quarta-feira, 9 de março de 2016

Viajar pela terra

Por uma estrada de terra carrego comigo toda a minha ancestralidade.

Carrego meu avô paterno, na direção, com chapéu de abas largas socado até as pestanas, colarinho abotoado até o último botão. Ao lado,  minha avó com um lenço amarrado no cabelo, preso com um nó em baixo do queixo, para evitar a poeira por certo, porque, não era mulher de tolas vaidades que temesse desmanchar o penteado. No banco de trás íamos tantos quantos coubéssemos, disputávamos as janelas a tapas (e  não literalmente). Íamos todos amontoados sem dispersar qualquer centímetro, viajamos com entusiamo como se estivéssemos indo sempre pela primeira vez, mas, íamos sempre para o mesmo lugar.
Meu avô, com o passar dos anos dirigia cada vez com mais lentidão, quem ia na porta do lado do passageiro ia arrancando com as mãos os capins da beira da estrada.

Carrego meu avô materno. Numa noite de chuva, no banco traseiro de um Karman-ghia branco, íamos eu e minha avó materna, essa sim, super vaidosa, cabelo ralo e desfiado de laquê até o último topete, óculos de grau com armação grossa, super vintage. Na direção minha tia recém habilitada, num carro que sapateava pelo barro, os vidros embaçados pelos vapores de nossas tensas respirações, ao lado meu avô que nunca dirigiu na vida, dando pitacos, indicando caminhos e procedimentos na escuridão daquela noite. Confesso que me sentia bem pouco segura com aquelas suas recomendações inabilitadas ...

Carrego meu pai. Ou nesse caso, ele me carrega, pois nunca me deixa dirigir o seu carro, diz que sou barbeira, que não sei dirigir na terra, talvez saiba em São Paulo, naquela terra de gente doida, mas aqui não!
E se põe a falar, contar estórias, emendando um assunto no outro. Felizmente, não preciso nunca me preocupar em responder nada! Ele já tem todas as respostas mesmo... Sou poupada, posso apreciar a estrada com tranquilidade, ver o dia bem cedo, prestar somente atenção nas entrelinhas do que ele me conta. Ouvi-lo declamar poesia entre um interregno de pensamento e outro. Postular sobre as sua teorias de vida (que são muitas...). Já sugeri e deixei na sua cabeceira um caderno para que fosse escrevendo seus aforismos... Conhece todos os personagens que passam por aquela estrada, sabe da vidas, das estórias e das agruras de cada um deles. Poucos souberam manter as terras herdadas, muitos tem agora uma velhice sofrida, com ares de cansaço, mas ainda conservam a disposição para uma prosa ou ficam felizes quando são visitados. Me dou conta que meu pai sempre foi um louco pouco varrido, que anda sempre com pressa, muitas coisas para resolver... (sempre!). Conserva até hoje uma vitalidade e uma crença invejáveis.  Faz odes à terra, declara seu amor à sua fecundidade. Não percebo a sua idade e imagino que poderia ter usufruído um pouco mais de sua companhia, se não tivesse me mandado para tão longe, para viver numa terra de pessoas que são "doidas"...

E gosto de dirigir por estrada de terra, principalmente se estiver sozinha. Vou  mergulhando em umas brumas de imagens poeirentas, curvas, e sentindo, me conduzo cada vez mais inteiramente por onde mora o meu interior.

Foto Paulo Kawall

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