Acho que naquele tempo ainda não ia para escola, deveria então ter por volta de seis anos. Lembro-me bem daquela varanda em "L". Para acessá-la a partir do jardim era preciso subir alguns degraus, de forma que ficava suspensa ao nível da rua. De onde estávamos era preciso descer um degrau alto, talvez pelas minhas pernas ainda diminutas, acessando um corredor externo à casa. Esse corredor era coberto por uma parreira de uvas, de ponta a ponta, até o final do corredor, embocando para um quartinho de despejo, onde eram guardadas coisas remanescentes da casa, onde a roupa era passada a ferro.
Eu deveria estar inquietada com as questões de vida e morte, o que é próprio das crianças nessa idade. Acho que é quando começamos a ter ideias de finitude e morremos de medo que nossos pais morram.
Minha tia, que também era tia do meu pai, que não tinha casa, nem marido, nem filhos, morava um pouco na casa de cada parente. Era uma alegria quando vinha e uma tristeza quando partia. Uma das raras pessoas onde esse fenômeno acontece. Passava seis meses, um ano com cada família, depois se mudava de família, carregando sacolas, deixando histórias. Deixava saudade por onde passava. Inimiga de intrigas, tinha habilidade em guardar segredos de família. Tinha medo de esclerosar e começar a contar tudo o que sabia. Figura adorável, era baixota (eu acho), sempre tentando fazer regime mas cozinhando todos os dias, fazendo doces, só se lembrava da dieta depois que comia. De forma que nunca perdeu peso o que lhe garantia um colo fofinho, onde eu adorava sentar, conservando esse hábito até mesmo quando fiquei moça. Um dia ela me disse que eu chegava, rodeava, rodeava até terminar sentada no seu colo. Nunca tinha me dado por isso, depois fui percebendo que de fato me comportava assim, que costumava dessa forma sentada, passar-lhe o braço por detrás do pescoço e encher-lhe de beijos. Era também a minha madrinha, tive muita sorte eu!
Voltando à varanda e sobre a minha inquietação sobre a finitude, lhe perguntei como era o rosto do seu pai. Tomei um susto! Como assim não se lembrava mais daquele rosto? Então era assim que o mundo era? Além de morrer as pessoas não se lembrariam mais da nossa fisionomia? Não poderia aceitar isso como um fato. Amava tão profundamente meus pais, tinha tanto medo que eles se fossem que a ideia de não me lembrar de seus rostos me pareceu ainda mais apavorante que a morte.
Fazemos pactos infantis que a maturidade nos retira. Hoje é certo que tenho que rastrear a fundo na memória os detalhes das fisionomias que se foram. As nuances de suas personalidades, alguma particularidade que só essa pessoa tinha, como mexer lentamente os dedos dos pés quando estava sentada vendo televisão, um jeito de olhar quando chegava em casa, a forma como chacoalhada as chaves no portão, a forma como acelerava o carro para estacionar, a forma como me chamava, como pronunciava meu nome, um jeito de olhar para o infinito, perdido em devaneios ou até mesmo pensando na morte que lhe chegaria muito cedo na vida. Entre as lembranças, onde faço força para não perdê-los conservo-lhes o tom de voz. Tento não lhes esquecer a voz para que continuem tendo vozes em mim.