Tinha preparado para você um quarto com uns ursinhos bem graciosos. Naquele tempo era assim: rosa para meninas, azul para meninos e amarelo para não sei. Queria me surpreender com seu nascimento por isso quis tanto esperar... e nessa espera, sem desejar saber o seu sexo, preparei o seu quarto em tons de amarelo suave, quase palha.
Com essa minha súbita mudança e, já contando com sete meses de gravidez, fiz questão de reproduzir, novamente, o mesmo amarelo, os mesmos ursinhos no quarto novo, da cidade nova.
Tinha alugado uma casa pequena, que ficava no alto de um terreno e nunca me senti tão sozinha em toda a minha vida.
Depois do nascimento da criança, passávamos os três em casa: o bebê, o cachorro e eu.
Conforme ia escurecendo eu ia me amedrontando. Talvez porque morar em casa fosse uma situação nova para quem estava habituada a viver em apartamento; talvez porque a maternidade mexesse demais comigo. Sentia uma responsabilidade enorme em cuidar de um ser tão diminuto que dependia de mim em todas as circunstâncias. E porque tinha, por último e mais verdadeiramente, medo de ladrão.
Uma das noites enquanto te amamentava, escutei cair tudo lá fora na área de serviço, muito provavelmente pela passagem de um gato. Mas, quando se tem (muito!!) medo não é a imagem de um gato que primeiro vem à mente.
Nossos dias transcorriam entre fraldas, noites insones, gatos no quintal e uma coisa muito particular que aconteceu numa madrugada. Era um mês de junho bem frio, devia ser por volta de quatro ou cinco da manhã. Eu o amamentava sentada na cadeira de balanço, enquanto te segurava entre os meus braços, com um dos meus pés procurava acariciar os pelos do Dun-dun, que por esses tempos andava enlouquecido de tanto ciúme.
Foi assim que comecei a ouvir um coro de vozes femininas. Confesso que num primeiro instante aquilo me assustou bastante. Num instante seguinte, me deixei levar pela beleza das vozes e logo depois quando as vozes já pareciam sumir para mais longe, foi ficando um rastro com cheiro de perfume, de flores... Fechei os olhos e senti uma paz tão transbordante e profunda, que permaneci num estado de latência. O nosso fiel escudeiro, que era um schnauzer estridente, sequer latiu.
Quando amanheceu, pensei que deveria ter ido até a janela, ter olhado para rua, ver quem eram as mulheres que estavam me proporcionando aquela mansidão. Não fiz nada e como não conhecesse vizinhos, também não perguntei a ninguém que pudesse me informar o que poderia ter sido aquilo. Fiquei numa dúvida muito grande, pois sendo a casa no alto do terreno, longe da rua, aquele cântico de sublimes vozes parecia estar na janela do corredor lateral, muito próximas de nós.
Muitos anos depois, comentando sobre isso com uma amiga, ela me disse que eu tinha tido um encontro com o divino. Não sou mistica, e talvez seja muito mais temente que crente, e não sei João, o que foi que nos aconteceu de verdade. Talvez tenha sido uma procissão acontecida naquela madrugada gelada ou tantas de outras experiências e sensações que nunca vou saber como te explicar direito.
Porque os momentos divinos, filho, são assim mesmo: cheios de não explicações.
