sábado, 17 de julho de 2021

O começo de tudo

O Rio São Lourenço, Ribeirão dos Porcos, a tapera construída na beira do rio pelos bisavós, a choça coberta de folhas de coqueiros, pau a pique. As noites sem luz, o açude sendo construído, o caminhão caído dentro. O pai embarreado. As casas de tábuas, as muitas famílias, a escolinha... A professora que morava na nossa casa para ensinar os filhos dos colonos.

Os cafezais sendo cortados, as pessoas indo embora. Eu, indo embora.

O menino surdo porque pulou com o corpo quente na água fria no dia de verão. O Gumercindo que não adiantava sentir frio porque não tinha roupa para vestir. A Isabelona que criava os frangos cagando pela casa, dormindo empoleirados no quentinho do fogão a lenha.

O Chico Compadre que teve tantos filhos que perdeu as contas, foi dando tudo em batismo e acabou virando compadre de meio mundo.

Os dias de matanças, de capar boi, o dia das pamonhas, retrós de linha, palha costurada, conversas de mulheres, as divisões. Eu, indo embora.

A égua Brigitte (Bardot) do meu irmão, a boneca que andava e falava, da minha irmã, a invernada, o arroz plantado no banhado.

O enorme buraco onde  queimava o lixo. Eu, indo embora.

O pomar que meus pais plantaram quando se casaram, com o casamento que durou muito, restou o pé de sapoti e o grande tamarineiro.

As festas de São João, aniversário do meu avó, o povo chegando, o frio de rachar mamona, o pau de sebo o dinheiro preso nas alturas, o mastro de santo, o fósforo de cor colorindo a noite de inocências das crianças. Eu, indo embora.

O tempo de cada flor, cada fruta. O tempo de cada nascimento, de cada morte.

Os que se foram e os que ficaram, para ver, olhar e cuidar desses campos. Eu voltando.