sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Conceito alheio

Mundo conceitual. Diante de tantas possibilidades, diante de tudo de muito, fica difícil escolher. Não bastasse um mundo que tem muito de tudo, quanto você pensa que encontrou o que precisava, acaba caindo numa dúvida atroz e cruel diante das possibilidades, variedades e multiplicidades.

Outro dia entrei para tomar um cafezinho. Café, sabe o que é. A atendente não se deu por satisfeita com a meu simples desejo por um café. Disparou um arsenal de possibilidades e combinações ( aromatizado, coado, prensado, a vácuo, decantado, com ou sem cafeína, diversos tipos de grãos...). A cada momento que imagina estar chegado perto do fechamento de pedido surgiam novas variantes. Ela começou num tom professoral a me dar uma aula sobre as diversas formas de preparo do dito cujo,  fui me desligando da conversa e quase esqueci que tinha entrado ali somente para tomar um café.

Entrei numa padaria. Vieram na porta me buscar e sorridentemente me perguntaram se eu conhecia o conceito da casa. Eu só queria um pão. A coisa se repetiu. Antes que pudesse acessar o pão nosso de cada dia precisei ouvir uma missa sobre a casa, o pão, o fermento que era do tempo de Cristo. O pão não era nada de mais, meio igual, parecido, como os outros que já conheço...

Outra coisa que nunca funcionou para mim foi loja de departamentos. Dessas imensas que vendem de barco até dedal de costura. Vários andares, sobe para cá, desce para lá. Não consigo escolher nada. Saio em pânico e me sentindo levemente incapacitada para o consumo como é necessário ser para viver num mundo que te oferece muito de tudo.

O que dizem por ai, é que hoje em dia não basta consumir, você precisa viver uma "experiência" de consumo e para que isso aconteça... haja discurso para dourar a pílula!

E cardápio de restaurante então...!! É bom sentar com tempo e sem fome para se divertir lendo tudo o que está escrito.É tanta invencionice descritiva que aguça muito mais a falta de paciência do que as papilas gustativas.

Num mundo que tem tanto de tudo é preciso que cada coisa tenha seu "conceito" e que exista alguém por trás escrevendo esse conceito e outra na sua frente (com o texto muito bem decorado!) para te explicar o conceito que as coisas tem.

Foi notícia nessa semana, a faxineira que entrou  na galeria e limpou  toda "obra de arte conceitual", que era constituída de bitucas de cigarros, garrafas vazias, que  lhe lembraram um fim de festa. Foi metendo a vassoura e limpando tudo porque na hora da faxina não tinha ninguém para lhe explicar que aquele monte de lixo é coisa que gente bacana gosta de ver e de achar que está vivenciando uma  expressão artística.  E muito provavelmente a galeria deveria ser muito bem "conceituada" para abrigar obra tão "conceituada" de tão "conceituado" artista plástico.

Nessas de conceito, outro dia comprei um livro conceitual. O escritor é deficiente fisico e suas obras também vêm com alguma deficiência ( meu livro não tem capa, aparece toda a costura e colagem da lombada). Legal, gostei disso. Só que o livro minha gente (!!!), li de fio a pavio, e nunca nenhum livro me intrigou tanto: eu não entendi um dedo da história que ele pretendeu contar...

Me senti igualzinha a faxineira da galeria de arte.

E de conceito em conceito parace que está tudo meio desconcertado. A gente consume e descarta sem nenhum princípio de prazer e menos ainda de satisfação. É preciso inventar todos os dias novos conceitos para um mundo que tem sede, mas, que não sabe mais onde encontrar água.













quinta-feira, 29 de outubro de 2015

as minhas palavras fazem de mim o que elas bem querem
se não caso sentimento e palavra
é porque
um dos dois
foi viver livre
em algum outro lugar.



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O amor se perdeu
no meio do livros
dentro do álbum de fotografias
na cama desfeita
nas faixas do Long Play.
Se perdeu na espera
e também na presença.
Nos excessos
e na ausência de ausências.
Num domingo de sol
Numa quarta feira escura.
Nos nossos medos e na nossa falta de modos
O amor se perdeu e não pode mais ser encontrado.
E quando voltou, as portas estavam todas fechadas
não tinha ninguém na casa
na vida
e na alma
daquele que tinha saído pela rua
para procurar mais um novo amor.

Cartagena

terça-feira, 13 de outubro de 2015

HER


Imagine uma voz levemente doce, que parece estar sempre sorrindo quando fala com você, tem senso de humor (dos bons!), mesclado com pitadas de sensualidade. Essa voz que fala com você todos os dias, sabe tudo sobre as suas preferências alimentares, sociais e profissionais. Resolve as questões que entulham sua caixa de mensagens, a sua vida pessoal, despacha assuntos deixados ao sabor do acaso e por fim, mesmos sendo um sistema operacional inteligentíssimo, consegue o inusitado no dias de hoje: te emocionar.

Ele, que está do outro lado da tela, um pacato escritor de vida solitária, é o usuário desse sistema operacional. Tem uma vida relativamente organizada, sem sobressaltos ou emoções como convêm às vidas estruturadas pós modernidade. Com o passar dos dias, vai se estabelecendo um certo nível de intimidade pessoal, com a necessidade de falar com Samantha, cada vez com mais frequência (e o tom começa a apimentar-se...), num deleite estonteante dessa voz que é de Scarlett Johansson.

Mesmo sendo ela um sistema operacional dotado de inteligência artificial e mesmo sendo ele um escritor habituado a criação de um mundo ficcional o inevitável aconteceu: apaixonaram-se.

Não vou contar a história porque o filme merece ser visto. Deixo para que confiram.

O que me chama a atenção mais e mais, não é negar ou reafirmar os erros, riscos ou ineficiência das relações puramente virtuais. Não há como negar o mundo que estamos vivendo. O problema não está em eximir-se ou negar-se a essa nova modalidade de vivência. A questão é não perceber e se deixar levar pela enorme e insofismável capacidade do ser humano de fantasiar. Deixando de fantasiar talvez desista, também, modo 'continuum' de viver. Não posso crer que as donzelas ou donzelos de priscas eras não fossem também vitimados dessa capacidade ilusória, seja na insinuação de um tornozelo que despontava por debaixo de uma saia longa, fosse na espera de uma carta através de um mensageiro ou da visita de um pombo correio.

Fantasiar é tão humano como frustrar-se. E aí cada um ingere as doses que melhor lhes convenham. Saber lidar com essas contingências talvez seja a razão de nossos percalços, deambulações e buscas.

Só de brincadeira outro dia, resolvemos usar o "Siri" a mulher da Apple que sabe de tudo e responde todas as questões, tal qual a Samantha do filme "HER". A filha de minha amiga perguntou para Siri como a sua mãe poderia arrumar um namorado. Veio lá uma porção de links para sites de relacionamento. Eu, um pouco mais preocupada com as questões da engenharia doméstica perguntei para Siri quem poderia arrumar a cozinha aqui em casa, obviamente, ela me mandou uma lista com endereços de lojas onde se vendem máquinas de lavar louça...

C' est la vie!