Ele plantou para a mãe, que foi minha avó. E hoje vejo as flores que acho tão-tão lindas.
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
domingo, 26 de julho de 2015
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Sabe, esqueci de te falar que a-do-rei o Seu Canteliano ( era esse o nome dele?). O ilhéu que nas férias te contava da ilha, do mar e das coisas da vida. Enquanto você ia contando, eu ia tentando construir uma imagem dele e via cada vez mais a sua. As bulas de remédio, as pilhas usadas, o queijo, o te esperar na praia...
Quando penso nas coisas que me conta, me surpreendo em como você oscila de estatura, idade. Quando senta no chão, te vejo tão menino, adolescente, numa fase em que não te conheci, mas tenho memória de como deveria ter sido. Quando me olha meio de canto de olho, se volta para frente e dá um meio sorriso, te vejo tão homem, tão maduro, tão sedutor. Quando te observo cozinhando, dando de costas e me olhando por cima dos ombros, seus olhos lampejam, faíscam, rimos de alguma bobagem que percebemos juntos e agora, encontrei esses rabiscos, que ficaram por anos esquecidos no meio das minhas anotações.
Quando penso nas coisas que me conta, me surpreendo em como você oscila de estatura, idade. Quando senta no chão, te vejo tão menino, adolescente, numa fase em que não te conheci, mas tenho memória de como deveria ter sido. Quando me olha meio de canto de olho, se volta para frente e dá um meio sorriso, te vejo tão homem, tão maduro, tão sedutor. Quando te observo cozinhando, dando de costas e me olhando por cima dos ombros, seus olhos lampejam, faíscam, rimos de alguma bobagem que percebemos juntos e agora, encontrei esses rabiscos, que ficaram por anos esquecidos no meio das minhas anotações.
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Secando as unhas
Fazia as minhas unhas enquanto ela esperava que as suas secassem. Com os olhos fixos para baixo, sem perceber o seu rosto, elogiei o seu sapato. Cor de doce de leite, um debrum num tom abaixo, pespontado com perfeição. Salto adequado ao cabedal, quase uma obra de arte. Começamos a conversar e ela contou, contou e contou. Esperava que as unhas secassem porque relutava em voltar para casa. Não queria voltar para o apartamento e ver a varanda vazia, onde durante anos, o marido costumava sentar para ler o jornal e ler, ler e ler. Era muito culto, falava nove idiomas.
Que planos que nada!!! A vida está toda escrita. Eles se conheceram no dia do incêndio do Joelma. Ele, sem saber do incêndio entrou pela rua afoito e no meio da multidão acabou torcendo o pé. De lá, foi levado para o hospital. Ela, que era Enfermeira Padrão, entre os mortos e vivos que chegavam, imobilizou o seu pé. Nem olhou para o rosto dele, mas pelo sapato que usava sabia que não era uma pessoa para ser atendida ali, naquele hospital municipal.
Nunca mais se viram. Ele rodou todos os hospitais da cidade por anos para encontrar a enfermeira. Um dia, ela entrou na sala de um médico, ele pulou da cadeira e gritou "é essa a moça!!" Ela tomou o maior susto, não imaginou o que pudesse estar acontecendo nem quem era aquele homem em desvario na sua frente. Quatro meses depois estava com ele em Genéve, numa feira de relógios e jóias. Brasileira, bonita, inesperadamente se viu transformada numa sofisticada modelo de jóias. Ele já era viúvo havia dois anos, flertava com ela discretamente mas teve a elegância de reservar quartos separados. Naquele lobby de hotel, ela decidiu que ele seria o homem com quem se casaria.
Nunca, em nenhum ano dos 40 de casamento as flores deixaram de chegar às sextas feiras. Inclusive depois da primeira semana que ele havia falecido.
Nunca dormiram uma noite sequer separados durante esses quarenta anos.
Ele, já no final da doença e bastante debilitado, na última semana da sua vida, numa manhã reclamou que a fralda lhe estava machucando o quadril. Quando ela colocou a mão para verificar surgiu uma caixa. Dentro com um colar e brincos de esmeraldas. Ele declarou que era em agradecimento pelo grande amor que sempre sentiu por ela durante toda a vida.
Não, não era pelas esmeraldas nem por toda a vida maravilhosa que ele me proporcionou... era pelo copo de leite que ele me levou na cama, todas as noites antes de dormir, exatamente, sempre, com a mesma temperatura.
Que planos que nada!!! A vida está toda escrita. Eles se conheceram no dia do incêndio do Joelma. Ele, sem saber do incêndio entrou pela rua afoito e no meio da multidão acabou torcendo o pé. De lá, foi levado para o hospital. Ela, que era Enfermeira Padrão, entre os mortos e vivos que chegavam, imobilizou o seu pé. Nem olhou para o rosto dele, mas pelo sapato que usava sabia que não era uma pessoa para ser atendida ali, naquele hospital municipal.
Nunca mais se viram. Ele rodou todos os hospitais da cidade por anos para encontrar a enfermeira. Um dia, ela entrou na sala de um médico, ele pulou da cadeira e gritou "é essa a moça!!" Ela tomou o maior susto, não imaginou o que pudesse estar acontecendo nem quem era aquele homem em desvario na sua frente. Quatro meses depois estava com ele em Genéve, numa feira de relógios e jóias. Brasileira, bonita, inesperadamente se viu transformada numa sofisticada modelo de jóias. Ele já era viúvo havia dois anos, flertava com ela discretamente mas teve a elegância de reservar quartos separados. Naquele lobby de hotel, ela decidiu que ele seria o homem com quem se casaria.
Nunca, em nenhum ano dos 40 de casamento as flores deixaram de chegar às sextas feiras. Inclusive depois da primeira semana que ele havia falecido.
Nunca dormiram uma noite sequer separados durante esses quarenta anos.
Ele, já no final da doença e bastante debilitado, na última semana da sua vida, numa manhã reclamou que a fralda lhe estava machucando o quadril. Quando ela colocou a mão para verificar surgiu uma caixa. Dentro com um colar e brincos de esmeraldas. Ele declarou que era em agradecimento pelo grande amor que sempre sentiu por ela durante toda a vida.
Não, não era pelas esmeraldas nem por toda a vida maravilhosa que ele me proporcionou... era pelo copo de leite que ele me levou na cama, todas as noites antes de dormir, exatamente, sempre, com a mesma temperatura.
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