quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Segredos de família

Procuramos estórias para entender as nossas. Eu me lembrava daquela casa, da sua posição em relação ao sol, do alpendre lá do alto de onde as visitas eram recebidas e despedidas. Da alegria com que éramos recebidos pelas pessoas que eram antigas e passavam tempo demais no campo. Tinha tentando encontrá-la por conta própria mas as plantações de cana roubam o relevo, mudam caminhos e fazem a gente desistir diante da monotuidade verde.

Quem construiu a casa cujas iniciais estão gravadas em seu frontão desde 1928, chegou muito antes disso faminto e sem um tostão no bolso desembarcado pelo Porto de Santos. Casou-se oficialmente com uma das cinco irmãs de minha avó materna e extraoficialmente... bem, não é possível ter estatísticas de coisas desoficiosas.

Uma das cunhadas enviuvou com penca de filhos e terras. Ele, naquele tempo já se fazia homem de dinheiro e experiência, entendeu por bem de direito amparar a cunhada enviuvada. Cuido-lhe bem. Dois anos depois sem marido ou vizinho, Tia Olivia se apresenta grávida. Aperta daqui e dali, a barriga crescida não teve jeito de esconder. Era exigência da família saber de quem era a criança. Nasceu lindo e sem saúde, que deveria de ser tristeza, morreu aos treze, o filho do cunhado, Tio Júlio, o espanhol faminto do Porto de Santos. Tia Olivia, a viúva grávida, permaneceu longos anos sem palavra de família, isolada por todos e principalmente pelas irmãs, sem notícia de parentes, exceto pelo meu pai, seu sobrinho, que  moleque galopava sem freios ou medos por aquelas terras sem fim. Até que com dezoito anos já se sentindo um pouco homem teve coragem de perguntar à mãe se não achava que já estava na hora de visitar a tia com sina de mulher perdida. Lá se foram os dois, meu pai mocinho e minha avó Mariana. 

Alguns anos depois, meu pai já bem mais crescido queria fazer negócio grande mas sabia que a gente tem que pedir pra àquele que na gente confia. Foi então ter com o Tio Júlio, no casarão da fazenda onde nunca deixou o casamento oficial com a tia Dita, onde continuou sendo o pai impoluto de outros dez filhos, com nenhuma mácula que lhe manchasse o terno bem passado à ferro de brasas. Quando meu pai lhe pediu a soma, o espanhol tigarreou de susto, perguntou o que ia fazer com tanto "dinero" . Precisava ter  certeza que o destino não seria a mesa de jogo ou a cama de mulheres. Emprestou-lhe pois. Meu pai saiu de lá com a soma no bolso, um sonho na cabeça e o agradecimento que precisamos ter na vida quando sabemos que alguém em nós confia.

Queria ver a casa, não por essas estórias, mas porque a lembrava linda, crescida em cima de um muro de pedras, com tulha fresca no porão e o alpendre suspenso de onde podia-se ver longe, olhar na direção do caminho que me levaria para São Paulo, lugar onde sem mesmo saber eu já havia escolhido para viver  minhas estórias e amiúde revisitar outras. 

A casa está abandonada, quem comprou as terras nem olhou para ela, preferiu construir casa nova, cheia de blindex ao lado.  A casa de dez quartos permanece com todos as janelas azuis fechadas ao lado de quatro modestas jabuticabeiras repletas de doçuras de onde roubei os frutos dessas memórias.




sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

INFINITA MORADA

Moro nos pássaros que invadem seu quintal procurando a alegria deles nas crianças

moro no vento enlouquecido de paixão saltando de árvore em árvore, de asa em asa

Eu moro no coração que vai atrás tentando agarrar suas rédeas, galopar nos seus lombos

 moro na pena que se soltou da águia para brincar de cocar na floresta

moro no cipó que arrebentou na mata

moro na poça d água que quer virar chuva

moro na chuva que quer virar flores

Eu moro no orgulho de Deus pelas costas dos negros, suas danças, seus sabores, seus louvores

moro nas naus, nas caravelas, nos mastros. nas velas, moro no vento que me leva na calmaria dos seus oceanos até o cais dos seus encantos.

Eu moro no gozo violento dos vulcões, nos confins distantes derretendo tudo a sua volta criando ilhas e montes

eu moro nas copas das palmeiras, na raiz dos carvalhos, nos ramos das oliveiras

moro no espaço que o colibri paira no ar

moro na flor que quer beijar

eu moro nos castiçais, nos vendavais, na pureza dos animais, nos sinos das catedrais, na manhãs dominicais

moro nos sobreviventes que matam sua sede nos espelhos das nascentes

moro nas pedras embaixo do lençol que desliza transparente

eu moro na gota de sangue do espinho que protege seu amor

eu moro nos altos dos cumes onde o mato pensa que conquistou o mundo

moro na abelha sonhando com o mais puro mel de sabores desconhecidos

eu moro na baga de trigo nos campos de ouro amarelo quase sol

moro na folha umedecida pelo amor da madrugada, no amor que nasce ao meio dia, arde a meia noite amanhece de olhos inchados de vergonha do sol

eu moro na espessura da sombra no arame enferrujado que ameaça a pele na culpa do amago de fel , no se esconder do inseto 

moro nas esquinas encruzilhadas, nos becos, nas estradas, eu moro

Moro na sede do buracos negros, no espirro do sol, na vaidade quasares, na tontura dos furações, moro nas constelações, nas estações, nos corações

eu moro num campo sem dono que tem um rio

moro num quintal com um jardim sem casa, moro nos braços cansados, nos dedos rudes do caboclo que afaga a viola

eu moro nos tambores da fanfarra, na guitarras, na vara do berinbau de vansconcelos violoncelos

moro no cavalo que empresta sua crina pro violino

moro no retinir dos sinos, moro nos paralelepípedos satisfeitos com as caminhadas

moro no desejo da virgem

moro no dente que nasce para morder o peito da mãe

moro no zelo da madre que conhece o amor, moro na miopia dos olhos sem nexo que procuram a menina, o menino no espirito sem sexo

eu moro na areia do deserto que reza ao vento pra se lambida pelo mar

moro na tristeza do alcorão pelos que não entenderam seu sermão

moro na dança das canetas dos poetas que se embriagam com lágrimas

moro no sabor do peixe do pescador cansado, moro no pão que envelheceu para encontrar a fome

eu moro nas lembranças dos riscos das paredes do cárceres

moro no miserável que encontrou um lugar pra por seu coração mas não tem onde encostar sua cabeça

moro em muitas moradas, agradeço ao pai com orações, moro, eu moro na criança abandonada que se encolhe em ventre se abraçando dentro de si, tentando entender porque não pode amar

moro no homem que perdeu o medo de si mesmo e anda descalço na chuva beijando os raios estremecendo com os trovões atravessando a névoa para chegar nos dias de sol

moro no homem que explodiu em 7 bilhões de pedaços e se juntando entendeu que tudo era ele, era Deus

moro no bom dia do estranho, no abraço sincero, no olhar fraterno. moro no pedaço de papel escrito que o verbo se fez carne para que toda carne se faça verbo

moro na verdade sobrepondo outra verdade, criando outra verdade que pode ser um caminho novo

moro no tempo envelhecendo com o céu

moro ali, por ai, dentro de mim, sem fim...

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o homem que me entregou esses versos não tinha casa, morava provisoriamente em um abrigo masculino de São Paulo . Primeiro declamou de memória, num único fôlego, depois me entregou uma folha de papel com esse texto declarando ser de sua autoria. Projeto  #leituracura

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

 Em cada chegada novas distâncias

Navegares incertos.

Certezas provisórias: manutenção de todos os mistérios.

Cada vida como ponto de partida de uma estória.

A promessa, como semente.

Somos todos contemporâneos nas raízes de nossos abismos.

Eis a grande sedução da vida.