quarta-feira, 25 de maio de 2016

Por onde andam as palavras?


Tem um livro que gostei muito ("Trem noturno para Lisboa"). Não sei se são ecos da minha cabeça mas me parece em que algum ponto desse romance nos é perguntado "para onde se encaminham as palavras que não são ditas?" Não saberia situar onde essa frase está ou se de fato existe pois o meu exemplar está todo grifado dos trechos que chamaram a minha atenção. A segunda coisa que gosto nesse livro é que o seu título virou uma expressão idiomática na Europa, querendo se referir a uma pessoa está pronta para tomar um rumo diferente na vida. O  sujeito acorda e ao invés de tomar um café,  toma um trem noturno para Lisboa ( foi isso o que aconteceu com o nosso homem do livro). A ideia toda me parece além de muito romântica bastante eficaz e juntar essa duas peças pode ser algo tão humanamente impossível quanto poético...

A terceira coisa que gostei é que foi escrito por um professor Suíço de filosofia que leciona em Berlim.

Imaginar que rumo tomaram as palavras que não foram ditas talvez a estória pessoal de cada um possa falar por si.  Se mediante o que dizemos e não dizermos operamos os acontecimentos de nossas vidas, talvez sejam um motivo a mais querer conhecê-las antes de pronunciá-las. Colocar nossas palavras em ações significa  falar ou silenciar (irremediavelmente) quando a ocasião exige.

Muito além das palavras que não foram ditas é necessário pensar  quais conhecemos para situar esse ou aquele fato, traduzir sentimentos que irão modelar não simplesmente nossa forma de entender o mundo mas como nos relacionamos com esse mundo e muito além disso, como as palavras permeiam nossos relacionamentos interpessoais.  A palavra como forma estruturante do pensamento é de vital importância desde as primeiras comunicações que estabelecemos com os nossos bebês, o que pode nos levar a avaliar o grau de importância das primeiras falas maternas e seus reflexos num ser em constituição. Mais adiante, deparamo-nos com a alfabetização como processo de cognição. Os idiomas onde estamos inseridos criam a nossa forma de pensar, modelando nosso pensamento em relação recíproca e inversa temos também nossos pensamentos modulando nossas palavras. Talvez dai a importância de ampliarmos nosso repertório linguístico para nos sentirmos parte do mundo.

A linguagem envolve portanto aspectos mentais. E o que existe de tão ameaçador em nosso momento atual, onde se preconizam mudanças políticas e sociais? Duas coisas me chamam bastante a atenção: a miopia com que se pretende avaliar e prognosticar soluções ( os que querem e exigem solução para ontem e não se satisfarão com nada..), fruto de pensamentos mal modulados; a outra questão é o empobrecimento do vernáculo, criando receitas de comunicação editadas em forma de cartilhas políticas, com palavras contextualizadas para criar uma narrativa própria de interpretação desses ditos fatos políticos, sociais e mais perigosamente: culturais.

A linguagem é símbolo. É o que nos separa dos animais e quanto menos palavras, menos capacidade de pensar (nesse ponto o diálogo também já foi para as cucuias...) E para quem acha que tudo isso é coisa pouca, Jung nos deixa um recadinho: adoecemos quando perdemos a capacidade de simbolizar...
Ou seja, a nação que se empobreceu porque abandonou as palavras, não soube buscar formas para ampliar o seu repertório linguístico fatalmente lerá em cartilhas editadas e prontas para o consumo. Daí palavras sendo distribuídas e amplificadas como mantras, onde metade defende que sim e metade defende que não.  Na fusão  dessas duas partes bem poucos tem clareza para  opinarem através de seu próprio pensamento pois o desconhecimento das palavras tem feito muita falta, levando muitos, inevitavelmente, a serem catequizados.

O trem noturno para Lisboa partirá com muitos assentos vagos, não por falta de demanda, mas porque a senha para o ingresso é a palavra que deixou de ser apreendida.  É lamentável mas é a vida.

"...e compreendia tudo com uma rapidez e uma exatidão que, depois do espanto inicial, me deu medo, pois a sua percepção derrubava todas as barreiras protetoras.
Nos anos que se seguiram passei a fugir toda vez que alguém começava a me compreender. Isso melhorou. Mas uma coisa permaneceu: não quero alguém que me compreenda totalmente. Quero passar pela vida sem ser reconhecida. A cegueira dos outros é a minha segurança e  a minha liberdade." pg 446 -  Trem noturno para Lisboa - Pascal Mercier.

#leituracura



quarta-feira, 18 de maio de 2016

Essa garoa fina, chuvinha de molhar bobo, não combina com os propósitos  de caminhar tão cedo... Para não desanimar vou pensando em Eduardo Galeano, quando disse  que as longas caminhas por la rambla de Montevideo con su perro tinham o efeito de economizar em terapia.

Nessas primeiras horas matinais tem muito lulu sem as luloucas. Chuvinha miúda e chapinha são seres incomunicáveis. Tem sim, muito cão acompanhado de cuidador e me vem à ideia os negócios paralelos que são criados nos interregnos desse amor entre o homem e a criação. (Aspas: de onde venho, tudo o que é bicho é tratado genericamente por "criação").

Fiquei pensando que nesse novo e admirável mundo eufemista,  também não posso mais falar 'cão' ou 'cachorro'. Outro dia, uma hóspede me perguntou se poderia vir com seu 'amorzinho'. Subentendi meio reticente quanto à minha capacidade interpretativa, e por fim declarei que não aceitávamos 'pets'. Indignou-se contra esse meu preconceito, digno de  mudar essencialmente quem sou como pessoa, simplesmente porque não quero pelos e patas pela casa. Por fim quem dançou de verdade foi o namorado, que ficou sem o fim de semana na montanha. Prevaleceu o 'amorzinho' em detrimento do amorzão.

Olho para uma esquina da Oscar Freire (onde o aluguel é caríssimo) e vejo "padaria para pets" .  Paro para constatar melhor,  e vejo que é também sorveteria...meu espanto vai aumentando... nem sabia que gato gostava de sorvete...?! Fico com as ideias na cabeça se esse tipo de negócio pode dar certo (e toda vez que tenho essa dúvida já é um claro sintoma de que vai prosperar, porque coisas loucas acontecem nesse mundo eufemista de lulus e luloucas. Sei também que vai me chover crítica, irão dizer que sou insensível aos amores petianos, me defendo já, antes de fúrias e perda de amizades que também já fui mãe de cachorro, mas não consigo,  de verdade (!!), deixar de pensar em vários absurdos, que tanta gente não se dê conta que para produzir ração também precisa plantar soja (um dos itens da composição de ração animal, além de putrefatas farinhas de víceras...). E produzir ração também polui, envenena tanto quanto produzir alimentos para seres humanos em grandes escalas. Os investimentos para pets dariam para matar boa parte da fome no mundo. Ando mais um pouco e minha indignação aumenta. A poucos metros da sorveteria para cães e gatos, vejo em letras não garrafais (porque aqui tudo precisa ser discretamente hype) "spa para pets".

Volto, porque a chuvinha começa a virar toró. A caminhada virou questão existencial permeada de afetividade transferencial incognicível e como não sou Galeano, minhas caminhadas não são excludentes de terapia.