Ele queria chegar até a vila mas não pela estrada. Tinha que ser pelo meio do pasto, atravessando o rio, pulando a cerca. Para não contrariar e porque ele nunca tem tempo de vir comigo, aceitei sem regatear as suas condições. As vacas para mim não são animais sagrados. Elas me olham com uma cara de muito pouco caso enquanto mascam. Meus sapatos não são adequados, não gosto de pisar onde não vejo, com o capim até o joelho fica fácil pisar numa víbora adormecida. Elas são meu objeto de terror. Seguíamos e o dia quase indo. Quando penso que já tinha deixado para trás as cobras, o rio, as vacas, começo a ouvir latidos. Muitos latidos e cada vez mais próximo. Ele me diz que tem um sitio por onde temos que passar que tem muitos cachorros. Nessa hora estive ao ponto de cometer um infanticídio. Para que não me arrependesse de tê-lo matado, imaginei que pudesse subir em alguma daquelas árvores e ele que se virasse para ir na frente, chamar alguém para me resgatar. Diante dessa impossibilidade e julgando a possibilidade de ter que passar a noite enroscada numa árvore, cruzei os dedos em figa como fazia quanto criança na presença de cachorros, repetindo mentalmente "são-roque/são-roque/são-roque" e atravessamos os cães.
Liberta, começamos a conversar. Passou alguém a cavalo tocando uma vaca e ele me pergunta como era possível alguém pode viver num lugar daqueles, acordando e fazendo todos os dias as mesmas coisas, sem nunca ter saído dali para conhecer um outro mundo? Sugeri que quando encontrasse mais alguém pela estrada, fizesse essa pergunta. Mas que fosse sútil. Que começasse uma conversa pelas beiradas, puxando assunto devagar, de um jeito que parece que não sabemos mais como fazê-lo.
Não demorou muito e apareceu um cachorro preto, logo atrás com passos lentos uma senhora de banho recém tomado, dava pra sentir o cheiro de sabonete misturado com roupa lavada e secada ao sol. Estava agasalhada, ali sempre faz um friozinho. Falamos primeiro com o cachorro. Chamava-se "Negrinho". Ela começou contando que ele estava sem pelos nas ancas porque alguém fez a "mardade" de jogar água fervendo nele. Que ficou muito queimado e ela com pena do bicho começou a cuidar dele, passando pomada com cinza de fogão à lenha e assim ele foi se fazendo dela. Agora, num larga mais dela de jeito nenhum. Onde ela vai o Negrinho vai atrás. Depois apontou a casa onde morava, falou dos filhos que tinham ido embora pra cidade, do neto que aparecia nas férias. Por fim veio a pergunta, se gostava de morar ali? Vixe Maria! Nasceu e morou ali a vida toda. Teve um ano em que os filhos quiseram levá-la pra cidade, ela foi. Acabou adoecendo e teve que voltar. Ali, era bom demais porque era sussegadinho.
Convidou para ir passear na casa dela qualquer dia desses. Despediu-se com um "Deus acompanhe" e foi caminhando atrás do Negrinho.
Nós dois continuamos nossa volta para a casa, morro acima, dessa vez pela estrada de terra. Ali, o cachorro pode ser chamado de "Negrinho" sem que ninguém pense em fazer um boletim de ocorrência por preconceito em relação a uma etnia inteira. Ali existem algumas outras coisas que estão além e aquém de normatizações sociais. Existe um tipo de sabedoria de quem trabalha a terra e sabe como lhe é difícil tirar frutos se não existir uma dose generosa de paciência, resignação e amor. Ali, existe uma forma de viver onde o mundo intelectualizado não consegue adentrar, porque está tão saturado de hipóteses, percepções teóricas, onde o ser humano passa a ser invisível por falta de uma tese que o acompanhe.
Não dissemos mais nada sobre isso. Não sei se João teve a resposta que procurava, se percebeu esse momento ou se ainda é muito jovem para entender o que os velhos dizem. Todos precisamos de um tempo para viver, perceber, e é bom que isso venha aos poucos, sussegadinho, para que a gente não tenha pressa em "contrariar" a natureza.
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
terça-feira, 23 de maio de 2017
quinta-feira, 11 de maio de 2017
conhecer alguém
Conhecer alguém é algo para mim tão difícil de assimilar quanto compreender o contexto dessa simples frase. Que na verdade não tem nada de simples. Carrega em si algo tão vorazmente detentor de conhecimento como requer um certo semideusismo para atingir tão prodigioso feito.
Sou atacada também por essa dúvida quando ouço mães dizendo que conhecem os próprios filhos.
Eu não conheço o meu. Conheço dele algumas particularidades, nunca vou saber de fato como ele é com amigos, como dança numa balada, como dá seus passos na direção de outrem, quais são seus verdadeiros medos, inseguranças, por onde irá conduzir-se e retroceder tantas vezes quantas necessárias nessa vasta vida.
De suas particularidade lembro-me de uma que me era bastante útil para não perdê-lo de vista na praia. Mar para mim é para olhar. Eu não queira que ele tivesse esse sentimento diante das imensidões, por isso, quando me pedia para entrar na água, eu ficava na areia observando-o. De repente a praia começava a encher, as crianças ficam diminutas na água, como ele não é nenhum nórdico, ficava confundido com tantas outras cabecinhas de cabelos escuros. Sempre pensava porque ainda não tinham inventado um protetor com cores fluorescentes para que eu pudesse distingui-lo no meio da multidão. Ele tinha um jeito (e tem até hoje) de limpar a água dos olhos. Virava os dois punhos para dentro, abria os cotovelos em asas, espalmava os dedos abertos sobre a testa e passava a se livrar do sal no olhos. Era por esse movimento, por essa particularidade, que eu conseguia não perdê-lo de vista diante de imensidões.
Com o tempo ele foi adquirindo outras tantas particularidades. Agora, recém saído da adolescência me parece que outras tantas conheçam a surgir, sempre com caráter transitório, mudando ao sabor do dinamismo dos movimentos que a vida faz, nessa dança que é a nossa existência, onde parece que ao aprender um ritmo, alguém vem e troca a música só para nos fazer aprender um novo jeito de dançar. Tem andado por largas experiências, que bem pouco me dá relato, apenas posso perceber através de nuances de algumas particularidades, ficando com uma leve percepção sobre o homem em que ele está se transformando.
A maternidade vem carregada de muitos mitos sociais que transcendem em grandiosidade de perfeições principalmente nas datas de comemorações dos "dias da mães". O mundo talvez pudesse ser mais simples e os consultórios analíticos menos abarrotados se nos ensinassem desde o berço que tivemos e fomos mães possíveis, nunca mães perfeitas.
Sou atacada também por essa dúvida quando ouço mães dizendo que conhecem os próprios filhos.
Eu não conheço o meu. Conheço dele algumas particularidades, nunca vou saber de fato como ele é com amigos, como dança numa balada, como dá seus passos na direção de outrem, quais são seus verdadeiros medos, inseguranças, por onde irá conduzir-se e retroceder tantas vezes quantas necessárias nessa vasta vida.
De suas particularidade lembro-me de uma que me era bastante útil para não perdê-lo de vista na praia. Mar para mim é para olhar. Eu não queira que ele tivesse esse sentimento diante das imensidões, por isso, quando me pedia para entrar na água, eu ficava na areia observando-o. De repente a praia começava a encher, as crianças ficam diminutas na água, como ele não é nenhum nórdico, ficava confundido com tantas outras cabecinhas de cabelos escuros. Sempre pensava porque ainda não tinham inventado um protetor com cores fluorescentes para que eu pudesse distingui-lo no meio da multidão. Ele tinha um jeito (e tem até hoje) de limpar a água dos olhos. Virava os dois punhos para dentro, abria os cotovelos em asas, espalmava os dedos abertos sobre a testa e passava a se livrar do sal no olhos. Era por esse movimento, por essa particularidade, que eu conseguia não perdê-lo de vista diante de imensidões.
Com o tempo ele foi adquirindo outras tantas particularidades. Agora, recém saído da adolescência me parece que outras tantas conheçam a surgir, sempre com caráter transitório, mudando ao sabor do dinamismo dos movimentos que a vida faz, nessa dança que é a nossa existência, onde parece que ao aprender um ritmo, alguém vem e troca a música só para nos fazer aprender um novo jeito de dançar. Tem andado por largas experiências, que bem pouco me dá relato, apenas posso perceber através de nuances de algumas particularidades, ficando com uma leve percepção sobre o homem em que ele está se transformando.
A maternidade vem carregada de muitos mitos sociais que transcendem em grandiosidade de perfeições principalmente nas datas de comemorações dos "dias da mães". O mundo talvez pudesse ser mais simples e os consultórios analíticos menos abarrotados se nos ensinassem desde o berço que tivemos e fomos mães possíveis, nunca mães perfeitas.
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