terça-feira, 28 de julho de 2020

Eu me lembro das mulheres. Das mulheres num tempo onde eu era criança. Sábado era o dia de compras na cidade. Famílias inteiras, carroças, carroções, charretes. Vinham arrumadas com os recursos que tinham em casa. Se nada houvesse, ao menos a roupa era limpa, o cabelo escovado.
Eu sentada na escada de pedra do armazém de meu avô materno apreciava o movimento, o trago que os homens pediam, o cheiro que vertiam. As mulheres com seus peitos fartos amamentavam seus bebês redondos. Meu avô arrastava os chinelos, ajeitava os óculos de armação preta, pesadíssimos, que lhe causavam uma cova impressionante no nariz e escondiam a doçura de seus olhos profundamente azuis.
O que era possível comprar era armazenado em sacos de panos brancos, seguiam todos, fartos das coisas da estrada.
Eu esperava o próximo sábado.
Hoje vou para cidade fazer compras, passo baton, perfume, me lembro delas e torço para que ainda entre na calça jeans.


sábado, 11 de julho de 2020

Existe um livro que gostei muito da leitura e tenho pensado nele por esses dias que passamos juntos de forma separada. "A Parte Obscura de Nós Mesmos: uma história dos perversos", de Elisabeth Roudinesco, uma intelectual francesa, historiadora e amiga da psicanálise. Por não ser propriamente psicanalista, sua escrita torna-se ainda mais interessante, conferindo a obra um caráter antropológico de nossa maldade humana. Não vou me alongar sobre o texto mas sobre a memória do que ele me trouxe.

Existia na minha cidade uma moça, na época em que éramos todas moças, uma jovem que acabara de perder o pai. Deixou para a família alguns palmos de terra, e sendo ela a mais velha entre todos os irmãos assumiu o negócio como se fazendeira fosse. Vestia-se de jeans, camisa xadrez, bota, cinto de fivela do tamanho de um pires e chapéu que obviamente lhe complementava os trajes. Tinha as unhas compridas pintadas de vermelho, o cabelo tinto de um louro incerto, com os olhos sempre pintados de lápis preto onde dava para perceber que a maquiagem do dia anterior não era completamente removida para novas pinturas, de forma que seus olhos eram sempre carregadamente borrados.

Na lida diária entre a cidade e o campo, Maria, que morava nas suas terras herdadas lhe confidenciou que havida apanhado do marido. A moça dos olhos borrados, pediu para o marido ofensor arrear os cavalos e acompanhá-la na invernada pra correr o gado. Quando chegou bem longe da casa, no meio do pasto, longe de qualquer testemunha, pediu para o Zé descer do cavalo e que fosse ver uma cerca caída. Ela de cima do cavalo, avançou sobre ele e até que ele se desse conta do que estava acontecendo tomou uma sova bem dada de reio, ao mesmo tempo em que moça cavaleira perguntava se ele ainda sentia vontade de bater em mulher. Depois da surra, voltaram para casa mudos, cada um montando seu cavalo e acredito que até Zé ainda esteja se comportando bem...

No nosso mundo supostamente civilizado o ingresso no mundo social é admitido aos que aprenderam a refrear seus instintos. Eu tanto quanto você vivo um processo dual entre o socialmente aceito, o disciplinarmente apreendido por força de recalques e nossos instintos mais primários. Não é admissível que faça justiça com as próprias mãos, agressões físicas não devem ser revidadas. Existem aparatos de inibição social dessas manifestações e para isso contamos com a religião ou com a delegacia de polícia.

Muito rudimentarmente falando,  o neurótico é o sujeito que passou pelo processo de castração, aquele que foi capaz de introjetar limites, etc etc. O perverso, também muito rudimentarmente falando, é aquele onde o processo de introjeção da lei, da castração, não foi bem sucedido. Resumo da ópera: o perverso é aquele que faz o que o neurótico "imagina". Daí então, somos dotados de algo não completamente "adormecido" pelos processos civilizatórios, educacionais (a não ser que você que está me lendo só tenha pensamentos e sonhos castos...).
Talvez esse trecho do livro de Roudinesco dimensione o que estou tentando explicar “os perversos são uma parte de nós mesmos, uma parte de nossa humanidade, pois exibem o que não cessamos de dissimular: nossa própria negatividade, a parte obscura de nós mesmos". Ou seja o que distingue uma estrutura neurótica de uma perversa é a passagem ao ato. O neurótico nega, o perverso executa.

Com essa leitura de Roudinesco mais a estória da moça do cavalo tenho pensado recorridamente em algo que minha estrutura neurótica não permite executar. Ando com muita vontade de encontra-me com um certo chefe de governo de um lugar onde reconheço como uma pátria distante, aplicar-lhe no lombo uma surra, uma guasca daquelas bem dadas, até fazer o reio zunir no vento.
Como não farei a passagem ao ato, continuarei nesse meu processo de recalque.
Falar sobre essa condição humana, sem negação de nossos instintos cruéis pode representar um alívio da tensão provocada pelas tentativas de imaginarmos que somos seres dotados apenas de bondade e candura. Ninguém está a salvo da própria obscuridade, nosso lado sombra precisa mostrar-se de alguma forma, mesmo que seja simplesmente através da expressão verbal, da escrita, das manifestações artísticas, dos mecanismos sublimatórios para que não se tornem doenças de alma e de corpo.