capaz de observar com um metro e dez de distância entre os meus pés e o fim de minha cabeça. Deus morava bem acima da minha cabeça, lá no céus, bem no alto, e quanto mais azul estava o dia, mais morada tinha para Deus.
Ouvia agradecimentos fervorosos das empregadas da casa, daí minha ideia de que os pobres são dotados de uma fé singela que os aproximam de uma criança. Minha tia solteira agarrava-se com o terço, e quanto mais brava a coisa ficasse mais orações tinha pela casa. Meu pai dizia que se ela rezava tanto é porque tinha pouca fé em Deus, então daí, isso vindo do meu grande Outro falando do Outro foi dando-me a ideia de que rezar demais também poderia ser pecado. Minha mãe nunca foi de carolices, nunca foi de missa, de padre, mas tinha um jeito especial de praticar a sua fé, cuidando da casa, das panelas e dos muitos filhos.
Éramos quatro meninas em casa (a caçula não nos acompanhava), numa cidade pequena que não nos oferecia nada além do que festas religiosas e missas dominicais. Aos domingos vestíamos nossas melhores roupas e íamos religiosamente à missa, somente as crianças, sem a presença ou interdição dos pais. Íamos porque determinamos que assim fosse e pronto. Confessávamos nossos pecados infantis diretamente com o representante de Deus, em dia com hora marcada para receber o perdão de nossas agruras. Eu ia para esses encontros fazendo uma lista mental dos meus pecados da semana, é óbvio que não me ocorria nada para dizer ao Padre através daquela treliça de madeira, além de ter desobedecido minha mãe, nada mais sobrava para contar. Rezava uns Creio em Deus Pai e perdoada poderia comungar no domingo. Tinha que fazer um esforço enorme para não morder o corpo de Cristo. Minha irmã sempre me cutucava para que eu tomasse cuidado com os dentes. Eu adorava hóstia, sempre fui uma criança faminta e às dez da manhã, em jejum, com o corpo de Cristo na boca, salivava crucialmente.
Uma vez tive uma crise de soluço, talvez por conta do jejum prolongado, em plena missa. Essa mesma irmã mais velha sugeriu que eu abrisse a boca bem aberta para que o soluço cessasse. Saiu de minha garganta, bem na hora do silêncio missal, um coisa estridente parecida com um grito, presumo até hoje, que toda a igreja tenha me ouvido, fiquei morta de raiva da minha irmã, envolvi-me com a ira e fui aprendendo que não se deve confiar em irmãs mais velhas.
Com o fim da missa começava a subir a rua de casa, louca para me desfazer do vestido e dos sapatos de verniz. Nosso prato de domingo era macarrão como frango caipira, eu salivava de novo ao entrar em casa, cometendo mais um pecado capital. A comida da minha mãe sempre foi dos deuses, eu era apenas uma mortal, estava perdoada.
Brincávamos soltas pelas ruas, embora fosse um tempo em que a casa do Pai ficasse sempre de portas abertas, éramos proibidas por nossa mãe de entrarmos sozinhas no templo. Ela não dizia porque, nem se explicava com todas as letras, mas ouvíamos aqui e ali em conversas esparsas sobre tarados e coisas do genero. Brincar no fundo da igreja também era proibido. Tinha um homem meio louco que ficava ali atrás capinando, que corria atrás dos moleques e furava as bolas de futebol caídas em seus domínios, sem dó nem piedade. Era um neurótico de guerra que virou soldado de Deus, cuja missão era salvaguardar a casa do pai ameaçada por crianças que brincavam na rua.
Eu sempre tive pânico de defunto. Um dia me colocaram diante do Jesus morto, um homem em tamanho original, de tanga, com uma coroa de espinho na cabeça, respingado de sangue, com feridas pelo corpo, dentro de um caixão de vidro transparente. Eu não gritei porque ali era lugar de fazer silêncio absoluto, minhas pernas travaram de tal forma que não conseguia me mexer. Fui arrastada dali com explosões de risos que surgiram do lado de fora da rua.
Aprendi a missa de cor. É incrível que ainda a saiba passados mais de quarenta anos sem frequentá-las. Foi bom ter aprendido a rezar, precisei fazê-lo em muitas etapas da minha vida. Lembro-me de quando a desgraça se abateu sobre a minha família, eu já não era mais criança, contava com 20 anos, mas a coisa era duma dimensão inaceitável que somente olhando para o infinito poderia encontrar alguma explicação para o ocorrido. Nesses dias que foram de imensa negritude, uma vizinha vinha até a nossa casa por volta das seis da tarde, ajoelhávamos em volta da cama dos meus pais, dávamos a mãos e rezávamos com ela. Ao final ela dizia algumas palavras que lhe vinham espontaneamente, confortávamo-nos, era único momento de serenidade do dia, mesmo que depois eu continuasse sem dormir de noite ou se dormisse era acometida de pesadelos horríveis.
Quando minha irmã caçula esteve na UTI, com 30% de possibilidade de sobreviver, entrei num parafuso tal que me ocorreu ir à missa. Era um fim de tarde de domingo. Eu nunca tinha entrado numa UTI, de forma que para mim essas visitas eram de muita dor. Ao final da missa procurei o Padre, ele me ouviu em silêncio, não me disse nada, o momento era de não palavras. Untou minhas mãos com óleo, recomendou que no momento em que estivesse com a minha irmã lhe fizesse uma prece com as mãos untadas acima de sua cabeça. No dia seguinte tive a notícia de que ela seria transferida para o quarto. Precisei olhar para o céu.
Tenho cá para mim que a imagem, ideia, devoção ou seja lá como queiram chamar, essa memória de Deus vem da infância. É através dos ritos, da religiosidade que apreendemos que vamos desenhar um Deus dentro de nós. Talvez por isso me torne tão estranho que se matem ou matem em nome de um Deus. Estranho também, que muitos precisem viver uma experiência individual num estado permanentemente coletivo e que tantas igrejas, com as mais variada oferta de fé tenham sido edificadas pelo homem, que ao me ver, podem funcionar muito mais como prisão do que a suposta liberdade que anunciam. Só há um lugar onde a liberdade é possível: dentro de si, através das memórias que inventamos.
Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?”
Leandro Gomes de Barros
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?”
Leandro Gomes de Barros
