quarta-feira, 8 de novembro de 2023

É preciso cuidar do sonho

Começa a noite, seguramente o dia que tinha sido atravessado pelo sol ardente deixava ainda na terra batida e escalpelada, um bafo infernal. Eu olhava a lua crescente que se posicionava bem acima das folhas de palmeiras que cobriam a oca. Ao longe, um barulho surdo do gerador que funcionava apenas algumas horas no período noturno. Me sentei num pedaço de toco, estavam ali algumas poucas pessoas sentadas num quase círculo, como quem põe as cadeiras na porta de casa, um hábito remoto que vivi muitas vezes na minha infância interiorana. 

Eu não sabia quem eram aquelas pessoas, de uma certa forma careciam de apresentações dada a amabilidade com que recebem os que se aproximam. Já havia notado e ali confirmou-se: eles falam extremamente baixo, ninguém grita com ninguém. E como são silenciosamente educados! Não em uma posição de submissão, mas com uma naturalidade que vem do berço ou talvez do cesto.

O homem que narra diz que é preciso "cuidar do sonho". Essa frase tão bem posta me põe em estado de atenção. Sei das pessoas que dizem frases bem postas. São aquelas que têm estórias interessantes a serem contadas. Pergunto o que ele quer dizer com isso. Começa então a explicação. Adolescentes indígenas fazem um período de reclusão que pode durar de um a três anos. Meninos entram em reclusão aos 12 anos e meninas com a menarca. Durante esse rito de passagem permanecem sem contato interno ou externo. Permanecem recolhidos interna e externamente. Os contatos são limitados a quem traz a comida e a um orientador que irá ministrar os conhecimentos ancestrais daquela comunidade. Para Mutuá, meu interlocutor nessa estória e que ficou 3 anos recluso, esse momento representa um divisor de águas entre a criança e a vida a adulta. Segundo ele, esse período é fundamental para a estruturação do caráter. Ali serão sedimentados os preceitos para que o indivíduo possa pautar-se pela vida. Ali aprende-se o que deverá ser transmitido para as gerações futuras, e alguns ofícios como por exemplo a escultura em madeira.  Quanto mais tempo de reclusão, mais respeito e reconhecimento o jovem tem perante sua sociedade local. Nenhum que se torne cacique recolheu-se por menos de 3 anos. Durante a reclusão é preciso "cuidar do sonho". Prestar atenção no que ele diz. O sonho vai ditar o futuro. No primeiro dia da menarca a menina sonha como será a vida dela, como um filme antecipatório do que reserva o futuro. O menino deve ficar atento aos sonhos no seu primeiro dia de reclusão, que trará elementos, também, do futuro que o aguarda. 

Quando a mulher anuncia que está grávida, o homem deve prestar atenção no que sonha após essa notícia.

Mutuá diz que quando sonha com perigo não sai da oca para nada. Fica recluso. Não vai para a mata, não vai para a caça.   Ele termina dizendo que gostaria de saber mais sobre Freud e Jung... Estarreço...

Eu gostaria de saber mais sobre essas comunidades indígenas que estão a um passo de extinção em razão do contato com nós, os brancos aculturados por recalques civilizatórios, geradores de  nossas neuroses, silenciosas ou ostensivas. Por nossas pretensões civilizatórias julgadoras que têm imposto ao longo da história uma aniquilação de tudo aquilo que deveríamos ter aprendido com natural simplicidade amorosa.

É preciso cuidar do sonho - Claudia Casimiro 



 




***quem me contou essa estória foi Mutuá, diretor da escola na Aldeia kuikuru, no Alto Xingu.

sábado, 5 de agosto de 2023

Dos meus amores


Eu não sabia nada de você. Aos poucos pelo muito que me dava, fui descobrindo sobre você e sobre mim mesma. Não me fazia falta o desconhecimento a teu respeito. Outros, que julguei algum dia ter conhecido, já me haviam causado tantos reveses, que desta vez eu estava disposta a ter só o que me chegasse de forma espontânea e aos poucos fui percebendo que me sobravam coisas, no sentido de que quando menos pedia mais tinha. E foi assim, de forma desinteressada interessante, fui aprendendo a te gostar. Quando dei pelos fatos , estava te amando sem nunca ter me apaixonado por você.

Ainda não encontrei nada mais esperançoso que cheiro de café sendo passado na hora. Algo em você, de total desinteresse em esperanças me dava algum conforto feito aroma de café. Não porque eu desejasse alguma constância e latitude mas é que você estava muito mais acostumado a voar que eu. De maneira que era fácil desacreditar de você, porque não havia céu, não havia azulidades. Era um voo às cegas.

E agora, quando tudo já parece calma, sinto uma sutil e generosa brisa vinda desses ares noturnos de quase final de fevereiro, uma busca de nada, um encontro de tudo.