Quando me perguntam "vai passar?" Respondo: não. "Quanto tempo vai durar?" Não sei. Não tem receita de bolo. "Vou ficar assim para o resto da vida, então?" Não.
O tempo é um lenitivo, não nos tira nada, apenas transforma. Você vai sobreviver porque algo em você deve garantir a pulsão de vida. É da ordem de ser natural, querer viver mesmo que em alguns momentos você não deseje nada além da morte. Por maior que seja a dor, a catástrofe, as perguntas sem respostas, as noites mal dormidas, algo em você vai determinar que você tente sobreviver.
Na nossa sociedade o luto transformou-se em algo que não pode ser vivido. A ordem é esquecer. E rápido. Nada de lamúrias intermináveis, nada de ficar lembrando de quem se foi. Enterra, doa as roupas, corre para o advogado para cuidar da papelada. Aliás, não corra atrás de um advogado, ele virá tocar a sua campainha se houverem bens a serem partilhados.
A verdade que ninguém te conta é que você vai sofrer, e muito. Mas tem algo ainda pior do que a dor de uma perda. O pior é o luto não elaborado. Passar pelo processo de elaboração é um caminho de idas e vindas, acertos e descompassos, altos e baixos, dor e muita saudade. Como não temos representação da morte, a nossa reação em consolar o outro passa por clichês respeitosos de pouca eficácia. A minha vivência de morte é que muitas vezes o melhor é ficar calada. Estar ao lado, dar um abraço talvez seja o tudo o que nos cabe para ajudar quem sofre.
A morte se fez presente na minha vida antes que completasse 22 anos. Primeiro, meu irmão, depois meu noivo. Com a diferença de 10 meses entre uma e outra morte. Ambas violentas, um assassinado o outro acidentado. Não havia com quem compartilhar essas perdas. Minha família sofria, cada um a sua maneira. Quando meu noivo morreu, senti-me ainda mais solitária. Não podia contar com os braços dos meus pais, eles tinham perdido um filho, não era justo que eu sofresse ainda mais que eles. Foram lutos de elaboração muito difíceis. Meu pai fechou-se. Nunca mais entrou na sala onde o corpo foi velado, manteve seu quarto arrumado como se ele pudesse algum dia voltar, recolheu as fotos pela casa, nunca mais lhe foi possível pronunciar o seu nome. Minha mãe, ao contrário, pudemos falar muitas e muitas vezes sobre o ocorrido. Nunca a vi chorando, exceto no momento em que veio ao meu encontro, eu, chegando de Ribeirão Preto, onde estudava na época, fui mandada buscar sem entender nada do que tinha acontecido. Nos abraçamos e choramos sem saber como seriam nossos dias dali para diante. Com o passar dos tempos pudemos conversar, a sós, muitas vezes, incrivelmente ela me disse numa ocasião que havia perdoado a pessoa que fez aquilo. Nunca fui capaz de tamanha grandeza e acho que não serei enquanto me for concedido viver.
Naquela época, ninguém falava em terapia pós luto. Quem aparecia eram os parentes, os vizinhos, o Padre. Amigas que eu esperava que aparecessem nunca vieram em contrapartida pessoas que jamais pensei, apareceram para apoiar, abraçar. Minha família enlutada foi emocionalmente foi incapaz de me olhar nos olhos quando a segunda morte aconteceu. Foram momentos de muita solidão, desespero e dor. Voltei para a faculdade, arrumei dois estágios, só chorava quando entrava embaixo do chuveiro, era o único momento em que conseguia entrar em contato com a minha dor. Passei mais de trinta anos esperando que ele voltasse. Ele voltava, nos meus sonhos que tenho até hoje, onde permanece vivo, não envelheceu, naturalmente, continua sendo o amor da minha vida.
Meu irmão, da mesma forma, nunca morreu nos meus sonhos, está igualzinho, sempre pergunto onde ele esteve esses anos todos, porque foi embora e porque nos deixou sofrer tanto se continuava vivo.
Como diz Freud, todo sonho é a realização de um desejo. Quando sonho, o meu desejo de vida para eles reaparece, aparece, e me escapa assim que abro os olhos, desejando sempre de maneira impossível voltar a sonhar.
Em "Luto e Melancolia" Freud traça um panorama de diferenciação entre essas dores e da importância de poder elaborar um luto para que ele não se torne sintoma. Nesse texto, encontramos essa definição de luto: “O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante”. Para algumas pessoas, esse luto ocupa o lugar de melancolia, ao que Freud suspeitou que essas pessoas possuíam uma disposição patológica, ao trocar o luto pela melancolia. O luto não deve ser considerado uma condição patológica ou submetê-lo a um tratamento médico. O luto pressupõe ser superado num determinado lapso de tempo, o que seria inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência sobre o seu curso.
A nossa sociedade impõe um modelo contrário ao preconizado por Freud. O "lapso de tempo" é algo que não existe na sociedade imediatista, pasteurizada, que nos arranca qualquer possibilidade de sofrimento. A demanda é que o tempo seja dominado por nossas vontades, passe sem ser percebido, de preferencia que voe e não deixe sinal de seu rastro. A dor de um luto não é autorizada ser vivida. Há, ainda, uma forte recomendação para que seja medicalizada. Medicalização da vida e da morte. O sofrimento, a perda, a dor vistos como algo da ordem do abominável numa sociedade que prima pelo bem estar e qualidade suprema de vida. Com a vida tão super avaliada não é difícil entender que a morte seja abolida, adquirindo um status de algo inexistente, como se pudéssemos de alguma forma nos arrancarmos de nossas estórias a sua passagem. É a ideia de apagamento. Como num jogo onde os dados são lançados sendo possível determinar quais casas iremos pular. Clinicamente "pular casas" representa um retrocesso em que algum momento de sua estória isso precisará aparecer. Tentar não sofrer agora, vai apenas parcelar o seu sofrimento para o futuro, como se fosse uma dívida no banco, daquelas que nunca terminam, as quais são impossíveis de serem quitadas. Dívidas roladas representam sintomas futuros. Ou na explicação de Ferenczi, um trauma é tudo aquilo diante do que não transitamos, um congelamento de um acontecimento do qual não conseguimos falar, uma cristalização.
Desejar não sofrer pode até ser uma reminiscência de nossa ideia de paraíso, uma lacuna de como tentamos lidar com a realidade bruta e fria que nos assusta. A vida, a morte, tanto quanto o futuro são incontroláveis, nos cabe apenas agregá-los como contingentes de nossas estórias e que não façamos tentativas vãs de "apagamentos". É preciso aprender a dizer de nossa vida (também!) a partir da morte. Alijá-la dos nossos processos afetivos não vai ajudar a passar a dor de forma meteórica. Contar nossas estórias é uma maneira de revivê-las com a possibilidade de "transitar" como diz Ferenczi.
Nunca antes na história desse pais tivemos tantas famílias enlutadas simultaneamente. Todos nos temos parentes, amigos, conhecidos vivendo a perda de alguém.
Escrevo para amenizar as minhas reminiscências, para entender os lutos de tantos nesse momento. Mais proximamente, escrevo para Isa, Carmem, Cecilia, Val, a mulheres mais próximas de mim que estão nesse momento lutando com o "luto".
"A vida não é a que a gente viveu e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la". Gabriel Garcia Márquez