quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Eu quero uns óculos

Um amigo recém chegado convidou-me para uma exposição na FIESP. Tratava-se de algo, que preferi não me informar antes sobre do que se tratava. Não gosto de ter muitas informações enquanto caminho para o inusitado.

Na primeira entrada, vesti uns óculos imensos que me levaram para uma outra realidade. Uma paisagem fosforescente criou-se em minha volta, lembrando na sua multiplicidade, algo entre o coral e o ocre.  Lembrou-me o Atacama. Era preciso montar um boneco, do tipo Jaspion, não importando a ordem em que eu bem o  entendesse. Poderia ser pernas no lugar dos braços, cabeça no lugar do tronco, tanto fazia. Meu boneco, talvez por alguma composição auto neurótica, saiu dimensionado corretamente, ou seja, cabeça tronco e membros, cada coisa em seu lugar. Tocava uma música e esse ser que criei, corria, pulava, dançava, me atravessava, para depois aparecer em qualquer outro lugar daquele universo criado pelos tais óculos.  Os que estavam do lado de fora, esperando a sua vez de brincar, percebiam os movimentos do meu corpo em acompanhar o tal boneco, mas jamais repetiriam as mesmas sensações que tive. Com cada participante, a brincadeira mudava de figura.

Numa outra sala, vesti uma coisa circular na cabeça, onde também tinham uns óculos, onde acabei  e virando um aspirador de pó. Me meti por debaixo de camas, cadeiras, mesas, fui limpado a casa toda. Eu me transformei em algo que nunca pensei ser: um aspirador de pó. Funcionou.

Outra passagem, nos permitia estar diante de um imenso mar, calmo, azul, sereno, até que nossas ondas cerebrais mudassem vertiginosamente aquele cenário. O meu mar passava da tranquilidade azul para um tsunami plúmbeo. Era de 8 a 80. Pensei que seria muito bom ter um artefato desses no meu consultório. Seria bem mais prático para os pacientes que só querem acessar respostas sem ter que fazer longas perguntas sobre suas formas mais primárias de organização.

Acho, que pelo que entendi bem e, por tudo o que deixei de entender, falávamos ali, nessa exposição, de realidade virtual aumentada. Seja lá o que isso signifique propriamente e, tampouco eu saberia explicar. O fato é que essas tretras começam a aparecer e poderão ter utilidade no futuro próximo. Futuro esse que, já pode acontecer nas próximas horas, se imaginarmos, não sem angústia, a velocidade com que as coisas acontecem.

Com esses óculos, por exemplo, fiquei pensando em me mudar para uma cobertura na Quinta Avenida, com vista para o Central Park, onde as janelas fossem blindadas e eu não precisasse ouvir a motosserra que está desde ontem, me perturbando o sossego, cortando todas a árvores, para erguer mais um encantador edifício de alto padrão no meu quarteirão.

Pensei também, através desses óculos, trocar o namorado que tenho em casa pelo George Clooney ou pelo Keanu Reeves. Seria muito mais encantador visualmente falando, além da possibilidade deles estarem sempre bem humorados, carinhosos e apaixonados. E (eternamente) lindos!

Poderia também passar um tempo numa das praias da Venezuela, sem ter que fazer reservas, encarar a chatice e o cansaço dos aeroportos, desfrutar de dias sem chuva, sem nunca receber a fatura do cartão de crédito na minha casa.

Um mundo "emprestado", de onde tirem a nossa mundana realidade, talvez seja a promessa dos dias vindouros.

A questão é que, em algum momento precisamos tirar os óculos. Quando saí da exposição, algo bem real acontecia: chovia torrencialmente na rua. Era começo de noite, naquela hora que você já sabe sem surpresas como foi o seu dia, mas acalenta ainda a possibilidade do inesperado ser melhor do que as coisas acontecidas. As pessoas estavam apressadas, fazia bastante frio, e eu, por um desígnio qualquer tinha um guarda chuva. Não precisei me molhar, mesmo tendo saído pela chuva afora.