eu não possuo nada
nem flores nem versos
nem poetas nem amantes
não possuo silêncios
nem demoras
tenho urgências
tenho medos
tenho arma
munição
porte
posse
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
sexta-feira, 18 de janeiro de 2019
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
Livros proibidos
Existem muitas formas de extermínio de um livro. A primeira delas é não abri-lo. Proibi-lo tem sido prática constante todas as vezes que a palavra é sobrestada por tirania dos Estados.
Tinha notícias de livros queimados, banidos de circulação mas ainda não tinha tido notícia de livros que tivessem sido golpeados, violentados com marteladas e baionetas ou alvejados por armas de fogo.
A foto acima ilustra o trabalho de Fernando Vilela que acondicionou em caixas de ferro 110 livros "golpeados" pela ditadura militar, entre eles o manual de tortura Kubark, utilizado para treinamento de oficiais brasileiros.
Esse trabalho está exposto na Biblioteca Mário de Andrade, onde vale a pena circular para que a palavra continue existindo como forma plural de entendimento.
Nunca é demais lembrar que uma nação não leitora pode ter sua história bem mal contada.
#bibliotecamariodeandrade #fernandovilela #leituracura
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
Fernando Pessoa e sua declarada histeria
Deixei todas as portas abertas e dormi solta e longamente. Despejei-me em sonhos, adoro quando tenho noites assim, por serem raras. Freud nos diz que todo sonho é a realização de um desejo. Realizei vários.
A última coisa que tinha lido antes de adormecer foi a carta de Fernando Pessoa ao crítico literário Adolfo Casais Monteiro (1935). Nessa carta Fernando Pessoa explica seu "manicômio" interno ao dizer como foram criados seus heterônimos: "A origem de meus heterônimos é o fundo traço de histeria existente em mim... a origem mental de meus heterônimos está em minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação..." Acho que adormeci pensando nessa relação entre a criação literária e a despersonalização; a histeria como o primeiro objeto de estudo de Freud rumo aos primeiros passos do que conhecemos hoje como psicanálise.
Se Pessoa era ou não histérico interessa menos do que o fato de como soube valer-se de um sintoma para elaborar uma obra literária, colocando essa criação no lugar de sua angústia. Quantos outros seguiram o mesmo intento: Mario de Sá Carneiro? Virginia Woolf? Hemingway? A ideia não é fazer uma relação obituária de escritores suicidas. Interessa perceber como os mecanismos para a criação de uma obra possam estar de tal forma tentando driblar uma condição psíquica.
Ao dormir com todas as portas abertas, deixar que o ar circulasse sem amarras o mesmo foi feito com os meus sonhos (e com os seus também acontece o mesmo). É no momento que sonhamos quando realizamos um desprendimento de censura, deslocamos fatos, situações e pessoas, usamos nossos restos diurnos para permear nossos sonhos dando a possibilidade de colocá-los no lugar de uma realidade "não realizada", ao contrário do que acontece quando estamos em vigília . Daí serem os sonhos a realização de um desejo, quando nosso inconsciente fica de certa forma "solto" deixando que sonhemos livremente, sem preocupação com a criação de um pleonasmo.
E quem usufrui do que lê, que fenômenos estariam aí envolvidos psiquicamente, possibilitando essa despersonalização de que falou Pessoa? Eu poderia citar vários sem preocupação em ser conclusiva em minhas observações. Podemos pensar em sublimação, em levantamento de recalque? O que tem me interessado acima de tudo é perceber que a leitura pode conduzir-nos a um "não lugar". Muitas vezes esse 'não lugar' são lugares onde "recusamos estar" mas que "desejamos estar". Para continuar essa conversa é preciso dizer que nosso desejo é sempre inconsciente e talvez por isso a arte nos ajude tanto a usufruir do complexo mundo desconhecido de nossos afetos.
Melhor do que tentar explicar é abrir espaço para uma disponibilidade interna que nos conceda a liberdade de sonhar, possibilitando encantar-se como forma de continuar existindo.
A última coisa que tinha lido antes de adormecer foi a carta de Fernando Pessoa ao crítico literário Adolfo Casais Monteiro (1935). Nessa carta Fernando Pessoa explica seu "manicômio" interno ao dizer como foram criados seus heterônimos: "A origem de meus heterônimos é o fundo traço de histeria existente em mim... a origem mental de meus heterônimos está em minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação..." Acho que adormeci pensando nessa relação entre a criação literária e a despersonalização; a histeria como o primeiro objeto de estudo de Freud rumo aos primeiros passos do que conhecemos hoje como psicanálise.
Se Pessoa era ou não histérico interessa menos do que o fato de como soube valer-se de um sintoma para elaborar uma obra literária, colocando essa criação no lugar de sua angústia. Quantos outros seguiram o mesmo intento: Mario de Sá Carneiro? Virginia Woolf? Hemingway? A ideia não é fazer uma relação obituária de escritores suicidas. Interessa perceber como os mecanismos para a criação de uma obra possam estar de tal forma tentando driblar uma condição psíquica.
Ao dormir com todas as portas abertas, deixar que o ar circulasse sem amarras o mesmo foi feito com os meus sonhos (e com os seus também acontece o mesmo). É no momento que sonhamos quando realizamos um desprendimento de censura, deslocamos fatos, situações e pessoas, usamos nossos restos diurnos para permear nossos sonhos dando a possibilidade de colocá-los no lugar de uma realidade "não realizada", ao contrário do que acontece quando estamos em vigília . Daí serem os sonhos a realização de um desejo, quando nosso inconsciente fica de certa forma "solto" deixando que sonhemos livremente, sem preocupação com a criação de um pleonasmo.
E quem usufrui do que lê, que fenômenos estariam aí envolvidos psiquicamente, possibilitando essa despersonalização de que falou Pessoa? Eu poderia citar vários sem preocupação em ser conclusiva em minhas observações. Podemos pensar em sublimação, em levantamento de recalque? O que tem me interessado acima de tudo é perceber que a leitura pode conduzir-nos a um "não lugar". Muitas vezes esse 'não lugar' são lugares onde "recusamos estar" mas que "desejamos estar". Para continuar essa conversa é preciso dizer que nosso desejo é sempre inconsciente e talvez por isso a arte nos ajude tanto a usufruir do complexo mundo desconhecido de nossos afetos.
Melhor do que tentar explicar é abrir espaço para uma disponibilidade interna que nos conceda a liberdade de sonhar, possibilitando encantar-se como forma de continuar existindo.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2019
Minha cara amiga
Ela escreve para desejar um bom ano e no final me pergunta se é tudo ilusão? Fico inquietada. Alias já estava desde a última vez que reli o Futuro de uma ilusão (1927) e O mal estar na cultura (1930), de Freud.
Nesses ensaios Freud vai do social ao indivíduo (reciprocamente e vice versa) analisando e propondo questões várias sobre as influências da cultura em nossa formação psíquica, pontuando que a religião também é um fenômeno cultural. Deixemos Freud de lado pois não gostaria de aborrecer minha amiga com questões tão intrincadas ou ser suprimida em minha liberdade de "iludir-me".
Querida, é tudo sim pura ilusão. Não tão pura assim pois não podemos deixar de supor que até mesmo nossas ilusões são firmadas, reafirmadas, cultivadas ou negadas por forças culturais que nos permeiam sem que possamos dar conta dessa dimensão. Ou seja, nossas crenças ou ilusões já estão prontas pra nos receber sem que saibamos ainda como lidar com o vasto mundo que nos espera. Será por meio dessas "apresentações" que o mundo nos faz que moldaremos nossas virtuoses ou desvios vida a fora.
Imagina você que tem uma autora escrevendo contos de fadas ao contrário. É preciso desde muito cedo contar histórias verdadeiras para as meninas. Nenhuma delas poderá mais acreditar em príncipes com cavalos brancos ou beijos que despertem de um sono eterno. Elas precisam saber desde os dois anos de idade que o mundo vai exigir delas competência, plano de carreira e saber lidar com divórcios para não serem enroladas juridicamente pelas espertezas das leis.
Outro dia estava deitada ao sol numa praça da cidade e comecei a ouvir o diálogo de uma mãe com um menino de uns cinco anos. Ele queria brincar de guerra, ter uma espada, matar o inimigo, a mãe dizendo que não. Que no mundo as pessoas são boazinhas e que não poderiam ser mortas por espadas, ela propõe outra brincadeira ao que o menino responde não querer mais brincar "de mundo chato".
Outro dia estava assistindo um desenho animado na TV Cultura. Tive muita vontade de chorar. Os diálogos engendrados pelas crianças era tão adulto e politicamente correto que me deu uma saudade louca daquele gato que vive querendo matar aquele rato anão que o tripudia, arrancando-o de sua atávica superioridade felina, obrigando-o a valer-se de suas sete vidas para sobreviver a um rato pedante, esperto, ardiloso e vingativo.
A autora, a mãe e a televisão pretendem por vias diversas porém convergentes "desensinar" ou melhor negar qualquer condição de sermos humanos. A isenção de dor, da frustração, a negação da pulsão de morte coloca o humano no lugar inexistente do Olimpo. Não sendo deuses ou deusas teremos de dar conta do tamanho de nossa pequenez onde a não eternidade está posta nesse pacote. Tendo que lidar com o que somos dói de verdade. Como suportar esse aprendizado sem uma boa dose de ilusão? Ou como não fazer das ilusões algo que nos infantilize no papel de adultos que temos o compromisso de nos tornarmos?
Minha amiga, eu não tenho essas respostas e receio não as ter caso você decida me fazer essa pergunta novamente em 2020.
O que acho sinceramente que cada um de nós procurar dar o seu jeito. Alguns trabalham incessantemente, outros gastam, outros viajam sem chegar a lugar algum, outros tantos vão para o shopping center, para farmácia, outros tem seus anjos e gurus particulares e assim vamos tocando.
Eu vou continuar te desejando que aquele príncipe encantado te apareça, que você tenha muitos dragões para matar com sua espada e que de vez em quando ligue a televisão para assistir Tom e Jerry. No mais, se você foi criada como criança num mundo onde era possível "fazer de conta" certamente brincou com barro, construiu lagos na terra com uma latinha de massa de tomate enferrujada, foi feliz como proprietária de um rebanho de cavalos e vacas feitas com sabugo de milho, certamente encontrará nesses recursos as sementes para serem lançadas no ano novo.
Te desejo um ano com boas e surpreendentes ilusões, pois como diria o poeta a gente vai se amando, que sem esse carinho ninguém segura esse rojão.
Nesses ensaios Freud vai do social ao indivíduo (reciprocamente e vice versa) analisando e propondo questões várias sobre as influências da cultura em nossa formação psíquica, pontuando que a religião também é um fenômeno cultural. Deixemos Freud de lado pois não gostaria de aborrecer minha amiga com questões tão intrincadas ou ser suprimida em minha liberdade de "iludir-me".
Querida, é tudo sim pura ilusão. Não tão pura assim pois não podemos deixar de supor que até mesmo nossas ilusões são firmadas, reafirmadas, cultivadas ou negadas por forças culturais que nos permeiam sem que possamos dar conta dessa dimensão. Ou seja, nossas crenças ou ilusões já estão prontas pra nos receber sem que saibamos ainda como lidar com o vasto mundo que nos espera. Será por meio dessas "apresentações" que o mundo nos faz que moldaremos nossas virtuoses ou desvios vida a fora.
Imagina você que tem uma autora escrevendo contos de fadas ao contrário. É preciso desde muito cedo contar histórias verdadeiras para as meninas. Nenhuma delas poderá mais acreditar em príncipes com cavalos brancos ou beijos que despertem de um sono eterno. Elas precisam saber desde os dois anos de idade que o mundo vai exigir delas competência, plano de carreira e saber lidar com divórcios para não serem enroladas juridicamente pelas espertezas das leis.
Outro dia estava deitada ao sol numa praça da cidade e comecei a ouvir o diálogo de uma mãe com um menino de uns cinco anos. Ele queria brincar de guerra, ter uma espada, matar o inimigo, a mãe dizendo que não. Que no mundo as pessoas são boazinhas e que não poderiam ser mortas por espadas, ela propõe outra brincadeira ao que o menino responde não querer mais brincar "de mundo chato".
Outro dia estava assistindo um desenho animado na TV Cultura. Tive muita vontade de chorar. Os diálogos engendrados pelas crianças era tão adulto e politicamente correto que me deu uma saudade louca daquele gato que vive querendo matar aquele rato anão que o tripudia, arrancando-o de sua atávica superioridade felina, obrigando-o a valer-se de suas sete vidas para sobreviver a um rato pedante, esperto, ardiloso e vingativo.
A autora, a mãe e a televisão pretendem por vias diversas porém convergentes "desensinar" ou melhor negar qualquer condição de sermos humanos. A isenção de dor, da frustração, a negação da pulsão de morte coloca o humano no lugar inexistente do Olimpo. Não sendo deuses ou deusas teremos de dar conta do tamanho de nossa pequenez onde a não eternidade está posta nesse pacote. Tendo que lidar com o que somos dói de verdade. Como suportar esse aprendizado sem uma boa dose de ilusão? Ou como não fazer das ilusões algo que nos infantilize no papel de adultos que temos o compromisso de nos tornarmos?
Minha amiga, eu não tenho essas respostas e receio não as ter caso você decida me fazer essa pergunta novamente em 2020.
O que acho sinceramente que cada um de nós procurar dar o seu jeito. Alguns trabalham incessantemente, outros gastam, outros viajam sem chegar a lugar algum, outros tantos vão para o shopping center, para farmácia, outros tem seus anjos e gurus particulares e assim vamos tocando.
Eu vou continuar te desejando que aquele príncipe encantado te apareça, que você tenha muitos dragões para matar com sua espada e que de vez em quando ligue a televisão para assistir Tom e Jerry. No mais, se você foi criada como criança num mundo onde era possível "fazer de conta" certamente brincou com barro, construiu lagos na terra com uma latinha de massa de tomate enferrujada, foi feliz como proprietária de um rebanho de cavalos e vacas feitas com sabugo de milho, certamente encontrará nesses recursos as sementes para serem lançadas no ano novo.
Te desejo um ano com boas e surpreendentes ilusões, pois como diria o poeta a gente vai se amando, que sem esse carinho ninguém segura esse rojão.
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