domingo, 28 de fevereiro de 2021

sobre o amor

Existe um conto (Amor) de Raquel de Queiroz que li algumas vezes nas rodas de leitura e gostava muito da conversa que ele gerava (as vezes, gestava). Nesse conto Raquel de Queiroz está ouvindo um programa de radio, uma enquete sobre amor e se dá conta que ninguém entende nada sobre o assunto, assim é que, resolve por conta própria sair perguntando. Pergunta para o solteirão que se considera convicto e quase irresistível, para a moça recém casada já desfeita de suas ilusões matrimoniais, para o padre, para o homem de família, para a jovem solteira que tem o filho sozinha na maternidade.

Pelas conversas geradas depreendi que o amor é acima um ponto de vista permeado pelas experiências que nos foram dadas viver. Tantos as que nos possibilitamos quantos àquelas impossibilitadas.  A experiência de amor precisar voltar no tempo, voltar no tempo para a primeira vez em que fomos colocados em contato humano. O aconchego dos braços maternos (leia-se aqui materno em todas as novas conformações familiares). A constituição do amor em nós é tão primária quanto sentir o primeiro gole cálido de leite. Amor que entra pela boca, nos alimenta buscando sobreviver. Não equivocável que quando amamos mais tarde queremos o abraço, a boca. Passamos em fração de segundos em nosso contato com o outro sobre esse espectral refúgio de afetos, um arcabouço tão complexo quando difícil de narrar. Veja como os apaixonados assumem a linguagem do thutchuca, a linguagem tatibitate, com exigências primárias de serem alimentados, nutridos e acompanhados.

Acho que Raquel de Queiroz amava o rádio. Eu também. Me dou conta nessa infinita pandemia que o rádio tem sido para mim um companheiro que me alimenta, abriga e nutre contra as incertezas do mundo posto lá fora. Enquanto pensava sobre o amor apareceu Frank Sinatra, under my skin. O amor tem isso: precisa permear nossa pele, fazer contato para não permanecer no ideário de Aristófanes de Platão, aquela idealização da metade da laranja que não se completa pois traz em si somente o idealizado. Na sequencia vem Janeci para dizer que o melhor da vida é de graça. Essa ideia de amor de graça é muito boa porque tira o estigma sofredor romântico de que amor tem que ser sofrido, interrompido. Se é de graça, amor não pode ser caro (carregado de sofrimento), nem barato (eivado de banalidades). Amor de graça é o amor que nos faz melhor enquanto seres humanos, aquele que nos permite ser melhores do que jamais conseguimos ser, e que, quando termina, a gente tem saudade da pessoa que fomos. Amor bom é onde nossas confusões se ajeitam bem com as confusões do outro. Ou seja, amor bom é amor onde as neuroses se combinam... e se encontram... Melhor falar sobre isso com seu analista...

"Amor é ter medo - medo de quase tudo - da morte, da doença, do desencontro, da fadiga, do costume, das novidade. Amor pode ser uma rosa e pode ser um bife, um beijo, uma colher de xarope. Mas o que é principalmente, são duas pessoas nesse mundo". Raquel de Queiroz - Amor

E você, como tem vivido essa experiência?




segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Maria papuda

Nas tarefas simples do dia a dia me lembro das pessoas que me ensinaram a fazer coisas. 

Estava rastelando a grama e me lembrei da Murícia. Tinha o rosto encarquilhado, velha, muito magra, sempre de vestido surrado e limpo. Silenciosa, apenas acenava como a cabeça quando alguém lhe dizia  algo. Não tinha resposta, opinião, só um sorriso vago. Tinha sempre um pito no canto da boca. Era encarregada por lavar toda a roupa da casa da minha avó paterna. Lençóis brancos atravessados pelos varais, depois de quarados e passados num água de anil cujo azul me dava um profundo sossego. Também era a responsável por varrer o quintal com uma vassoura de galhos secos que ela mesma fazia. Varria o caminho de silêncios. Era impecável.

Minha avó morava numa chácara que com o crescimento urbano, foi parar dentro da cidade. Tinha vaca de leite, pássaros presos, soltos, pomar. Era no fundo desse pomar onde morava Murícia. Uma casa limpa onde os alumínios brilhavam feito espelho pendurados em cima da pia. Minha mãe não gostava que fôssemos lá. Morava com um irmão e um primo (também velhos) que vendiam laranja e mandioca pela cidade e uma irmã, Maria Papuda. Tinha olhos arregalados, magra de doer, um único canino  preto que pendia pra fora da boca, fanha com um papo imenso que lhe pesava no pescoço. Tinha dias que estava atacada, gritava, nunca saía do perímetro da casa, cercada com umas tábuas velhas e dalí berrava com meus primos que chegavam por perto portãozinho. Fui fazendo amizade, entrava na casa, tomava café bem docinho e até comecei a entender  o que a Maria falava. Era uma figura assustadora mas se  tratada com respeito ficava dócil, acho até que me protegia. Tinha sido apaixonada pelo meu pai quando era moça, falava do moço bonito. Quando eu ia embora, ela ia comigo até o portãozinho onde existia um enorme pé de jatobá. Ali nos despedíamos e ela perguntava num dialeto quase ininteligível se eu voltava amanhã.

Parte da chácara virou um loteamento e esses dias dei com o pé de jatobá, ainda lá, na porta de uma casa  que em nada lembra a casa da Murícia. Parei e fiquei olhando, tive a impressão de ter visto a Maria Papuda me acenando na janelinha da cozinha. Fiquei feliz por não terem cortado a árvore, como se algo daqueles tempos ainda estivesse por ali.

Era para contar da Murícia que varria o caminho e lavava as roupas, da sua resignada sofrência e dos  silêncios que sabia fazer, mas hoje quem me apareceu foi a Maria, que enquanto terminava de escrever veio caindo uma chuvinha doce, mansa, cheia de amor. Acendi um paieiro pra ouvir melhor esses silêncios que não soube contar.