Há dias o observava. Na contraluz somente lhe divisava a perfeição dos contornos, cabecinha, duas orelhinhas espetadas para cima, perfeitinhas. Sequer mexia-se. Passava suas manhãs estático a fitar o viveiro de pintinhos. Pelo alto, os passarinho lhe faziam mover apenas o região orbital dos olhos. Certamente esperava crescer e sonhava com o dia em que fosse gato grande e devoraria todos aqueles seres piantes, sem dó nem piedade. Por aquelas paragens ainda não havia aparecido ninguém que quisesse matricular precocemente o gatinho numa escola para aprender a ter respeito ético pelos demais seres viventes. Ou que lhe tentasse impôr limites morais de boa convivência, como por exemplo não matar o próximo, não sofrer de gula. Ninguém ali, por aqueles lados, o diagnosticaria como um perverso. Até porque por ali, psicanálise não chega nem perto do poleiro.
O gato podendo ser gato continuaria desejando matar passarinho, comer pintinho, não era preciso ensiná-lo desquerer através de mal logradas manobras de recalque, o que no frigir dos ovos, nada mais é do que deixar para lá...mas continuar querendo aquilo... até um dia ser devorado por iras, medos, arrependimentos, ataques de fúria, de pânico.
Ali, naquelas lonjuras, o gato estava livre para viver os seus instintos, a não sublimá-los e um dia com toda a certeza colocar seus desejos em garras, dentadas e sangue.
Tive notícias que o gato mudou-se para a cidade, afia as garras nas cortinas, foi castrado para ser protegido dos perigos rua e para viver mais...