quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A Cor do Paraíso

O que a gente não sabe é que além do fundamentalismo, conflitos, petróleo, conturbado programa nuclear, o Irã (também!) produz poesia. A poesia  é a forma dominante de sua literatura e pouco chega até nós, tanto pela falta de tradução como por uma tendência  dos meios em só divulgarem produção cultural Ocidental.

Existe por lá um tipo milenar de dança, ginástica, treinamento mental conhecido como Zurkhaned, que parece um tipo de transe, que mistura reza, música e principalmente poesia, com alguma semelhança e que deu origem aos Derviches, os rodopiantes da Turquia, um dos espetáculos mais bonitos que já vi na terra, pelo que nos traz de significados e história.
Os  praticantes de Zurhaneh (tanto quanto os Derviches) ajudaram a derrubar governos. A Revolução Iraniana começou com um sarau, que depois de dez dias de recitais de poesia se transformou em protesto.

Mas não era nada disso o que eu queria dizer. Quero falar de um filme que vi ontem " A Cor do Paraíso", a estória de um garotinho cego, educado em uma escola especial em Teerã, que está entrando de férias e aguarda que o pai venha buscá-lo para levá-lo para casa. Essa espera é longa... O pai viúvo, procura uma nova esposa e enxerga o menino como um empecilho para a sua empreitada casamenteira.

A fotografia do filme é linda, mostra o Irã rural e  montanhoso, a avó que parece saída de nossas estórias infantis, que acolhe o neto mediante a indiferença do pai;  a casa e os campos floridos como um conto de fadas, a doçura de uma estória simples, de como é possível através da ausência de um dos sentidos, depurar a alma, conversar e entender os pássaros; saber que está sendo sequestrado pelo próprio pai, pelos barulhos que ouve numa estrada distante. Manter-se amoroso e delicado e  morrer sem sucumbir a pior dor humana: a dor de ser indiferente.

Paraíso em persa antigo é uma alusão aos magníficos jardins persas. Os iranianos conhecem bem a força poética das palavras, mais uma evidência de que muito além de conflitos, sabem como produzir, também, poesia, a mais sutil e refinada forma de beleza.




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