sexta-feira, 2 de junho de 2017

Um gênio chamado Dostoiévski

Nunca gostei de pensamentos reducionistas. Talvez pela inconstância de meus próprios pensamentos, talvez por uma inquietação da alma que não permite ser compartimentalizada (isso não é exclusividade de minha alma, mas também da sua). A diferença é que algumas pessoas se dão conta disso, enquanto outras passam a vida sem perceber essa fato como um incômodo.
Tenho cá pra mim, que uma hora ou outra é sempre disso que a vida vai tratar, quer a gente queira quer repudie, o incômodo vem nos fazer uma visita. E visitas vocês sabem bem como funcionam... depois de alguns dias a coisa não fica tão bem, os abraços das partidas não são os mesmos das chegadas.

Voltando ao reducionismo, talvez por essa questão, não tenha me atido a uma só profissão ou a uma única área do conhecimento humano. Fiz vários cursos, desde os manuais, adoro ferramentas, sei usar algumas e gostaria de fazer uso de outras. Meu filho quando tinha uns cinco anos de idade me chamava de Pereirão,  quem assistiu a novela sabe do que estou falando. Sempre gostei de temas relacionados com saúde, cuidados. Desde acupuntura auricular até minha formação em psicanálise foi um percurso, entremeado com venda de sapatos, construções, reformas, juntar contas em colares, desenvolver algumas coleções de moda, advogar em causa própria toda as vezes em que surgiam interesses contrariados, vender imóveis, estudar, mediar e conciliar conflitos, botar em curso um projeto social acalentado por anos, cozinhar, fizeram parte de minha trajetória, além de outras coisas que como diz uma amiga, vai com calma que o curriculum é extenso.

Religiões, seitas, ervas medicinais também visitei muitas e nunca consegui me ater ou me dedicar completamente a nenhuma delas, pois não posso acreditar que uma forma de rezar possa excluir outra, nem que toda erva tomada em doses equivocadas não acabe virando veneno.

Partido político então nem se fale. Acho tudo isso uma forma de criar igrejas, as pessoas botam um bíblia em baixo do braço e saem fazendo proselitismo. Mais chato do que Crente tocando sua campainha às sete da manhã num domingo sonolento.

Por isso tudo nunca frequentei fãs clubes, nunca me envolvi em histerias coletivas, não tenho ídolos ou heróis, admiro algumas personalidades bem de longe para que elas nunca percam seus encantos aos meus olhos e continuem alimentando a minha alma.

Contesto muitas formas de amor e idolatria, o ser humano é muito confuso na formação de seus vínculos e muito do que parece ser acaba não sendo. O que poderiam ser laços acabam virando rompimentos de difícil cerzidura. Muitos se amarguram irremediavelmente por conta de terem exaurido a forças de suas paixões queimando já na largada o que poderia tornar-se uma relação mutuamente satisfatória, onde ambos não precisam fazer qualquer tipo de concessões, apenas trocas.

Time de futebol não tenho, faço questão de não entender o jogo. Um país que precisa falar tanto de futebol, ter tantos noticiários esportivos, tantos campeonatos, está querendo esconder alguma coisa. Se falássemos tanto de livros quanto se fala de futebol certamente não estaríamos tomando de 7x1 há cinco séculos.

A única coisa que me fascina verdadeiramente é o ser humano com todas as suas vertentes. Uma vida ou qualquer outra análise onde o ser humano não esteja presente não é capaz de me cativar. Reduzir o indivíduo, encarcerá-lo numa teoria, aprisioná-lo em paradigmas, enclausurá-lo em dogmas, cercá-lo por muros, assaltá-lo com certezas, não deixar que ele pense, explicá-lo, conclui-lo é o mesmo que matá-lo sem lhe dar qualquer possibilidade de eternidade. Por isso muitos não legam nada, não contam ou deixam estórias, passam pela vida tentando reduzi-la a alguns poucos e pobres processos que visam a sociabilidade sem incômodos. É bom que se preste atenção na sociedade medicamentalizada que estão nos oferecendo, nas formulações imediatistas de felicidade vendida por atacado, nas estéticas culturais que tem sido instrumentalizadas pelo poder midiático, na romantização de algumas temas tratados com total falta de responsabilidade, na ignorância frívola das embalagens e principalmente e acima de tudo no senso comum, que nada mais são do que fórmulas reducionistas de impedir que a criatividade e a originalidade surjam, numa maneira de criar um ser humano adequado porém repleto de sintomas, desgastado por angústias e amargurado por desejos refugiados.


“A vida não é suave com as pessoas e podemos dizer que ela prefere mil vezes a doença criativa, doença que doa genialidade, doença que enfrentará obstáculos a cavalo, saltando de rocha em rocha com audaz embriaguez, à saúde do que anda a pé.” Dostoiévski