sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Salva pelo sarau

Cabelos louros anelados com babyliss, vestido longo em tafetá rosa, voz titubeante, por vezes ressentida, falando ao microfone pela primeira vez na vida, maquiagem suave, bambeado sobre os saltos no recém adquirido o direito de usá-los. Foram dezessete anos usando chinelo de dedo. Ou chinelo de dedo com meia, como são calçados os pés das mulheres presas.

Flávia conquistou a liberdade há apenas dois meses, depois de dezessete anos encarcerada.  Hoje está como mestre de cerimônias num evento promovido para discutir a situação de mulheres encarceradas. O foco que me interessa precisamente nesse workshop é  a arte como instrumento de recuperação.

O menu artístico dentro de uma  penitenciária feminina São Paulo é guarnecido de aulas de artesanato com reciclagem de materiais, meditação,  sarau de poesia. Inúmeras outras atividades desenvolvidas lá dentro, de forma independente por voluntários autônomos que se dispõem a transmitir um pouco daquilo em que acreditam,  à título de receber absolutamente nada do que possa ser mensurado como troca,  aos olhos desse mundão de meu Deus. Os esforços desses voluntários em adentrar muro e grades  é tão hercúleo como o esforço que faz quem está dentro para sair. Inúmeras são as barreiras interpostas, burocracia administrativa, formatação do sistema prisional brasileiro, mentalidade pátria etc etc etc.

Mas Flávia está aqui! Equilibrando-se sobre os saltos, esse  ícone de imposição da feminilidade. Lê uma poesia de lavra própria. Pede licença e pergunta se "pode" falar uma "coisa":  relata que no fundo do poço, quando já não via mais possibilidade e nem mais  forças para sair da cadeia, foi "salva" pelo sarau. Descobriu através do sarau de poesia dentro da penitenciária,  um fiapo de forças que poderia ajudá-la a aguentar mais um pouco, a esperar pelo que nem mais acreditava ser possível. Veio a liberdade dois meses depois.

Então,  Jaime Queiroga, me lembro do Sermão da Sexagésima Hora de Padre Vieira. O semeador que sai para semear.  Lançando sementes, algumas nascem outras não,  outras frutificam no mais improvável dos lugares, num veio de pedra, quem sabe...  Assim  segue quem semeia, sem esperar que almas se salvem, mas que apenas uma ou única alma possa salvar-se. "...hão-nos de medir a semeadura e hão-nos de contar os passos. O Mundo, aos que lavrais com ele, nem vos satisfaz o que dispendeis, nem vos paga o que andais. Deus não é assim. Para quem lavra com Deus até  o sair é semear, porque também das passadas colhe fruto".

Link sermão: http://www.culturatura.com.br/obras/Serm%C3%A3o%20da%20Sexag%C3%A9sima.pdf

O filho de Flávia, nascido nos umbrais do cárcere,  tem dezessete anos e está na plateia.  Imagino que hoje esteja sentindo-se  também  liberto,  vendo a mãe iluminada pelos holofotes, no seu longo vestido rosa, "salva" pelo sarau do Jaime, para trilhar um novo caminho e, quem sabe descobrir mais adiante,  que os melhores passos são aqueles dados descalça, com o pé todo palmilhando o chão, sentindo o gosto que a terra tem.

Pensar  a arte como instrumento de transformação social  é sensibilizar-se para que o mundo venha a ser mais reflexivo, mais contemplativo, mais necessário, com outras possibilidades de escolhas, caminhar pela  não violência, dando à todos um mesmo ponto de partida e esperando que cada um possa se sentir intimamente satisfeito com a sua trajetória, na medida em que desperte para as suas potencialidades individuais. Quem não se reconhece como cidadão não tem a possibilidade de atuar como tal: paideia.

Grupo de Sarau Jaime Queiroga


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Cenas de aeroporto

Uma mulher que chora diante da tela, lá fora nem frio nem quente. Um homem na mesa à frente vestindo jaqueta Columbia, saboreia um café com espuma lentamente adoçado,  a observa e nunca saberá de que são essas lágrimas.

A garçonete explicando pra o gringo o que "és chico" e grande. Acenando com as mãos, movimento para cima és chico, para os lados és grande.  Ele entendeu rapidinho, eu não entendi nada.

A mãe alimenta o bebê com papinha,  o pai dorme de boca aberta na frente. Algumas pessoas te tratam bem mesmo sabendo que nunca mais te encontrarão.  Outras te ignoram completamente, como fazem diante da vida.

Garçons contam gorjetas e disso parece que se vivem. O pai dorminhoco mudou de mesa, o bebê ainda nem terminou a papinha. Ainda nem cresceu, ainda nem aprendeu falar primeiro papai do que mamãe.

A cordilheira lá fora está só nuances. Os japoneses comem com cara de nuvens.

Os abajures se acendem tornando a arquitetura padrão aeroporto internacional menos repulsiva. No telão um jogo qualquer de futebol pouco me importo pelo que correm e brigam.

A menina de  blusa rosa vem arrastando a mochila e mascando chicletes, também rosa. A família à frente nem come nem bem que tanto tentam acertar o foco do foto.

Casais nem se falam mais, olham-se a esmo.

Todo mundo aqui quer ir para algum lugar, chegar em algum lugar ou fugir de algum lugar.


domingo, 23 de novembro de 2014

Dry Martini

Eu, meu Dry Martini, meu Dry Martini e eu. O primeiro, que levou vinte minutos para chegar foi inteiramente sorvido entre a mesa, os jornais, a cadeira, o chão, a manga da minha camisa, minha calça, a bolsa. A garçonete gentil e trôpega desajeitou-se provocando o banho.

Volúvel que é, se evaporaria sem deixar aromas entre os meus pensamentos e meu índigo blue.

O segundo chegou em cinco minutos tentando desculpar-se pelo derramamento do primeiro. Sorvi-o como se sorvem as experiências lentas no tempo, duradouras como as coisa que veem para ficar.

Passado da metade é chegada a hora de devorar lentamente a azeitona.


Música: Dry Martini

domingo, 9 de novembro de 2014

Coincidência, será?

Era para ser sábado, simplesmente e nada mais que sábado. Sento para tomar o café da manhã e vejo a notícia de que ela estará aqui em São Paulo. Preciso sair correndo, o encontro será daqui há duas horas. Quantas vezes tinha imagino esse encontro?! ... e como tudo o que imaginamos acaba saindo sempre de outra forma...  No caminho fui pensando no que diria.  De uma coisa estava absolutamente certa: seria ao final da entrevista, quando tivesse a oportunidade de estar sozinha com ela. Ou talvez na hora do autógrafo fosse melhor? Tinha encontrado um livro de sua autoria, intacto na estante  que estava dentro da bolsa colada no meu corpo.

O auditório está lotado. De mulheres obviamente. Encontro um lugar na segunda fila, olho para a mesa de centro com pelo menos vinte obras de capas viradas para a platéia,  me sinto um pouco acuada, não li nenhuma. Li só aquela única crônica que me chegou por intermédio de uma amiga, tudo parecendo muito ocasional, cuja leitura me tirou o sono e era por isso estava vindo aqui hoje. Para agradecer.  Não por ter me tirado o sono mas,  pela transformação que os escritos são capazes de alcançar, onde quem lê e quem escreve nunca jamais terá a dimensão de prever, por mais que presuma entender as singularidades da vida.

Ela senta, de pernas compridas,  é bem magra, de uma franqueza clara diz que nunca planejou nada, nunca pensou em ser escritora, que nem mesmo sabe se é de fato. Considera-se uma mulher normal,  que empurra carrinho de super mercado três vezes por semana em Porto Alegre, leva e busca filho na escola, vai ao correio, faz pilates e em algumas horas vagas...  escreve.

Por conta do que  faz nessas suas horas vagas, foi que  li a tal crônica que falava sobre a Portaria 276 que prevê remissão de pena para presos que leem. Ela terminava escrevendo que "ler pode significar a liberdade". Então, aquilo que sempre acreditei por metáfora passava a existir num mundo real e  estava normatizado?!

 Acreditando no  poder de transformação através da literatura, essa que entre as artes é a meu ver,  a mais singela e humilde,  para que ser realize apenas precisa de um bom texto, uma voz que o leia e uma alma que o ouça. Através de simples rodas de leitura nascia o Leitura-cura, projeto que venho me dedicando no último ano, um processo de busca e encontros onde fica difícil divisar quem ajuda ou quem é ajudado. Estórias que mudam porque foram contadas ou porque  nunca foram ditas. Coisas que saltam de nossas memórias fazendo um paralelo ritmado com a nossas irrealidades.  No fundo no fundo,  vamos percebendo que somos todos iguais, só que com estórias diferentes.   E que curar-se depende muito mais de entender o que viveu do que nominar culpados. Entender a própria estória significa colocá-la como sua, indelegável.   Negá-la é o caminho certo para nunca mais sonhar. Libertos pelas estórias que ouvimos voltamos a sonhar novamente, sendo provável reescrever ou retomar às nossas próprias, no ponto em que as perdemos. Disso é feito o mundo mágico dos livros.

O encontro com a escritora não aconteceu como eu tinha imaginado, a platéia de mulheres não cessava de fazer perguntas, imaginei que acabada a entrevista, que já durava mais de hora e meia,  ela sairia correndo para tomar o próximo avião para Porto Alegre e tchau. Fui a última a falar, vencendo minhas resistências pessoais pedi o microfone e lhe agradeci publicamente. Achei que a ocasião assim o merecia. Obrigada então: Marta Medeiros por esse seu escrito que tem mudado todos os rumos da minha estória.

Para quem acredita que a vida é um acaso de coincidências, esse meu tão esperando encontro de agradecimento deu-se na Biblioteca São Paulo, justamente no Pavilhão 9, onde todos se lembram e para que não nos esqueçamos, de que onde existirem livros existirão menos prisioneiros.

Se não acredito em coincidências, acredito que um sonho bem sonhado vira uma estória de verdade.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

1968, um ano para não ser esquecido

1968. Um ano para não ser esquecido. Tempos felizes de jovens transviados, moças de mini saias e outras versões de vestidos "engana papai",  festas, efusão,  rock , flertes.
Essa condição feliz de uma mocidade que estava trilhando novos caminhos tinha também um lado "B".   Famílias que tinham filhos estudando em São Paulo ou parentes vivendo aqui, passavam em constante estado de angústia. As notícias, por questões óbvias, chegavam truncadas como uma brincadeira de telefone sem fio. Muitos se calavam, outros cochichavam que fulano tinha desaparecido. Muitos sabiam que investigações mais apuradas junto a autoridades competentes,  poderia implicar no seu próprio desaparecimento.  O silêncio foi sendo usado como  um mecanismo para salvar a própria pele.

Lembro na casa de meus avós paternos de uma mesa grande reservada para os adultos e outra separada na varanda para as crianças.  Meu interesse era por esse mundo adulto. Sempre dava um jeito de espichar as orelhas para saber do que falavam. Embora meu avô tivesse sido um homem apaixonado por política durante seus 97 anos de existência,  tendo participado ativamente da vida pública da cidade, nessa época de incio dos anos 70,  não me lembro de sequer mencionarem temas relacionados à política em  reuniões de família. Bem ao contrário. Certa vez ouvi um dos adultos dizendo que não se devia falar de politica em público.  No dia seguinte quis saber com a minha mãe o que isso significava. Ela simplesmente respondeu que quem falava sobre politica acaba desaparecendo.  Me deixando com muitas dúvidas passou a cuidar de algum afazer de ordem prática em benefício do lar.

Bom, tive a oportunidade de  viver em dois mundos completamente distintos. Um que era da casa de meus a avós paternos e outro que era o lar dos meus avós maternos. Nesse segundo mundo meus tios ouviam Chico,  tinham uns discos clandestinos de música de protesto que por razões se sobrevivência também acabaram tomando um chá de sumiço.  Tinha a minha tia, minha alter ego, estudante de letras da USP, moradora do CRUSP, embora não militante,  trazia as notícias nas entrelinhas sobre o mundo da Capital, que tanto e sempre me fascinou.

Um dia a ouço contando para minha mãe ( que nunca entendeu nem se interessou por política) sobre a invasão do CRUSP,  sobre as companheiras moradoras que tinham sumido,   uma delas grávida  teve a barriga toda queimada com ponta de cigarro... Meu ouvidos de criança não suportavam ouvir aquilo. Foi ai que passei a odiá-los  e a temê-los também.  Queimavam livros esses malditos,  censuravam músicas,  peças de teatro, sumiam com pessoas,  que apareciam depois enforcadas num ato "suicida" nas celas. Fechavam jornais, desapareciam com jornalista, estudantes aos montes ou qualquer outra pessoa que sismassem não agirem nas botas do sistema.

Logo seríamos  um País que vai pra frente, 80 milhões em ação salve a seleção! Generais, culto à Bandeira, Hino Nacional aprendido na ponta da régua, desfile de Sete de Setembro com autoridades se equilibrando em palanques improvisados.

Ao som desse ufanismo nacionalista pessoas continuavam sumindo porões a fora, sofrendo lavagem cerebral. Torturas foram covardemente negadas por anos a fio. Arbitrariedades,  supressão do Estado de Direito, AI-5, fechamento do Congresso Nacional. Exílio. TFP e o escambau do Nicolau.

Muito do que se passou naquela época de ditadura ainda não foi elucidado ou dimensionado. Acredito que existam alguns números oficiosos que nunca serão confrontados com os verdadeiros números.  Creio também  que muitas famílias já desistiram ou ainda continuam sem respostas pelos atos cometidos por essa suposta "ordem" , essa mesma "ordem" a que alguns cidadãos veem nesse momento reivindicar sua restauração.

Deveríamos todos ter vergonha desse momento negro da nossa pátria.  Não desculpar aos mais jovens que estão militando em favor de causas que desconhecem mas,  que teriam por obrigação conhecer através da  história, mesmo que registrada de forma truncada. Aos mais velhos que estão reerguendo essa bandeira desfraldada e gasta merecem nosso repúdio absoluto, não encontro outra palavra para defini-los senão aqueles mesmos reacionários dos anos anos 70. Os que não viram nada, não souberam de nada, preferindo o auto engano como instrumento e meio de vida.

Nossa democracia sequer a chegou a ser consolidada. Vivemos ainda em meio à arbitrariedades consentidas, desmandos e casuísmos. Vejo isso todas as vezes em que precisei me reportar à um serviço público, mormente àqueles aos quais a nação evoca à si o dever de prover.

É nosso dever não deixar que essa história seja esquecida para que não corra o risco de ser repetida.   Até porque,  babaca é o que não falta nesse mundo!





quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Morar no que faz








Poucas coisas me dão tanto sossego quanto dirigir por uma estrada de terra. Voltava já com o dia escuro, silenciosa seguia pensando em todas aos lugares onde já tinha "morado", vivido ou passado em ausências.

Parei para ver um jardim que me floria aos olhos, num vilarejo com poucas casas como tantos que existem em Minas. Ela me convidou para entrar, acredito na sinceridade desses convites, já aprendei a não recusar e tampouco tinha motivos, tamanha a acolhida que sinto nessas simplicidades.

Sentada na beira do fogão à lenha, foi enrolando um paeiro e começou a falar Dona Joana.

Contou a vida todinha de Nalva, a filha que pegou para criar. O Padrinho era viúvo e louco para casar de novo e tinha a Doidinha. Diziam que se ela casasse e tivesse filho sarava. Teve cinco e só piorou.

Era uma correria danada pra médico, pra lá e pra cá, tudo não dava jeito. Carregando a menina pra tudo que era canto sem nem saber cuidar direito da criança, se nem mesmo jeito de si sabia dar. Um dia, Dona Joana pediu para que deixassem a menina com ela, para que a mãe pudesse se consultar melhor com o Doutor. No dia seguinte o Padrinho apareceu no portão e falou que fosse buscar a menina. Tava dada.

Foi mesma coisa que tivesse nascido menino Jesus aqui em casa! Tudo que era vizinho vinha trazer alguma coisa. Toda hora gente batendo no portão trazendo cueiro, mamadeira, pano de forrar. Era um ratinho, a boca tava forrada como se fosse um chumaço branco de algodão de tanto sapinho! Não sabia cuidar daquilo, meus meninos nunca tiveram. Mandaram passar cinza de brasa com limão, achei que aquilo não tava certo. Depois me mandaram um vidrinho com um negócio roxo dentro,  fui passando, dali três dias já mamava que era uma beleza. Com três meses já era uma gracinha.

Precisava formar um grupo de crianças para ter escola no lugar e Nalva com cinco anos entrou para engrossar o time. Mesmo não tendo idade foi passando de ano que foi uma coisa, um atrás do outro! Tinha que fazer umas letras bem grandes no caderno da distância do polegar até o indicador. Era quase cega de tanto "carmante" que a mãe tinha tomado.

 Até que apareceu uma professora nova e falou que a menina estrovava os outros. Ahhh... mas ela voltou chorando pra casa, como que ia ficar em casa sem leitura? Ia ficar que nem nóis, uns tontos que só sabe cavocar buraco na terra?

A pessoa pra dar certo na vida tem que morar no que faz!

Eu fui lá firme falar com a professora. Não é que que uns tempos depois apareceu um escola para deficiente em Itajubá?! É longe sim! Mas meu marido ponhava ela na condução, ela ia e voltava todo dia. Quando terminou o colégio falou que ia continuar em frente. Dona Joana achou que era hora de aquietar mas Nalva foi estudar Turismo Rural. Morando em pensão comendo arroz, feijão e tomate to-do san-to dia.

Quando se formou achou que sem enxergar não ia dar para trabalhar com isso. Foi fazer um curso de massagem e hoje que faz massagem com ela, diz que é muito melhor do que com uma pessoa que enxerga.

Nesse fim de tarde, passando pelo seu jardim florido acho que "morei" um pouquinho na sua casa, no café quente e docinho que me ofereceu, nas bolachinhas feitas pela senhora, enquanto via sua sombra contra à luz, pitando na beira do fogão, me dizendo do seu amor pela menina.