Existe um conto (Amor) de Raquel de Queiroz que li algumas vezes nas rodas de leitura e gostava muito da conversa que ele gerava (as vezes, gestava). Nesse conto Raquel de Queiroz está ouvindo um programa de radio, uma enquete sobre amor e se dá conta que ninguém entende nada sobre o assunto, assim é que, resolve por conta própria sair perguntando. Pergunta para o solteirão que se considera convicto e quase irresistível, para a moça recém casada já desfeita de suas ilusões matrimoniais, para o padre, para o homem de família, para a jovem solteira que tem o filho sozinha na maternidade.
Pelas conversas geradas depreendi que o amor é acima um ponto de vista permeado pelas experiências que nos foram dadas viver. Tantos as que nos possibilitamos quantos àquelas impossibilitadas. A experiência de amor precisar voltar no tempo, voltar no tempo para a primeira vez em que fomos colocados em contato humano. O aconchego dos braços maternos (leia-se aqui materno em todas as novas conformações familiares). A constituição do amor em nós é tão primária quanto sentir o primeiro gole cálido de leite. Amor que entra pela boca, nos alimenta buscando sobreviver. Não equivocável que quando amamos mais tarde queremos o abraço, a boca. Passamos em fração de segundos em nosso contato com o outro sobre esse espectral refúgio de afetos, um arcabouço tão complexo quando difícil de narrar. Veja como os apaixonados assumem a linguagem do thutchuca, a linguagem tatibitate, com exigências primárias de serem alimentados, nutridos e acompanhados.
Acho que Raquel de Queiroz amava o rádio. Eu também. Me dou conta nessa infinita pandemia que o rádio tem sido para mim um companheiro que me alimenta, abriga e nutre contra as incertezas do mundo posto lá fora. Enquanto pensava sobre o amor apareceu Frank Sinatra, under my skin. O amor tem isso: precisa permear nossa pele, fazer contato para não permanecer no ideário de Aristófanes de Platão, aquela idealização da metade da laranja que não se completa pois traz em si somente o idealizado. Na sequencia vem Janeci para dizer que o melhor da vida é de graça. Essa ideia de amor de graça é muito boa porque tira o estigma sofredor romântico de que amor tem que ser sofrido, interrompido. Se é de graça, amor não pode ser caro (carregado de sofrimento), nem barato (eivado de banalidades). Amor de graça é o amor que nos faz melhor enquanto seres humanos, aquele que nos permite ser melhores do que jamais conseguimos ser, e que, quando termina, a gente tem saudade da pessoa que fomos. Amor bom é onde nossas confusões se ajeitam bem com as confusões do outro. Ou seja, amor bom é amor onde as neuroses se combinam... e se encontram... Melhor falar sobre isso com seu analista...
"Amor é ter medo - medo de quase tudo - da morte, da doença, do desencontro, da fadiga, do costume, das novidade. Amor pode ser uma rosa e pode ser um bife, um beijo, uma colher de xarope. Mas o que é principalmente, são duas pessoas nesse mundo". Raquel de Queiroz - Amor
E você, como tem vivido essa experiência?
