sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A notícia do dia

Hoje enquanto comia  uma cenoura a caminho do meu interior, pensava em muitas coisas. Uma delas, é como ter mais  paciência. As paradas são múltiplas.  Daria para chegar no México, mas estou apenasmente andando pouco mais de três centenas de quilômetros. Eu que faço esse percurso no stop, preciso mesmo ter 'muitas paciências'.  Mas na vida vamos trocando uma coisa por outra , se não dirijo posso fazer outras coisas. Me animo em ver que tem um jornal em cada poltrona, logo depois desanimo , pois ninguém os lê... O  mundo não lê mas as pessoas nunca foram tão comunicativas, nem tão musicais. Cada um tratando de suas conversas na palma da mão com fones de ouvido pendurados. Fico com vontade de oficiar a empresa de ônibus, sugerindo que não exagere na gentileza, que disponibilize apenas meia dúzia de exemplares, poupando assim toda a cadeia que trouxe esses jornais até as poltronas, para não serem lidos.  O jornal trazia mais da metade de sua edição, vinte e três folhas, que são quarenta e seis páginas  de "Relatórios de Administração" de instituição financeiras. Alguma lei obsoleta deve ter criado essa forma para dar transparência e publicidade ao ato, duvido que algum acionista leia essas baboseiras mas os donos de jornal agradecem. Ordenamentos jurídicos estão ai para serem cumpridos, mesmo que estraguem  o planeta. Senão vejamos.

Então,  mais um menor amarrado ao poste, ontem, no Rio de Janeiro.
Educação, saúde e segurança são atribuições do Estado. Educação e saúde, há tempos chamamos esses encargos aos nossos bolsos, pagando em duplicidade: uma vez através de impostos outra mediante boletos que chegam em nossas casas, pontualmente, todos os meses.

Quando nos foi negado educação e saúde, prontamente assumimos essas funções, contratando escolas caras para nossos filhos e comprando nosso direito de sermos atendidos em hospitais - talvez nem uma nem outra compra venha sendo entregue a contento, mas nos mantivemos   firmes como colaboradores financeiros de atividades que o Estado se negou a  cumprir e  a nos entregar. Agora,  no quesito segurança, também se nega a cumprir e quando o faz, faz mal e porcamente.

A prisão em postes nos acorrenta à todos, indistintamente, de volta à barbárie. Aceitar, entregar ou apoiar que segurança possa ser praticada fora dos limites do Estado, nos coloca num fosso onde não mais existe distinção entre mocinhos e bandidos. Fato de extrema preocupação numa nação tão suscetível a desmandos e arbitrariedades.

Isso e tudo o mais que vem acontecendo América Latina abaixo, quando está ficando tão perigoso virar à esquerda quanto à direita. É bom que nos acautelemos quanto à direção a ser escolhida.

Quando comecei  a escrever  essas linhas não tinha a intenção de falar sobre  nada disso. Pensava em fazer um relato poético sobre meu caminho de volta à casa. Me desculpem, me perdi, fiquei insegura...  A cenoura acabou faz tempo, não estou nem na metade do caminho e me esqueci completamente que é carnaval.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A cordilheira nossa de cada dia

Acabo de ler, portanto,  me sinto agora naquele estado de orfandade reflexiva.  Nos sentimentos que nos acompanham por entre letrinhas, das junções que fazemos nas entrelinhas e dos encontros silenciosos que realizamos com nosso eu através de vivências alheias.

Nunca imaginei que fosse ler mas quem me presenteou teve a felicidade de pronunciar uma frase que me deixou curiosa para conhecer o seu conteúdo.  A medida do dar e receber na vida. Quem doou demais acabou morrendo, me disse Janine.

Um livro que não pretende mostrar atos de heroísmos,  nem tão pouco ser piegas ou fazer apologia de sofrimentos. Os dezesseis sobreviventes dos Andes ( que significa: as montanhas que se iluminam).  Onde não por acaso - ou por acaso - todos que conseguiram voltar com vida da montanha, relatam que enquanto permaneceram lá, eram melhores seres humanos do que puderam ser vivendo na sociedade real onde vivemos todos. Os relatos são tão subjetivos, carregados pelas sensações e reações que cada um teve diante da diversidade que é difícil imaginar que estivessem todos falando do mesmo acidente.

Diante do caos e pelo inglório de estarem ainda vivos, foi preciso criar uma nova sociedade: a sociedade da montanha. Com cinco pilares sólidos, essenciais e muito  simples: espirito de equipe ( a prática de esporte tinha-lhes ensinado isso, eram  um time de jogadores de rugby); persistência; afeto, inteligência e acima de tudo esperança.

Foi preciso inteligência para não chorar, pois com lágrimas perde-se potássio. E ali tudo precisava ser economizado. A única abundância era uma paisagem branca, estéril e gelada. Cada um desempenhou papel de fundamental importância para a manutenção do grupo, mesmo quem  achava que nada fazia, estava se mantendo calado para que discussões inúteis não desintegrasse um todo com tão poucas possibilidades de sobrevivência. Falavam entre si aos sussurros para que poupassem energia e para respeitar o enorme silêncio que a cordilheira branca  impunha.

Os Andes, as montanhas que se iluminam, iluminou-os à todos e iluminou-me nessa tarde cinza paulistana. "A sociedade da neve" de Paulo Vierci. Companhia das Letras.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

E daí?

Raro o dia em que não  leio uma crítica,  uma ironia, um desdém em relação ao facebook. Narizes se viram e teclas escrevem..... Críticas essas vindas de um meio que se julga avantajado intectualmente, de onde emitem sólidas opiniões a serem seguidas por uma legião que não saiba, talvez, pensar com os próprios miolos.

Não que discorde diametralmente do que dizem. Do contrário,  estaria a contradizer o que vou colocar mais adiante.

Simplesmente acho que tudo na vida pode ser bom ou ruim. Do contrário não existiria a dialética que nos faz amar x odiar, viver x morrer, adoecer x sarar. Cair e levantar.

O mais irônico é que essas mesmas pessoas que criticam tão mordazmente a rede social não deixam de ser ególatras, exibidas e quiçá mentirosas, como acusam de ser os personagens inventados cibenerticamente.

A vida acaso fora da internet, seria um lugar seguro, onde todos dizem e VIVEM de verdade?

O andar por um rua com vitrines prontas para te seduzir, vendem o que está exposto?

Aquele carro maravilhoso do comercial, que aparece deslizando por ruas e estradas vazias, garante que você não vai viver preso no congestionamento?

Os restaurantes caros que frenquentamos ( cada vez mais às vezes) acaso vendem só comida?

As viagens que não paramos de desejar e alguns não param de fazer, acaso conduzem à felicidade, que muda de endereço todos os dias?

Se o meu depoimento puder interessar, gostaria de registrar que esse tão mal falado instrumento me proporcionou encontrar (e como mais felicidade ainda reencontrar) pessoas. E como na vida real, nos mantemos mais próximos daqueles que compactuam de nossas idéias,  interesses e opiniões.

O melhor seria inventar um outro instrumento que nos colocasse todos os dias diante de opiniões opostas às nossas, que tivéssemos que nos confrontrarmos com nossos deslizes, que tolerássemos de fato e sem preconceitos os nossos não pares. Aí sim, teriamos todas as manhãs a esperança de novos aprendizados.


Enquanto esse tempo não chega, resta-nos curtir ou deixar de curtir. Entender que na  vida nada pode ser inteiramente bom sem ser as vezes ruim. E assim, facebook pode ser tão bom ou não como é sexo, amor, comida, consumo e álcool. Tudo vai depender de como, quando, quanto, com quem e onde . Quem acha que ama demais um dia pode acordar odiando. Quem come demais pode acabar num SPA. E  por aí vai.

Aos amargurados críticos de plantão peço que falem de algo de que gostem de verdade, genuino,  que não tenha sido copiado ou inventado ainda. E que nos digam, por favor,  com a máxima urgência: onde é que existe  vida de verdade nesse mundo?


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Pensando em Joãos

Hoje acordei olhando para meu fiilho. Quer dizer, para as lembranças dele que tenho dentro de mim. Está com dezesseis anos, viajando pela primeira vez só com amigos. Imagino o poder que essas férias terão para ele. Quanta novidade, quanta descoberta e como o  mundo é lindo!!! Cheio de possibilidades. Praias, amigos, meninas, primeiros passos, primeiros erros, primeiros tudo e primeiros nadas. Todos os primeiros que nunca vou ter possibilidade de saber. Somos mãe e filho. Ele gosta assim. E acho também saudável. Nunca quis ser a sua melhor amiga. Ele escolherá a sua própria. Tenho o lugar que me coube: mãe.

Começo retrocedendo àquele ser diminuto que mal cabia no meu colo, tão pequeno e enrugadinho. Com penugem na testa. Que susto. Pensei que ele fosse ser assim para sempre. Tinha os olhos enormes que mesmo antes de abri-los minha mãe me disse: " olha o tamanho dos olhos desse menino. Do nariz até a têmpora. Ele vai ser forte, é pequenininho mas tem os ombros largos".  Confiei nas previsões dela.

Não quis saber o sexo antes do nascimento. Fiz um enxoval adaptável, como também fiz a decoração do quarto. Queria surpresa total. Quando nasceu ficou quatro dias sem nome. Com a imprevisibilidade do sexo, não tínhamos chegado a um veredicto. Ficou sendo chamado de menino, até que minha mãe ( que nunca fala nada!!), falou: esse menino não vai ter nome? O pai acabou querendo Felipe ( depois de inúmeros nomes lançados e rejeitados) eu quis que se juntasse João. João Felipe.

Quando minha madrinha foi nos visitar ( era a pessoa que mais gostava de crianças que conheci...), observou que de um lado da nossa família ainda não tinha nenhum João. Mas que do lado dos Rosas tinha o Tio João. Demorei muito tempo para fazer essa associação: Tio João foi o homem que me levou para nascer. Numa madrugada de março, com as chuvas também de março, por uma estrada de terra que não chegava nunca na maternidade. Uma noite em que minha mãe via estrelas olhando para o escuro  e imaginava que eram vagalumes piscando na chuva, no meio do pasto. Como se essas duas possibilidades fossem possíveis.... E muitos, muitos anos depois escolho esse nome para ser o nome do meu filho.

Um dia olho para meu lado, no banco do carona está sentado um homem. Não consigo imaginar como ele saltou tão rápido da cadeirinha do banco de trás para cá. Tento puxar conversa mas desisto diante da falta de resposta, percebo que não vou conseguir vencer aqueles fios brancos que pendem de seus ouvidos. Deixo que adormeça e sigo sem música nem nada, sem me incomodar de dirigir quase quatrocentos quilômetros rumo ao inteiror. Tenho muito o que pensar. Tenho estórias para me contar.

Estava indo passar o Natal em família como há muito não fazia. Sentia uma coisa boa, bem intencionada. Acabamos fazendo algumas caminhadas por meio de sítios e fazendas do meu interior. Era cana que não acabava mais, sem mata, sem sombra e sem fresco. Estive bem próxima das minhas origens e aconchegada pelos passos das minhas irmãs que seguiam me ladeando.

Mana-caetana e eu decidimos ir visitar uns parentes no dia de Natal. Escolhemos usar a estrada de terra, já que todo mundo prefere o asfalto. Para nossa surpresa nossos filhos pediram para nos acompanhar (aqueles que nunca querem estar com a gente....). Rodamos e acabamos passando por onde morou nosso Tio João Rosa. A casa permanece igual. Sem conservação e sem mudanças. Descemos do carro e vem nos receber um homem alto e forte que quase quebra as juntas de nossas mãos,  com o seu aperto generoso. Era João também, o neto.Logo na varanda vemos um tampo redondo talhado pelo nosso bisavô, feito na ponta do machado. Tio João também era um exímio entalhador com canivete, qualquer pedacinho de raiz ou madeira acabava virando um ser animado.  Perguntamos se tinha alguma foto antiga. Parecia que nos esperava. Foi até o quarto, em num minuto, lançou centenas de fotos sobre o toalha de oleado com estampa de flores,  na mesa da sala. Nos divertimos os cinco naquele mosaico de rostos e almas em branco e preto, vendo estórias que não conhecíamos, revendo nossa parentada, numa profusão de homens caçando onças, o circo chegando na cidade, meu bisavô sendo fotografado antes de ser lançado ao túmulo (tinha visto aquela foto quando  criança e me perguntava o que ele estaria fazendo deitado em cima de uma churrasqueira...sendo erguido por vários homens...). Casamentos, batizados, nascimentos  e as poucas fotos de formatura, todas com dedicatórias. A foto da curva do Rio São Lourenço onde meu bisavô herdou do sogro,  cinquenta alqueires, medidos com um pedaço de corda e alí num tapera coberta de folhas de coqueiro começou a dar enredo às nossas vidas.

A dona da casa chegou e nos serviu o melhor café que já tomei na vida. E essa impressão não foi só minha. Quando meu sobrinho entrou no carro me disse:" nunca tomei um café tão bom!!". Ééé ...... Nicolau, tem mesmo  muita barista precisando  aprender a fazer café com a Hilda.

Seguimos e encontramos melancia e  manga madura pela beira da estrada.









sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

medo da máquina

Foi preciso responder quatro páginas de questionamentos.  Ainda ficou faltando uma. Fui ficando assustada. Me chamaram para dentro e começaram os tais preparativos.  Ninguém te fala nada, ninguém te explica nada. Eu ali naquela sala branca, fui me sentindo imaculada. Ele me pergunta se quero uma manta para as pernas. Digo que não.  Estou adorando o ar condicionado no máximo,  contra os quarenta graus lá fora, na sombra.  Resolvo perguntar quanto tempo vou ficar ali. Vinte minutos e sem se mexer, é a resposta. Como assim??!!!! Achei que seria coisa de segundos.....Me entregam uns protetores de ouvido e pergunto para que isso?! Por causa do barulho que faz lá dentro. Vinte minutos, lá dentro,  sem se mexer, com frio e barulho...!! Algo mais que eu não  saiba? Me mandam botar mãos ao alto. Não consigo ver mais nada que se passa atrás de mim, minha posição não me favorece. Colocam algo em  minha mão direita, a avisam que é uma campainha, para o caso de algum problema. Sinto na palma da minha mão algo parecido com aquelas bombinhas dos aparelhos para medir pressão arterial.

Ouço alguns clicks de algo se acionando e a porta que bate. Foram-se todos. Estou só.

A última coisa que vejo é o logotipo da marca do fabricante de onde vou ficar imobilizada, ouvido barulho, passando frio.  Até nessas horas os engenhosos homens de marketing estão em ação. Aiiiiii meu Deus!!!!!! Estão me deslizando para dentro. Lá vou eu, lá vou eu...lá vou euuuuu. É tudo irrepreensivelmente  aceptico. Não posso  entrar em branco, aliás em pânico. Me  auto oriento a não abrir mais os olhos. Comecei a pensar no meu professor de yoga. Relaxa. Relaxa. Esse teto é baixo sobre mim,  esse branco é sufocante. Tento lembrar de alguma coisa que me fez feliz na vida...huummmm já me lembrei. Acalme-se são só vinte minutinhos, e você já passou por coisas piores. Vou me lembrando do meu jardim de flores capiras.  Ops! Estão me mandando mais para baixo, se não parar de deslizar vou apertar essa bombinha que botaram aqui na minha mão.  Calma. Calma. Não abre mais os olhos. Esquece tudo, principalmete onde você está.  Volto a pensar nas coisas que gosto, em empadinha de camarão. Em gin tônica. Em uma coisa de cada vez, porque não gosto de comer enquanto bebo.  Nas contas que vou ter que pagar na hora que sair daqui. Na angústia de esperar o resultado. De saber que daqui pra frente a gente não tem mais sarampo nem catapora....ai meu Deus!!!! Tô indo de novo para baixo. Começo a pensar que nao posso ter acesso de riso nem tosse, senão me mexo e vai tudo pras cucuias. Minhas mãos ao alto ficam com saudade de alguma amiga por perto. Me veio a solidão das coisas que passamos sozinhas na vida, na falta que faz o elemento humano numa hora dessas. Ainda tem aquela estória de contraste. Outro dia li que uma mulher morreu fazendo um desses exames que eles chamam de "rotina". Esqueci de deixar a casa arrumada, jogar umas coisas fora e deixar uma carta para o meu João.

E por que ainda nao inventaram uma máquina dessas sem barulho????? Vou precisar reclamar com Thomas. Foi ele que criou a general eletric, daquele logo, que foi a última coisa que vi hoje.

Permaneci imóvel como haviam me orientado. Sou aquele tipo de pessoa extremamente obediente em algumas situações e rebelde sem causa e se efeito em outras. Fiquei imaginando se o mundo acabasse e milhares de anos depois quando fosse encontrada por estudiosos arqueólogos, relatariam que os humanos possuiam sofisticadas máquinas de dormir. Ou em outra hipótese,  se acabasse a energia, por hipoinvestimentos no setor energético da nação e até que o gerador fosse acionado, bem....eu estaria...mudei de pensamento.

Felizmente chega uma hora na vida que tudo acaba e o enfermeiro veio me retirar daquela prisão branca e eu disse: aiiiiiii que meeedo!!! Ele se espantou. Medo de queeeee ??????? É só uma máquina!!!!!!!!!

Peguei os meus pertences, me despedi e pedi que não me avisassem se descobrissem algo de errado comigo.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Uma questão de anatomia

Hoje acordei pensando em sexo.  Na posição em que  foi situado anatomicamente em nosso corpo. Acho que sexo deveria estar na cabeça. Antenas, sei lá. Não escondido em regiões abssais, criando  fantasias, desatinos, desejos inconclusos e outras manifestações.

Imagine se fosse tudo às claras. Seria tudo mais simples. Olhou, viu, gostou, não gostou, desiste logo, apaixona-se à primeira vista, não precisa levar para jantar, contar todas as estórias da vida, as piadas desgastadas que nem você aguenta mais ouvir de tanto que já teve que repetir. E quantos mais forem as consquistas ao longo da vida, mais repertório será preciso editar. Conheço especialistas nesse segmento e acho que alguns estão até oferecendo cursos preparatórios nessa nobre arte. Muitas vezes, pessoas incautas servem-lhes de experimentos práticos para auferir como lhes está funcionando a vasta teoria que cultivam sobre o tema. Pessoas, cuidado!!

Tudo que disser aqui não estarei, obviamente, falando de homem ou de mulher. Não farei distinção por gênero. Portanto, homens e mulheres não se sintam apessoados.

Voltemos à anatomia. Ficando o sexo   escondido cobre-se de mistérios, de expectativas, no mais das vezes de frustações e algumas poucas vezes de completude. No meu caso por exemplo, desde que conheci Manuel Bandeira em a Arte de Amar, nunca mais funcionei direito. Vivi e vivo no dilema entre alma e corpo, o que seria totalmente resolvido se a sexo fosse um apêndice localizado em lugar visível como proponho aqui. Seria completamente fora de questão apaixonar-se, envolver-se, desejar algo mais. Com tudo às claras um simples beijo poderia concluir em cópula e esse mesmo ato ser repositor de ômega três, anfetaminas, colágeno, proteção contra raios U.V.A., vitamina "ser" (como dizia meu sobrinho com quatro anos), raiz quadrado do pi, risos, relacionamentos sinceros e semente de chia. E quem aspirasse a nobre missão de povoar o mundo que  escolhesse outras formas de se relacionar.

E imagine só...com tudo às claras,  passando diretamente do bom dia, como vai para as vias de fato as pessoas teriam que parar de mentir. Tanto quantitativamente como qualitativamente. Contam-se vantagens, peripécias, loucuras não acontecidas, jogadas ensaiadas, satisfação múltipla e recíproca. Quantitativamente dá tudo  super certo.Tem orgasmos generosos e generalizados para todo mundo. Qualitativamante poucos tem a contar.  Ninguém fala da paixão unilateral,  da ausência do outro, no fato de ter imaginado coisas que nunca aconteceram, na solidão do depois ou na ausência total de sentimentos. Dos micos.  Da saudade que sentiu , onde ninguém mais foi capaz de estar.

As experiências que de fato fizeram sentido não entram nas estatísticas, não são fruto de palavratório. São sorvidas no silêncio que pode durar toda uma existência ou guardadas nos  recônditos da eternidade para que não se percam nunca. Para que se guarde o seu sabor, a sua cor, num mundo de sensações que nos transcendeu e nos colocou onde jamais imaginamos que poderíamos estar um dia. E se lá estivemos, saimos transformados, não pelo sexo ou pelo que dizem ser  amor. Porque o que carece de distinção, também carece de definição. Se um dia nos fosse dado viver de verdade, que fosse o convite para ser parte desse grande espetáculo, onde só é permitido estar, sem permanecer.

Fiquemos, portanto, antenados. Quem sabe um dia tudo muda.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Ovo cozido


Quando subia rumo acima caminhando, me deparo com uma menina de caxuxa no cabelo, lancheira colorida nas costas,  de altura um pouco acima dos joelhos da mãe, que a observa a uma certa distância. A garota, sem se  preocupar com o horário da escolinha, tateia completamente absorta um muro de pedregulhos. Iniciava-se aí um dos grandes preceitos da vida: experimentação. Não vai demorar para que antes de terminar  o primeiro setênio, seja treinada para ver com os olhos. E assim aprendendo passará a vida como se estivesse a viver dentro de  numa loja de copos de cristais. Vendo com olhos, ouvirá bem mais tarde na vida,  com o sentido que ainda lhe restar, que é preciso ver com a alma.

Seguirá buscando, nesse mundo feito de dialética e autoajudismo que muito do que se sonha e se quer é absolutamente possível , principalmente se houver empenho e determinação em obedecer às  instruções dos manuais disponíveis.A literatura é vasta e as salas de analistas idem. E que construir   vidas e encontrar a felicidade pode ser obra de cinco minutos. Não te avisam que esse caminho tão promissor quanto realizável instantaneamente lhe causará arrependimentos nos cinco minutos seguintes ao que disse aquele  primeiro“sim”.

E antes que fizesse a primeira conversão à esquerda na reta final dessa subida, começo a pensar no filme que assisti ontem: “As mulheres do sexto andar”.

Um prédio parisiense nos anos sessenta. Num andar vive confortavelmente o dono do todo o edifício, que por herança de família herdou também a próspera carreira no mundo financeiro. Sua  mulher é francesa e elegante, fuma, toma chá com  as amigas enquanto joga cartas e sabe como organizar em casa recepções sociais bem coordenadas. Vivem a  vida que não lhes toca nem ao tato nem à alma.  No sexto andar, um time de empregadas domésticas espanholas ( as francesas estavam se recusando a fazer esse tipo de trabalho),  construindo uma união de solidárias operárias longe da pátria.

Para o senhor francês, o dia resumia-se em começar bem se o ovo poché que lhe fosse servido tivesse ficado ao fogo exatos três  minutos e meio. E então aparece Maria, a única das empregadas que conhece o tempo exato do cozimento de um ovo. Cena após cena, ele se deliciando com o seu ovo poché na medida correta. O tilintar do talher de prata quebrando a frágil casca.

Um dia, por ter repreendido injustamente Maria, o ovo servido deixa de ser poché e ele o come mesmo assim, entre um olhar lânguido sem protestos e silêncios.


Por outros motivos que não Maria, esse burguês apequenado pela família, é despejado de casa por sua elegante mulher francesa. Como na hora da saída chovia a cântaros, provavelmente  gotas de Dior e Van Cleef , decide por instalar-se no sexto andar, num dos cômodos que serve de depósito de tudo o que não se deseja mais na  casa.

Nesse novo andar conhece os dramas e alegrias das espanholas, percebe de novo a vida com a alma e tem vontade de lhe ver restituído o tato. Maria, que não era opulenta nem nada,  tinha uns belos grandes olhos expressivos, um sorriso que ia de um lado a outro do rosto e um coque preso no alto da cabeça. Nem foi  preciso que dançasse flamenco.  Trazia em si uma condição nativa: a coragem.


O filme termina bem sim, obrigada. E entre achar que procura-se por “Marias” ou procura-se por “Joãos”,  a grande arte seja talvez errar o ponto de cozimento de um  ovo. 


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domingo, 2 de fevereiro de 2014

acordar acreditando

Um dia você acorda acreditando QUE:

é preciso ter calma
o fututo é tão incerto como a certeza do passado que não volta
quando você perde alguém é bem melhor lembrar dela com alegria do que com saudade
quando alguém te diz que esse caminho é o mais difícil é justamente esse que vale à pena
é preciso lidar o tempo todo com o  seu defict de perfeição
nenhum lugar, pessoa ou instante vai valer a pena se você não estiver de alma presente
tudo o que é preciso agarrar com as duas mãos não te pertence
sentimentos economizados não servirão de bônus para serem usados no futuro
quanto mais difícil for achar a resposta certa, mais estará aprendendo com a pergunta
fé não se discute, não se propaga e não se brinca
se não fizer exercícios vai começar a engordar depois dos trinta
não vai ser possível prolongar a sua juventude  mas você pode (e deve)  fazer muito pelo seu bem estar
e de tanto ler versos alheios, começou a escrever os seus
compromisso é tudo aquilo que você não tem mais vontade de fazer
preconceito é tudo aquilo que ainda não aconteceu dentro da sua casa
prisões são criações suas e não adianta nada botar a culpa em alguém
ficar sempre martelando na mesma tecla é de uma chatice hedionda e por isso é sempre bom poupar os amigos
saber receber é mais difícil do que aprender a doar e que enquanto não aprender o primeiro vai ficar devendo o segundo
se não consegue resolver algo sozinha está na hora de procurar um profissional
se já ligou, já mandou email e não teve resposta não vai adiantar mandar um telegrama
amor nao é nada disso que dizem, definem ou procuram
implicar demais com os jovens é sintoma de que além de ter envelhecido, também se tornou rabugento
Se já sabe tudo, já viu de tudo e conhece tudo, chegou a hora de psicografar suas memórias.

Que beijar de olho fechado ainda é a melhor coisa que inventaram no mundo.
E que,  se nada mais te espanta,  nada mais será capaz de te emocionar.