sexta-feira, 18 de julho de 2025

Dias frios


Depois de três anos da morte de minha mãe, voltei à cidade onde supostamente nasci. Supostamente porque é ali que consta meu registro de nascimento, onde adquiri meu primeiro número: folha tal, livro tal.

Ao longo da vida fui recebendo vários outros números. Apenas o meu nome se conservou o mesmo. Sempre me recusei a mudá-lo. Quando estudei Direito, ouvi de um professor que, na tradição romana, a mulher ao casar mudava de manus: deixava de ser propriedade do pai para tornar-se propriedade do marido. Esse absurdo teve registros em mim.

Fui visitar o túmulo da minha mãe. Ali, com o seu nome de casada, está  com outros familiares da minha linhagem paterna. Fiquei feliz por estar tão bem acompanhada. Está com os melhores da família, os que fizeram parte dos meus dias, dos quais guardo lembranças preciosas.

Depois fui procurar meu irmão, que está num lugar mais afastado, em companhia de minha avó paterna.

Percebi que não mudei nada desde a infância. A atmosfera do cemitério, as cruzes, as calçadas de pedras portuguesas, a solidão poeirenta de um mês frio e seco me acompanharam por dois dias. Bastava fechar os olhos e tudo aquilo voltava: o inexplicável, o silêncio, o frio.

Quando era criança, vivia nessa cidade, que para mim sempre foi sinônimo de tédio. Fazia qualquer coisa para me livrar da sensação de não ter o que fazer. Era assim que, em novembro, antes do Dia de Finados, eu aceitava o convite da Yazinha - a empregada que completou cinquenta anos de serviços com minha avó e dela herdou o nome em diminutivo - para lavar e enfeitar os túmulos da família.

Acho que essa ideia de limpar os túmulos era uma forma de mostrar que não abandonávamos nossos mortos. Dona Yazinha acreditava que se não tivesse tudo lustrado, "os pessoal da cidade ia falámardenóis ". 

Eu ficava, pelo menos, uns quinze dias com o cemitério na cabeça. Bastava fechar os olhos durante o dia que o medo vinha. À noite, ele vinha ainda pior. Pensava na solidão daqueles que, deitados sempre de barriga para cima, de olhos fechados, para nunca mais ver ou poder conversar com os que vinham de visita. As flores murchavam com a cabeça curvada. Também estavam mortas.


sexta-feira, 4 de julho de 2025

O segredo dos teus olhos

Existe uma frase de Freud, no emblemático Caso Dora, que soa quase como uma profecia. Mesmo sem nunca desejar sê-lo e tendo refutado a posição de oráculo, quando escreveu um dos textos inaugurais da psicanálise, A Interpretação dos Sonhos, Freud afirmou que um sonho depende muito mais do sonhador do que da tentativa de adivinhar o futuro.  

Mas antes que eu me perca completamente , volto à frase do Caso Dora:

"Nenhum mortal pode guardar um segredo; se sua boca permanece em silêncio, falarão as pontas dos seus dedos..."

Não quero falar de Freud, nem da interpretação dessa frase em seu contexto.

Quero falar de você.

Quero falar de tudo o que ouvi nos seus silêncios, dos seus olhos pousados em mim, da sua mão roçando as pontas dos meus dedos  e da importância da minha imaginação em interpretar e guardar cada memória do tempo em que você esteve ao meu lado.

Eu sempre te disse que a melhor distância entre nós era a de um palmo.

Era quando eu sentia tua respiração encontrando a minha, fazendo nuvens, gerando conjecturas, criando um futuro sem existência.

Buscamos juntos um fim porque nunca soubemos buscar uma finalidade.

Estivemos juntos em longos silêncios porque não suportaríamos as palavras que viriam, encerrando aquilo que jamais sonhamos que um dia acabaria. E acabou, mesmo em silêncio.

Nosso segredo sempre foi terminar.

Guardo para mim o segredo dos teus olhos, assim como guardo as coisas incontáveis, intocáveis, incomunicáveis da minha memória. 

Claudia Casimiro