sábado, 16 de julho de 2016

quem pode amar?

Enquanto o dia nascia entre plúmbeo e um sol teimoso dourando os prédios, fui tomada por Eros.

Eros, sendo filho de Riqueza com Pobreza, não pode ser uma coisa nem outra. Filho que é, herdou essas duas possibilidades. Daí a imperfeição do amor.

O amor é aquilo que estamos dispostos a doar a ele. Se pouco ou muito, é o reflexo de nossa própria disponibilidade. Por outro lado (como tudo na vida), o excesso ou a falta perfazem o descompasso que tanto pode saciar irremediavelmente como carenciar insustentavelmente.

O amor não se mede em xícaras, colheradas, pitadas, como em uma receita.

O amor se mede tão somente pela nossa aptidão em adotá-lo, a capacidade para suportá-lo e nas ausências que se possam notar.

O amor é o maior dos desequilíbrios entre a falta e a completude e aí reside a sua natureza e sentido.

Não vivenciar esse desequilíbrio, perder-se em explicações nos faz esquecer o seu propósito

E para isso e só por isso foi feito: para amar...!

As explicações não revelam o amor e sim a sua falta.  Ou a falta que ele nos faz.



Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade ANDRADE, C. D. Obra poética, Volumes 3. Lisboa: Publicações Europa-América. 1989.


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