Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
pensamentos outonais
Muitos preferem o verão. Quente, pestilento, chuvoso.
No outono não. As manhãs são azuis, as tardes acobreadas e as noites de céu limpo. Tempo de não decidir. De embrionar. De embrionar-se. A cidade fica linda, parecendo um filme. Paineiras, quaresmeiras e manacás florescerem.
O sol mais rente à terra cria uma luz de cinema para os corações que gostam de se apaixonar. Amores serenados, suaves e profundos, como a estação que está convidando a calarem-se.
Ritmo lento de preguiça, de maturações, de resguardo. Olhar voltado para dentro, onde se mora um eu, que em próximas estações se mostrará encolhido, florescido e depois frenético.
Maturando raízes para alimentar-se de inverno que não tardará a chegar, adormece de um sono esquecido, abre os braços numa temperatura morna, fechando os olhos vai continuando a sonhar.
Se acautelará com as primeiras impressões, observará, mas sem manter-se alerta, isso agora não é necessário. É tempo de entrega, de deixar que brotem os frutos nascidos debaixo do leito da terra, que será o caldo quente dos dias frios.
Na serra, neblina ao amanhecer avisando que o dia vai ser de sol, que a gente vai ter vontade de ser gato se enrodilhando, se espreguiçando nas nesgas daquele morninho. Fumaça branca que o vento sopra na saída da chaminé, cheiro de lenha queimando de um fogo que fica alumiando enquanto a gente continua pensando.
Pensando que não é hora de nada, que a vida segue seguindo, que nem é preciso remar. Que é bem hora de deixar o outono rolar.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
O encontro do meu amigo
Me contava um amigo, sobre o encontro que tivera com a ex namorada de trinta anos atrás.
Naquele tempo a amava. Mas, não foi capaz de resistir ao um encontro fortuito, que levado à público lhe custou o fim do relacionamento. A moça amada seguiu por um tratamento psicoemocional. Nunca mais se viram.
Sentia-se culpado, isso o incomodava e ao mesmo tempo motivava esse novo encontro. A preocupação dela, por outro lado, foi informar-lhe via email, de que estava muito envelhecida.
Enquanto me contava essa estória, concluía num monólogo solitário de que ela teria sido hoje a mulher que ele imaginava ao seu lado, nessa fase mais mansa de sua vida. Artista plástica, conhecedora de todos os recantos do mundo, culta, vivendo no exterior, casada com um cineasta.
Não interrompi meu amigo. Deixei que falasse e imaginasse como teria sido sua vida ao lado dela. Não lhe tiraria o devaneio, nem o transe de imaginar que o melhor é o que não aconteceu.
Naquele tempo a amava. Mas, não foi capaz de resistir ao um encontro fortuito, que levado à público lhe custou o fim do relacionamento. A moça amada seguiu por um tratamento psicoemocional. Nunca mais se viram.
Sentia-se culpado, isso o incomodava e ao mesmo tempo motivava esse novo encontro. A preocupação dela, por outro lado, foi informar-lhe via email, de que estava muito envelhecida.
Enquanto me contava essa estória, concluía num monólogo solitário de que ela teria sido hoje a mulher que ele imaginava ao seu lado, nessa fase mais mansa de sua vida. Artista plástica, conhecedora de todos os recantos do mundo, culta, vivendo no exterior, casada com um cineasta.
Não interrompi meu amigo. Deixei que falasse e imaginasse como teria sido sua vida ao lado dela. Não lhe tiraria o devaneio, nem o transe de imaginar que o melhor é o que não aconteceu.
sábado, 16 de agosto de 2014
Mana-caetana
Ela me leva pra cada lugar... Tínhamos programado conhecer o lugar qualquer dia. Um dia, sei lá quando. Ela decidiu que o dia tinha chegado. Me pegou de supetão, sem roupa e sem mala e decidiu que me emprestando umas calças, umas camisetas, sapato não porque tem o pé maior que o meu, rumamos. Os pormenores do caminho deixo para outra ocasião senão a viagem fica longa.
Ela sempre quer mais. Ir mais além, caminhar mais, conhecer mais, ou seja, é uma daquelas pessoas que otimizam tempo e espaço. Nunca se contenta em chegar até a fronteira, precisa passar para o lado de lá. Vai contando estórias e me iludindo, e iludida vou seguindo os seus passos. Tem a hora que empaco, aí ela segue sozinha, volta depois (ainda animada! que desespero!!) com novas estórias para contar e vai me engambelando tudo de novo.
Ela tinha lido em algum lugar que tinha um tal lugar que tinha um tal spa orgânico, sei lá onde direito, mas não deve ser longe daqui. Pergunta daqui, pergunta dali, é isso!! Vamos para lá, relaxar, fazer massagem, ficar no meio da natureza. Sim, ela só acertou o "no meio da natureza".
O motorista do taxi anunciou: é aqui! Onde? Eu só via um riacho e uma mata para o lado de lá. Alí. Com braços fortes transpôs a malas riacho acima, atravessamos pelo meio de uma quiçaça, e encontramos uma estrada que a setecentos metros adiante ficava o tal spa orgânico. Ainda bem que a mala emprestada tinha rodinha, fui arrastando pela poeira, onde aparecia aqui e ali plaquinhas escritas à mão com letras coloridas com dizeres: seja gentil e educado, não maltrete os animais eles também são gente, aproveite a beleza do caminho, não provoque incêndio segure as pontas, não faça cocô no mato. Fomos recebidas uma mocinha de calças rubras até a canela, camiseta veinha, cabelo cortado com prestobarba, sorriso lindo e olhos macios. Aah.... a Flora (esse era o nome da dona do spa orgânico e não poderia ser outro) não está, foi viajar, mas se quiserem podem ficar, comer? Aaah... não sou muito boa de cozinha mas posso dar um jeito, ver o que tem por aí. Massagem também não fazia não. Isso também era com Flora mas, nos ofereceu uma terapia nativa.
Deixamos nossas coisas numa casinha lá no meio mato, tomei o cuidado de olhar em baixo das camas, examinar os vãos das portas, sacudir as cobertas e fomos para a tal terapia, pois precisava ser antes do sol se pôr. Na beira de um rio rasinho, forrado de pedras no fundo parecendo uma piscina na Toscana ( preciso sempre criar mecanismos que me retirem da realidade... tenho esse problema...), nos entregou uma bacia de plástico ( não orgânico) com pedaços de babosa para esfregar a gosma pelo corpo, tinha outra tigela com argila já seca, retirada da beira do rio que servia para passar pelo corpo por cima da gosma e ir para o sol se secar até trincar a argila. Uma sauna parecendo um iglu de barro, um panelão sobre o fogo fervendo de ervas com um tubo que levava o vapor para dentro do cubículo fechado por uma cortina de chita, completava a cena. Julho, sol se pondo, frio, agora entra na sauna e depois pula no rio. O capiau que acendeu a sauna nos mostrou uma corda presa na árvore que se lançando te jogaria no meio da água. Sem saber nadar, tendo pânico em pisar onde não enxergo e com medo de sofrer um choque térmico e ficar com a boca torta no meio daquele fim de mundo, confesso: a terapia me fez bem. Começava a me sentir parte daquela natureza exuberante, que deveria ser o nosso habitat natural se não tivéssemos escolhido fincar o pé no asfalto. O final disso tudo, já com a noite se anunciando, era besuntar o corpo com óleo de gergelim (esse sim orgânico!!!), socado artesanalmente, o aroma não me agrada mas o resultado é uma pele lisinha e sedosa mesmo anos luz da juventude.
Subimos rumo a nossa casinha no meio do mato para vestir roupa mais quente. Examinei em baixo da cama de novo, tomei o cuidao de fechar bem as frestas. Passamos por de baixo de uma árvore que solta aqueles sementes de olho de tigre, guardei no bolso do casaco uma para mim e outra para dar de presente para Mana-caetana no final da viagem. Seguimos por uma trilha que indicava a grande roda, passamos por outra que indicava o caminho para o sagrado feminino, não enveredamos por ai. Seguimos procurando a grande roda, um aberto no meio da mata, formando um círculo com pedras, entramos caladas, ali não caberia nenhuma palavra, seguimos cada uma num sentido, nos encontrados do outro lado completando o círculo, permanecemos mudas olhando a mata à frente, o céu azul profundo com uma luazinha fina que nascia espreitando o mundo com delicadeza, uma única estrela no céu e um pássaro noturno, que não saberei aqui reproduzir, mas que certamente reconhecerei o seu canto, se um dia tiver a oportunidade de ouvi-lo novamente.
Ela sempre quer mais. Ir mais além, caminhar mais, conhecer mais, ou seja, é uma daquelas pessoas que otimizam tempo e espaço. Nunca se contenta em chegar até a fronteira, precisa passar para o lado de lá. Vai contando estórias e me iludindo, e iludida vou seguindo os seus passos. Tem a hora que empaco, aí ela segue sozinha, volta depois (ainda animada! que desespero!!) com novas estórias para contar e vai me engambelando tudo de novo.
Ela tinha lido em algum lugar que tinha um tal lugar que tinha um tal spa orgânico, sei lá onde direito, mas não deve ser longe daqui. Pergunta daqui, pergunta dali, é isso!! Vamos para lá, relaxar, fazer massagem, ficar no meio da natureza. Sim, ela só acertou o "no meio da natureza".
O motorista do taxi anunciou: é aqui! Onde? Eu só via um riacho e uma mata para o lado de lá. Alí. Com braços fortes transpôs a malas riacho acima, atravessamos pelo meio de uma quiçaça, e encontramos uma estrada que a setecentos metros adiante ficava o tal spa orgânico. Ainda bem que a mala emprestada tinha rodinha, fui arrastando pela poeira, onde aparecia aqui e ali plaquinhas escritas à mão com letras coloridas com dizeres: seja gentil e educado, não maltrete os animais eles também são gente, aproveite a beleza do caminho, não provoque incêndio segure as pontas, não faça cocô no mato. Fomos recebidas uma mocinha de calças rubras até a canela, camiseta veinha, cabelo cortado com prestobarba, sorriso lindo e olhos macios. Aah.... a Flora (esse era o nome da dona do spa orgânico e não poderia ser outro) não está, foi viajar, mas se quiserem podem ficar, comer? Aaah... não sou muito boa de cozinha mas posso dar um jeito, ver o que tem por aí. Massagem também não fazia não. Isso também era com Flora mas, nos ofereceu uma terapia nativa.
Deixamos nossas coisas numa casinha lá no meio mato, tomei o cuidado de olhar em baixo das camas, examinar os vãos das portas, sacudir as cobertas e fomos para a tal terapia, pois precisava ser antes do sol se pôr. Na beira de um rio rasinho, forrado de pedras no fundo parecendo uma piscina na Toscana ( preciso sempre criar mecanismos que me retirem da realidade... tenho esse problema...), nos entregou uma bacia de plástico ( não orgânico) com pedaços de babosa para esfregar a gosma pelo corpo, tinha outra tigela com argila já seca, retirada da beira do rio que servia para passar pelo corpo por cima da gosma e ir para o sol se secar até trincar a argila. Uma sauna parecendo um iglu de barro, um panelão sobre o fogo fervendo de ervas com um tubo que levava o vapor para dentro do cubículo fechado por uma cortina de chita, completava a cena. Julho, sol se pondo, frio, agora entra na sauna e depois pula no rio. O capiau que acendeu a sauna nos mostrou uma corda presa na árvore que se lançando te jogaria no meio da água. Sem saber nadar, tendo pânico em pisar onde não enxergo e com medo de sofrer um choque térmico e ficar com a boca torta no meio daquele fim de mundo, confesso: a terapia me fez bem. Começava a me sentir parte daquela natureza exuberante, que deveria ser o nosso habitat natural se não tivéssemos escolhido fincar o pé no asfalto. O final disso tudo, já com a noite se anunciando, era besuntar o corpo com óleo de gergelim (esse sim orgânico!!!), socado artesanalmente, o aroma não me agrada mas o resultado é uma pele lisinha e sedosa mesmo anos luz da juventude.
Subimos rumo a nossa casinha no meio do mato para vestir roupa mais quente. Examinei em baixo da cama de novo, tomei o cuidao de fechar bem as frestas. Passamos por de baixo de uma árvore que solta aqueles sementes de olho de tigre, guardei no bolso do casaco uma para mim e outra para dar de presente para Mana-caetana no final da viagem. Seguimos por uma trilha que indicava a grande roda, passamos por outra que indicava o caminho para o sagrado feminino, não enveredamos por ai. Seguimos procurando a grande roda, um aberto no meio da mata, formando um círculo com pedras, entramos caladas, ali não caberia nenhuma palavra, seguimos cada uma num sentido, nos encontrados do outro lado completando o círculo, permanecemos mudas olhando a mata à frente, o céu azul profundo com uma luazinha fina que nascia espreitando o mundo com delicadeza, uma única estrela no céu e um pássaro noturno, que não saberei aqui reproduzir, mas que certamente reconhecerei o seu canto, se um dia tiver a oportunidade de ouvi-lo novamente.
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
Menina de Ouro
Era uma menina de ouro. Caprichosa, delicada e aplicada. Ouviu a avó dizer que daria o piano de presente para quem chegasse e tocasse uma música. Tratou de tomar aulas e descobrir a música predileta da avó: um dia chegou, sentou e tocou "Danúbio Azul". Alguns dias depois os homens trataram de carregar o piano para o novo endereço.
O que para algumas pessoas é motivo de êxtase para outras pode ser um tormento. Foi o que esse "Zirmmerman" representou para mim. Por ela ter tocado Danúbio Azul, me foi imposta a condição de estudar piano por cinco anos sem nunca ter conseguido sair do preliminar, o que equivale a nunca ter saído do pre primário. Aquela professora de nariz comprido, unhas vermelhas e laquê no cabelo era o tormento que me aguardava duas vezes por semana. Para que meus pulsos não dobrassem sobre as teclas, munia-se de um lápis com ponta bem apontada que servia de sustentáculo para minhas mãos que nunca desejaram ser pianista. Escalas, solfejos, colchetes ou semi colchetes, claves de sol, fá ou seja lá o que fosse, lápis espetando meus pulsos nada disso conseguia botar melodia nessa minha inabilidade musical.
Surgiu pela cidade uma mania muito estranha de se usar colar feito de macarrão (crú, tá?). A técnica consistia e torrar o macarrão em formato de estrelinha, numa panela em fogo brando até que pegasse uma cor tostada. A partir dai metia tudo num fio e estava pronto o tal colar de macarrão. LINDO!!!
Era dia de aula de piano, lá fui eu com a minha pasta vermelha, com clave de sol dourada, as benditas partituras e claro, de colar novo. Aquele maldito lápis me espetando, aquela maldita aula que não acabava nunca, aquele laquê que não deixava um fio de cabelo fora do lugar, a minha inabilidade em trançar as mãos pelo teclado... foi fatal. Me enrosquei de tal forma pelo colar novo que o dito cujo arrebentou bem em cima daquelas teclas, voou macarrão pela sala toda e ela com um pincel na mão tentando salvar as teclas do macarrão e depois de quatro tentando limpar aquela sua sala mais imaculada que capela de internato. Foi o único dia feliz dessas minhas aulas.
Mudamos de cidade, eu me livrei do laquê mas, me arranjaram outra professora pior que a primeira. Nossa antipatia era crônica, recíproca e verdadeira. Ela odiava ser professora e eu mais ainda ser aluna. Sem declararmos guerra, mantínhamos um relacionamento bélico velado, até que um dia, criei finalmente coragem e fui ter uma conversa com o meu pai. Assumi que havia descoberto uma nova paixão. Ele me olhava de canto de olho, como faz até hoje quando não quer nos encarar de frente, finalizei argumentando que precisava de dedos fortes para jogar volley o que não combinava em absoluto com uma menina que não queria aprender a tocar piano. Suspirou aliviado por não ter sido o caso de lhe ter arranjado um genro e me liberou de imediato daquelas aulas. Terminava assim meu suplício que durou cinco longos anos.
O Maestro João Carlos Martins tem um projeto de educação musical e acredita que a criminalidade diminuiria se as escolas voltassem a ensinar música. Mesmo tendo sofrido pela música também concordo plenamente, Maestro. A única coisa que ele pede aos novos alunos é que não se exercitem por mais de quinze minutos diários. Só quinze minutos!!!!!. A novidade é que depois de um mês, os que descobrem o prazer pela arte, pedem para estudar além dos quinze minutos...
Numa dessas últimas tardes frias e infinitamente chuvosas, meu João me convidou para irmos à biblioteca pública aqui perto de casa. Caminhamos lado a lado dividindo o mesmo guarda chuva, enquanto caminhava, pensava em paixões e imposições, não lhe disse nada mas, esse convite foi seguramente o meu momento de ouro.
Ahhhhh... a menina de ouro continua sendo um primor, faz bolachinhas de nata como ninguém e, às vezes, quando vou visitá-la, senta ao piano para me brindar com "Petite Fleur".
O que para algumas pessoas é motivo de êxtase para outras pode ser um tormento. Foi o que esse "Zirmmerman" representou para mim. Por ela ter tocado Danúbio Azul, me foi imposta a condição de estudar piano por cinco anos sem nunca ter conseguido sair do preliminar, o que equivale a nunca ter saído do pre primário. Aquela professora de nariz comprido, unhas vermelhas e laquê no cabelo era o tormento que me aguardava duas vezes por semana. Para que meus pulsos não dobrassem sobre as teclas, munia-se de um lápis com ponta bem apontada que servia de sustentáculo para minhas mãos que nunca desejaram ser pianista. Escalas, solfejos, colchetes ou semi colchetes, claves de sol, fá ou seja lá o que fosse, lápis espetando meus pulsos nada disso conseguia botar melodia nessa minha inabilidade musical.
Surgiu pela cidade uma mania muito estranha de se usar colar feito de macarrão (crú, tá?). A técnica consistia e torrar o macarrão em formato de estrelinha, numa panela em fogo brando até que pegasse uma cor tostada. A partir dai metia tudo num fio e estava pronto o tal colar de macarrão. LINDO!!!
Era dia de aula de piano, lá fui eu com a minha pasta vermelha, com clave de sol dourada, as benditas partituras e claro, de colar novo. Aquele maldito lápis me espetando, aquela maldita aula que não acabava nunca, aquele laquê que não deixava um fio de cabelo fora do lugar, a minha inabilidade em trançar as mãos pelo teclado... foi fatal. Me enrosquei de tal forma pelo colar novo que o dito cujo arrebentou bem em cima daquelas teclas, voou macarrão pela sala toda e ela com um pincel na mão tentando salvar as teclas do macarrão e depois de quatro tentando limpar aquela sua sala mais imaculada que capela de internato. Foi o único dia feliz dessas minhas aulas.
Mudamos de cidade, eu me livrei do laquê mas, me arranjaram outra professora pior que a primeira. Nossa antipatia era crônica, recíproca e verdadeira. Ela odiava ser professora e eu mais ainda ser aluna. Sem declararmos guerra, mantínhamos um relacionamento bélico velado, até que um dia, criei finalmente coragem e fui ter uma conversa com o meu pai. Assumi que havia descoberto uma nova paixão. Ele me olhava de canto de olho, como faz até hoje quando não quer nos encarar de frente, finalizei argumentando que precisava de dedos fortes para jogar volley o que não combinava em absoluto com uma menina que não queria aprender a tocar piano. Suspirou aliviado por não ter sido o caso de lhe ter arranjado um genro e me liberou de imediato daquelas aulas. Terminava assim meu suplício que durou cinco longos anos.
O Maestro João Carlos Martins tem um projeto de educação musical e acredita que a criminalidade diminuiria se as escolas voltassem a ensinar música. Mesmo tendo sofrido pela música também concordo plenamente, Maestro. A única coisa que ele pede aos novos alunos é que não se exercitem por mais de quinze minutos diários. Só quinze minutos!!!!!. A novidade é que depois de um mês, os que descobrem o prazer pela arte, pedem para estudar além dos quinze minutos...
Numa dessas últimas tardes frias e infinitamente chuvosas, meu João me convidou para irmos à biblioteca pública aqui perto de casa. Caminhamos lado a lado dividindo o mesmo guarda chuva, enquanto caminhava, pensava em paixões e imposições, não lhe disse nada mas, esse convite foi seguramente o meu momento de ouro.
Ahhhhh... a menina de ouro continua sendo um primor, faz bolachinhas de nata como ninguém e, às vezes, quando vou visitá-la, senta ao piano para me brindar com "Petite Fleur".
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