhes custa a liberdade, a autoestima e, invariavelmente, a solidão no cárcere. Nessa mesma ordem.
Um assunto que não foi tratado é que os homens ( muito ao contrário das mulheres) dificilmente se submetem a gama de pré requisitos para se se cadastrarem para visitas intimas. Ou seja, os homens não dão as caras por lá. Resultando: em busca de contato físico, para satisfação de desejos sexuais muitas se tornam temporariamente lésbicas.
Um outro aspecto perverso dessa distinção comportamental de gênero, é que a mulher quando "seu" homem vai preso, ela corre para o advogado, move mundos e fundos para o libertá-lo e o homem, por sua vez, quando a companheira vai presa também corre para o advogado, mas, para tratar do divórcio.
Que ninguém imagine em algum momento que esse tipo de abordagem pretenda transformar instituições prisionais em paraísos de encontros íntimos ou que se pretenda transformar as prisões em lugares tão maravilhosos que ninguém queira sair de lá. As prisões e os crimes continuarão existindo e sendo praticados. O ser humano não se livrará espontaneamente de sua índole transgressora, somos todos perversos, alguns com melhores formações e diferenças de oportunidades conseguem se livrar desse jugo instintual, sublimando nossas zonas escuras em alguns casos nos tornando, inclusive, beneméritos de causas sociais.
Faltou dizer nesse encontro ( e isso considero crucial) que mulheres dão à luz, mesmo estando presas... e o que acontece com essas mães e com essas criaturas recém paridas presas nesse emaranhado de leis que "pegam" e "não pegam" no nosso vasto país...
Ao final dos pronunciamentos todas as questões foram dirigidas para a ex detenta, formou-se um grupo em torno dela, de jovens futuros gestores de políticas públicas, que terão a possibilidade de olhar para essa e muitas outras questões tão amargas e aflitivas socialmente. Seguirão em frente com um pouco mais de maturidade, deixando um pouco para trás a força e fúria universitária, porém, que não se percam seduzidos por um mundo que precisa tratar de questões indigestas agora para ter o que comer amanhã.
O evolução das penas é uma contingência histórica, crimes devem ser punidos (sempre) sem dúvida alguma. Nosso Estado determina que as funções da pena são ressocialização, reintegração e reeducação e não dá conta de cumprir nenhuma dessas premissas. Podemos imaginar, portanto, que todas as prisões são contrárias aos fundamentos da própria lei? Será que o ser humano aprende alguma coisa coisa a partir de um sistema que impõe tão somente a culpa jurídica? Existem crimes que poderiam estar penalizados com medidas socioeducativas eficazes para que o Brasil deixasse de ocupar o desprestigioso quarto lugar em encarcerados no mundo? Como fazer para que as nossas cadeias deixem de formar melhores bandidos do que nossas escolas conseguem formar melhores alunos? A chapa esquentou...
Eu, da minha parte e já bem distante de um impulso juvenil, me dou cada vez mais conta que tive sorte. Entrei na fila certa e não posso dizer o que teria sido de mim, caso não tivesse tido pai, mãe, escola, dentista a cada seis meses, a benção da minha madrinha e uma medalhinha de "agnus dei" que ganhei no dia do meu batismo, e que me lembrei de trazer comigo no dia em que vim morar na cidade grande. Não pretendo que ninguém pense como eu, apenas imagino ser possível ouvir pessoas, fatos e outros pontos de vistas não para "resolver" o mundo e sim para revolver ideias, estigmas, pensar o mundo de uma forma um pouco menos maniqueistamente indolor.
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Amores contrariados
Quando vou viajar para algum lugar que quero muito conhecer, costumo guardá-lo por uma longa data. Como se fosse uma espreita. Nunca vou de imediato. Gosto, talvez, de adiar a satisfação para que ao desejo permaneça. E não foi diferente com Cartagena. Comecei a querer ir para lá por volta de 1988 quando li pela primeira vez "Amor Nos Tempos Do Cólera", ambientado na cidade, onde Gabriel Garcia Marquez adotou para viver e amar, embora não tenha nascido exatamente ali.
De passagem comprada e hotel reservado, procuro o livro na estante para relê-lo. Encontro-o amarelecido e meio despencado. Me encanto novamente desde a primeira frase "Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava o destino dos amores contrariados...". Florentino Ariza adia seu amor numa espera por Fermina Daza, por cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias.
Tratei de descobrir um roteiro pela cidade que fizesse menção ao romance e descobri que o Parque Fernandez Madrid ( que nada mais é do que uma pracinha...) era o "Praça dos Evangelhos", onde Florentino sentava em um banco da praça, fingindo ler, só para ver Fermina voltar do Colégio e de onde podia avistar o muro branco da casa da única mulher que amou e por quem esperou a vida toda.
Parque Fernandez Madrid ( Praça dos Evangelhos)
Me deparo em buscar uma definição para "amores contrariados" que é diferente de amor impossível; é muito pior que amor não correspondido e é muito mais cruel do que amor idealizado.
O amor contrariado é aquele onde não há uma negativa expressa por parte do outro. Onde um ama o outro na maior solidão, onde nem todas as evidências são capazes de mudar o rumo dos sentimentos daquele que enlouquece todos os dias esperando por dias que nunca chegam. Um transtorno que ainda não tem definição no Diagostic and Statistical Manual of Mental Disorders e... pior de tudo... não tem remédio. Foi com a força desse intransigente querer inabalável que Florentino Ariza, planejou, viveu e esperou para que pudesse enfim estar com Fermina. Num encontro que somente foi possível já na senectude do corpos, porém, não das almas.
E estando lá, no "Praça dos Evangelhos" me dou conta que as amêndoas amargas que trazem o gosto dos amores contrariados, eu as conheço desde a infância. São aqueles coquinhos do "Chapéu de Sol", que a gente pegava na calçada, limpava na roupa e comia, mesmo sendo muito amargos... E foi assim que, aprendi desde cedo, o gosto de um amor contrariado que estava ainda por vir.
Casa de Gabriel Garcia Marquez
De passagem comprada e hotel reservado, procuro o livro na estante para relê-lo. Encontro-o amarelecido e meio despencado. Me encanto novamente desde a primeira frase "Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava o destino dos amores contrariados...". Florentino Ariza adia seu amor numa espera por Fermina Daza, por cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias.
Tratei de descobrir um roteiro pela cidade que fizesse menção ao romance e descobri que o Parque Fernandez Madrid ( que nada mais é do que uma pracinha...) era o "Praça dos Evangelhos", onde Florentino sentava em um banco da praça, fingindo ler, só para ver Fermina voltar do Colégio e de onde podia avistar o muro branco da casa da única mulher que amou e por quem esperou a vida toda.
Parque Fernandez Madrid ( Praça dos Evangelhos)
Me deparo em buscar uma definição para "amores contrariados" que é diferente de amor impossível; é muito pior que amor não correspondido e é muito mais cruel do que amor idealizado.
O amor contrariado é aquele onde não há uma negativa expressa por parte do outro. Onde um ama o outro na maior solidão, onde nem todas as evidências são capazes de mudar o rumo dos sentimentos daquele que enlouquece todos os dias esperando por dias que nunca chegam. Um transtorno que ainda não tem definição no Diagostic and Statistical Manual of Mental Disorders e... pior de tudo... não tem remédio. Foi com a força desse intransigente querer inabalável que Florentino Ariza, planejou, viveu e esperou para que pudesse enfim estar com Fermina. Num encontro que somente foi possível já na senectude do corpos, porém, não das almas.
E estando lá, no "Praça dos Evangelhos" me dou conta que as amêndoas amargas que trazem o gosto dos amores contrariados, eu as conheço desde a infância. São aqueles coquinhos do "Chapéu de Sol", que a gente pegava na calçada, limpava na roupa e comia, mesmo sendo muito amargos... E foi assim que, aprendi desde cedo, o gosto de um amor contrariado que estava ainda por vir.
Casa de Gabriel Garcia Marquez
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Sabe, esqueci de te falar que a-do-rei o Seu Canteliano ( era esse o nome dele?). O ilhéu que nas férias te contava da ilha, do mar e das coisas da vida. Enquanto você ia contando, eu ia tentando construir uma imagem dele e via cada vez mais a sua. As bulas de remédio, as pilhas usadas, o queijo, o te esperar na praia...
Quando penso nas coisas que me conta, me surpreendo em como você oscila de estatura, idade. Quando senta no chão, te vejo tão menino, adolescente, numa fase em que não te conheci, mas tenho memória de como deveria ter sido. Quando me olha meio de canto de olho, se volta para frente e dá um meio sorriso, te vejo tão homem, tão maduro, tão sedutor. Quando te observo cozinhando, dando de costas e me olhando por cima dos ombros, seus olhos lampejam, faíscam, rimos de alguma bobagem que percebemos juntos e agora, encontrei esses rabiscos, que ficaram por anos esquecidos no meio das minhas anotações.
Quando penso nas coisas que me conta, me surpreendo em como você oscila de estatura, idade. Quando senta no chão, te vejo tão menino, adolescente, numa fase em que não te conheci, mas tenho memória de como deveria ter sido. Quando me olha meio de canto de olho, se volta para frente e dá um meio sorriso, te vejo tão homem, tão maduro, tão sedutor. Quando te observo cozinhando, dando de costas e me olhando por cima dos ombros, seus olhos lampejam, faíscam, rimos de alguma bobagem que percebemos juntos e agora, encontrei esses rabiscos, que ficaram por anos esquecidos no meio das minhas anotações.
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Secando as unhas
Fazia as minhas unhas enquanto ela esperava que as suas secassem. Com os olhos fixos para baixo, sem perceber o seu rosto, elogiei o seu sapato. Cor de doce de leite, um debrum num tom abaixo, pespontado com perfeição. Salto adequado ao cabedal, quase uma obra de arte. Começamos a conversar e ela contou, contou e contou. Esperava que as unhas secassem porque relutava em voltar para casa. Não queria voltar para o apartamento e ver a varanda vazia, onde durante anos, o marido costumava sentar para ler o jornal e ler, ler e ler. Era muito culto, falava nove idiomas.
Que planos que nada!!! A vida está toda escrita. Eles se conheceram no dia do incêndio do Joelma. Ele, sem saber do incêndio entrou pela rua afoito e no meio da multidão acabou torcendo o pé. De lá, foi levado para o hospital. Ela, que era Enfermeira Padrão, entre os mortos e vivos que chegavam, imobilizou o seu pé. Nem olhou para o rosto dele, mas pelo sapato que usava sabia que não era uma pessoa para ser atendida ali, naquele hospital municipal.
Nunca mais se viram. Ele rodou todos os hospitais da cidade por anos para encontrar a enfermeira. Um dia, ela entrou na sala de um médico, ele pulou da cadeira e gritou "é essa a moça!!" Ela tomou o maior susto, não imaginou o que pudesse estar acontecendo nem quem era aquele homem em desvario na sua frente. Quatro meses depois estava com ele em Genéve, numa feira de relógios e jóias. Brasileira, bonita, inesperadamente se viu transformada numa sofisticada modelo de jóias. Ele já era viúvo havia dois anos, flertava com ela discretamente mas teve a elegância de reservar quartos separados. Naquele lobby de hotel, ela decidiu que ele seria o homem com quem se casaria.
Nunca, em nenhum ano dos 40 de casamento as flores deixaram de chegar às sextas feiras. Inclusive depois da primeira semana que ele havia falecido.
Nunca dormiram uma noite sequer separados durante esses quarenta anos.
Ele, já no final da doença e bastante debilitado, na última semana da sua vida, numa manhã reclamou que a fralda lhe estava machucando o quadril. Quando ela colocou a mão para verificar surgiu uma caixa. Dentro com um colar e brincos de esmeraldas. Ele declarou que era em agradecimento pelo grande amor que sempre sentiu por ela durante toda a vida.
Não, não era pelas esmeraldas nem por toda a vida maravilhosa que ele me proporcionou... era pelo copo de leite que ele me levou na cama, todas as noites antes de dormir, exatamente, sempre, com a mesma temperatura.
Que planos que nada!!! A vida está toda escrita. Eles se conheceram no dia do incêndio do Joelma. Ele, sem saber do incêndio entrou pela rua afoito e no meio da multidão acabou torcendo o pé. De lá, foi levado para o hospital. Ela, que era Enfermeira Padrão, entre os mortos e vivos que chegavam, imobilizou o seu pé. Nem olhou para o rosto dele, mas pelo sapato que usava sabia que não era uma pessoa para ser atendida ali, naquele hospital municipal.
Nunca mais se viram. Ele rodou todos os hospitais da cidade por anos para encontrar a enfermeira. Um dia, ela entrou na sala de um médico, ele pulou da cadeira e gritou "é essa a moça!!" Ela tomou o maior susto, não imaginou o que pudesse estar acontecendo nem quem era aquele homem em desvario na sua frente. Quatro meses depois estava com ele em Genéve, numa feira de relógios e jóias. Brasileira, bonita, inesperadamente se viu transformada numa sofisticada modelo de jóias. Ele já era viúvo havia dois anos, flertava com ela discretamente mas teve a elegância de reservar quartos separados. Naquele lobby de hotel, ela decidiu que ele seria o homem com quem se casaria.
Nunca, em nenhum ano dos 40 de casamento as flores deixaram de chegar às sextas feiras. Inclusive depois da primeira semana que ele havia falecido.
Nunca dormiram uma noite sequer separados durante esses quarenta anos.
Ele, já no final da doença e bastante debilitado, na última semana da sua vida, numa manhã reclamou que a fralda lhe estava machucando o quadril. Quando ela colocou a mão para verificar surgiu uma caixa. Dentro com um colar e brincos de esmeraldas. Ele declarou que era em agradecimento pelo grande amor que sempre sentiu por ela durante toda a vida.
Não, não era pelas esmeraldas nem por toda a vida maravilhosa que ele me proporcionou... era pelo copo de leite que ele me levou na cama, todas as noites antes de dormir, exatamente, sempre, com a mesma temperatura.
terça-feira, 16 de junho de 2015
Uma estrada sinuosa de terra, um milharal, uma fumaça vaporosa saindo de uma chaminé, uma simplicidade sem explicações era o que me atraia. Passar por ali me tirava o fôlego e preferia que não houvesse nenhum tipo de comentário, reminiscências, pensamentos que pudessem perturbar o silêncio de minhas vontades. Não sabia qual a razão mas, sentia tanta falta e o desejo de minhas contemplações eram tão intensos e verdadeiros que poderiam ser mesmo uma paisagem num quadro. Mas tinha que ser aquilo. E quando avistava o que meus sonhos desejavam, imaginava algo impossível de acontecer, porque, primeiro pensava que tinha que ter uma casa no lugar de onde sou. Essa dúvida me perscrutava logo na sequência: de onde sou mesmo...?
Um mudar e errar de canto em canto, de casa em casa, de cidade em cidade, criou em mim uma ausência tal de lastros que mais tarde fui percebendo que os únicos laços que me atavam e afrouxavam eram os de minhas memórias. Das mais cândidas, preferencialmente, que delas fui criando a dependência de minha vivência.
Queria morar naquela casa na montanha, com a fumaça saindo da chaminé porque dela dependia um fogão à lenha. Nesse fogão tardeavam em pequenas tigelas coloridas tudo o que sobrava do fausto almoço na casa de minha avó paterna. Depois de brincar a tarde toda no pomar, batia uma fome brutalizada, e era no morno do fogão que encontrava as mais finas iguarias que jamais provei na vida. Embora vivêssemos no interior de São Paulo, minha avó tinha um sei lá o quê de mineira e cozinhava fazendo mineirices, uma porção vertiginosa de "misturas" como chamávamos na época. Lembro-me dela sentada com um alvíssimo avental branco, uma areadíssima bacia de alumínio no colo, uma faca de cabo curto, uma maço de couve firmemente atado pelas mãos idosas, que suspensas partiam a couve na finura de um fio de cabelo. Mais tarde descobri que para mim, essa cena era a essência de uma paciência de monja.
Do fogão não se guardava tão apenas minha iguarias de infância. Nos dias mais frios ajudava a aquecer as minhas mãos partidas pelo inverno, que ardiam à beça quando éramos obrigadas a untá-las com creme de amendoim para hidratá-las. Além disso, tinha a dona Yazinha, que trabalhou por mais de cinquenta anos com a minha avó, sem cessar, num serviço emendando no outro e que eu adorava ficar acocorada no beira do fogo escutando as suas estórias, que de extremo cotidiano pareciam muito mais com um mantra do que um assunto de mulheres. Eu ficava aquecida e esquecida, observando a sua agilidade magrela em dar conta de tudo, de ter as mãos tão grossas e calejadas, deformadas de tanto serviço bruto mas um coração tão puro e singelo quanto a fumaça que sopra vaporosa dos telhados onde vivem agora as minhas montanhas.
Um mudar e errar de canto em canto, de casa em casa, de cidade em cidade, criou em mim uma ausência tal de lastros que mais tarde fui percebendo que os únicos laços que me atavam e afrouxavam eram os de minhas memórias. Das mais cândidas, preferencialmente, que delas fui criando a dependência de minha vivência.
Queria morar naquela casa na montanha, com a fumaça saindo da chaminé porque dela dependia um fogão à lenha. Nesse fogão tardeavam em pequenas tigelas coloridas tudo o que sobrava do fausto almoço na casa de minha avó paterna. Depois de brincar a tarde toda no pomar, batia uma fome brutalizada, e era no morno do fogão que encontrava as mais finas iguarias que jamais provei na vida. Embora vivêssemos no interior de São Paulo, minha avó tinha um sei lá o quê de mineira e cozinhava fazendo mineirices, uma porção vertiginosa de "misturas" como chamávamos na época. Lembro-me dela sentada com um alvíssimo avental branco, uma areadíssima bacia de alumínio no colo, uma faca de cabo curto, uma maço de couve firmemente atado pelas mãos idosas, que suspensas partiam a couve na finura de um fio de cabelo. Mais tarde descobri que para mim, essa cena era a essência de uma paciência de monja.
Do fogão não se guardava tão apenas minha iguarias de infância. Nos dias mais frios ajudava a aquecer as minhas mãos partidas pelo inverno, que ardiam à beça quando éramos obrigadas a untá-las com creme de amendoim para hidratá-las. Além disso, tinha a dona Yazinha, que trabalhou por mais de cinquenta anos com a minha avó, sem cessar, num serviço emendando no outro e que eu adorava ficar acocorada no beira do fogo escutando as suas estórias, que de extremo cotidiano pareciam muito mais com um mantra do que um assunto de mulheres. Eu ficava aquecida e esquecida, observando a sua agilidade magrela em dar conta de tudo, de ter as mãos tão grossas e calejadas, deformadas de tanto serviço bruto mas um coração tão puro e singelo quanto a fumaça que sopra vaporosa dos telhados onde vivem agora as minhas montanhas.
quinta-feira, 14 de maio de 2015
Perdemos o jeito, o ponto e a hora do encontro. Criamos subterfúgios, inventamos metáforas, aproximamos o corpo do que a nossa alma não pode mais dizer. Perdemos nossa condição primeva de estarmos juntos porque sentimos medo. Um mundo infinitamente sexualizado, de vantagens travestidas em fantasias. Nunca se mentiu tanto quanto a quantidade, qualidade ou sentido de estarmos juntos. Partimos para uma jornada incerta onde o mais importante ficou para trás: a nossa possibilidade de entrega.
Assim, desisto de minha tertúlia com Manuel e me rendo.
A ARTE DE AMAR
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação
Não noutra alma.
Só em Deus ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Manuel Bandeira
Assim, desisto de minha tertúlia com Manuel e me rendo.
A ARTE DE AMAR
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação
Não noutra alma.
Só em Deus ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Manuel Bandeira
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Aprendi com você
Aprendi tantas coisas com você.
A primeira delas, foi como não enlouquecer com aquele seu primeiro livro, comprado num sebo. Tinha um Papai Noel na capa e um botão do lado, que cantava 1.010.000 vezes por dia iaiaouuu. Aprendi a superar meu desapontamento quanto a primeira palavra que disse foi ... papai. A assistir Teletubbies com seus intermináveis tchaus. Minha vida se complicou bastante quando vieram os Pokemons. Eu não conseguia decorar os nomes e nem para que serviam, precisava aguentar a sua braveza quando confundia um com outro. Precisei aprender a jogar baralho, pebolim, sinuca, virar goleira, fazer bolo de chocolate com confete colorido, não insistir para você usar fantasia ( não havia Cristo que te colocasse dentro de uma...); contar estórias sem errar o final; entender as palavras novas que você inventava, te distrair para cortar seu cabelo, te enganar para arrancar um dente mole.
Aprendi a reconhecer o seu mal humor quando está com fome, e saber que depois da quarta garfada você volta a falar. Aprendi a não te perguntar as coisas que você nunca vai me responder; que seu celular nunca funciona para falar comigo ( embora você passe o dia todo de olho nele...); que seu quarto vai continuar sendo uma bagunça ( irremediável!), que minhas ameaças não funcionam quando se trata de pedir ordem. Aprendi, que do seu jeito e no seu ritmo você sempre dá conta do recado, que já superou (e muito! ) meu alto grau de exigências imediatas; que você demora a falar mas quando diz, é claro e positivo, ao ponto de me botar em silêncio muitas e muitas vezes. Que nossas brigas são breves e terminam em gargalhada, porque você tem o dom de promover todas as reconciliações...E também, está me inteirando de um vocabulário completamente novo, para que nossas conversas não precisem ser legendadas.
Que tenho me emocionado, desde o primeiro dia em que abriu os olhos pela primeira vez, e que tem lançado ao mundo um olhar cada vez mais profundo, procurando reconhecer e ajustar diferenças e, espero que não desista nunca de tentar apará-las.
Que você tem tido uma paciência enorme para me ensinar a ser mãe, e que sem isso eu nunca teria me tornado menos infantil nem menos egoísta.
A primeira delas, foi como não enlouquecer com aquele seu primeiro livro, comprado num sebo. Tinha um Papai Noel na capa e um botão do lado, que cantava 1.010.000 vezes por dia iaiaouuu. Aprendi a superar meu desapontamento quanto a primeira palavra que disse foi ... papai. A assistir Teletubbies com seus intermináveis tchaus. Minha vida se complicou bastante quando vieram os Pokemons. Eu não conseguia decorar os nomes e nem para que serviam, precisava aguentar a sua braveza quando confundia um com outro. Precisei aprender a jogar baralho, pebolim, sinuca, virar goleira, fazer bolo de chocolate com confete colorido, não insistir para você usar fantasia ( não havia Cristo que te colocasse dentro de uma...); contar estórias sem errar o final; entender as palavras novas que você inventava, te distrair para cortar seu cabelo, te enganar para arrancar um dente mole.
Aprendi a reconhecer o seu mal humor quando está com fome, e saber que depois da quarta garfada você volta a falar. Aprendi a não te perguntar as coisas que você nunca vai me responder; que seu celular nunca funciona para falar comigo ( embora você passe o dia todo de olho nele...); que seu quarto vai continuar sendo uma bagunça ( irremediável!), que minhas ameaças não funcionam quando se trata de pedir ordem. Aprendi, que do seu jeito e no seu ritmo você sempre dá conta do recado, que já superou (e muito! ) meu alto grau de exigências imediatas; que você demora a falar mas quando diz, é claro e positivo, ao ponto de me botar em silêncio muitas e muitas vezes. Que nossas brigas são breves e terminam em gargalhada, porque você tem o dom de promover todas as reconciliações...E também, está me inteirando de um vocabulário completamente novo, para que nossas conversas não precisem ser legendadas.
Que tenho me emocionado, desde o primeiro dia em que abriu os olhos pela primeira vez, e que tem lançado ao mundo um olhar cada vez mais profundo, procurando reconhecer e ajustar diferenças e, espero que não desista nunca de tentar apará-las.
Que você tem tido uma paciência enorme para me ensinar a ser mãe, e que sem isso eu nunca teria me tornado menos infantil nem menos egoísta.
domingo, 3 de maio de 2015
Tire bouchon
Faz uma mesura oferecendo-se para abrir a garrafa, um tanto desajeitado no seu intento em parecer cavalheiro. Suspende o saca-rolhas no ar, interrogando com um sorriso suave: "un tire bouchon?" Rimos juntos de uma nossa estória. Serve somente à mim, ainda não bebe na minha presença.
Começamos a falar de tudo e nada. Da condição humana, de política e de como estamos sempre em lados opostos e ao mesmo tempo parecidos.
Apanha um livro na estante, me diz que estão caindo folhas. Como assim...o livro está se desfazendo? Não. São as flores que tenho o hábito de ir guardando entre as páginas. Provavelmente uma das tantas, que ele mesmo costumava encontrar nas calçadas e me trazia de presente, quando ainda nem sabia falar direito.
O poeta é pernambucano. Peço para que leia uns versos. Combinamos um banho de mar como o de Clarice Lispector, em Olinda.
http://claricelispector.blogspot.com.br/2008/01/banhos-de-mar.ht
Pergunto se sente-se parecido comigo? Pensa um pouco e resoluto, diz que se parece com o pai. Sorvo o vinho, com nossas mútuas semelhanças, que só eu consigo perceber.
Começamos a falar de tudo e nada. Da condição humana, de política e de como estamos sempre em lados opostos e ao mesmo tempo parecidos.
Apanha um livro na estante, me diz que estão caindo folhas. Como assim...o livro está se desfazendo? Não. São as flores que tenho o hábito de ir guardando entre as páginas. Provavelmente uma das tantas, que ele mesmo costumava encontrar nas calçadas e me trazia de presente, quando ainda nem sabia falar direito.
O poeta é pernambucano. Peço para que leia uns versos. Combinamos um banho de mar como o de Clarice Lispector, em Olinda.
http://claricelispector.blogspot.com.br/2008/01/banhos-de-mar.ht
Pergunto se sente-se parecido comigo? Pensa um pouco e resoluto, diz que se parece com o pai. Sorvo o vinho, com nossas mútuas semelhanças, que só eu consigo perceber.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Quase uma estória
Lençóis brancos estendidos na varal traziam um cheiro bom de limpeza, lembrava um pouco assepsia com sabão de cinzas, a cortina de voil dançava na janela da sala, dando suavidade à luz amarelada que vinha beirando a terra, entrando de viés, fazendo sombras, desenhando coisas. Uma voz mansa dizia algo, recitava, uma cantilena, talvez uma reza antiga, não se sabe, num tom de resignação mediado de saudade. Parecia ser bom, mas não era possível ter certeza ainda. Talvez alguém tivesse enlouquecido na casa, de tanto esperar, de tanto acreditar ou de tanto amar.
Era preciso cobrir os sofás, tirar a água dos vasos, deixar que as flores secassem desidratadas pelo tempo, voltar os livros na estante, olhar pela última vez aquele fim de tarde, fechar os olhos para que memória se retivesse. Nunca, nunca mais voltaria a por os pés naquele lugar. Decisão não foi. A vida se adiantou, tomou a dianteira assinalando que não seria mais assim. E nem era de tristeza que arrumava as malas, atava zíperes, era tão somente a vida que guinava para o incerto, para o nada mais.
Tinha escolhido estar sozinha nessa hora de despedida das coisas, seria inoportuno responder o que faço com isso? vai querer levar? Muita coisa ganharia o caminho do lixo, melhor mesmo seria incinerar tudo. Apagar. Fazer virar cinzas. Não deixar fragmentos, nada que alguém pudesse descobrir cacos e imaginar estórias. Não queria bisbilhotices adivinhando fatos, fazendo suposições, interrogando com os olhos, incomodamente. Era um momento para ser vivido no silêncio. Nenhuma presença na casa minimizaria o fluxo dos sentimentos que ela ainda procurava nominar ou nem isso. Era tempo de nada, um tempo que ainda não tinha nome.
Um ar morno começou a invadir a cortina, a sala, a casa. Fechando as janelas percebeu que chovia manso e que seria também a última vez que veria essa mansidão de águas, esse sopro vindo do quintal, que tantas vezes a fez parar diante do corredor , para ver depois tudo verdejando, iluminando, renascendo.
A noite passou entrecortada como as noites em que velamos nossos mortos. Cansaço lento que se sabe, demorará muitos meses para passar. Ou anos. Ou vidas.
Olhou o dia amanhecendo pela última vez, trazendo umas nuvens baixas. Hoje, nem teve vontade de alcançá-las com as pontas dos dedos, trancou a porta, começou a descer em direção à estrada, sabia que não poderia virar o rosto para olhar para trás. Ali, nunca mais o amor.
Era preciso cobrir os sofás, tirar a água dos vasos, deixar que as flores secassem desidratadas pelo tempo, voltar os livros na estante, olhar pela última vez aquele fim de tarde, fechar os olhos para que memória se retivesse. Nunca, nunca mais voltaria a por os pés naquele lugar. Decisão não foi. A vida se adiantou, tomou a dianteira assinalando que não seria mais assim. E nem era de tristeza que arrumava as malas, atava zíperes, era tão somente a vida que guinava para o incerto, para o nada mais.
Tinha escolhido estar sozinha nessa hora de despedida das coisas, seria inoportuno responder o que faço com isso? vai querer levar? Muita coisa ganharia o caminho do lixo, melhor mesmo seria incinerar tudo. Apagar. Fazer virar cinzas. Não deixar fragmentos, nada que alguém pudesse descobrir cacos e imaginar estórias. Não queria bisbilhotices adivinhando fatos, fazendo suposições, interrogando com os olhos, incomodamente. Era um momento para ser vivido no silêncio. Nenhuma presença na casa minimizaria o fluxo dos sentimentos que ela ainda procurava nominar ou nem isso. Era tempo de nada, um tempo que ainda não tinha nome.
Um ar morno começou a invadir a cortina, a sala, a casa. Fechando as janelas percebeu que chovia manso e que seria também a última vez que veria essa mansidão de águas, esse sopro vindo do quintal, que tantas vezes a fez parar diante do corredor , para ver depois tudo verdejando, iluminando, renascendo.
A noite passou entrecortada como as noites em que velamos nossos mortos. Cansaço lento que se sabe, demorará muitos meses para passar. Ou anos. Ou vidas.
Olhou o dia amanhecendo pela última vez, trazendo umas nuvens baixas. Hoje, nem teve vontade de alcançá-las com as pontas dos dedos, trancou a porta, começou a descer em direção à estrada, sabia que não poderia virar o rosto para olhar para trás. Ali, nunca mais o amor.
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| Imagem: KatiaGardin |
quinta-feira, 9 de abril de 2015
No mundo das hipóteses e no mundo das coisas que não queremos falar. Dilma vem à publico manifestar-se contra a redução da maioridade penal (por orientação do partido). Temer diz que é para manter a neutralidade, pois, mais da metade da população apoia a medida ( muito provavelmente pelo o que a mídia tenta e consegue incutir na cabeça do cidadão, que necessitaria se informar de outras fontes para abalizar sua opinião, por exemplo: saber que os países que a instituíram, não obtiveram redução da violência). Eu não faço parte dessa metade e a mídia não faz a minha cabeça. Quem conhece a minha estória familiar sabe que teria todos os motivos para desejar a instituição da pena de morte. Escolhi outro caminho, um projeto que tenta resgatar essas pessoas, mesmo que seja uma única alma. Esse projeto me levou para trás das grades.
O projeto também acontece numa escola estadual. E sabe o que constato (com muita tristeza)? Que as duas instituições são muito parecidas. E sabe por que? Porque relegamos os nossos jovens, e estamos relegando mais uma vez com essa medida impensada.
O sistema punitivo ( e não ressocializante) do Brasil, vai te devolver esses jovens egressos como bandidos graduados. Quando saírem de lá, com a mácula de terem passado por uma instituição, você não vai empregá-los, nem eu! Mas o crime vai estar de braços abertos esperando esse novo "colaborador".
Quando escola e prisão se tornam parecidas é para acordarmos de que alguma coisa muito grave está acontecendo.
Prisão não será o remédio, somente um placebo para a falta de escolaridade. É interesse do Estado manter o baixo ( ou nenhum) nível de educação pública para continuar "desinformando" pessoas, que sem condições de decidirem sobre a própria sorte serão mandadas para o seu devido lugar: a prisão.
Numa hipótese absurda: se nosso sistema jurídico permitisse que a pena passasse da pessoa do réu ( no caso, os filhos brancos, estudados dos nossos parlamentares) corressem o risco de assumirem as dívidas de seus progenitores pelos crimes praticados contra a nossa nação, algum desses digníssimos parlamentares teriam votado a favor dessa redução?
Se os nossos filhos brancos e estudados corressem o risco dessa redução, de que lado estaríamos?
54% da população carcerária é negra ou parda
55% tem entre 18 e 20 anos ( veja que já temos muitos jovens...e que o Estado não oferece uma recuperação ...)
5.6% são analfabetos
13% apenas alfabetizados
46% apenas ensino fundamental
Temos a terceira maior população carcerária do mundo ( batendo quase 800.000 detentos, queremos mais?)
O projeto também acontece numa escola estadual. E sabe o que constato (com muita tristeza)? Que as duas instituições são muito parecidas. E sabe por que? Porque relegamos os nossos jovens, e estamos relegando mais uma vez com essa medida impensada.
O sistema punitivo ( e não ressocializante) do Brasil, vai te devolver esses jovens egressos como bandidos graduados. Quando saírem de lá, com a mácula de terem passado por uma instituição, você não vai empregá-los, nem eu! Mas o crime vai estar de braços abertos esperando esse novo "colaborador".
Quando escola e prisão se tornam parecidas é para acordarmos de que alguma coisa muito grave está acontecendo.
Prisão não será o remédio, somente um placebo para a falta de escolaridade. É interesse do Estado manter o baixo ( ou nenhum) nível de educação pública para continuar "desinformando" pessoas, que sem condições de decidirem sobre a própria sorte serão mandadas para o seu devido lugar: a prisão.
Numa hipótese absurda: se nosso sistema jurídico permitisse que a pena passasse da pessoa do réu ( no caso, os filhos brancos, estudados dos nossos parlamentares) corressem o risco de assumirem as dívidas de seus progenitores pelos crimes praticados contra a nossa nação, algum desses digníssimos parlamentares teriam votado a favor dessa redução?
Se os nossos filhos brancos e estudados corressem o risco dessa redução, de que lado estaríamos?
54% da população carcerária é negra ou parda
55% tem entre 18 e 20 anos ( veja que já temos muitos jovens...e que o Estado não oferece uma recuperação ...)
5.6% são analfabetos
13% apenas alfabetizados
46% apenas ensino fundamental
Temos a terceira maior população carcerária do mundo ( batendo quase 800.000 detentos, queremos mais?)
Nosso Estado não dá conta do sistema prisional que criou e quer te vender que essa redução vai te manter seguro pelas ruas, cuidado! Esse é um tiro certo para sair pela culatra.
Sem educação não haverá pais algum. Estamos enfraquecidos pelas instituições que ajudamos a soerguer (falo aqui com meu pares: a elite branca) e, a redução da maioridade vem corroborar nesse sentido. Melhor seria o Estado ter a coragem de promover mudanças na segurança pública e pensar na educação com fonte de formar pessoas e, que pudéssemos avaliar com responsabilidade, o que estamos desejando para um futuro...incerto.
Sem educação não haverá pais algum. Estamos enfraquecidos pelas instituições que ajudamos a soerguer (falo aqui com meu pares: a elite branca) e, a redução da maioridade vem corroborar nesse sentido. Melhor seria o Estado ter a coragem de promover mudanças na segurança pública e pensar na educação com fonte de formar pessoas e, que pudéssemos avaliar com responsabilidade, o que estamos desejando para um futuro...incerto.
Poderia falar aqui de culpa jurídica e culpa moral. E como a culpa jurídica (sem medidas de reintegração) exclui a culpa moral, devolvendo-nos o pior do substrato humano. Mas, fica para a próxima.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
O PIB não quer a ciclovia
o pobre também quer o carro.
O homem não quer a mulher
A mulher não quer mais o homem.
O elo está perdido.
A confiança virou ameaça.
Os sonhos ficaram só para os loucos.
A esperança só para os tolos.
Mas ainda tem:
cheiro de grama cortada
cheiro de café coado
cheiro de homem recém banhado.
Um dia que amanhece bem cedo
varrendo de luz por debaixo das árvores,
flores caídas nas calçadas
guardando os últimos cheiros da madrugada,
de um espetáculo que aconteceu solitário
antes que as estrelas fossem apagadas.
o pobre também quer o carro.
O homem não quer a mulher
A mulher não quer mais o homem.
O elo está perdido.
A confiança virou ameaça.
Os sonhos ficaram só para os loucos.
A esperança só para os tolos.
Mas ainda tem:
cheiro de grama cortada
cheiro de café coado
cheiro de homem recém banhado.
Um dia que amanhece bem cedo
varrendo de luz por debaixo das árvores,
flores caídas nas calçadas
guardando os últimos cheiros da madrugada,
de um espetáculo que aconteceu solitário
antes que as estrelas fossem apagadas.
quarta-feira, 25 de março de 2015
Papai Noel existe?
Ainda não sei porque (e de muitas coisas na vida é melhor que assim o seja) mas, adoro cartas.
Dias desses deambulando pela livraria, encontrei essa obra que reúne 125 "Cartas Extraordinárias ", um livro de formato grande da Companhia da Letras, que dentre muitas missivas, uma me chamou particularmente a atenção, senão pela docilidade talvez pela inocência, de uma menina de oito anos que desejava saber se Papai Noel existia. O pai da garota, não querendo ser o anunciador de más noticias, sugeriu à filha que escrevesse ao "The Sun", um prestigiado jornal americano lá pelos anos de 1897.
Abaixo o teor dessa singela correspondência:
Editorial do The Sun, 1897
É com enorme prazer que respondemos à carta abaixo, aproveitando para expressar nossa enorme gratidão em reconhecer sua autora como leal amiga do The Sun.
"Prezado Editor, tenho 8 anos. Alguns de meus amiguinhos dizem que não existe Papai Noel. Meu pai costuma falar: Se estiver no The Sun, então será verdade. Por favor, me diga a verdade: Papai Noel existe?" Assinado: Virginia OHanlon.
"Virginia, seus amiguinhos estão errados. Provavelmente foram afetados pela descrença de uma época em que as pessoas acreditam em poucas coisas. Só acreditam naquilo que vêem. Elas acham que o que não compreendem com suas cabecinhas não pode existir. Todas as mentes, Virginia, sejam as dos adultos ou das crianças, são limitadas. Neste nosso grande Universo, o homem é um mero inseto, uma formiguinha, quando seu intelecto é comparado com o infinito que o cerca ou quando medido pela inteligência capaz de entender toda a verdade e conhecimento.
Sim, Virginia, Papai Noel existe! Isso é tão certo quanto a existência do amor, da generosidade e da devoção e você sabe que tudo isso existe em abundância, trazendo mais beleza e alegria à nossa vida. Ah! Como seria triste o mundo sem Papai Noel! Seria tão triste quanto não existir Virginias. Não haveria então a fé das crianças, a poesia e a fantasia para fazer a nossa existência suportável. Não teríamos alegria nem prazer, a não ser com os nossos sentidos: seria preciso ver e tocar para poder sonhar. A transparente luz das crianças, com a qual inundam o mundo, seria apagada.
Não acreditar em Papai Noel!... É o mesmo que não acreditar em fadas!
Você poderia pedir ao seu pai para contratar muitos homens para vigiar todas as chaminés na véspera de Natal e assim pegar Papai Noel; mas, mesmo que você não o visse descendo por elas, o que isso provaria? Ninguém vê o Papai Noel, mas não há sinais de que ele não existe.
Você por acaso já viu fadas dançando no jardim? Claro que não, mas não há provas de que elas não estejam por lá. Ninguém pode conceber ou imaginar todas as maravilhas do mundo que nunca foram vistas e que nunca poderão ser admiradas. As coisas mais reais são aquelas que nem as crianças nem os adultos podem ver.
Se quebramos o chocalho de um bebezinho, poderemos ver o que faz aquele barulho lá dentro, mas existe um véu cobrindo o mundo invisível que nem o homem mais forte, nem mesmo toda a força de todos os homens mais fortes do mundo reunida poderia rasgar. Somente a fé, a poesia, o amor e a fantasia podem abrir essa cortina e desvendar a beleza e a glória celestiais que existem por detrás dela. Será que tudo isso é real? Ah, Virginia, em todo esse mundo não existe nada mais real e duradouro.
Se existe Papai Noel? Graças a Deus ele vive e viverá para sempre.
Daqui a mil anos, Virginia, e ainda daqui a dez mil anos ou dez vezes esse número, ele continuará a fazer feliz o coração das crianças."
Essa carta ficou tão famosa que durante muitos anos até que o The Sun deixasse de existir, continuou sendo publicada na época de Natal.
Acho que gostei tanto dessa cartinha porque me lembrei de uma vez, sentada no colo de meu pai, disse que estava morta de medo que o mundo acabasse. Ele me tranquilizou garantindo que já tinha mandado construir um barco enorme onde iríamos todos, um casal de cada um do animais da terra e o nosso cachorro Fiel. Era o meu pai Noé. E que foi meu Papai Noel, também, por muitos e muitos anos.
quinta-feira, 19 de março de 2015
Para que Alice não continue perdida
Alice:"Você pode me ajudar?"
Gato: "Sim, pois não."
Alice:"Para onde vai essa estrada?"
Gato:"Para onde você quer ir?"
Alice:"Eu não sei, estou perdida."
Gato: "Para quem não sabe para onde vai, qualquer
caminho serve."
Para que Alice não continue perdida.
Se as respostas estão
todas erradas é preciso examinar o seu nascedouro e esse nascedouro nada mais é
do que a perguntas que estão sendo formuladas. Para quem não sabe perguntar qualquer resposta
serve. Se Alice não sabe onde vai, vai continuar mesmo perdida.
Estamos perdidos todos nós.
Um racha social impera.
A ofensa entre classes está institucionalizada ( e isso interessa a
muitos, principalmente para aquele que cunhou a expressão “elite branca”, não que ela não exista...). A nossa grande vergonha nacional é a escravidão
que durou mais de três séculos, e continua até hoje através de meandros e de
perguntas mal formuladas.
A elite branca e o jeitinho brasileiro são irmãs siamesas. Trazemos de um fatídico Império essas duas
gracinhas. Numa de suas primeiras cartas ao Rei, Caminha já pedia que o império intercedesse a
favor de um cunhado que precisava de um “jeitinho”
da recém fundada Pátria Amada.
Muito pensei
que, essa nossa condição fosse alguma herança atávica maldita mas, nem isso é. A
transmissão atávica costuma pular algumas gerações e aqui em terras
nossas nunca houve sequer uma geração em que essa maldição não estivesse
acionada. Talvez seja a isso que a nossa
Presidente se refira, repetindo sem parar
que a corrupção não é criação recente, em outras palavras, criação do PT. Não foi criação do PT mas...
foi por ele aprimorada, refinada e avantajada. Não sou quem digo, mas a mídia
mundial reputa ao Petrolão o maior escândalo de corrupção de que se tem notícia. E olha que as investigações estão só começando e
dinheiro de corrupção é inapurável no seu valor real, visto que a contabilidade
“oficial” será sempre “oficiosa”
.
A pergunta que interessa agora é: “se” e “como” acontecerá a reforma política? É preciso que elite branca, periferia,
paneleiras e principalmente brasileiros e brasileiras, se inteirem da
importância dessa reforma e como somente ela irá nós beneficiar se soubermos o que estamos de
fato pedindo. A sociedade somente estará
coesa para essas perguntas e reivindicações se estiver bem informada do que isso
significa. Por que está empacada desde
1990? O que pode recolocar o legislativo nos trilhos? Voto obrigatório ou
facultativo? PEC 344 e 352, o que é? O
que significa o voto distrital “puro”? Como se dá efetivamente a legitimidade
de posse dos nossos constituintes hoje, o que precisa ser mudado? Financiamento
de campanha ( preste atenção no que o
PMDB sobre essa questão!).
A sociedade precisa discutir e pressionar firmemente contra
o fim do financiamento de campanha ( os
partidos que arquem com suas campanhas e tratem de nos representar, já pagamos
muito para alimentar essa máquina legislativa de quase 600 parlamentares). Lutar
para que mecanismos paralelos (novos “jeitinhos”) não sejam instaurados com esse
fim. Não deixar que essa reforma seja somente para inglês ver ou delegá-la exclusivamente aos próprios
constituintes que nunca decidirão nada que limite a extravagância de seus
poderes. Chega da criação de novos
partidos, já temos muitos e pagamos por todos eles, através do Fundo
Partidário. Se a sociedade não estiver à postos fazendo as perguntas pertinentes
e com clareza, continuará achando que quem manda no Brasil é o Presidente e se dará fenômenos (
previsíveis) como esses que estão aí. A
metade da população escolheu Dilma e quatro meses depois a rejeita.
Minha gente, ir para as ruas é ato louvável e necessário. Mas, não adianta ir pedindo Impeachment
( o PMDB já sinalizou que não é viável, portanto,
forget it). À luz
de um exame legal o impeachment não passa e isso não é só uma vontade popular,
como provavelmente as pessoas que estão gritando pelo impeachment imaginam. Gritar pelo que não é possível é
mero desgaste, fruto de informação equivocada.
Não adianta ir para as ruas e dizer que está ali contra a
corrupção. Isso é muito genérico. Combater a corrupção demanda reforma política e para chegar até essa
reforma é preciso informar-se, estudar, inteirar-se de como as coisas funcionam
para exigir mudanças necessárias de base.
A reforma política tem que atender aos brasileiros e não a classes sociais (
favorecidas ou desfavorecidas). Quem nos
representa tem que estar lá para nos representar, não para conchavar, mudar de
partido a torto e a direito, criar uma moral própria e agir a partir de sua
própria criação.
Onde estão os universitários desse País? Nossas grandes
esperanças que poderiam estar participando desses debates e com a força de seus sonhos mobilizando a população? E o movimento “Passe Livre” tão meteoricamente
silenciado? Estão divididos e diluídos (ilusoriamente) entre o que é PT e o que
PSDB.
Reforma PolíticaJÁ!
Temos a grande chance de viver um momento histórico que
somente logrará êxito se soubermos fazer as perguntas certas ou continuaremos todos Alices.
Eu acredito na mobilização popular esclarecida! Não acredito
na mobilização festiva, tendenciosa ou
desinformada ( por que aí ou vira escola de samba ou torcida de futebol). Chega
disso, né?
segunda-feira, 9 de março de 2015
Fruta roubada
O dinheiro comprou tudo.
Todos os homens do poder
a vaga no leito do hospital
e a da universidade também.
Comprou o sapato de salto alto
o chinelo de dedo
a sombra na praia
a vida opaca.
O dinheiro comprou as bolhas do champanhe
a cachaça, o carrão, a bicicleta,
o cansaço dos que perderam o encanto.
Comprou a cadeira de balanço na varanda,
a piscina que ninguém entra
o protetor solar, a falta de ar,
O gozo da prostituta, o amor da amante,
o silêncio das esposas.
O dinheiro comprou o sorriso da comissária first class,
o balanço no parquinho
a escola de samba, o samba enredo e as sandálias da passista.
Comprou a voz de quem perdeu a coragem
a alegria de quem já não tinha muita.
A falta de pudor
e a valentia dos que usam armas.
O dinheiro comprou o passe do jogador
o nocaute do lutador
e o brilho nos olhos dos que vieram para espetáculo.
Comprou a epifania das almas
e as faltas de todos os mistérios.
O dinheiro só não comprou o gosto da fruta roubada no pé
os olhos com que você me olha
as pontas de seus dedos
e os versos do poeta.
Punta del Este
Todos os homens do poder
a vaga no leito do hospital
e a da universidade também.
Comprou o sapato de salto alto
o chinelo de dedo
a sombra na praia
a vida opaca.
O dinheiro comprou as bolhas do champanhe
a cachaça, o carrão, a bicicleta,
o cansaço dos que perderam o encanto.
Comprou a cadeira de balanço na varanda,
a piscina que ninguém entra
o protetor solar, a falta de ar,
O gozo da prostituta, o amor da amante,
o silêncio das esposas.
O dinheiro comprou o sorriso da comissária first class,
o balanço no parquinho
a escola de samba, o samba enredo e as sandálias da passista.
Comprou a voz de quem perdeu a coragem
a alegria de quem já não tinha muita.
A falta de pudor
e a valentia dos que usam armas.
O dinheiro comprou o passe do jogador
o nocaute do lutador
e o brilho nos olhos dos que vieram para espetáculo.
Comprou a epifania das almas
e as faltas de todos os mistérios.
O dinheiro só não comprou o gosto da fruta roubada no pé
os olhos com que você me olha
as pontas de seus dedos
e os versos do poeta.
Punta del Este
domingo, 1 de março de 2015
O melhor momento do amor
Para o escritor aventureiro Casanova (1725 a 1798), o melhor " momento do amor é quando estamos subindo as escadas". Desde a idade média a literatura reforça a fantasia do "estar por vir", centrada fundamentalmente no quadro da corte amorosa.
Numa interessante entrevista, Foucault ( teórico social 1926 a 1984), fazendo um paralelo com essa frase de Casanova, a recria: "o melhor momento do amor é quando o amante está indo embora de taxi".
Casanova falava do amor heterossexual e Foucault do amor homossexual, onde vislumbrarmos a distinção entre como os pares podem diferenciar a vivência desse sentimento no tempo ( do pré ao pós, do mediato para o imediato), muito mais por razões sociais do que por razões genêro propriamente ditas. Vale a pena acompanhar nesse link um pequeno trecho da entrevista, tendo como pano de fundo os poemas masculinos homoeróticos de Konstantinos Kaváfis ( escritor e poeta Alexandrino - 1863 a 1933) http://blissnaotembis.blogspot.com.br/2013/09/poemas-eroticos-de-konstantinos-kavafis.html
E para os desejos que não se realizaram:
Como belos corpos mortos que não envelhereceram
e foram encerrados, com lágrimas, em magnífico mausoléu,
com rosas nas cabeças e jasmins nos pés -
assim se lhes assemelham os desejos que passaram
sem se realizar, sem que nenhum
alcançasse uma noite de prazer, ou sua manhã luminosa.
DESEJOS de Konstantinos Kaváfis.
Numa interessante entrevista, Foucault ( teórico social 1926 a 1984), fazendo um paralelo com essa frase de Casanova, a recria: "o melhor momento do amor é quando o amante está indo embora de taxi".
Casanova falava do amor heterossexual e Foucault do amor homossexual, onde vislumbrarmos a distinção entre como os pares podem diferenciar a vivência desse sentimento no tempo ( do pré ao pós, do mediato para o imediato), muito mais por razões sociais do que por razões genêro propriamente ditas. Vale a pena acompanhar nesse link um pequeno trecho da entrevista, tendo como pano de fundo os poemas masculinos homoeróticos de Konstantinos Kaváfis ( escritor e poeta Alexandrino - 1863 a 1933) http://blissnaotembis.blogspot.com.br/2013/09/poemas-eroticos-de-konstantinos-kavafis.html
E para os desejos que não se realizaram:
Como belos corpos mortos que não envelhereceram
e foram encerrados, com lágrimas, em magnífico mausoléu,
com rosas nas cabeças e jasmins nos pés -
assim se lhes assemelham os desejos que passaram
sem se realizar, sem que nenhum
alcançasse uma noite de prazer, ou sua manhã luminosa.
DESEJOS de Konstantinos Kaváfis.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Wonderful tonight
Foi inevitável. Não esperava ouvi-la ali... naquele lugar improvável?
Uma manhã completamente azul de domingo não pode fazer com que pessoas chorem.
Mas ela não conseguiu. Mordeu o vão da mão esquerda, entre o polegar e o indicador, fechou os olhos e uma torrente começou a descer sem resistência, caudalosamente, invadindo com gosto de sal a sua boca, para que ela se recordasse de tudo. Vivendo de novo, mas de uma forma diferente, já sabendo que nem todas as estórias terminam bem.
Talvez todos tenham uma música que faça chorar. Essa é a minha.
Uma manhã completamente azul de domingo não pode fazer com que pessoas chorem.
Mas ela não conseguiu. Mordeu o vão da mão esquerda, entre o polegar e o indicador, fechou os olhos e uma torrente começou a descer sem resistência, caudalosamente, invadindo com gosto de sal a sua boca, para que ela se recordasse de tudo. Vivendo de novo, mas de uma forma diferente, já sabendo que nem todas as estórias terminam bem.
Talvez todos tenham uma música que faça chorar. Essa é a minha.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Meu nome é Cráudia
Vejam só no que me tornei: a Cráudia do Córgo. Isso tudo porque resolvi me estabelecer no sul de Minas Gerais, num sítio próximo à Córrego do Bom Jesus.
Se Gonçalves é Gonçarves, nada mais correto que Córrego do Bom Jesus seja Córgo.
Córgo que vem de córrego que pode virar corginho, se as águas continuarem baixando até terminarem num fiapo.
Desde que passei a frequentar essas paragens, estou aprendendo a me comunicar de um modo diferente. Não tanto na forma, mas na construção das perguntas, para que possa ter as respostas que preciso. Isso vale também para o sentido metafórico da coisa. Caso contrário, a resposta pode ser tal, de me fazer desembocar numa gargalhada brutal e o mineiro continuar me olhando com cara de ... mineiro. Nenhuma maldade nisso da minha parte, juro! Me vejo na condição de tão pouco ser feita entendida como ainda pasmar com a minha própria idiotice. Na verdade se rio, é de mim que o faço. Outro dia, numa conversa ( ou deveria ser prosa?) o mineiro tentava me explicar onde era a sua cidade. Perguntei se para chegar lá era preciso passar por dentro de Poços de Caldas. Ele me respondeu: "depende de onde ocê vem..." Lóoooogico!
Num outro dia estava tentando chegar em Maria da Fé, parei em um posto de gasolina de estrada e perguntei ao frentista "Moço, sabe onde fica Maria da Fé?" Ele respondeu "sei", virou as costas para mim e saiu andando. Precisei chamá-lo de volta e perguntar se sabia onde era o "caminho" para a tal cidade. Ahhhh.... bão!
Aprendi também a chegar na loja de material de construção e pedir canduite e apagador. Já tinha feito anteriormente tentativas de falar o correto. Deu tudo errado. A lista também inclui cifrão para pia e prego sem miolo.
Um vasto repertório de imagens veio acrescer o meu glossário. Coxar e descoxar as roscas em geral. A "contenteira" para explicar como os órfãos do seu Tiãozinho Branco ficaram felizes quando mandaram instalar a luz para todos, que teve que ser desligada logo depois do pagamento da primeira conta. Porque eles (a Bragantina no caso) "finge" que não está cobrando o padrão novo (o transformador) só que cobra "embolado" no meio da conta todo mês. E os órfãos quase contentes continuarão a viver de escuridão, mesmo que alguns acreditem que exista luz para todos.
Tem também a dupla Márcia e Mércia que aparece aqui em casa de vassoura, balde, escovão e ainda... cantam e riem o tempo todo enquanto trabalham porque estão me ensinando que a vida precisa de "divertição".
Com mineiro aprendi, também, que existe uma diferença enorme entre cair do cavalo ou ser derrubado por ele. Embora as duas resoluções conduzam a um só destino que é o chão, cair ou ser derrubado, implica numa infinidade de consequências para um cavaleiro, passando da auto estima para a culpa num só galope.
Uma mulher que encontro pelo meio da estrada, caminhando como eu, me diz logo a diante que vai 'aportá' por ali, na encruzilhada vira-se para trás e me chama para ir passear na casa dela qualquer dia desses.
Assim minha amiga, se resolver vir passear aqui em casa num desses dias e ficar perdida na estrada não adianta perguntar onde fica Córrego. Te olharão com ar ter interrogação, para te devolver: "Córgo"? E já treinada diga que vem na casa da Cráudia. Aposto como irão te perguntar ( antes de te dar a resposta...) se você é "minha parenta ou o quê..?". Pode ter certeza.
Ser mineiro não é estar inserido num território. Ser mineiro é ser dotado do mais adorável estado de espírito. É ser sujeito entendendor de muita coisa que não dá pra explicar direito.
Se Gonçalves é Gonçarves, nada mais correto que Córrego do Bom Jesus seja Córgo.
Córgo que vem de córrego que pode virar corginho, se as águas continuarem baixando até terminarem num fiapo.
Desde que passei a frequentar essas paragens, estou aprendendo a me comunicar de um modo diferente. Não tanto na forma, mas na construção das perguntas, para que possa ter as respostas que preciso. Isso vale também para o sentido metafórico da coisa. Caso contrário, a resposta pode ser tal, de me fazer desembocar numa gargalhada brutal e o mineiro continuar me olhando com cara de ... mineiro. Nenhuma maldade nisso da minha parte, juro! Me vejo na condição de tão pouco ser feita entendida como ainda pasmar com a minha própria idiotice. Na verdade se rio, é de mim que o faço. Outro dia, numa conversa ( ou deveria ser prosa?) o mineiro tentava me explicar onde era a sua cidade. Perguntei se para chegar lá era preciso passar por dentro de Poços de Caldas. Ele me respondeu: "depende de onde ocê vem..." Lóoooogico!
Num outro dia estava tentando chegar em Maria da Fé, parei em um posto de gasolina de estrada e perguntei ao frentista "Moço, sabe onde fica Maria da Fé?" Ele respondeu "sei", virou as costas para mim e saiu andando. Precisei chamá-lo de volta e perguntar se sabia onde era o "caminho" para a tal cidade. Ahhhh.... bão!
Aprendi também a chegar na loja de material de construção e pedir canduite e apagador. Já tinha feito anteriormente tentativas de falar o correto. Deu tudo errado. A lista também inclui cifrão para pia e prego sem miolo.
Um vasto repertório de imagens veio acrescer o meu glossário. Coxar e descoxar as roscas em geral. A "contenteira" para explicar como os órfãos do seu Tiãozinho Branco ficaram felizes quando mandaram instalar a luz para todos, que teve que ser desligada logo depois do pagamento da primeira conta. Porque eles (a Bragantina no caso) "finge" que não está cobrando o padrão novo (o transformador) só que cobra "embolado" no meio da conta todo mês. E os órfãos quase contentes continuarão a viver de escuridão, mesmo que alguns acreditem que exista luz para todos.
Tem também a dupla Márcia e Mércia que aparece aqui em casa de vassoura, balde, escovão e ainda... cantam e riem o tempo todo enquanto trabalham porque estão me ensinando que a vida precisa de "divertição".
Com mineiro aprendi, também, que existe uma diferença enorme entre cair do cavalo ou ser derrubado por ele. Embora as duas resoluções conduzam a um só destino que é o chão, cair ou ser derrubado, implica numa infinidade de consequências para um cavaleiro, passando da auto estima para a culpa num só galope.
Uma mulher que encontro pelo meio da estrada, caminhando como eu, me diz logo a diante que vai 'aportá' por ali, na encruzilhada vira-se para trás e me chama para ir passear na casa dela qualquer dia desses.
Assim minha amiga, se resolver vir passear aqui em casa num desses dias e ficar perdida na estrada não adianta perguntar onde fica Córrego. Te olharão com ar ter interrogação, para te devolver: "Córgo"? E já treinada diga que vem na casa da Cráudia. Aposto como irão te perguntar ( antes de te dar a resposta...) se você é "minha parenta ou o quê..?". Pode ter certeza.
Ser mineiro não é estar inserido num território. Ser mineiro é ser dotado do mais adorável estado de espírito. É ser sujeito entendendor de muita coisa que não dá pra explicar direito.
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