quinta-feira, 31 de março de 2016

Parreirais

Todas as casas da minha infância tiveram parreiras. Daquelas que dão uvas. Primeiro era um cachinho, bem miudinho, descoberto entre as folhas. A folha da parreira é peludinha num dos lados, gostoso de ficar passando os dedos bem de mansinho. Tem também aqueles enroladinhos que parecem umas espirais verdes, que vão se formando, igual um enroladinho de cipó.
Era preciso ter tolerância para ver aquele cachinho crescer e depois amadurecer. Vigiava todos os dias. Não contava para ninguém, subia no muro e ia dar uma olhadinha. Se um dos irmãos soubessem, iiii.... estava perdida! Arrancariam o cacho que eu estava esperando crescer, só para me sacanear.
Quando a calma permitia, era uma delícia poder comer a fruta que tinha esperado amadurecer em segredo. Sempre tinha um gomo que não vingava. Esse era o "gominho de Deus". Arrancava o gominho, deixava na madeira do forro da garagem e explicava pra Deus onde o tinha deixado, pra que ele viesse buscá-lo. Eu ainda não tinha incorporado o sentido da onipotência. Naquele ninguém era besta de mexer. Era pecado mortal. Além de tudo, o Papai Noel não trazia presente para quem desrespeitasse a norma.

Um dia, estava embaixo daquela parreira, acocorada em cima de um botijão de gás. Seguia minha mãe com os olhos, vestindo os varais com as nossas roupas lavadas. Ela sempre ocupada com alguma coisa da casa. Eu do nada lhe perguntei - e até hoje não sei como isso me veio à mente: por que é que as pessoas se casam?

Ela parou de fazer o que estava fazendo, o que era coisa bem rara. Minha mãe sempre foi o tipo de pessoa onde a obrigação vem antes da diversão. Olhou para mim, de um jeito pensativo, caminhou na minha direção e respondeu: "as pessoas se casam, porque se gostam tanto que não conseguem mais morar separadas".

Nessa breve e curta resposta, minha mãe criou em mim esperanças que até hoje, tendo eu o dobro da idade que ela tinha naqueles dias, não consegui desbaratar.

Mesmo sabendo que a junção dessas palavras não são garantias de uma performance satisfatória, acabei criando uma persecutória sinapse entre casamento, amor, morar junto.

De qualquer forma, até hoje me vejo sem resistências diante de uma parreira. É inevitável imaginar o que vai brotar dali, o que se esconde por entre folhas e o que amadurece docemente.





quarta-feira, 23 de março de 2016



Sou brasileira (acima de tudo), tenho formação jurídica, portanto, jamais defenderia atos contrários à Constituição Federal. Me reservo, no entanto, o direito de considerá-la em alguns artigos uma verdadeira piada...

Todo brasileiro deveria ter um exemplar em casa e principalmente LER!!!! Leitura altamente recomendada para todos aqueles que nela acreditam como se acredita em Deus. Cláusulas pétreas em forma de dogmas (e quem quiser, que acredite que as coisas são "exatamente" assim...)


Para quem nunca pegou uma CF nas mãos, pode começar pelo artigo 5 "todos são iguais perante a lei". Só que, num cochilo do legislador, faltou acrescentar " mas uns são mais iguais que outros".

Tem várias outras pegadinhas bem matreiras, porque, nunca é demais lembrar que as leis são feitas por homens. Isso quer dizer que quando estamos falando de ética ou justiça não estamos falando de leis. Leis são sancionados e promulgadas por esses mesmos homens que precisam ter garantias constitucionais para toda as sacanagens que executam, não mais na calada da noite, mas, em plenos clarões de nossa amada pátria mãe gentil. Exemplo disso: foro privilegiado.

Também não estou aqui defendo o "caos", num mundo onde não existam leis; onde todos possam fazer o que bem entendem sem que devam qualquer tipo de satisfação ou reparação à coletividade. Quero simplesmente dizer que dentro dos princípios legais "alguns" podem e os demais ( que somos nós) que se resignem...

Realmente, não vai ter golpe.

Num pais que vende combustível adulterado, remédio adulterado, dá pedaladas fiscais, patrocina eleições com dinheiro desviado de corrupção, me responde com sinceridade: você acredita mesmo que as nossas urnas eletrônicas são invioláveis???? Invulneráveis??? Claro, que são invioláveis, pelos mesmos motivos que vivemos num Brasil onde as leis FUNCIONAM para os pobres e RESOLVEM os problemas dos ricos.

Então, que tal a gente ficar combinado assim: não vai ter golpe e sim contra-golpe? Será que assim conseguimos agradar gregos e troianos?

Para o dia de hoje recomendo "Antígona", na voz de Creon ; "não é possível conhecer perfeitamente um homem e o que vai no fundo da sua alma, seus sentimentos e seus próprios pensamentos, antes de o vermos no exercício do poder, senhor das leis". Essa é a tragédia de Sófocles, século IV A.C, no grande dilema sobre o direito natural e o direito positivo (escrito pelos homens).
‪#‎leituracura‬.

O poder não corrompe, apenas mostra quem somos nós!

quarta-feira, 9 de março de 2016

Viajar pela terra

Por uma estrada de terra carrego comigo toda a minha ancestralidade.

Carrego meu avô paterno, na direção, com chapéu de abas largas socado até as pestanas, colarinho abotoado até o último botão. Ao lado,  minha avó com um lenço amarrado no cabelo, preso com um nó em baixo do queixo, para evitar a poeira por certo, porque, não era mulher de tolas vaidades que temesse desmanchar o penteado. No banco de trás íamos tantos quantos coubéssemos, disputávamos as janelas a tapas (e  não literalmente). Íamos todos amontoados sem dispersar qualquer centímetro, viajamos com entusiamo como se estivéssemos indo sempre pela primeira vez, mas, íamos sempre para o mesmo lugar.
Meu avô, com o passar dos anos dirigia cada vez com mais lentidão, quem ia na porta do lado do passageiro ia arrancando com as mãos os capins da beira da estrada.

Carrego meu avô materno. Numa noite de chuva, no banco traseiro de um Karman-ghia branco, íamos eu e minha avó materna, essa sim, super vaidosa, cabelo ralo e desfiado de laquê até o último topete, óculos de grau com armação grossa, super vintage. Na direção minha tia recém habilitada, num carro que sapateava pelo barro, os vidros embaçados pelos vapores de nossas tensas respirações, ao lado meu avô que nunca dirigiu na vida, dando pitacos, indicando caminhos e procedimentos na escuridão daquela noite. Confesso que me sentia bem pouco segura com aquelas suas recomendações inabilitadas ...

Carrego meu pai. Ou nesse caso, ele me carrega, pois nunca me deixa dirigir o seu carro, diz que sou barbeira, que não sei dirigir na terra, talvez saiba em São Paulo, naquela terra de gente doida, mas aqui não!
E se põe a falar, contar estórias, emendando um assunto no outro. Felizmente, não preciso nunca me preocupar em responder nada! Ele já tem todas as respostas mesmo... Sou poupada, posso apreciar a estrada com tranquilidade, ver o dia bem cedo, prestar somente atenção nas entrelinhas do que ele me conta. Ouvi-lo declamar poesia entre um interregno de pensamento e outro. Postular sobre as sua teorias de vida (que são muitas...). Já sugeri e deixei na sua cabeceira um caderno para que fosse escrevendo seus aforismos... Conhece todos os personagens que passam por aquela estrada, sabe da vidas, das estórias e das agruras de cada um deles. Poucos souberam manter as terras herdadas, muitos tem agora uma velhice sofrida, com ares de cansaço, mas ainda conservam a disposição para uma prosa ou ficam felizes quando são visitados. Me dou conta que meu pai sempre foi um louco pouco varrido, que anda sempre com pressa, muitas coisas para resolver... (sempre!). Conserva até hoje uma vitalidade e uma crença invejáveis.  Faz odes à terra, declara seu amor à sua fecundidade. Não percebo a sua idade e imagino que poderia ter usufruído um pouco mais de sua companhia, se não tivesse me mandado para tão longe, para viver numa terra de pessoas que são "doidas"...

E gosto de dirigir por estrada de terra, principalmente se estiver sozinha. Vou  mergulhando em umas brumas de imagens poeirentas, curvas, e sentindo, me conduzo cada vez mais inteiramente por onde mora o meu interior.

Foto Paulo Kawall

quarta-feira, 2 de março de 2016

Premir com suavidade
                    sentimentos

Tratar com doçura
                   emoções

Olhar para bem longe
com olhos de quem procura
                                encontrar...
Não acabar
                                 começar.

começar - encontrar - emoções -sentimentos

Amar de novo.