Era preciso ter tolerância para ver aquele cachinho crescer e depois amadurecer. Vigiava todos os dias. Não contava para ninguém, subia no muro e ia dar uma olhadinha. Se um dos irmãos soubessem, iiii.... estava perdida! Arrancariam o cacho que eu estava esperando crescer, só para me sacanear.
Quando a calma permitia, era uma delícia poder comer a fruta que tinha esperado amadurecer em segredo. Sempre tinha um gomo que não vingava. Esse era o "gominho de Deus". Arrancava o gominho, deixava na madeira do forro da garagem e explicava pra Deus onde o tinha deixado, pra que ele viesse buscá-lo. Eu ainda não tinha incorporado o sentido da onipotência. Naquele ninguém era besta de mexer. Era pecado mortal. Além de tudo, o Papai Noel não trazia presente para quem desrespeitasse a norma.
Um dia, estava embaixo daquela parreira, acocorada em cima de um botijão de gás. Seguia minha mãe com os olhos, vestindo os varais com as nossas roupas lavadas. Ela sempre ocupada com alguma coisa da casa. Eu do nada lhe perguntei - e até hoje não sei como isso me veio à mente: por que é que as pessoas se casam?
Ela parou de fazer o que estava fazendo, o que era coisa bem rara. Minha mãe sempre foi o tipo de pessoa onde a obrigação vem antes da diversão. Olhou para mim, de um jeito pensativo, caminhou na minha direção e respondeu: "as pessoas se casam, porque se gostam tanto que não conseguem mais morar separadas".
Nessa breve e curta resposta, minha mãe criou em mim esperanças que até hoje, tendo eu o dobro da idade que ela tinha naqueles dias, não consegui desbaratar.
Mesmo sabendo que a junção dessas palavras não são garantias de uma performance satisfatória, acabei criando uma persecutória sinapse entre casamento, amor, morar junto.
De qualquer forma, até hoje me vejo sem resistências diante de uma parreira. É inevitável imaginar o que vai brotar dali, o que se esconde por entre folhas e o que amadurece docemente.



