Casablanca é uma palavra gostosa de se pronunciar, dá voltas à boca. Impossível não associar a cidade ao filme que a imortalizou. O filme é atravessado por muitas questões: a histórica, por ter sido lançado em plena Segunda Guerra Mundial, por detrás de seu aspecto puramente romântico fala sobre resistência ao nazismo. Nos fala também sobre ética quando Rick abre mão de seu amor por Llsa, concedendo-lhe o salvo conduto para que possa fugir dali com o marido. Mas o aspecto que me chama bastante atenção é o efeito de nossas lembranças sobre nossa psiquê e o quanto pretendemos perpetuá-las utilizando como instrumento nossas fantasias.
Sai de Lisboa no final da tarde e com uma horinha de voo estava em Casablanca. Teria pouquíssimo tempo, era preciso eleger rapidamente o que fazer. Minha primeira escolha recaiu sobre uma visita do "Rick's Café". Jantar no local não seria possível pois requer um pouco mais de organização com reservas antecipadas. Mesmo sabendo que o filme não foi filmado ali, que o local não passa de uma reconstrução do cenário, me deixo levar e emociono-me. O bar está localizado no primeiro andar, uma enorme mesa de jogo com tampo de vidro serve compartilhadamente os visitantes de última hora, ao fundo numa televisão antiga o filme fica sendo reproduzido para manter ativas nossas lembranças. O atendimento é cordial e meu Dry Martini estava indefectivelmente correto. O restaurante espalha-se pelo térreo e segundo andar, numa confluência de abóbodas com meia luz, velas, luminárias marroquinas e garçons de FEZ compõem a cena. É lindo.
No outro dia, a rápida visita matinal não corresponde aos nossos ideais românticos do filme e nos revela uma cidade com trânsito caótico, sem rotatórias com conversões permitidas em todos os sentidos dá para se sentir uma visitante kamikase. A Mesquita não mexeu com os meus sentidos, dava para perceber sem consultar o google que a construção era recente (terminou em 1993). A cidade é banhada pelo Atlântico e pelo menos por onde passei não consegui ver beleza onde construções invadem a areia, criando um feudo somente para os que podem pagar para frequentar a praia. Isso já diz bastante sobre a circunstância social de um país. Andando uns cinco quilometros pela orla é possível identificar que existe um ajardinamento em curso, milhares de palmeiras foram plantadas e ainda escoradas esperam sobreviver, calçadas revolvidas por máquinas e entulhos dão a impressão de um terremoto recente. É óbvio que, como em todos os países, principalmente onde a pobreza impera sobre a riqueza, existem algumas "bolhas" onde mansões permanecem fortificadas mantendo distância das mãos pedintes. No geral, minha sensação foi a mesma de estar transitando pela zona cerealista de São Paulo (que aliás gosto muito).
Realidade e fantasias se mesclam e se diluem no meu imaginário. Parece algo como desejar revistar antigas paixões diante daquilo que resta em nós puramente como lembranças. Não é incomum desejarmos revisitar amores do passado. As estórias revelam que muito do que conservamos como lembrança são condições especialíssimas daquele momento vivido (ou inventado?). Como num filme, é possível editar os melhores momentos, voltar para as cenas que mais gostamos, ouvir a trilha sonora e amalucar situações. Já ouvi em algum lugar que apenas amamos uma vez, no mais fazemos tentativas para que esse amor se repita...
A frase monumental de Rick "sempre haverá Paris", dá o tom e a nota do que é manter um amor que não pode ser vivido e terá que morar apenas em lembranças.
Continuarei a amar para sempre Casablanca, o filme.
Nesse momento em que escrevo, minhas malas ainda não chegaram, encontram-se perdidas entre Lisboa, Casablanca e São Paulo. Somente a realidade dirá se um dia estarão novamente comigo. Há muito aprendi que não controlamos nossas expectativas e talvez por isso enveredemos por lembranças, amores e malas que se perdem, sem saber priorizar a ordem dessas demandas.
Em tempo: esse voo é da Royal Air Maroc, o atendimento de cabine é singelo onde você não sabe se estão servindo o jantar, o café da manhã ou um lanche, vem de tudo na mesma bandeja. O comissariado é bastante simpático. A companhia oferece transfer, refeição e hospedagem por uma noite em Casablanca. As malas, como os amores, seguem o seu próprio destino.
