Quando era criança lá no interior, não existia livraria, nem banca de jornal. Existiam uns moços que vendiam livros de porta em porta. Minha mãe adquiriu o hábito de dizer que algumas pessoas verborrágicas, falavam mais que os vendedores de livros. Tinha o moço da Barsa que passava todo ano. O mundo pululava em novidades, era preciso uns aditivos de textos complementares para corrigir o descompasso da edição anterior. Tinha os livros culinários, uma coleção de cinco volumes, capa dura verde, com um exemplar totalmente dedicado a receitas que crianças podiam fazer sozinhas (desde que pedissem para que algum adulto acendesse o forno, é claro). Nem era preciso saber ler, todinho ilustrado, me lembro até hoje dos desenhos com as explicações. Minha clássica receita era "Tomates Doces ao Forno", um desperdício só, ninguém comia, ia tudo para o lixo, ficando a assadeira para lavar, até que minha mãe proibiu-me peremptoriamente de fazê-los.
Em casa tinha o "Mundo da Criança", alguns volumes ficaram todos despinguelados de tanto manuseio e uma outra coleção que não sei o nome, com ilustrações incríveis. Tinha capa dura raiada, cor de café com leite rosé, com letras azul marinho. Está em uma prateleira na casa da minha irmã mais velha e não resisto em paquerá-los cada vez que passo por eles. As vezes penso em surrupiar o volume que tem menininhas com corpinho de legumes e frutas. Nenhuma alusão às mulheres frutas de hoje em dia. A menina couve flor é a coisa mais meiga que já vi.
Com uma dessas coleções, veio de brinde, uns slides com um disquinho narrando a chegada do homem na lua. Teve várias sessões de cinema em casa, com a presença de todas as crianças da vizinhança. Todo mundo ficava mudo com boca aberta, assistindo aquele grandioso feito interplanetário. Os moços do filme usavam coturnos e eu usava botas (horríveis) ortopédicas, que me moíam os ossinhos do tornozelo.
Tinha também os vendedores especializados em títulos infantis e numa dessas meu pai adquiriu a coleção com vinte volumes, capa dura vermelha com letras douradas, de Monteiro Lobato. Eu já sabia quem era esse senhor, pois meu pai costumava nos brindar com a leitura do almanaque do Jeca Tatu. Um livreto que era propaganda do Biotônico Fontoura, que fazíamos fila indiana para tomar antes de cada almoço.
Como ninguém se interessava em ler o tal Lobato e meu pai não parava de reclamar o dinheiro gasto, decidi pôr fim ao falatório: acabei lendo a coleção todinha. Sorte a minha.
Mal sabia que minha relação com Monteiro Lobato perduraria nessa minha fase mais que adulta. Há uns quinze anos atrás, fui visitar uma amiga em Brasília, vitima por uma cirurgia mal sucedida. Carrego comigo o hábito interiorano de acordar com as galinhas, sou Jeca. Eis que então, acordo em um apartamento funcional, completamente desprovido de livros, numa casa onde as pessoas acordam tarde e não leem. Na sala repousava solitário o único exemplar da casa, em cima da mesa de centro. Dediquei-me a folheá-lo e me deparei com uma biografia do autor de Jeca Tatu. Mencionava os áureos tempos boêmios vividos ao redor do largo São Francisco, em São Paulo e o vertiginoso destino de levá-lo de volta, forçosamente, ao Vale do Paraíba para cuidar das fazendas de café, que o pai havia deixado em sua morte repentina. Aí é que, Monteiro Lobato declarava que se não fosse pela enorme biblioteca existente na fazenda, teria se matado. Foi salvo do suicídio pelos livros e me veio à mente: "leitura cura". Esse sonho dormiu nos meu braços por todos esses anos, acordando agora nesse novo projeto que é o Leitura-Cura.
Pelos livros também estive em vários lugares, viajando por linhas, sabores, aromas e amores.
Adquiri o hábito de catalogar cartas de amores possíveis mas cheios de impossibilidades. Clamores de apaixonados que pediam para serem perdoados, esquecidos ou aguardavam ansiosos a confirmação de mais um encontro mesmo que fosse o último e derradeiro. De enamorados que verteram lágrimas caudalosas, dos tímidos que se mantiveram em silêncio, das amantes que deram tudo de si mas foram relegadas por outra prioridade.
Descobri que livro novo cheira melhor que Versense; nutre mais que uma feijoada completa e te faz delirar muito mais que a erva do diabo de Castañeda. Que não cura dor de cotovelo, mas consegue te fazer entendê-la. Que te leva para qualquer lugar do mundo sem precisar entrar num avião. Nunca mais pude ver um homem saindo de um banheiro de aeroporto, sem imaginar se ele não poderia ser o marido sumido, que Rosa Monteiro perdeu no livro "A Filha do Canibal". Uma estória muito divertida de um casal exemplar que resolve viajar talvez para comemorar algo mais exemplar ainda. Ele entra no banheiro do aeroporto e nunca mais aparece. A esposa começa desolada, a procurá-lo percorrendo todos os caminhos que ele fazia enquanto ainda era um marido presente. Passa, então, a descobrir quem verdadeiramente foi o homem com quem dividiu tantos anos de casamento. Surpresas não muito agradáveis teve essa senhora.
Ou então viajar pelo interior de Portugal, comer todas as comidas de que fala Miguel de Sousa Tavares em "Rio da Flores". Sentir o cheiro das noites de outono, com perfume de flores ou quem sabe conhecer Pedro, aquele seu irmão rústico, sofrido e forte como são os homens que vivem da terra. Ou encontrar um amor estonteante como encontrou Bernardo, em "Equador", do mesmo autor.
Ter a poesia e a beleza com que se pode construir as palavras. Tentar imaginar para onde vai tudo o que não é dito, o que fica na ausência do dizer mas transborda na alma, onde mora os sentimentos que se guardam, em "Um Trem Noturno para Lisboa".
Prestar atenção no que diz Moacyr Scliar e Rubem Alves em "Conversas Sobre o Corpo e Alma": " é difícil extrair novidades de um poema, no entanto, a cada dia pessoas morrem miseravelmente, pela falta daquilo que ali se encontra".
Aprender que tudo o que não dissemos, porque não sabíamos como dizer ou porque ainda não tínhamos encontrado as palavras certas, alguém já disse, outrora, em nosso nome. Nominando sentimentos, descobrindo frases, encantando-se com a beleza, até naquilo que um dia pode nos ter feito sentir menores, do que efetivamente somos. Ou ter nos agigantado num tamanho que só os sonhos conseguem ter.
Estar sempre acompanhada, chorar e secar lágrimas com a ponta do lençol, frequentar festas de famosos sem ser convidada, hospedar-se nos melhores hotéis do mundo de graça, tomar um Dry Martini (de verdade!) no Ritz em Paris, por indicação de algum personagem que sabia das coisas e gostava de viver muito bem obrigado.
Caminhar pela Rambla de Montevideo, pensado que sorte seria a minha se de repente surgisse Eduardo Galeano caminhando com seu cachorro, na minha direção. Eu emudeceria, é claro!
Ser Lucrécia, por quem Pluto é apaixonado em cadernos de Don Rigoberto, de Vargas Lhosa.
Mergulhar no cheiros de quem mais sentia o gosto de tudo: Gabriel Garcia Marques. Nunca esquecer daqueles amantes em um de seus romances que fazem um combinado de viajarem escondidos uma vez por ano, enquanto viverem. Ou aquele velho solitário que esteve com todas as mulheres da vida, "Memórias de Minhas Putas Tristes", porque nunca pode ter de verdade, o amor que amou de verdade.
" Deitada em minha rede com o livro sobre meu colo
em êxtase puríssimo... não sou mais aquela menina
com seu livro, mas uma mulher com seu amante...!!"
Clarice Lispector
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
quinta-feira, 24 de abril de 2014
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Dirce
O dia começa a entrar em quietude. Passarinho canta diferente
quando está indo dormir. Fica mais suave. Um canta, o outro também e vão
orquestrando uma melodia harmoniosa.
Um martelo ainda bate ao longe. Vai aproveitando os últimos
claros. É preciso correr com a obra, amanhã tem muito mais.
Algumas vozes distantes, sem percepção das palavras, só
sons. Pausas. Gargalhadas.
Um cachorro late, arrependido
de ter nascido preso.
Ás seis da tarde é uma
hora fria. Algum fenômeno de resfriamento da terra, faz essa hora mais fria do que as que se
seguirão depois.
É hora de ausência. Talvez por isso rezem a Ave-Maria. Quando era criança, o sino batia as
seis badaladas da Ave-Maria. E como ainda não existia horário de verão, as
coisas aconteciam na hora certa. Era hora certa de escurecer e de bater o sino.
O sino batia também frenético quando era casamento e bem
pausado e pesado quando era luto.
As pessoas se guiavam pela batida do sino. Tinha também a
batida repicada de domingo, logo cedo, chamando a cidade para a missa.
Não existia essa estória de missa a qualquer hora do dia.
Não! Naquele tempo até missa tinha hora certa para acontecer.
As vidas eram pautadas pelo nascimentos, casamentos, luto,
formatura, batizado, primeira comunhão. Tudo acontecia na hora certa. As vidas se pareciam entre si.
Almoçar e jantar também tinha hora certa para acontecer.
Era um tempo em que também não existia divórcio. Nem
separação. A mulher era simplesmente “largada do marido”. E nessa condição penava
ela e penavam os filhos. Na sociedade
onde tudo tinha hora certa para acontecer, onde existia muito respeito, tinha,
também, aula de catecismo e de Educação Moral e Cívica.
Sim, nesse tempo filhos de separada eram deixados à margem.
Podiam ser colegas, mas não amigos.
Podia brincar na escola mas não eram
chamados para dentro de casa. Era mesmo uma sociedade com muito respeito.
A mulher largada do marido dificilmente casava-se de novo.
Em quem se aventurasse casava no Paraguai ou fazia contrato no cartório.
Casamento válido mesmo de verdade era o religioso. Só depois desse é que podiam seguir para a
lua-de-mel. Sim, nesse tempo existia lua-de-mel, que acontecia na hora certa,
pelo menos é o que falavam. E tinha também a camisola certa da hora certa.
Quem não agüentava esperar pela hora certa, fugia com o
namorado. Ou com o moço do circo.
Fugir com o namorado era muito comum nos sítios e fazendas
do interior. Acho que até rolava um combinado entre as famílias. Fugir significava
passar a noite fora e no dia seguinte aparecerem casados. Pobre naquele tempo em que as coisas aconteciam na
hora certa, eram pobres de verdade. Não tinham dinheiro para pagar as taxas de casamento. E não tinha
parcelado sem juros no cartão de
crédito.
Eu me lembro da Dirce, tadinha, uma mulata de olhos
esverdeados, bunda grande e sorriso aberto que foi criada por uma das minhas
tias. Naquele tempo criar significava trabalhar na casa como doméstica.
Uma noite, lembro que fazia bastante frio, a Dirce fugiu com
o namorado. Demorou uns três dias para aparecer. Minha tia não se conformava.
Ficou arrasada mesmo. Até emagreceu e ficou com uns olhos tristes de dar pena.
Naquele tempo onde as coisas aconteciam na hora certa, não
se falava de assunto de gente grande na frente das crianças. Daí que a gente
tirava cada conclusão...Mas o fato é que, por te vergonha de voltar ou por minha tia não aceitá-la mais em sua casa, minha mãe resolveu
ajudar. Aceitou a Dirce na nossa casa.....
Imagina o angú de caroço que virou essa estória.
Minha tia apareceu lá de supetão para falar com a Dirce. Muito abatida, saída amassada da
cama e minha mãe tentando botar panos quentes em tudo. Minha tia dizia que não
se conformava e minha mãe dizia que o mal já estava feito...Eu não entendia
nada sobre o mal, mas via que a Dirce andava feliz da vida.....Não houve
acordo. E eu, morta de medo de perder a Dirce.
Sempre gostei mais de cebola do que de bife. Vejam que sempre
tive dificuldades em fazer escolhas adequadas.
Quando chegava da escola, a Dirce me perguntava se queria bife e eu respondia que
só queria bastante cebola. Ela fazia uma frigideira inteira de cebola, bem
encardida, só para mim. Eu adorava
aquele sorrisão da Dirce me esperando na cozinha. E de cebolas.
Bom, minha tia apareceu de novo, numa outra tarde. Desta fez
mais recuperada e de roupa passada. Mais
calma e menos triste. Conversou com a Dirce, abraçou a Dirce e levou a Dirce
embora. E eu fiquei sem as minhas cebolas.
A Dirce não podia casar na igreja. Tinha fugido como o
noivo, então o Padre não casava. Teve almoço na casa da minha tia, mas não teve
vestido de noiva, nem sino batendo frenético, nem cebola frita.
Era assim, que as coisas aconteciam no tempo que as coisas
aconteciam na hora certa.
domingo, 6 de abril de 2014
eu era a única que sabia
Fico olhando o céu, aqui dessa janela. É outono aqui da janela do consultório do meu médico, no centro de São Paulo. Gosto bastante dessa época, as manhãs são lindas, as tardes um pouco mais frias. As pessoas parecerem que andam mais rápido para casa, é diferente de verão, quando dá vontade de ficar mais tempo pelas ruas. Mesmo sem se dar mais conta disso, nosso corpo vai pedindo um outro ritmo. Mais recolhimento, mais chocolate quente, aconchego e sofá. E sopra um ventinho lá fora, a secretária que nem percebeu em que ano estamos continua deixando o ar condicionado acionado. Ainda bem que vim de manga cumprida. Aqui dentro não tem nada de bonito. Tenho uma mania um pouco estranha de ficar reformando esses lugares feios. Vou quebrando paredes ( adoro isso de quebrar paredes), vou deixando entrar mais luz, pintando tudo, mudando esses quadros de lugar, detesto quadro pendurado errado. Ainda bem que tiraram aquele arraiolo bordado da parede, achava aquilo horrível. Tiraram mas deixaram os ganchinhos. Parece que houve pressa em levar aquela coisa feia embora. Já mudei o piso também. Nada no mundo combinaria com esse piso. Como hoje não estou afim de me atualizar com CARAS de gente feliz, começo a buscar o céu pela janela. Os prédios, com seus telhados mal cuidados não me envolvem mas tem umas nuvens passando ligeirinhas com o ventinho que está lá fora. Uma vem atropelando a outra, se misturando com os cinzas, juntando com outra mais fofinha. Depois vão se embolando todas, formando uns gomos gordos, se contorcendo. Mainha, diz que quando começa "encarneirar" é porque vai chover. E pesado. Eu não sei o que ela tem, que gosta tanto de fazer previsão do tempo. Se essa mulher do tempo soubesse como me tirou o chão daquela vez... Eu era bem criança e naquele tempo a gente ficava caçando coisa pra fazer no quintal. Os quintais da nossa infância era onde o mundo todo acontecia. Era tão raro passar um avião, que quando aparecia algum a gente fazia um escarcéu, berrando e chamando todo mundo que estava tocaiado em casa pra ver esse espetáculo e ia todo mundo correndo, acompanhando a rota, até ficar bem miudinho, sumir de vez e sumia com um monte de gente dentro.
Num desses dias de quintal, que já tinha me enchido de ver carreira de formiga, de tomar cascudo de irmão ou estava mesmo aborrecida de tanto ser criança e ter que brincar o dia inteiro, resolvi me refestelar no piso cimentado. E fiquei ali, olhando para aquele céu azulzinho, devia ser outono também. Não apareceu nenhum avião para me fazer de vitoriosa. Pois é claro, que a primeira pessoa que enxergasse o avião recebia um grande status no decorrer do dia, virava praticamente uma celebridade. Era o nosso mundo de "CARAS". Só que nesse dia, vi pela primeira vez algo ainda mais surpreendente, inusitado, emocionante: as nuvens an-da-vam!!!!! Um misto de encantamento, seguido de um imediato medo de fim do mundo me tomaram quase que simultaneamente. Corri alvoroçada a procura de minha mãe, dei de cara com ela na cozinha e sem fôlego anunciei essa minha grande e inacreditável descoberta. Ela simplesmente esperou que eu falasse, berrasse, anunciasse a minha grande conjectura, com prenúncios de fim do mundo, olhou desconexa para mim e falou calmante: "Hoje que você descobriu isso?!!" Virou-se para o fogão, com uma colher de pau na mão, dando conta de suas panelas. Tive tanta raiva dessa senhora...
Voando para Buenos Aires
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Tagarela
Era bom que tivesse chovido pra valer de madrugada. O dia amanheceu mais fresco, continuou nublado e não ia ter poeira na estrada. Chegamos um minuto atrasadas. Tínhamos marcado as sete da manhã daquele domingo. Uma caminhada de treze quilômetros, saindo da pousada da Marciana chegando até Três Barras.
Logo nos primeiros metros, somos convidadas a adentrar a mata conservada pela família da nossa anfitriã. Uma das poucas que restam naquelas paragens, ao lado de um fosso onde correu o trem que circulou por ali até final dos anos cinquenta, acredito eu. Vi famílias inteiras nos vagões acenando com um adeus e uma criança com um olhar perdido, sabendo que ficaria muito tempo longe da terra. Ainda tem Faveiro ali. Um santuário de cheiros e sons esse verde!
Tinha chão pela frente, mas a conversa era tão boa e a acolhida tão generosa que tudo se misturava ao simples prazer de caminhar. Antes de terminar o primeiro quilometro já tínhamos descoberto que éramos todas meio aparentadas. Uma confusão de casamentos entre famílias onde alguém sempre é primo de outro , fora os complicados emaranhamentos de casamentos consanguíneos. Todos os DNAs se misturando formando uma prole gigante. Vamos descobrindo semelhanças físicas, desenterrando memórias, juntando esse enorme quebra cabeça de nossas existências.
Essa caminhada, para mim, tinha um enorme significado. Passava por caminhos ainda de terra batida por onde circularam meus antepassados. Margeando o Ribeirão dos Porcos, onde meu bisavô paterno, com quatro filhas mulheres educadas como homens, criava porcos soltos pelo meio das abóboras que cresciam, também soltas. Alguns parentes ainda mantém seu pedacinho de chão por ali, que de tanto picar e repicar, acabou sobrando umas poucas léguas de terra, para aqueles que tiverem algum juízo em mantê-las.
Não muito longe dali, acredito que uns oito quilômetros em alguma direção, fica o lugar onde nasci e onde vivi até os meus cinco anos, de onde trago poucas lembranças, mas uma muito especial , que me acabou vindo como um presente no final dessa caminhada.
Passando por um sítio, uma de minhas irmãs disse que tinha estado ali recentemente com meu pai, que era de fulano de tal, filho de alguém, sobrinho do meu avô. Entramos para dar bom dia. Tive vontade de pedir a benção. Esse meu primo de segundo grau era como ver meu avô novamente. Senti que o reencontrei antes de chegar ao céu, com aqueles traços irrefutáveis que tem uma ala de nossa família, que nos fazem reconhecidos à distância.
Alguns dos caminhantes eram velhos de guerra nessa modalidade esportiva. Percebi que quem caminha tem muita estória para contar que vão surgindo tão naturalmente quanto a fluidez dos passos. Imediatamente acolhem quem está ao lado e seguimos todos sendo da turma. Nos alimentamos fartamente pelo caminho, com a generosidade das frutas que crescem e outras que são plantadas, nascendo às pencas como convém à natureza que o faz num processo tão silencioso e corriqueiro quanto encantador, nos oferecendo seus frutos todos embalados e higienizados.
Eu queria mesmo era chegar nas Três Barras, antiga parada de trem, onde havia a promessa de cerveja gelada.
Uma de minhas irmãs cansada dos pés, tendo andado dez quilômetros, aparece sentada na carroceria de uma pick up, de carona com um outro primo saído das páginas de literatura: Percival. Acho bem pouco provável que quem tenha lhe dado o nome conhecesse lendas. Parou, para da carreta mesmo, experimentar um naco da manga que eu tinha derrubado na pedrada. Seguiu feliz de carona com o cavaleiro da Távola Redonda, em busca nosso Graal: cerveja gelada.
Por volta de meio dia, num dia abençoado sem sol, já avistávamos a Venda da Três Barras. Alí nos instalamos, para nos primeiros dedos de prosa descobrir que dona do estabelecimento é Isabel. Filha do compadre Gumercindo que teve nove filhos e morou na fazenda onde nascemos. E dela, guardo a estória de uma boneca.
Minha irmã mais velha, ganhou de Natal uma boneca, mais alta que eu, sainha plissada, fita na cabeça e cabelo que seguia até os ombros, com franjinha. Não sei se andava, mas sei que FA-LA-VA!. Eu adorava aquela boneca. Tagarela ficou muito pouco tempo entre nós ou talvez pela intensidade do meu amor, achei que o tempo foi curto demais. Quebrou-se. Ou melhor, soube nesse domingo, que um primo bem mais velho a tinha quebrado. Entendi então, porque nunca consegui me relacionar com ele, sempre mantive uma distância enorme e nunca o considerei parente. Mistérios revelados do inconsciente que nos prega peças durante toda a vida. Minha irmã desinteressada da boneca que não mais falava a deu para Isabel. Tagarela foi reparada por um de seus irmãos e falou por mais algum tempo, além de piscar os olhinhos. Minha irmã, quando soube do consertamento quis a boneca de volta. Não houve acordo. Minha mãe cortou-lhe qualquer possibilidade de resgatá-la, disse que "deu tá dado" e com essas três únicas palavras criou um dogma irreversível na minha cabeça de criança de quatro anos. Mesmo tendo claro que Tagarela nunca mais iria para nossa casa, aceitei o veredicto de minha mãe mas nunca deixei de pensar nela.Meu úncio lenitivo era saber que estava em boas mãos. Uma das poucas coisas que me lembro dessa minha vida na fazenda, era ser levada pela mão de uma paje (não sei, mas acho que devia ser umas das irmãs de Isabel), para visitar Tagarela, numa casa que ficava beeeeeeeeeem lá pra baixo.
Há muitos anos atrás, aqui em São Paulo, entrei num antiquário e imaginem o que encontrei? Tive ímpetos de comprá-la para minha irmã, mesmo custando uma pequena fortuna. Mas não o fiz. Quanto tive a oportunidade de estar com esta minha irmã e contei-lhe o ocorrido, ela simplesmente me disse: "ainda bem que não comprou, eu nunca gostei de boneca". Diante dessa estarrecedora declaração, percebi, então, que quem amou Tagarela, pela vida toda, fui eu.
Isabel, fiquei muito feliz em te encontrar, teu zóio verde mareado de água salgada, um presente que me foi dado num dia de domingo, onde me veio a lembrança de termos partilhado o mesmo amor.
Prometo voltar.
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* Essa caminhada partiu do "Caminho Caipira", empreendimento de quatro mulheres corajosas no interior de São Paulo.
Logo nos primeiros metros, somos convidadas a adentrar a mata conservada pela família da nossa anfitriã. Uma das poucas que restam naquelas paragens, ao lado de um fosso onde correu o trem que circulou por ali até final dos anos cinquenta, acredito eu. Vi famílias inteiras nos vagões acenando com um adeus e uma criança com um olhar perdido, sabendo que ficaria muito tempo longe da terra. Ainda tem Faveiro ali. Um santuário de cheiros e sons esse verde!
Tinha chão pela frente, mas a conversa era tão boa e a acolhida tão generosa que tudo se misturava ao simples prazer de caminhar. Antes de terminar o primeiro quilometro já tínhamos descoberto que éramos todas meio aparentadas. Uma confusão de casamentos entre famílias onde alguém sempre é primo de outro , fora os complicados emaranhamentos de casamentos consanguíneos. Todos os DNAs se misturando formando uma prole gigante. Vamos descobrindo semelhanças físicas, desenterrando memórias, juntando esse enorme quebra cabeça de nossas existências.Essa caminhada, para mim, tinha um enorme significado. Passava por caminhos ainda de terra batida por onde circularam meus antepassados. Margeando o Ribeirão dos Porcos, onde meu bisavô paterno, com quatro filhas mulheres educadas como homens, criava porcos soltos pelo meio das abóboras que cresciam, também soltas. Alguns parentes ainda mantém seu pedacinho de chão por ali, que de tanto picar e repicar, acabou sobrando umas poucas léguas de terra, para aqueles que tiverem algum juízo em mantê-las.
Não muito longe dali, acredito que uns oito quilômetros em alguma direção, fica o lugar onde nasci e onde vivi até os meus cinco anos, de onde trago poucas lembranças, mas uma muito especial , que me acabou vindo como um presente no final dessa caminhada.
Passando por um sítio, uma de minhas irmãs disse que tinha estado ali recentemente com meu pai, que era de fulano de tal, filho de alguém, sobrinho do meu avô. Entramos para dar bom dia. Tive vontade de pedir a benção. Esse meu primo de segundo grau era como ver meu avô novamente. Senti que o reencontrei antes de chegar ao céu, com aqueles traços irrefutáveis que tem uma ala de nossa família, que nos fazem reconhecidos à distância.
Alguns dos caminhantes eram velhos de guerra nessa modalidade esportiva. Percebi que quem caminha tem muita estória para contar que vão surgindo tão naturalmente quanto a fluidez dos passos. Imediatamente acolhem quem está ao lado e seguimos todos sendo da turma. Nos alimentamos fartamente pelo caminho, com a generosidade das frutas que crescem e outras que são plantadas, nascendo às pencas como convém à natureza que o faz num processo tão silencioso e corriqueiro quanto encantador, nos oferecendo seus frutos todos embalados e higienizados.
Eu queria mesmo era chegar nas Três Barras, antiga parada de trem, onde havia a promessa de cerveja gelada.
Uma de minhas irmãs cansada dos pés, tendo andado dez quilômetros, aparece sentada na carroceria de uma pick up, de carona com um outro primo saído das páginas de literatura: Percival. Acho bem pouco provável que quem tenha lhe dado o nome conhecesse lendas. Parou, para da carreta mesmo, experimentar um naco da manga que eu tinha derrubado na pedrada. Seguiu feliz de carona com o cavaleiro da Távola Redonda, em busca nosso Graal: cerveja gelada.
Por volta de meio dia, num dia abençoado sem sol, já avistávamos a Venda da Três Barras. Alí nos instalamos, para nos primeiros dedos de prosa descobrir que dona do estabelecimento é Isabel. Filha do compadre Gumercindo que teve nove filhos e morou na fazenda onde nascemos. E dela, guardo a estória de uma boneca.
Minha irmã mais velha, ganhou de Natal uma boneca, mais alta que eu, sainha plissada, fita na cabeça e cabelo que seguia até os ombros, com franjinha. Não sei se andava, mas sei que FA-LA-VA!. Eu adorava aquela boneca. Tagarela ficou muito pouco tempo entre nós ou talvez pela intensidade do meu amor, achei que o tempo foi curto demais. Quebrou-se. Ou melhor, soube nesse domingo, que um primo bem mais velho a tinha quebrado. Entendi então, porque nunca consegui me relacionar com ele, sempre mantive uma distância enorme e nunca o considerei parente. Mistérios revelados do inconsciente que nos prega peças durante toda a vida. Minha irmã desinteressada da boneca que não mais falava a deu para Isabel. Tagarela foi reparada por um de seus irmãos e falou por mais algum tempo, além de piscar os olhinhos. Minha irmã, quando soube do consertamento quis a boneca de volta. Não houve acordo. Minha mãe cortou-lhe qualquer possibilidade de resgatá-la, disse que "deu tá dado" e com essas três únicas palavras criou um dogma irreversível na minha cabeça de criança de quatro anos. Mesmo tendo claro que Tagarela nunca mais iria para nossa casa, aceitei o veredicto de minha mãe mas nunca deixei de pensar nela.Meu úncio lenitivo era saber que estava em boas mãos. Uma das poucas coisas que me lembro dessa minha vida na fazenda, era ser levada pela mão de uma paje (não sei, mas acho que devia ser umas das irmãs de Isabel), para visitar Tagarela, numa casa que ficava beeeeeeeeeem lá pra baixo.
Há muitos anos atrás, aqui em São Paulo, entrei num antiquário e imaginem o que encontrei? Tive ímpetos de comprá-la para minha irmã, mesmo custando uma pequena fortuna. Mas não o fiz. Quanto tive a oportunidade de estar com esta minha irmã e contei-lhe o ocorrido, ela simplesmente me disse: "ainda bem que não comprou, eu nunca gostei de boneca". Diante dessa estarrecedora declaração, percebi, então, que quem amou Tagarela, pela vida toda, fui eu.
Isabel, fiquei muito feliz em te encontrar, teu zóio verde mareado de água salgada, um presente que me foi dado num dia de domingo, onde me veio a lembrança de termos partilhado o mesmo amor.
Prometo voltar.
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* Essa caminhada partiu do "Caminho Caipira", empreendimento de quatro mulheres corajosas no interior de São Paulo.
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