sexta-feira, 10 de junho de 2016

A primeira vez na escola



Se os primeiros sentimentos que nutrimos pela mãe são tão fortes e poderosos ao ponto de nortear nosso relacionamento com o mundo, seria válida a premissa de que a primeira impressão é a que fica? Traduzindo isso por sentimentos e emoções poderíamos dizer que toda vez que tomamos contato com o novo, criamos por ele uma forma de sentir que norteará nossos  padrões futuros?

Estou lendo Melanie Klein, a psicanalista austríaca, que tendo aprofundado a obra de Freud, foi quem mais analisou e pensou sobre os sentimentos infantis. É dela a expressão "seio bom/seio mau" nas relações que envolvem os bebês e suas mães.

Tenho sete anos e vou pela primeira vez para uma escola. Com dois irmãos acima e dois abaixo, presumo que minha mãe se esqueceu de mandar estudar e quando se lembrou, já tinha passado a minha idade para o pré-primário. Pré-primário era a primeira fase escolar antes da alfabetização. Dava-se com mais ou menos 06 anos de idade e não era obrigatória. Naquele tempo mães ficavam em casa e essas casas tinham quintal, de modo que as escolinhas como instituições sociais nos moldes de hoje,  não existiam.
Pois bem, queimei essa fase do pré-primário e de um dia para outro me vejo de uniforme, sapato preto com cadarço, dois números maior que meu pé, saia de prega quadriculada de preto e branco, camisa branca com o mapa do Estado de São Paulo bordado em vermelho com o nome da escola rodeando-o.

É obvio que essa imediatez educacional, somada ao meu estarrecimento escolar me colocaram muito assustada.

Essa minha entrada imediata e sem prévias para a escola foi tão assustadora e impactante que me pôs muda. Pela primeira vez me vejo fora da proteção do circulo familiar para adentrar numa outra estrutura, com pessoas todas desconhecidas, com as quais eu não tinha a menor facilidade em me comunicar. Lembro-me de uma vez ter chegado em casa e confessado à minha mãe esse meu desconforto, de passar quatro horas sem abrir a boca. Meu medo era chegar em casa e não saber mais como falar. Não me lembro dela ter me respondido alguma coisa.

Não sei como consegui aprender a ler, porque somar até agora não aprendi direito. Eu queria muito ir para escola. Pegava escondida a cartilha Caminho Suave, que era do meu irmão e ficava tentando decifrar o que eram aquelas coisas que se pareciam com letras, formavam palavras e sons e contavam estórias. Era tudo o que eu queria: poder ler as estórias com autonomia, sem precisar contar com a boa vontade de um alfabetizado.

Mesmo com essa minha boa vontade em ir para a escola, meu desempenho foi sofrível. Mas tive sorte. Nesse meu primeiro contato com as letras tive um "seio bom". Minha estimada primeira professora, presumo que pressentia as minhas dificuldades mas nunca me retaliou. Lembro-me que tinha um olhar por mim tão acolhedor, criando uma cumplicidade, uma ponte, entre as minhas dificuldades e a sua enorme paciência com os meus vacilantes primeiros passos.

Quando digo que tive sorte foi por ter me deparado com uma primeira professora dotada de generosidade e bondade. O que teria sido de mim, caso tivesse que deparado de imediato com algumas outras professoras que tive depois? Loucas ensandecidas, desordenadas das coisas, atos e palavras. Atiravam toco de giz para pedir silêncio, isso quando não era o próprio apagador da lousa que voava entre nossos cérebros... Tive uma outra que desdenhava declaradamente do menino mais pobre da sala. Chamava-o de burro, pegava a borracha e esfregava na sua nuca dizendo que era para apagar "de vez" as idiotices que fazia no papel. Nunca me esqueci do Brás. Essas seriam o que Melanie Klein chamou de "seio mau".

Na hipótese de meu primeiro contato não ter sido com a Dona Zezé, será que seria possível avaliar o que teria acontecido comigo? Eu sei. Mesmo tendo nutrido loucamente o desejo de aprender a ler, muito provavelmente eu teria passado a odiar a escola. Se isso tivesse de fato acontecido, é muito provável que eu tivesse me transformado num ser abominável dentro da sala de aula e trataria com a mesma agressividade os professores. Porque esse seria meu primeiro sentimento em relação à escola. E se a primeira impressão é a que fica, muito provavelmente, não teria tido condições de desarmar essa cilada. Minha boa relação com a escola só pode constituir-se positivamente porque meu primeiro sentimento foi de acolhimento e paciência, estruturando em mim condições para suportar o que ainda estava por vir.

Será que não vale a pena pensar em como estamos apresentado o mundo às nossas crianças? Isso vale primeiramente para as mães, nossa primeira fonte de contato com os afetos. E depois, pensar na escola como uma grande oportunidade para encontrar o "seio bom", que nutre, que cuida para o mundo que virá. Não é demais lembrar que a escola tem entrado cada vez mais cedo na vida dos bebês. A escola vai ensinar nossos bebês a enxergarem o mundo e talvez por isso, essa reflexão mereça ser bastante sensível.

Melanie Klein
(1822-1960)




terça-feira, 7 de junho de 2016

depoimentos leituracura

Lemos o texto "O peru de Natal" de Mário de Andrade. Nesse texto, Mário nos fala de um pai de "alma cinzenta", homem honrado e trabalhador mas um "desmancha prazeres"; voltado para o bem estar da família mas que os privava de prazeres e por isso não tem receio em pensar que odeia o pai morto. Resolve então, depois da morte desse pai, fazer um Natal de verdade. Esse Natal de verdade tem que ter peru, com duas farofas, cerveja gelada, a primeira a ser servida será a mãe, que em outros natais sempre servia a todos e acabava por comer somente as lascas do peru e mesmo assim no dia seguinte, garimpadas entre as sobras da festa ...

Um dos participantes da roda de leitura, muito jovem por sinal, rebelou-se completamente contra o próprio pai. Disse  ter nascido por um acaso qualquer, abandonado, e criado por uma tia e pela avó, que sempre o lembraram ser ele um grande estorvo. Disse que ninguém nunca o amou na vida. Percebo que os outros participantes da roda tentam ampará-lo, tentando fazê-lo perceber outros pontos de vista, como por exemplo a  falta de condição que os próprios pais tinham em criá-lo, por conta do álcool, drogas, etc, etc. Ele se inflamava mais ainda.

No encontro seguinte me trouxe esse texto, escrito de próprio punho dizendo o seguinte;

" Meu Pavão, minha unção...
Hoje acordei pensando o que é ter um pai, pai coruja, pai Deus, pai companheiro ou até pai irmão.

Mas nesse momento tive uma reflexão, que nosso pai é a nossa visão de vida, de alegria, de cura e até de tristeza.

'Me sinto' que o mundo começou e as portas se abriram, onde vi meu grande pai sorrindo, enquanto eu acordava para viver". (sic)

#Leituracura que acontece no Arsenal da Esperança, um abrigo masculinos para homens adultos.
São Paulo 06.06.2016


Link com o texto Peru de Natal na íntegra http://www.cocminas.com.br/arquivos/file/O%20peru%20de%20Natal%20MARIO%20DE%20ANDRADE.pdf