domingo, 22 de fevereiro de 2015

Wonderful tonight

Foi inevitável. Não esperava ouvi-la ali... naquele lugar improvável?

Uma manhã completamente azul de domingo não pode fazer com que pessoas chorem.

Mas ela não conseguiu. Mordeu o vão da mão esquerda,  entre o polegar e o indicador, fechou os olhos e uma torrente começou a descer sem resistência, caudalosamente, invadindo com gosto de sal a sua boca, para que ela se recordasse de tudo. Vivendo de novo, mas de uma forma diferente, já sabendo que nem todas as estórias terminam bem.

Talvez todos tenham uma música que faça chorar. Essa é a minha.




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Meu nome é Cráudia

Vejam só no que me tornei: a Cráudia do Córgo. Isso tudo porque resolvi me estabelecer no sul de Minas Gerais, num sítio próximo à Córrego do Bom Jesus.

Se Gonçalves é Gonçarves, nada mais correto que Córrego do Bom Jesus seja Córgo.

Córgo que vem de córrego que pode virar corginho, se as águas continuarem baixando até terminarem num fiapo.

Desde que passei a frequentar essas paragens, estou aprendendo a me comunicar de um modo diferente. Não tanto na forma, mas na construção das perguntas, para que possa ter as respostas que preciso. Isso vale também para o sentido metafórico da coisa. Caso contrário, a resposta pode ser tal, de me fazer desembocar numa gargalhada brutal e o mineiro continuar me olhando com cara de ... mineiro. Nenhuma maldade nisso da minha parte, juro! Me vejo na condição de tão pouco ser feita entendida como ainda pasmar com a minha própria idiotice. Na verdade se rio, é de mim que o faço.  Outro dia,  numa conversa ( ou deveria ser prosa?) o mineiro tentava me explicar onde era a sua cidade. Perguntei se para chegar lá era preciso passar por dentro de Poços de Caldas. Ele me respondeu: "depende de onde ocê vem..." Lóoooogico!
Num outro dia estava tentando chegar em Maria da Fé, parei em um posto de gasolina de estrada e perguntei ao frentista "Moço, sabe onde fica Maria da Fé?" Ele respondeu "sei", virou as costas para mim e saiu andando. Precisei chamá-lo de volta e perguntar se sabia onde era o "caminho" para a tal cidade. Ahhhh.... bão!

Aprendi também a chegar na loja de material de construção e pedir canduite e apagador. Já tinha feito anteriormente tentativas de falar o correto. Deu tudo errado. A lista também inclui cifrão para pia e prego sem miolo.

Um vasto repertório de imagens veio acrescer o meu glossário. Coxar e descoxar as roscas em geral. A "contenteira" para explicar como os órfãos do seu Tiãozinho Branco ficaram felizes quando mandaram instalar a luz para todos, que teve que ser desligada logo depois do pagamento da primeira conta. Porque eles (a Bragantina no caso) "finge" que não está cobrando o padrão novo (o transformador) só que cobra "embolado" no meio da conta todo mês. E os órfãos quase contentes continuarão a viver de escuridão, mesmo que alguns acreditem que exista luz para todos.

Tem também a dupla Márcia e Mércia que aparece aqui em casa de vassoura, balde, escovão e ainda... cantam e riem o tempo todo enquanto trabalham porque estão me ensinando que a vida precisa de "divertição".

Com mineiro aprendi, também,  que existe uma diferença enorme entre cair do cavalo ou ser derrubado por ele. Embora as duas resoluções conduzam a um só destino que é o chão, cair ou ser derrubado, implica numa infinidade de consequências para um cavaleiro, passando da auto estima para a culpa num só galope.

Uma mulher que encontro pelo meio da estrada, caminhando como eu, me diz logo a diante que vai 'aportá' por ali, na encruzilhada vira-se para trás e me chama para ir passear na casa dela qualquer dia desses.

Assim minha amiga, se resolver vir passear aqui em casa num desses dias e ficar perdida na estrada não adianta perguntar onde fica Córrego. Te olharão com ar ter interrogação, para te devolver: "Córgo"? E já treinada diga que vem na casa da Cráudia. Aposto como irão te perguntar ( antes de te dar a resposta...) se você é "minha parenta ou o quê..?". Pode ter certeza.

Ser mineiro não é estar inserido num território. Ser mineiro é ser dotado do mais adorável estado de espírito. É ser sujeito entendendor de muita coisa que não dá pra explicar direito.