domingo, 13 de dezembro de 2015

Mundo horizontal

Mundo horizontal. Cacofonia. Marca de sabão em pó.

Tudo parecia mais fácil quando tínhamos papéis previamente definidos a desempenhar. Escolher uma profissão para as mulheres era fácil: professoras. As precursoras que nos levaram ao massivo e maçante mercado de trabalho, formando uma legião feminina de trabalhadoras, mães-esposas-empresárias-gestoras em todos os níveis-etc etc etc.
O homem poderia escolher entre ser médico, advogado ou engenheiro.

Na maior parte dos lares o homem provia e a mulher cuidava. O pacto estava claro, simples e sem muitas cláusulas. As possibilidades de rescisão desse "contrato" eram remotas. A segurança matrimonial e cuidado com os filhos estavam sendo atendidos. Saímos desse lar com um modelo emprestado de nossos pais e aí a coisa mudou. Completamente.

Na hora de escolher nossa profissão (mulher já não podia mais ficar em casa) era preciso recorrer ao auxílio de um novo profissional que nos aplicasse um teste vocacional. Já tínhamos perdido todos os elos com nossas vocações primevas, teríamos que trilhar a difícil escolha por uma multiplicidade de profissões e graduadas definir um plano de carreira. Tudo muito urgente. E sem uma maternidade que brecasse essa acelerada ascensão.

Nessa labuta de escolhas e mazelas, perdemos nossas referências de quem é o pai, a mãe e o filho. Muitas  das mulheres tornaram-se fálicas, os homens passaram a engravidar (ouço isso de alguns homens quando suas mulheres engravidam: "estamos grávidos"). E os filhos... bem, esses assumiram a liderança da casa. Determinando o que comprar no supermercado, escolhendo o destino de férias e até o modelo de carro da família.

Voltando as profissões, muitas se derivaram, outras foram simplesmente extintas e muitas outras novas (que nem sabemos direito no que as pessoas trabalham) surgiram.

O mundo passa a ser isso: horizontal; perdeu-se a verticalidade que conhecíamos no âmbito familiar, profissional, social e de convívio. Padecemos juntos ante milhares de escolhas que precisamos fazer todos os dias. Comprar uma marca de sabão em pó no supermercado passou a ser uma escolha amplíssima, nesse diminuto tempo digital de que dispomos.

Tudo e todos os segmentos sociais ganharam algum tipo de voz. Todas as esferas sociais elegem algum tipo de representação seja ela centrada em um  porta voz, em seus ícones ou seus símbolos. Delegamos, fazemos escolhas e as vozes aumentam.

Ouvimos cada vez mais a palavra "coletivo". O indivíduo está contido em algum desses "coletivos" que muito antes de escolher talvez já tenha sido inserido, encapsulado. Todas as vozes clamam, falam, exigem, se posicionam ao mesmo tempo. Fruto disso, entre muitas vozes em uníssono o que ouvimos é uma diáfana cacofonia.

A multiplicidade de vozes mescladas, embaralhadas, cruzadas não nos dá mais a oportunidade de entender pelo que se clama e o pior: não conseguimos mais ouvir a nossa própria voz.

Toda sorte de cura, terapias, meditações, novidades espirituais surgem também como um novo e promissor mercado: o Nirvana é logo ali. E 2016 está aí para te mostrar isso!

Diante das mudanças comportamentais, da ausência de papéis a representar, do modus operandi novo de viver, que parece tão cheio de oportunidades e tão pouco limitadas o nosso mundo ficou grande demais.
Os problemas assumiram escalas mundiais angustiantes e de não solubilidade. Essa nova dimensão do mundo, as vozes cacofônicas acabam de colocar  o ser em  estado catatônico.

A catatonia da angústia de não ouvir mais a própria voz, de não saber mais quais são as suas crenças ou quais lhes foram introjetadas através de minuciosos e capciosos sistemas de subliminaridade: não reconhece mais o que é seu e o que lhe foi emprestado desse maravilhoso mundo vasto.
Manuais e promessas de felicidade pululam à sua frente. Muitos acreditam e repetem que o que importa é "ser feliz" sem imaginar que se esse estado de êxtase (que é momentâneo) durasse tempo integral, o ser desejoso de tanta felicidade enlouqueceria em questão de dias.

Nunca foi tão fácil e tão difícil viver. As mesmas portas abertas pela manhã ao nascer da aurora, mudam de endereço antes que o sol se ponha. A casa, as noticias e o mundo não são mais o mesmos que deixamos de manhã quando saímos para o trabalho.

Nossas referências variam diante da multiplicidade de vozes ouvidas ao longo do dia. Fala-se o tempo todo, todos juntos, o intervalo de silêncio para a escuta não existe mais. Não reconhecemos mais o tom de nossas vozes. Esquecemos nosso timbre original. A cada impulso de dizer o que realmente pensamos outra voz interna já nos censurou. Damos ouvido ao mundo e deixamos com a maior urgência que outros falem por nós.

Nada é bom ou ruim Se criamos tantos paradoxos é porque precisamos deles para descobrirmos novas fórmulas. O grande desafio, talvez, do ser pós moderno seja acima e apesar de todas as possibilidades, encontrar o que está para dizer a sua voz interior. E nisso, ninguém vai poder te ensinar. Nem todas as técnicas, nem todos os ares nem todos os mares.

O caminho para dentro de si, para trazer à tona o indivíduo pode não ser o mais fácil, mas certamente será a única jornada que ainda pode valer a pena.

Pense nisso na próxima vez em que precisar escolher no supermercado a marca do seu sabão em pó.


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Baile

Falamos de baile, você disse canteiro, minha dislexia auditiva entendeu "carteiro". Me lembrei de cartas e bailes, bailes e cartas, acordei pensando em você.

Era tempo de primeiros amores. Silenciosos, ocultados, timidamente pueris. O salão com  piso em parquet lustrado, arandelas laterias com luzes coloridas, mesas com toalhas brancas, vestido longo, novo, perfume, penteado, salto e orquestra.

Sabia que você já tinha chegado na cidade porque tinha ouvido dizer (e eu fazia de conta que não tinha ouvido...) ou, porque, você já tinha "afundado" passando de carro pela  rua da casa da minha avó, onde nós, as meninas, ficávamos sentadas nas muretas da varanda, esperando por esse momento.

Te via de longe, te perdia de vista. Você sorrindo pelo salão, conversando com um e outro. Disfarçava. De repente nossos olhos se cruzavam e tornavam a baixar num desvio rápido de quem não quer ser visto olhando o que interessa. A espera era longa, longuíssima. Já sabia que teria que esperar pelo primeiro intervalo, segundo intervalo,  para só então ver você se aproximando, eu tinha vontade de sair correndo, cavar um buraco no chão, minhas pernas começavam  amolecer, as mãos gelando, a boca secando.  E você chegando cada vez mais perto, me tirando para dançar. Primeiros nossos olhos se encontravam, você era o primeiro a sorrir, segurava na minha mão e ia me levando mais para o centro do salão. Nunca me lembrei da música que tocavam. Me atrapalhava com os passos. Você me fazia rir para que minha timidez fosse sendo vencida aos poucos, sem nunca ter chegado ao fim completamente. Não me lembro nunca de ter pousado meu rosto no teu ombro como via as outras meninas fazerem. Sempre mantivemos um distância regular obrigatória entre nossos corpos, determinada pelo meu pai, de dois palmos de distância. Dali para frente já sabia que dançaríamos juntos até que o baile acabasse, que no dia seguinte já era o dia de você ir embora de novo. Então começariam a chegar as cartas.

Procurava notícias suas na caixinha do correio. Era a primeira coisa que fazia quando chegava do colégio. Sábado era uma tristeza, não tinha carteiro. Reconhecia de longe a sua letra, muito mais bonita que os meus garranchos, guardo de memória até hoje o seu endereço. Lia e relia a carta procurando entonações, um lapso, um vírgula, um porém desapercebido, alguma reticência que pudesse dar algum novo sentido a tua escrita. Imaginava a tua casa, onde você teria sentado para me escrever, em que horas... Decorava cada letra, lia escondida no banheiro, trancada no quarto, embaixo da parreira, do coqueiro, na lavanderia. E te respondia. Milhares de rascunhos minuciosamente picados eram lançados no lixo. Até que viesse uma nova resposta e tudo começava de novo. Não falávamos de nós, dos bailes, nada. Éramos absolutamente impessoais, falávamos de amenidades  (essa palavra aprendi com você). Não sei quanto tempo durou isso mas sei que tinha um bom maço de cartas, atados por um laço de cetim,  fui precisando de uma caixa cada vez maior para guardá-las. Nós fomos crescendo, mudando de jeito,  deixando de ir aos bailes. Deixando de mandar cartas.

Quando me mudei para São Paulo, voltamos a nos encontrar, fomos amigos de verdade, nunca conhecemos o gosto do beijo um do outro. Nunca falamos de nós e daqueles tempos. Eu continuava guardando as suas cartas. Você sabia que eu adorava dirigir, então, sempre arrumava um pretexto para me botar no volante, acho que gostava de passear comigo pela cidade, enquanto eu dirigia o carrão do seu pai.  Eu já estava me tornando uma moça bastante opinativa, discutíamos politicamente. Eu te acusava de ser reacionário, você caia na risada enquanto tentava me convencer com argumentos (pouco convincentes) porém inteligentes de aluno do ITA.

No dia da queda do muro de Berlim você me telefonou  avisando para que eu ligasse a televisão. Você viajou, me mandou um postal de longe. Nossas vidas foram tomando outros rumos.

Quando pensei em me casar, achei que não seria de bom tom continuar guardando as suas cartas, juntei-as de uma só vez, botei-as fora. Joguei junto a fita que as uniam desfazendo o laço.