Não sou um homem fácil, esse é o nome do filme. Era para ser apenas mais uma sexta feira, relaxar, o nome sugeria algo descompromissado (que na verdade é), onde a caricatura, de repente, acaba declinando-se para um embate de como vivemos, nesse inexplicável mundo novo, nossos afetos, principalmente e, não menos importante, nossas relações homem mulher, mulher homem
O figurino das mulheres resume-se em calça alfaiataria, blazer com ou sem gravata. Na esteira disso, mulheres que dão cantadas em homens, seduzem, pagam com dinheiro o que querem, inclusive e principalmente sexo.
Ele (Vincent Elbaz), declara-se como o maior pegador de Paris, dando pinta de que cumpre um papel que autodeterminou mas que na verdade não o satisfaz. Na verdade, é um sensível. Chora diante da tela num filme água com açucar, tem conversas sobre sua fragilidade com o melhor amigo, é rejeitado durante uma transa por ser peludo. A partir dessa rejeição, inicia um ritual de beleza muito parecido com que nós mulheres ainda fazemos: depilação, tintura no cabelo e porque não (?) esmalte escuro nas unhas. Com pernas, diga-se, louváveis, vai para o trabalho num modelito lindo: blazer escuro, camisa branca e um micro short. A mulher para quem vai trabalhar (Marie Sophie Ferdane) é uma escritora renomada, recebe-o na sua casa, dá-lhe ordens determinando a agenda doméstica, com coisinhas corriqueiras do tipo pagar contas, reservar mesa num restaurante para jantar, acompanhar o serviço de faxina. Óbvio que essa situação que nos parece tão comezinha o incomoda no primeiro dia de trabalho. Desiste do ofício e passa a participar de movimentos de "empoderamento" masculino.
Esse para mim é o ponto: em-poderamento. Primeiro, porque acho o termo de mal uso.
Vou tentar explicar porque. Empoderar sugere "dar" poder, certo? Poder, pelo menos para mim, pressupõe um lado que manda e outro que obedece. Não há nesse paradigma nenhuma pretensão de igualdade entre as partes. Sugere logo de cara, que alguém está numa posição inferior e necessitando sair dela, precisa colocar o outro na posição que outrora ocupava. Uma mera troca de papéis, onde um dos lados pretende nomear-se como vencedor, para na outra ponta, colocar o vencido. A questão é: se lutamos por alguma posição (social, sexual, moral, profissional), significa, necessariamente, ter que subjugar o outro? O discurso do empoderamento parece muito distante de qualquer tipo de igualdade. Pretende fazer com que um dos lados esteja absolutamente certo e o outro absolutamente errado, ou seja, um lado tenta afirmar-se e para isso, desqualifica o outro. Em síntese, no empoderamento não existe a ideia de pluralidade, de troca, de construção. É difícil imaginar que, uma relação constituída sob bases tão precárias possa prosperar. Talvez por isso, esses movimentos precisem ser renovados de tempos e tempos, trazendo novas denominação, porém, vestindo sempre o mesmo modelito retrogado, careta. Sempre mais do mesmo.
Nessa mesma toada, muitos dos movimentos sociais que observo (e sem de qualquer forma querer destituí-los de valor ou ponderação), para mim, parecem algo como o ateu que pretende ver seu ateísmo transformando em algum tipo de religião... Essa ideia é de Robespierre e, vai mais antiga que qualquer um de nós, caminhando pela modernidade a fora.
Estar sob um mesmo guarda chuva, nos unindo em grupos que declarem nossas vozes pode dar a falsa sensação de que estamos protegidos. Será? O bom mesmo é tomar um bom banho de chuva, deixar-se molhar, de vez em quando. Desproteger-se é condição fundamental para perceber o outro e deixar que as diferenças façam sentido.
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
sexta-feira, 14 de setembro de 2018
terça-feira, 4 de setembro de 2018
Quando perdi a memória
PERDI a memória
quando não perdi a hora.
PERDI a memória
em todas as vezes que amei
menos do que sabia
quando comprei balas com moedas
só para ajudar...
quando desperdicei abraços e
economizei beijos
quando cheguei cedo demais
ou tarde para nunca mais.
PERDI a memória quando acreditei numa esquerda torpe
e quis trocar por uma direita mais medíocre ainda
quando não me contei com o número de presos
e desejei criar ainda mais prisões.
PERDI a memória
muito antes que o fogo ardesse.
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