As outras casas que me perdoem mas onde primeiro senti amor foi na casa de minha avó materna. Simplicidade. Dinheiro contado e generosidade. O melhor chá mate docinho com bolacha de água e sal da minha vida. Noites sem luz, banhos de bacia, quintal com jabuticabeiras, um rancho de piso quadriculado de branco e preto que fazia as vezes de varanda da casa. A casa sempre cheia de novidades, os móveis mudando de lugar todas as semanas. Minha avó tinha uma mente inquieta, as cadeiras, sofás, mesas e camas acompanhavam a cadência de suas ideias.
Me ensinava a fazer as coisas de casa, mesmo me advertindo que se eu aprendesse a fazer, teria que continuar fazendo a vida toda...
Me deixava passar a ferro os lenços dos homens. Fiz duas bolhas imensas no meu ante braço esquerdo. Com medo que arruinassem ou que meu pai me encontrasse queimada, me levava todo fim de tarde, antes do por do sol, para benzer as feridas. As bênçãos podem não tê-las curado, mas certamente devem ter funcionando como algum tipo de proteção para outras chamuscadas ao longo da vida.
Costumava guardar os retalhos de tecido num guarda roupa que cheirava a madeira, pano guardado e naftalina. Era um saco imenso. Jogava tudo no chão e começa a escolher os mais bonitos, sentava na máquina de costura e fazia roupinhas para minha única boneca.
Quando cresci e os nossos homens foram morrendo, ela me levava no jardim e me mostrava as suas roseiras. Cada uma tinha o nome de um dos nossos mortos homens. Ela ia dizendo, olha que linda a rosa que nasceu no Júnior; a do Aurazil preciso podar; a do Fiani está cheia de botões novos.
No dia que em que ela morreu fui visitar suas roseiras. Não pude entrar. Um cadeado trancava fortemente as grades que me separavam de seu jardim de saudades.
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
mulheres decidindo eleições 2018
Do voto recente das mulheres a decisão de uma eleição. Nosso direito ao voto remonta a 1932, ainda que nem todas as mulheres pudessem votar. As casadas precisavam de uma autorização do marido. Minha mãe foi proibida pelo meu pai de votar por décadas por ter votado no candidato errado... Só o perdoo, porque ele sempre votou na oposição. Ela nunca se incomodou com a proibição. Política para ela sempre foi uma situação extramuros, ou seja, algo que acontecia bem distante dos domínios de seus afazeres da casa e de cuidar de cinco crianças. Ledo engano o da minha mãe.
Somo seres políticos, só que bem poucos tem a noção do que isso possa significar. Nossos atos, dos mais corriqueiros e banais aos mais complexos (entre eles votar, por exemplo), expressam quem somos nós e delineiam como nosso agir está atrelado com aquilo que conhecemos e com aquilo que ignoramos. Quando me refiro a ignorância fio-me na definição de que ignorância é tudo aquilo o que não tivemos oportunidade de conhecer. Quer pela impossibilidade da experiência, quer pela falta de condições pessoais internas para acessar ditas experiências. A superficialidade, portanto, é o tom.
Ser um ser social, portanto político, requer a presença do outro (aqui falamos de alteridade). Sem a presença do outro somos incapazes de partilhamento, de compreensão, ou seja, algo como se nossas experiências se inscrevessem unicamente no âmbito da órbita de nosso umbigo.
O que nos faz escolher esse ou aquele candidato? O que faz mulheres escolherem a xenofobia, o racismo, a homofobia? Não são as mulheres as geradoras dos frutos da terra, dotadas das mais altas reminiscências da compaixão, as que trazem em si a semente da vida? Balela. Absolutamente não concordo que a condição feminina possa estar impregnada de altruidade. O momento político atual faz cair por terra toda visão idealizada do mito feminino. As mulheres estão dando mostras de que são capazes de votar no algoz, em nome da preservação de ignóbeis princípios imorais.
A visão obscurecida pela falta de clareza dos fatos leva a um estado de torpeza. A falta de possibilidades internas para enxergar o outro leva a escolher o preconceito, onde o outro jamais poderá ser como eu. Esse eu "diferenciado", acaba por levar a indiferença. Ou seja, pouco me importa o que acontece além do muro da minha casa. Enquanto acreditar na existência desse muro estarei me sentindo protegida, por isso, escolho um candidato que pense como eu: preciso de armas de fogo; preciso manter o estrangeiro bem longe do meu jardim com flores; preciso que os negros continuem morando bem longe da minha casa e que não ameacem a vaga universitária do meu filho com essa porra de regime de quotas; preciso que os militares me devolvam em segurança armada tudo o que nós como nação não fomos capazes de conseguir através da educação; preciso afastar o comunismo (essa foi uma das mais infantis argumentações que ouvi...pobres mulheres...!); preciso que as mesmas armas que quero ver nas mão dos civis não matem meu filho na volta da balada; preciso que todas os jovens mortos na periferia continuem engrossando o caldo das estatísticas; preciso que a ordem da boa família seja restabelecida, mesmo que dentro da minha própria casa não tenha conseguido educar meus filhos com esses mesmos princípios que agora procuro defender; preciso que o dólar continue caindo, para gastar mais em Miami...; preciso que os viados se convertam em homens. Preciso desesperadamente que alguém muito maior que eu, que julgo ser herói, me salve e me proteja, amém!
Inconcebível que mesmo diante de escolhas morais de um candidato, mulheres possam invocar para si o desconhecimento do período mais negro de nossa história, elegendo um político-militar que volte a nos assombrar e escurecer os cantos nada iluminados de nossa recém parida democracia.
Quando voltar para sua casa depois do seu voto, olhe com bastante sinceridade para dentro dela e procure vestígios do que está procurando lá fora. Veja se o mundo que está delegando para que outro construa em seu nome, já existe entre as suas quatro paredes. Tercerizar responsabilidades não é o melhor critério para nossas escolhas políticas. A salvadora da pátria é você.
Somo seres políticos, só que bem poucos tem a noção do que isso possa significar. Nossos atos, dos mais corriqueiros e banais aos mais complexos (entre eles votar, por exemplo), expressam quem somos nós e delineiam como nosso agir está atrelado com aquilo que conhecemos e com aquilo que ignoramos. Quando me refiro a ignorância fio-me na definição de que ignorância é tudo aquilo o que não tivemos oportunidade de conhecer. Quer pela impossibilidade da experiência, quer pela falta de condições pessoais internas para acessar ditas experiências. A superficialidade, portanto, é o tom.
Ser um ser social, portanto político, requer a presença do outro (aqui falamos de alteridade). Sem a presença do outro somos incapazes de partilhamento, de compreensão, ou seja, algo como se nossas experiências se inscrevessem unicamente no âmbito da órbita de nosso umbigo.
O que nos faz escolher esse ou aquele candidato? O que faz mulheres escolherem a xenofobia, o racismo, a homofobia? Não são as mulheres as geradoras dos frutos da terra, dotadas das mais altas reminiscências da compaixão, as que trazem em si a semente da vida? Balela. Absolutamente não concordo que a condição feminina possa estar impregnada de altruidade. O momento político atual faz cair por terra toda visão idealizada do mito feminino. As mulheres estão dando mostras de que são capazes de votar no algoz, em nome da preservação de ignóbeis princípios imorais.
A visão obscurecida pela falta de clareza dos fatos leva a um estado de torpeza. A falta de possibilidades internas para enxergar o outro leva a escolher o preconceito, onde o outro jamais poderá ser como eu. Esse eu "diferenciado", acaba por levar a indiferença. Ou seja, pouco me importa o que acontece além do muro da minha casa. Enquanto acreditar na existência desse muro estarei me sentindo protegida, por isso, escolho um candidato que pense como eu: preciso de armas de fogo; preciso manter o estrangeiro bem longe do meu jardim com flores; preciso que os negros continuem morando bem longe da minha casa e que não ameacem a vaga universitária do meu filho com essa porra de regime de quotas; preciso que os militares me devolvam em segurança armada tudo o que nós como nação não fomos capazes de conseguir através da educação; preciso afastar o comunismo (essa foi uma das mais infantis argumentações que ouvi...pobres mulheres...!); preciso que as mesmas armas que quero ver nas mão dos civis não matem meu filho na volta da balada; preciso que todas os jovens mortos na periferia continuem engrossando o caldo das estatísticas; preciso que a ordem da boa família seja restabelecida, mesmo que dentro da minha própria casa não tenha conseguido educar meus filhos com esses mesmos princípios que agora procuro defender; preciso que o dólar continue caindo, para gastar mais em Miami...; preciso que os viados se convertam em homens. Preciso desesperadamente que alguém muito maior que eu, que julgo ser herói, me salve e me proteja, amém!
Inconcebível que mesmo diante de escolhas morais de um candidato, mulheres possam invocar para si o desconhecimento do período mais negro de nossa história, elegendo um político-militar que volte a nos assombrar e escurecer os cantos nada iluminados de nossa recém parida democracia.
Quando voltar para sua casa depois do seu voto, olhe com bastante sinceridade para dentro dela e procure vestígios do que está procurando lá fora. Veja se o mundo que está delegando para que outro construa em seu nome, já existe entre as suas quatro paredes. Tercerizar responsabilidades não é o melhor critério para nossas escolhas políticas. A salvadora da pátria é você.
sexta-feira, 14 de setembro de 2018
Não sou um homem fácil
Não sou um homem fácil, esse é o nome do filme. Era para ser apenas mais uma sexta feira, relaxar, o nome sugeria algo descompromissado (que na verdade é), onde a caricatura, de repente, acaba declinando-se para um embate de como vivemos, nesse inexplicável mundo novo, nossos afetos, principalmente e, não menos importante, nossas relações homem mulher, mulher homem
O figurino das mulheres resume-se em calça alfaiataria, blazer com ou sem gravata. Na esteira disso, mulheres que dão cantadas em homens, seduzem, pagam com dinheiro o que querem, inclusive e principalmente sexo.
Ele (Vincent Elbaz), declara-se como o maior pegador de Paris, dando pinta de que cumpre um papel que autodeterminou mas que na verdade não o satisfaz. Na verdade, é um sensível. Chora diante da tela num filme água com açucar, tem conversas sobre sua fragilidade com o melhor amigo, é rejeitado durante uma transa por ser peludo. A partir dessa rejeição, inicia um ritual de beleza muito parecido com que nós mulheres ainda fazemos: depilação, tintura no cabelo e porque não (?) esmalte escuro nas unhas. Com pernas, diga-se, louváveis, vai para o trabalho num modelito lindo: blazer escuro, camisa branca e um micro short. A mulher para quem vai trabalhar (Marie Sophie Ferdane) é uma escritora renomada, recebe-o na sua casa, dá-lhe ordens determinando a agenda doméstica, com coisinhas corriqueiras do tipo pagar contas, reservar mesa num restaurante para jantar, acompanhar o serviço de faxina. Óbvio que essa situação que nos parece tão comezinha o incomoda no primeiro dia de trabalho. Desiste do ofício e passa a participar de movimentos de "empoderamento" masculino.
Esse para mim é o ponto: em-poderamento. Primeiro, porque acho o termo de mal uso.
Vou tentar explicar porque. Empoderar sugere "dar" poder, certo? Poder, pelo menos para mim, pressupõe um lado que manda e outro que obedece. Não há nesse paradigma nenhuma pretensão de igualdade entre as partes. Sugere logo de cara, que alguém está numa posição inferior e necessitando sair dela, precisa colocar o outro na posição que outrora ocupava. Uma mera troca de papéis, onde um dos lados pretende nomear-se como vencedor, para na outra ponta, colocar o vencido. A questão é: se lutamos por alguma posição (social, sexual, moral, profissional), significa, necessariamente, ter que subjugar o outro? O discurso do empoderamento parece muito distante de qualquer tipo de igualdade. Pretende fazer com que um dos lados esteja absolutamente certo e o outro absolutamente errado, ou seja, um lado tenta afirmar-se e para isso, desqualifica o outro. Em síntese, no empoderamento não existe a ideia de pluralidade, de troca, de construção. É difícil imaginar que, uma relação constituída sob bases tão precárias possa prosperar. Talvez por isso, esses movimentos precisem ser renovados de tempos e tempos, trazendo novas denominação, porém, vestindo sempre o mesmo modelito retrogado, careta. Sempre mais do mesmo.
Nessa mesma toada, muitos dos movimentos sociais que observo (e sem de qualquer forma querer destituí-los de valor ou ponderação), para mim, parecem algo como o ateu que pretende ver seu ateísmo transformando em algum tipo de religião... Essa ideia é de Robespierre e, vai mais antiga que qualquer um de nós, caminhando pela modernidade a fora.
Estar sob um mesmo guarda chuva, nos unindo em grupos que declarem nossas vozes pode dar a falsa sensação de que estamos protegidos. Será? O bom mesmo é tomar um bom banho de chuva, deixar-se molhar, de vez em quando. Desproteger-se é condição fundamental para perceber o outro e deixar que as diferenças façam sentido.
O figurino das mulheres resume-se em calça alfaiataria, blazer com ou sem gravata. Na esteira disso, mulheres que dão cantadas em homens, seduzem, pagam com dinheiro o que querem, inclusive e principalmente sexo.
Ele (Vincent Elbaz), declara-se como o maior pegador de Paris, dando pinta de que cumpre um papel que autodeterminou mas que na verdade não o satisfaz. Na verdade, é um sensível. Chora diante da tela num filme água com açucar, tem conversas sobre sua fragilidade com o melhor amigo, é rejeitado durante uma transa por ser peludo. A partir dessa rejeição, inicia um ritual de beleza muito parecido com que nós mulheres ainda fazemos: depilação, tintura no cabelo e porque não (?) esmalte escuro nas unhas. Com pernas, diga-se, louváveis, vai para o trabalho num modelito lindo: blazer escuro, camisa branca e um micro short. A mulher para quem vai trabalhar (Marie Sophie Ferdane) é uma escritora renomada, recebe-o na sua casa, dá-lhe ordens determinando a agenda doméstica, com coisinhas corriqueiras do tipo pagar contas, reservar mesa num restaurante para jantar, acompanhar o serviço de faxina. Óbvio que essa situação que nos parece tão comezinha o incomoda no primeiro dia de trabalho. Desiste do ofício e passa a participar de movimentos de "empoderamento" masculino.
Esse para mim é o ponto: em-poderamento. Primeiro, porque acho o termo de mal uso.
Vou tentar explicar porque. Empoderar sugere "dar" poder, certo? Poder, pelo menos para mim, pressupõe um lado que manda e outro que obedece. Não há nesse paradigma nenhuma pretensão de igualdade entre as partes. Sugere logo de cara, que alguém está numa posição inferior e necessitando sair dela, precisa colocar o outro na posição que outrora ocupava. Uma mera troca de papéis, onde um dos lados pretende nomear-se como vencedor, para na outra ponta, colocar o vencido. A questão é: se lutamos por alguma posição (social, sexual, moral, profissional), significa, necessariamente, ter que subjugar o outro? O discurso do empoderamento parece muito distante de qualquer tipo de igualdade. Pretende fazer com que um dos lados esteja absolutamente certo e o outro absolutamente errado, ou seja, um lado tenta afirmar-se e para isso, desqualifica o outro. Em síntese, no empoderamento não existe a ideia de pluralidade, de troca, de construção. É difícil imaginar que, uma relação constituída sob bases tão precárias possa prosperar. Talvez por isso, esses movimentos precisem ser renovados de tempos e tempos, trazendo novas denominação, porém, vestindo sempre o mesmo modelito retrogado, careta. Sempre mais do mesmo.
Nessa mesma toada, muitos dos movimentos sociais que observo (e sem de qualquer forma querer destituí-los de valor ou ponderação), para mim, parecem algo como o ateu que pretende ver seu ateísmo transformando em algum tipo de religião... Essa ideia é de Robespierre e, vai mais antiga que qualquer um de nós, caminhando pela modernidade a fora.
Estar sob um mesmo guarda chuva, nos unindo em grupos que declarem nossas vozes pode dar a falsa sensação de que estamos protegidos. Será? O bom mesmo é tomar um bom banho de chuva, deixar-se molhar, de vez em quando. Desproteger-se é condição fundamental para perceber o outro e deixar que as diferenças façam sentido.
terça-feira, 4 de setembro de 2018
Quando perdi a memória
PERDI a memória
quando não perdi a hora.
PERDI a memória
em todas as vezes que amei
menos do que sabia
quando comprei balas com moedas
só para ajudar...
quando desperdicei abraços e
economizei beijos
quando cheguei cedo demais
ou tarde para nunca mais.
PERDI a memória quando acreditei numa esquerda torpe
e quis trocar por uma direita mais medíocre ainda
quando não me contei com o número de presos
e desejei criar ainda mais prisões.
PERDI a memória
muito antes que o fogo ardesse.
quarta-feira, 22 de agosto de 2018
Eu quero uns óculos
Um amigo recém chegado convidou-me para uma exposição na FIESP. Tratava-se de algo, que preferi não me informar antes sobre do que se tratava. Não gosto de ter muitas informações enquanto caminho para o inusitado.
Na primeira entrada, vesti uns óculos imensos que me levaram para uma outra realidade. Uma paisagem fosforescente criou-se em minha volta, lembrando na sua multiplicidade, algo entre o coral e o ocre. Lembrou-me o Atacama. Era preciso montar um boneco, do tipo Jaspion, não importando a ordem em que eu bem o entendesse. Poderia ser pernas no lugar dos braços, cabeça no lugar do tronco, tanto fazia. Meu boneco, talvez por alguma composição auto neurótica, saiu dimensionado corretamente, ou seja, cabeça tronco e membros, cada coisa em seu lugar. Tocava uma música e esse ser que criei, corria, pulava, dançava, me atravessava, para depois aparecer em qualquer outro lugar daquele universo criado pelos tais óculos. Os que estavam do lado de fora, esperando a sua vez de brincar, percebiam os movimentos do meu corpo em acompanhar o tal boneco, mas jamais repetiriam as mesmas sensações que tive. Com cada participante, a brincadeira mudava de figura.
Numa outra sala, vesti uma coisa circular na cabeça, onde também tinham uns óculos, onde acabei e virando um aspirador de pó. Me meti por debaixo de camas, cadeiras, mesas, fui limpado a casa toda. Eu me transformei em algo que nunca pensei ser: um aspirador de pó. Funcionou.
Outra passagem, nos permitia estar diante de um imenso mar, calmo, azul, sereno, até que nossas ondas cerebrais mudassem vertiginosamente aquele cenário. O meu mar passava da tranquilidade azul para um tsunami plúmbeo. Era de 8 a 80. Pensei que seria muito bom ter um artefato desses no meu consultório. Seria bem mais prático para os pacientes que só querem acessar respostas sem ter que fazer longas perguntas sobre suas formas mais primárias de organização.
Acho, que pelo que entendi bem e, por tudo o que deixei de entender, falávamos ali, nessa exposição, de realidade virtual aumentada. Seja lá o que isso signifique propriamente e, tampouco eu saberia explicar. O fato é que essas tretras começam a aparecer e poderão ter utilidade no futuro próximo. Futuro esse que, já pode acontecer nas próximas horas, se imaginarmos, não sem angústia, a velocidade com que as coisas acontecem.
Com esses óculos, por exemplo, fiquei pensando em me mudar para uma cobertura na Quinta Avenida, com vista para o Central Park, onde as janelas fossem blindadas e eu não precisasse ouvir a motosserra que está desde ontem, me perturbando o sossego, cortando todas a árvores, para erguer mais um encantador edifício de alto padrão no meu quarteirão.
Pensei também, através desses óculos, trocar o namorado que tenho em casa pelo George Clooney ou pelo Keanu Reeves. Seria muito mais encantador visualmente falando, além da possibilidade deles estarem sempre bem humorados, carinhosos e apaixonados. E (eternamente) lindos!
Poderia também passar um tempo numa das praias da Venezuela, sem ter que fazer reservas, encarar a chatice e o cansaço dos aeroportos, desfrutar de dias sem chuva, sem nunca receber a fatura do cartão de crédito na minha casa.
Um mundo "emprestado", de onde tirem a nossa mundana realidade, talvez seja a promessa dos dias vindouros.
A questão é que, em algum momento precisamos tirar os óculos. Quando saí da exposição, algo bem real acontecia: chovia torrencialmente na rua. Era começo de noite, naquela hora que você já sabe sem surpresas como foi o seu dia, mas acalenta ainda a possibilidade do inesperado ser melhor do que as coisas acontecidas. As pessoas estavam apressadas, fazia bastante frio, e eu, por um desígnio qualquer tinha um guarda chuva. Não precisei me molhar, mesmo tendo saído pela chuva afora.
Na primeira entrada, vesti uns óculos imensos que me levaram para uma outra realidade. Uma paisagem fosforescente criou-se em minha volta, lembrando na sua multiplicidade, algo entre o coral e o ocre. Lembrou-me o Atacama. Era preciso montar um boneco, do tipo Jaspion, não importando a ordem em que eu bem o entendesse. Poderia ser pernas no lugar dos braços, cabeça no lugar do tronco, tanto fazia. Meu boneco, talvez por alguma composição auto neurótica, saiu dimensionado corretamente, ou seja, cabeça tronco e membros, cada coisa em seu lugar. Tocava uma música e esse ser que criei, corria, pulava, dançava, me atravessava, para depois aparecer em qualquer outro lugar daquele universo criado pelos tais óculos. Os que estavam do lado de fora, esperando a sua vez de brincar, percebiam os movimentos do meu corpo em acompanhar o tal boneco, mas jamais repetiriam as mesmas sensações que tive. Com cada participante, a brincadeira mudava de figura.
Numa outra sala, vesti uma coisa circular na cabeça, onde também tinham uns óculos, onde acabei e virando um aspirador de pó. Me meti por debaixo de camas, cadeiras, mesas, fui limpado a casa toda. Eu me transformei em algo que nunca pensei ser: um aspirador de pó. Funcionou.
Outra passagem, nos permitia estar diante de um imenso mar, calmo, azul, sereno, até que nossas ondas cerebrais mudassem vertiginosamente aquele cenário. O meu mar passava da tranquilidade azul para um tsunami plúmbeo. Era de 8 a 80. Pensei que seria muito bom ter um artefato desses no meu consultório. Seria bem mais prático para os pacientes que só querem acessar respostas sem ter que fazer longas perguntas sobre suas formas mais primárias de organização.
Acho, que pelo que entendi bem e, por tudo o que deixei de entender, falávamos ali, nessa exposição, de realidade virtual aumentada. Seja lá o que isso signifique propriamente e, tampouco eu saberia explicar. O fato é que essas tretras começam a aparecer e poderão ter utilidade no futuro próximo. Futuro esse que, já pode acontecer nas próximas horas, se imaginarmos, não sem angústia, a velocidade com que as coisas acontecem.
Com esses óculos, por exemplo, fiquei pensando em me mudar para uma cobertura na Quinta Avenida, com vista para o Central Park, onde as janelas fossem blindadas e eu não precisasse ouvir a motosserra que está desde ontem, me perturbando o sossego, cortando todas a árvores, para erguer mais um encantador edifício de alto padrão no meu quarteirão.
Pensei também, através desses óculos, trocar o namorado que tenho em casa pelo George Clooney ou pelo Keanu Reeves. Seria muito mais encantador visualmente falando, além da possibilidade deles estarem sempre bem humorados, carinhosos e apaixonados. E (eternamente) lindos!
Poderia também passar um tempo numa das praias da Venezuela, sem ter que fazer reservas, encarar a chatice e o cansaço dos aeroportos, desfrutar de dias sem chuva, sem nunca receber a fatura do cartão de crédito na minha casa.
Um mundo "emprestado", de onde tirem a nossa mundana realidade, talvez seja a promessa dos dias vindouros.
A questão é que, em algum momento precisamos tirar os óculos. Quando saí da exposição, algo bem real acontecia: chovia torrencialmente na rua. Era começo de noite, naquela hora que você já sabe sem surpresas como foi o seu dia, mas acalenta ainda a possibilidade do inesperado ser melhor do que as coisas acontecidas. As pessoas estavam apressadas, fazia bastante frio, e eu, por um desígnio qualquer tinha um guarda chuva. Não precisei me molhar, mesmo tendo saído pela chuva afora.
sexta-feira, 18 de maio de 2018
Bolo para o João
Fazer um bolo e comprar um bolo são coisas diferentes. Aliás, bem diferentes, se analisarmos os propósitos dos fatos e o intuito da comemoração.
Eu escolhi fazer o bolo e nesse percurso tive algumas questões que me acompanharam. Você sequer gosta de bolo, carrego a declarada frustração, por não ter tido em você a criança que ficava do meu lado na cozinha pedindo : "deixa eu raspar a tigela..?" Aqui em casa nunca teve criança para isso.
Mas eu resolvi fazer o bolo mesmo assim. Será seu aniversário e falamos nessa semana o que representa a maioridade civil, essa liberdade que o ordenamento jurídico empresta por um lado, apresentando imediatamente a contrapartida do que isso possa implicar aos atos contrários ao pré estabelecido. O toma lá dá cá no inevitável mundo adulto.
Pois bem. Para fazer o bolo recorri ao meu velho caderno de receitas e logo de saída, vejo no que sobrou de uma página, a seguinte observação: "João Felipe rasgou aqui". Você arrancou essas páginas durante suas primeiras incursões (sem vigilância) pelos meus cadernos. A partir dai começo a pensar na arte de fazer um bolo, na sequência correta dos ingredientes, no tempo da mistura, no ponto de adicionar um novo elemento, na observação da consistência, no intercalar líquidos e sólidos para que a batedeira não pife e na última e decisiva hora adicionar o fermento, movimentar carinhosamente o bolo para que ele possa crescer.
Acho que é mais ou menos isso que fazemos durante a criação de um filho, acrescentamos alquimicamente ingredientes, esperamos reações, substituímos alguns itens que pela nossa própria constituição não temos na despensa. Embaralhamos, misturamos, temos muitos tempos de espera e incrivelmente nunca sabemos previamente se o bolo ficará do nosso agrado.
Nesses longos anos que passaram rápido, penso que fizemos uma parceria, eu tentava ensinar, você tentava aprender , e assim temos feito trocas: você aprendendo a ser filho, eu aprendendo a ser mãe.
O que acho, é que em todas as casas deve acontecer mais ou menos a mesma coisa: os filhos sempre rasgam os cadernos de receitas das mães...
Eu escolhi fazer o bolo e nesse percurso tive algumas questões que me acompanharam. Você sequer gosta de bolo, carrego a declarada frustração, por não ter tido em você a criança que ficava do meu lado na cozinha pedindo : "deixa eu raspar a tigela..?" Aqui em casa nunca teve criança para isso.
Mas eu resolvi fazer o bolo mesmo assim. Será seu aniversário e falamos nessa semana o que representa a maioridade civil, essa liberdade que o ordenamento jurídico empresta por um lado, apresentando imediatamente a contrapartida do que isso possa implicar aos atos contrários ao pré estabelecido. O toma lá dá cá no inevitável mundo adulto.
Pois bem. Para fazer o bolo recorri ao meu velho caderno de receitas e logo de saída, vejo no que sobrou de uma página, a seguinte observação: "João Felipe rasgou aqui". Você arrancou essas páginas durante suas primeiras incursões (sem vigilância) pelos meus cadernos. A partir dai começo a pensar na arte de fazer um bolo, na sequência correta dos ingredientes, no tempo da mistura, no ponto de adicionar um novo elemento, na observação da consistência, no intercalar líquidos e sólidos para que a batedeira não pife e na última e decisiva hora adicionar o fermento, movimentar carinhosamente o bolo para que ele possa crescer.
Acho que é mais ou menos isso que fazemos durante a criação de um filho, acrescentamos alquimicamente ingredientes, esperamos reações, substituímos alguns itens que pela nossa própria constituição não temos na despensa. Embaralhamos, misturamos, temos muitos tempos de espera e incrivelmente nunca sabemos previamente se o bolo ficará do nosso agrado.
Nesses longos anos que passaram rápido, penso que fizemos uma parceria, eu tentava ensinar, você tentava aprender , e assim temos feito trocas: você aprendendo a ser filho, eu aprendendo a ser mãe.
O que acho, é que em todas as casas deve acontecer mais ou menos a mesma coisa: os filhos sempre rasgam os cadernos de receitas das mães...
sexta-feira, 11 de maio de 2018
A primeira vez que Juan Gelman chamou minha atenção foi através da capa de um livro. A pergunta era inquietante, por isso retirei-o da inércia da estante. Eu não estava inerte diante daquele título inquietante. Lembro-me pouco do que li, mas o título continuou bailando frêmito em meus ânimos.
Aprendi pela vida que num vagar se vai ao longe, que muitas perguntas precisam passar adormecidas, para num dia qualquer, quando ninguém mais se dê conta de seu silêncio, ela apareça fresca e repousada de distâncias e venha nos espreitar, como se desejasse saber se já estamos prontos para ouvir uma resposta.
E hoje, sei lá porque e por onde, essa frase que é o título do livro, me aparece de novo: "amor que serena, termina?"
Poderia escrever sobre as razões ou desrazões de amor; dos amores adiados, dos nunca acontecidos, das destruições e descontinuidades, das lágrimas, dos arrepios, dos sussurros, do que penso ter acontecido e que não passam de memórias.Nada disso diria sobre o que vivi e descobri mais tarde: o que não serenou, nunca foi amor.
"Es dificil reconstruir lo que pasó, la verdad de la memoria lucha contra
la memoria de la verdad. (Juan Gelman)
Aprendi pela vida que num vagar se vai ao longe, que muitas perguntas precisam passar adormecidas, para num dia qualquer, quando ninguém mais se dê conta de seu silêncio, ela apareça fresca e repousada de distâncias e venha nos espreitar, como se desejasse saber se já estamos prontos para ouvir uma resposta.
E hoje, sei lá porque e por onde, essa frase que é o título do livro, me aparece de novo: "amor que serena, termina?"
Poderia escrever sobre as razões ou desrazões de amor; dos amores adiados, dos nunca acontecidos, das destruições e descontinuidades, das lágrimas, dos arrepios, dos sussurros, do que penso ter acontecido e que não passam de memórias.Nada disso diria sobre o que vivi e descobri mais tarde: o que não serenou, nunca foi amor.
"Es dificil reconstruir lo que pasó, la verdad de la memoria lucha contra
la memoria de la verdad. (Juan Gelman)
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| Argentina (1903 - 2014) |
sexta-feira, 13 de abril de 2018
A direita, a esquerda e a besta
Ontem vi um trecho de uma entrevista de Maria Rita Rehl, por quem nutro respeito e admiração, que me deixou um tanto perplexa.
Dizia ela sobre o discurso de ódio, e com bastante ódio revelou o seu próprio. Aí começa a minha primeira perplexidade. Dizia ela, também. que o discurso de ódio estava calcado nas diferenças sociais brasileiras.
Minha primeira perplexidade é ver uma figura pública se prontificar a falar sobre algo de tamanha relevância, e colocar o seu próprio ódio na defesa daquilo que está colocando como indefensável. Seria a mesma coisa que uma pessoa ir a público posicionar-se contra a homofobia e ato seguinte declarar seus preconceitos contra esse ou aquele homossexual.
A segunda perplexidade é vê-la tratar o discurso de ódio como um fenômeno local . Se assim fosse não veríamos a direita dando galopes mundo a fora, em plena ascensão na Europa.
A terceira perplexidade é ver o discurso de ódio atrelado a uma luta de classes diante da diferença social brasileira. Caso admitíssimos esse reducionismo, o que dizer da ascensão da direita na França, país que em nada se assemelha ao nosso em termos sociais?
O mundo está mesmo ficando um lugar muito esquisito.
Não encontro termos nos dias atuais para tomar parte da direita ou da esquerda. Acho inclusive que esses dois termos estão caducos. Primeiro pelo esvaziamento de suas propostas, segundo por que não temos o que represente a esquerda no Brasil (supondo esquerda como oposição). Não vejo embate de ideias no campo político, vejo tão somente um enxurrada de partidos defendendo o direito das coisas permanecerem com o estão. A direita, por falta de uma oposição inteligente tem crescido, valendo-se da ignorância que fomenta e de seus enormes esforços para manter seu status quo. Ou seja, continua valendo para a direita: se hay mudanças, soy contra.
Os que se dizem de esquerda alimentam um recurso retrogrado, cultuam um líder morto aos quais atribuem todos os méritos por ter colocado o pobre numa outra dimensão. Para forçar esse raciocínio não conseguem outra explicação que não seja o aumento do poder de compra, paradoxalmente o acesso ao capitalismo que sempre condenaram. Reconheço sim algumas mudanças em nossa sociedade porém não as considero qualitativas. Não me venham falar do acesso a universidade quando 54% dos nossos universitários são analfabetos funcionais. Das múltiplas universidade criadas, muitas são tão somente fonte de negócios altamente rentáveis.
Pleiteio que mudanças de base aconteçam verdadeiramente, principalmente aquelas vindas através de informações isentas que possam desenvolver no cidadão a possibilidade de escolher, sem interferência de teorias criadas com sustentação puramente ideológica, que mais baguçam a cabeça do sujeito do que o faz pensar. Isso vale para as duas bandas.
Escolher diante do que está posto como direita ou esquerda é caminhar na contramão. Isso gera por falta de argumentos mais eficazes o discurso de ódio, que tanto precisamos reconhecer, abominar e combater para que diante de vozes caladas o mundo não venha repetir suas façanhas do passado. A ascensão da direita é uma ameaça ao mundo tanto quanto as falsas idealizações de uma esquerda que não soube renovar-se.
O mundo que se polariza entre direita e esquerda é um mundo amedrontado. Um mundo a beira da esquizofrenia. Lembrando que "esquizo" vem de cisão. O que amedronta o esquizofrénico é o medo de ver-se fracionado e por isso luta para manter-se coeso, através de mecanismos que desenvolve na tentativa de não fracionamento. Temos aí um alento doloroso: o surto é uma tentativa de cura, e talvez por isso tenhamos tantos de nós surtando na atualidade.
Em "Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância", escrito por Freud em 1910, temos que Leonardo "Condenava a guerra e o derramamento de sangue e descrevia o homem sendo não tanto o rei do mundo animal, e sim a pior das bestas selvagens" pg 78.
A esquerda ou a direita não são lugares seguros para estar no mundo. Aliar-se a isso é fechar-se ao humano. Só existe um lugar bom para estar no mundo. Esse lugar é onde está o ser humano. E para que menos cisões existam fico com Pablo Neruda em "Nego-me a mastigar teorias":
" Não sei se os homens devem dividir-se entre naturais e artificiais, entre realistas e ilusionistas; creio que basta pôr de lado os que são homens e os que não são. Esses últimos nada têm que ver com a poesia ou, pelo menos, com meus cantos". (Para nascer nasci, 4 edição, pg 125)
Todos somos habitados por fantasmas, os meus geralmente aparecem às quatro da madrugada, quando sento, escrevo e faço meus encontros na tentativa de não cindir. E você?
#mariaritakehl #freud #pabloneruda
Dizia ela sobre o discurso de ódio, e com bastante ódio revelou o seu próprio. Aí começa a minha primeira perplexidade. Dizia ela, também. que o discurso de ódio estava calcado nas diferenças sociais brasileiras.
Minha primeira perplexidade é ver uma figura pública se prontificar a falar sobre algo de tamanha relevância, e colocar o seu próprio ódio na defesa daquilo que está colocando como indefensável. Seria a mesma coisa que uma pessoa ir a público posicionar-se contra a homofobia e ato seguinte declarar seus preconceitos contra esse ou aquele homossexual.
A segunda perplexidade é vê-la tratar o discurso de ódio como um fenômeno local . Se assim fosse não veríamos a direita dando galopes mundo a fora, em plena ascensão na Europa.
A terceira perplexidade é ver o discurso de ódio atrelado a uma luta de classes diante da diferença social brasileira. Caso admitíssimos esse reducionismo, o que dizer da ascensão da direita na França, país que em nada se assemelha ao nosso em termos sociais?
O mundo está mesmo ficando um lugar muito esquisito.
Não encontro termos nos dias atuais para tomar parte da direita ou da esquerda. Acho inclusive que esses dois termos estão caducos. Primeiro pelo esvaziamento de suas propostas, segundo por que não temos o que represente a esquerda no Brasil (supondo esquerda como oposição). Não vejo embate de ideias no campo político, vejo tão somente um enxurrada de partidos defendendo o direito das coisas permanecerem com o estão. A direita, por falta de uma oposição inteligente tem crescido, valendo-se da ignorância que fomenta e de seus enormes esforços para manter seu status quo. Ou seja, continua valendo para a direita: se hay mudanças, soy contra.
Os que se dizem de esquerda alimentam um recurso retrogrado, cultuam um líder morto aos quais atribuem todos os méritos por ter colocado o pobre numa outra dimensão. Para forçar esse raciocínio não conseguem outra explicação que não seja o aumento do poder de compra, paradoxalmente o acesso ao capitalismo que sempre condenaram. Reconheço sim algumas mudanças em nossa sociedade porém não as considero qualitativas. Não me venham falar do acesso a universidade quando 54% dos nossos universitários são analfabetos funcionais. Das múltiplas universidade criadas, muitas são tão somente fonte de negócios altamente rentáveis.
Pleiteio que mudanças de base aconteçam verdadeiramente, principalmente aquelas vindas através de informações isentas que possam desenvolver no cidadão a possibilidade de escolher, sem interferência de teorias criadas com sustentação puramente ideológica, que mais baguçam a cabeça do sujeito do que o faz pensar. Isso vale para as duas bandas.
Escolher diante do que está posto como direita ou esquerda é caminhar na contramão. Isso gera por falta de argumentos mais eficazes o discurso de ódio, que tanto precisamos reconhecer, abominar e combater para que diante de vozes caladas o mundo não venha repetir suas façanhas do passado. A ascensão da direita é uma ameaça ao mundo tanto quanto as falsas idealizações de uma esquerda que não soube renovar-se.
O mundo que se polariza entre direita e esquerda é um mundo amedrontado. Um mundo a beira da esquizofrenia. Lembrando que "esquizo" vem de cisão. O que amedronta o esquizofrénico é o medo de ver-se fracionado e por isso luta para manter-se coeso, através de mecanismos que desenvolve na tentativa de não fracionamento. Temos aí um alento doloroso: o surto é uma tentativa de cura, e talvez por isso tenhamos tantos de nós surtando na atualidade.
Em "Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância", escrito por Freud em 1910, temos que Leonardo "Condenava a guerra e o derramamento de sangue e descrevia o homem sendo não tanto o rei do mundo animal, e sim a pior das bestas selvagens" pg 78.
A esquerda ou a direita não são lugares seguros para estar no mundo. Aliar-se a isso é fechar-se ao humano. Só existe um lugar bom para estar no mundo. Esse lugar é onde está o ser humano. E para que menos cisões existam fico com Pablo Neruda em "Nego-me a mastigar teorias":
" Não sei se os homens devem dividir-se entre naturais e artificiais, entre realistas e ilusionistas; creio que basta pôr de lado os que são homens e os que não são. Esses últimos nada têm que ver com a poesia ou, pelo menos, com meus cantos". (Para nascer nasci, 4 edição, pg 125)
Todos somos habitados por fantasmas, os meus geralmente aparecem às quatro da madrugada, quando sento, escrevo e faço meus encontros na tentativa de não cindir. E você?
#mariaritakehl #freud #pabloneruda
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
Gosto de palavras e por elas tenho um gosto bem estranho. Gosto muito, por exemplo da palavra pantaneiro, mas não gosto da palavra pântano. E sempre que ouço a palavra pantaneiro me lembro dos versos de Manuel de Barros "não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, ...", nosso poeta pantaneiro.
As palavras com "U" me são fúnebres; ubre; urubu; túmulo; útero.
E gosto de algumas que minha pouca imaginação permite criar. Com elas valseio juntando consoantes e vogais, que tentam me fazer compreender tudo de que minha alma se desacompanha de falar.
As palavras com "U" me são fúnebres; ubre; urubu; túmulo; útero.
E gosto de algumas que minha pouca imaginação permite criar. Com elas valseio juntando consoantes e vogais, que tentam me fazer compreender tudo de que minha alma se desacompanha de falar.
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