Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
sábado, 23 de maio de 2020
Mil e uma noites sem dormir
Se existisse narradora mais envolvente que Sherazade e tentasse me contar o que aconteceu naquele video, mesmo com toda a potência narrativa eu não teria capacidade de imaginar a escabrosidade dessa obra bufa e seus personagens envolvidos.
Comecemos pelo chefe do hospício. As pessoas falavam A ele respondia B. As pessoas falavam C ele respondia B. As pessoas falavam Z, ele continuava respondendo B. Completamente centrado em si mesmo sem a menor possibilidade de alteridade. Incapaz de enxergar o outro. Ele tem um Brasil que é dele, um Deus que é dele, um livre mercado que é dele, os armamentos e a família, tudo dele. Já vou chegar na caneta. Entre bosta, estrume e hemorróidas temos um presidente completamente retido na fase anal. Não vou explicar as fases infantis libidinais, não gosto de ficar no lugar da psicanalista chata que mete Freud em tudo. Somente para ilustrar, é na fase anal onde afloram as tendências ao sadismo, onde passa a existir a percepção da posse, do egoísmo, da agressividade. Essa fase libidinal é constitutiva e ficar retido nessa fase representa que não houve acesso a fase posterior, a fase fálica, onde há a resolução do Édipo (castração). Alguém duvida mesmo sem ser especialista em teoria psicanalítica que o comportamento do presidente faz total sintonia com os ditames da psicanálise? A caneta é minha, vou interferir sim nos ministérios, quem não tiver meus valores está no governo errado e me defendam talkey, tirem a cabeça da toca pra me defender; e tem mais, se o Antagonista falar bem de qualquer ministro meu, esse cara tá fora. O que significa o desejo de armar a população como forma de insubordinação às normas sanitárias que visam proteger o sujeito da morte na pandemia? O que significa um sujeito que foi expulso de uma corporação por não se submeter às normas? Significa que esse sujeito das hemorróidas, ficou retido na fase anal e foi incapaz de passar pelo Édipo, que é estruturante para instaurar o superego, aquele que nos diz o que é certo, errado, cumprir as leis, ter sentimentos altruístas, etc etc.
Passemos ao garoto de Chicago, aquele que fala com intimidade esculachada sobre a Escola de Chicago ( os "caras" de Chicago), que alguns afirmam não ser uma escola mas um seita econômica. "Não vamos salvar as pequenas empresas, vamos salvar as grandes (companhias aéreas e bancos) e vamos provar pra todo mundo que ganhamos dinheiro com isso". A lógica da perversão. Na pandemia o economista querendo mostrar como faturar. Cadê a suas teorias de livre mercado? Quando precisa colocar recursos públicos para salvar grandes empresas seus dogmas chicagoenses deixam de existir? Quanto custará a operação de salvamento dessas empresas? Certamente muitas vezes mais do que foi dado na forma de abono para trabalhadores autônomos. O que ouço aqui na roca, é que tem muito vagabundo pegando os 600 reais para tomar cachaça no boteco. Isso é o que dá para ver com os olhos. O que não dá para ver com os olhos é o que toma, veste, viaja, mora e como vivem os homens de terno e gravata.
O que quer aproveitar o momento em que a imprensa está toda voltada para o Corona, para abrir a porteira é um assassino, que tem voz para dizer isso perante todos os demais ministros, sem o menor constrangimento, como se esse tipo de fala fosse algo absolutamente rotineiro de ser expresso numa voz pública.
A doida da aldeia, a que quer evitar todos os abortos do mundo, que defende fetos como única forma vital de existência desconhece que a pandemia representa igualmente um ceifar vida.
O ministro da educação, um arauto da dignidade, uma vítima desenxabida perdida num lamaçal do planalto, anunciado do seu impoluto lugar a vagabundice dos demais. Da lenda do "ninguém presta, só eu".
Por último, o próximo candidato a mito. Mudinho, caladinho, materializou naquele instante um vasto cabedal de provas. Nunca entendi como um magistrado que, mantém um sujeito preso (calma lá que não sou petista...), ajuda a eleger outro que pegou carona nos desígnios contra a corrupção, tenha eticamente aceito fazer parte desse governo torpe, brutal, armamentista, que já anunciava seus propósitos e fracassos antes mesmo da apuração das urnas. No ato de sua demissão, ele disse que iria "procurar emprego". Todos sabemos qual é a oferta de emprego para 2022. Tem algum santo nessa estória?
Mil e uma noites sem dormir.
domingo, 17 de maio de 2020
morrer
A gente morre
de fome
de doença
de dor
de felicidade
de rir.
A gente morre
de alegria
de raiva
de cansaço.
Mas a gente morre de verdade
é de saudade.
de fome
de doença
de dor
de felicidade
de rir.
A gente morre
de alegria
de raiva
de cansaço.
Mas a gente morre de verdade
é de saudade.
quarta-feira, 6 de maio de 2020
amor para viver
Meu caro amigo em perdoe por favor se não escrevo "carx amigx". Sou antiga e não faço adesões as modernidades linguísticas nem para se simpática.
Sei que àqueles para quem escrevo escrevo não me lerão. Mesmo assim, se houvesse uma única chance de salvar a humanidade da ignorância, me lançaria ao mar nesse mesmo instante, mesmo não sabendo nadar.
Por algum tempo acreditei que a escolaridade pudesse nos salvar. Mas, foi chegar na universidade para perceber que ali conviviam em período de término da ditadura, cidadãos completamente alienados e reacionários. Portanto, dado ao meu engano primário em acreditar que a escolaridade pudesse fazer pessoas melhores, sucumbo hoje, nesse momento político/histórico, ao ver esses mesmos colegas defendendo as atrocidades de um governo macabro. Vejo também outros injuriando-se por estarmos nesse momento pandêmico discutindo política. Esses últimos são os alienados dos anos 80 e quero crer que essa ignorância mereça entendimento mas não perdão. É fundamental que entendamos a vida como um ato político. Tudo o que nos cerca refere-se a um ato de política. A pandemia que nos assola vem sendo tratada de forma política, com implicações de ações ou omissões sanitárias e de implemento ou falta de políticas públicas. É preciso entender que uma canetada afeta milhares que pessoas ao mesmo tempo e que não falar de política nesse momento é permitir que milhares venham a engrossar as fileiras da morte dada nossa omissão alinhavada ao poder de quem detém a caneta na mão.
Ausentar-se de reflexões políticas nesse momento é alimentar o descaso com as vidas humanas que se perdem vertiginosamente todos os dias.
Os reacionários de meu tempo de universidade, vejo-os hoje aqui com a mesma postura. Continuam fiéis à sua militância de direita extrema, fazem ironias contra o isolamento social de forma ostensiva ou velada, estando prontos a proclamarem um Brasil que é só deles, esquecendo-se que nós, outros, também somos brasileiros e temos tanto direito de amar nossa pátria quanto eles. Vejo também jovens recém saídos dos cueiros sem conhecimento da vida e da história levantando bandeiras dessa mesma ignorância.
Se a escolaridade não nos salva da ignorância o que poderia então nos salvar? Tentando refletir sobre essa pergunta encontro uma resposta muito simples. Não adianta amar o seu pet, não adianta amar suas viagens, nem suas plantas ou livros. Não adianta amar a posição que você conquistou no mundo, seus status quo ou a sua namorada mais recente. É preciso amar em primeiríssimo lugar o ser humano. Interessar-se pelo humano. A ignorância somada à falta de amor humano liquidará a nossa existência na terra e aí não vai ter a menor importância de que lado você esteve. É preciso fazer essa escolha hoje, amanhã pode não resistir resistindo.
O que pode o desamor diante de tão frágil condição humana?
Sem amor ao humano sucumbiremos ao vírus.
Sei que àqueles para quem escrevo escrevo não me lerão. Mesmo assim, se houvesse uma única chance de salvar a humanidade da ignorância, me lançaria ao mar nesse mesmo instante, mesmo não sabendo nadar.
Por algum tempo acreditei que a escolaridade pudesse nos salvar. Mas, foi chegar na universidade para perceber que ali conviviam em período de término da ditadura, cidadãos completamente alienados e reacionários. Portanto, dado ao meu engano primário em acreditar que a escolaridade pudesse fazer pessoas melhores, sucumbo hoje, nesse momento político/histórico, ao ver esses mesmos colegas defendendo as atrocidades de um governo macabro. Vejo também outros injuriando-se por estarmos nesse momento pandêmico discutindo política. Esses últimos são os alienados dos anos 80 e quero crer que essa ignorância mereça entendimento mas não perdão. É fundamental que entendamos a vida como um ato político. Tudo o que nos cerca refere-se a um ato de política. A pandemia que nos assola vem sendo tratada de forma política, com implicações de ações ou omissões sanitárias e de implemento ou falta de políticas públicas. É preciso entender que uma canetada afeta milhares que pessoas ao mesmo tempo e que não falar de política nesse momento é permitir que milhares venham a engrossar as fileiras da morte dada nossa omissão alinhavada ao poder de quem detém a caneta na mão.
Ausentar-se de reflexões políticas nesse momento é alimentar o descaso com as vidas humanas que se perdem vertiginosamente todos os dias.
Os reacionários de meu tempo de universidade, vejo-os hoje aqui com a mesma postura. Continuam fiéis à sua militância de direita extrema, fazem ironias contra o isolamento social de forma ostensiva ou velada, estando prontos a proclamarem um Brasil que é só deles, esquecendo-se que nós, outros, também somos brasileiros e temos tanto direito de amar nossa pátria quanto eles. Vejo também jovens recém saídos dos cueiros sem conhecimento da vida e da história levantando bandeiras dessa mesma ignorância.
Se a escolaridade não nos salva da ignorância o que poderia então nos salvar? Tentando refletir sobre essa pergunta encontro uma resposta muito simples. Não adianta amar o seu pet, não adianta amar suas viagens, nem suas plantas ou livros. Não adianta amar a posição que você conquistou no mundo, seus status quo ou a sua namorada mais recente. É preciso amar em primeiríssimo lugar o ser humano. Interessar-se pelo humano. A ignorância somada à falta de amor humano liquidará a nossa existência na terra e aí não vai ter a menor importância de que lado você esteve. É preciso fazer essa escolha hoje, amanhã pode não resistir resistindo.
O que pode o desamor diante de tão frágil condição humana?
Sem amor ao humano sucumbiremos ao vírus.
Assinar:
Comentários (Atom)