Acostumar. Acostumar-se com as coisas pode ser uma das piores escolhas da sua vida. Acostumamos com o trânsito de São Paulo, gostamos de café quente mas nos acostumamos com relacionamentos mornos. Acostumamos com o excesso de oferta e a escassez escolhas. Acostumamos com a abundância e com as pessoas que passam fome. Acostumamos com as pessoas dormindo nas ruas e os shoppings centers, academias, hotéis e brinquedotecas criadas para cães. Acostumamos com uma vida sem sentido pois nos foi feito acreditar que a liberdade é para todos e a felicidade um produto comprável. Acostumamos a fazer coisas aprendidas sem serem apreendidas. Acostumamos a fazer caminhos psíquicos sem nos darmos conta de que nosso genuíno desejo geme todos os dias por debaixo de nossa pele. Acostumamos a nos acostumarmos, porque assim nos foi solicitado por vezes ostensivamente, por vezes de forma velada.
Como nos acostumamos com a tirania? Essa é a pergunta central do texto "Discurso da Servidão Voluntária" de Étienne de La Boétie. Como nascem, se reproduzem e se perpetuam os tiranos? Me parece que essa pergunta torna-se necessária no momento em que nos encaminhamos para uma sociedade com desígnios crescentemente ostentatórios para governos de força. Esse texto de 1563 faz sentido nos dias de hoje tornando-o um clássico. Clássico para mim é tudo o que você pode ler e reler e descobrir com o passar dos anos, dos séculos, que ainda faz sentido. Ou numa fala poético provocativa, um clássico é como estar acompanhando em um casamento de longa data com a mesma mulher que lhe parece interessante todos os dias. A leitura de um clássico é uma leitura sem acostumação, inquietante, perscrutatória.
No texto La Boétie escreve que "a servidão voluntária é fruto antes de tudo de um hábito adquirido. Como os cavalos que mordem o freio e depois se acostumam com ele...a natureza se molda àquilo de que é nutrida". Hoje seguramente diríamos com frases bem torneadas que a sociedade é moldada em seu fisiologismo por novas adjacência sociais disciplinadas por obediências secundárias atreladas ao paralelismo disciplinar não comunicativo. Nada de freios, cavalos, covardes ou imperadores romanos que o autor faz menção na sua retórica. Nisso a linguagem do texto também merece uma apreciação curiosa, fala sem rodeios linguísticos o que hoje já não pega tão bem depois que nos civilizamos tão adequadamente a pedido da era pós moderna.
La Boétie descreve que o homem tem uma condição natural livre. A natureza livre do homem me parece uma quimera a ser perseguida. Somos livres no primeiro suspiro, a partir dali, suposto que nascemos com vida, deixamos de ser declarados natimortos pelo Direito. Dão-nos um nome, uma certidão de nascimento, uma carteira de identidade, um titulo de eleitor, um diploma, um atestado de sanidade mental e por último um de óbito. Somos naturalmente livres porém não somos existencialmente livres. O processo civilizatório é dolorido, incisivo, cortante. Porém, resta acima de tudo um direito não atrelado aos documentos lavrados ao longo da nosso existência. Esse direito é o direito de pensar. É esse o convite da literatura: nos fazer pensar sem conta nem juízo. Ser capaz de fazer releituras, inventar um ponto de vista discordante mesmo que esses juízos tenham como pano de fundo nossos aprendizados ancestrais. Não somos uma tábula rasa com inscrições autênticas, mas podemos imaginar que através do diálogo deixaremos de congratular tiramos, desconfiar de quem amamos ou confiar candidamente em quem nos engana.
"O hábito tem sobre nós poder maior que a natureza". Que complexidade me traz pensar que a tirania é fruto nascido manso da nossa voluntária servidão humana. Se despenso, logo não inexisto.
