"O movimento estudantil nos trouxe um conhecimento muito maior sobre política e cidadania, do que todo o tempo em que estivemos sentados e enfileirados em aulas padrões". Ana Júlia, 16 anos
A roupa era colada no corpo, do decote até o tornozelo, o cabelo preso com um rabo de cavalo pendulava direita-esquerda-esquerda-direita, um corpão bem feito capaz de evocar desejos não sublimados de 8 a 80, e a voz continha decibéis muito além de minha capacidade de tolerância auditiva. O que saia daquela boca era ainda mais inacreditável... Eu, caminhando atrás desse fenômeno, imaginava que a qualquer momento a moça ensejaria uma sessão de pole dance, bem ali, no meio do corredor. Minha curiosidade carregada de inquietação não cansava de se perguntar qual seria a função daquela criatura naquele estabelecimento. E pergunto. A resposta me deixou ainda mais perplexa "conciliadora de conflitos escolares"...ai...meus sais...!!!
Enquanto minha cicerone desfilava aos berros pelos corredores, eu me entretinha como essa volta no tempo. Essa escola pública estadual aqui na rua da minha casa, tombada pelo acervo estadual, permanece com os mesmos corredores de ladrilho vermelho no piso, as paredes são pintadas até a metade com tinta óleo de tom amarelo desmaiado, alguns móveis da entrada são originais como um porta chapéu, por exemplo. Quem estudou em escola pública reconhecerá esse descrição.
Meu encanto se esvanece.Começo observar que todas as janelas tem grades, todas as portas tinham cadeados, a biblioteca tinha uma porta de madeira e outra porta de ferro sobreposta com cadeados, trancas, e tudo o mais que permitisse excluir os livros de qualquer acesso humano. Aliás, nunca era aberta aos alunos (muitos sequer sabiam de sua localização ...) A pessoa responsável pela sala estava de licença há alguns meses, um motivo a mais para permanecer trancada. De repente me dou conta que não sei mais onde estou e que a única diferença entre essa escola e a penitenciária é que quando entro numa penitenciária sei onde estou entrando e ali, no lugar de escola encontrei uma prisão, em todos os sentidos.
Desde que escola se transformou num business de sucesso, onde é possível manter o cliente fidelizado por longuíssimo prazo, aceitamos a falência da rede pública de ensino mandando os nossos filhos para colégios particulares, que nos arrancaram o coro sem dó nem piedade e que ainda assim, discursamos com veemência sobre a importância desse "investimento".
Tenho visto algumas críticas sobre a ocupação das escolas públicas e acho isso de uma injustiça cruel. Alguns carregam no verbo chamando os jovens de vagabundos/baderneiros. Penso que não. Estava mais do que na hora desses jovens que não tiveram ( e não terão) o mesmo ponto de partida de nossos filhos, botarem a boca do trombone. A discurso de Ana Júlia me emocionou e deveria ser a fala de muitos. Resta-nos enxergar que vivemos num pais que precisa mudar e, o único instrumento para isso chama-se educação com qualidade, com professores isentos que saibam iluminar caminhos ao invés de pregarem as suas próprias ideologias. A função primeira da educação é formar pessoas com capacidade para escolher. Ana Júlia "escolheu" quando foi discursar pra aqueles ignóbeis representantes da sociedade nacional. Nossos filhos, com a nossa anuência e patrocínio, poupados pela redoma do ensino particular, não seriam capazes de uma fala tão pertinente como a dela.
E ontem, nosso temerário presidente que quer mudar o ensino médio através de medida provisória criticou a ocupação de escolas no Paraná, começando sua fala assim: "...o que mais existe hoje é um desrespeito às instituições ..." Ele deve entender do que fala, não é mesmo?
Torço para que o movimento estudantil ressuscite a partir dessas ocupações e que outras Anas Júlias surjam como exceção pra a obviedade dos tão empobrecidos caminhos oferecidos pela falta que a educação tem nos feito. Quem sabe, assim, em 2018 algum candidato lembre de incluí-la prioritariamente em sua proposta de governo, porque estudante secundarista também vota!!
Acontecimentos do dia a dia, memórias, sínteses pessoais.Uma maneira de ver o mundo e contar como são esses olhos. Psicanalista, fundadora projeto social leituracura
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Num aperto de mão com olhos de sorriso verde mareante apresentou-se pelo nome de Kairós. Era ali que a viagem começava.
Já não estava mais acostumada com a bondade do mundo e me intrigava um pouco as boas ações sem qualquer pretensão. Seu Luiz, nosso guia nativo, filho de índio, conhecedor de todas a plantas medicinais da mata foi nos buscar no porto de Santarém. Chegávamos de 40 horas de viagem rio abaixo, o percurso dura mais tempo nas épocas de seca, é preciso margear, centrar, margear de novo para fugir dos bancos de areia. Foi bastante tempo para ver o rio, aprender a gostar de dormir em rede e ver umas crianças lindas.
Com o sol amainado, entramos na floresta antes das quatro da tarde. Daria tempo de chegar com o fim do dia, no local onde passaríamos a noite. Na mochila somente o essencial, a rede, uma manta, um muda de roupa, água e nada mais. Não convinha levar peso para uma caminhada de quase 10 quilômetros.
De árvore em árvore Seu Luiz ia nos dizendo de sua propriedade, para que servia, como deveria ser utilizada. A lasca de quinino, dentro da garrafa de água, que deveria ser consumida aos poucos. Agachado no chão com um pedaço de galho começou a chafurdar num buraco a procura de algo que provaríamos: formiga. Minha única resistência era de que suas patas se agarrassem a minha traqueia, pelo mal feito de comê-las vivas. Tratei de mordê-las, o que veio depois da crocância foi um perfume que povoou o meu hálito com aroma de limão. Delicioso.
As árvores são altíssimas. Para que caibam todas na mata, crescem um com tronco muito longo, espigado, para só então bem lá no alto se abrir em copas. Algumas estavam reviradas com raiz e tudo e fiquei pensando na força do vento que foi capaz de arrancá-las inteiras. Nessas travessias Seu Luiz me ensinou a andar com 'pé de papagaio' sobre os troncos, o que significa espalmar os dedos no sentido diagonal para que não perder o equilíbrio.
Pedi a ele que me avisasse se o Uirapuru cantasse, o Eros amazônico. Dizem que, quem houve seu raro canto pode pedir o que quiser... Respondeu que não me preocupasse. Eu saberia caso ele cantasse. O canto é tão lindo e único que toda a floresta silencia para ouvi-lo quando de suas raras aparições.
A caminhada me colocou em bicas, não sou de transpirar mas esse caminhar me deixou como se tivesse passado dentro de um rio.
Quando finalmente chegamos na maloca onde passaríamos a noite, algo nos esperava: uma luminosa lua cheia, que permitia divisar os contornos das árvores. Foi feita uma fogueira para avisar aos bichos que estávamos fazendo um pouso por ali. Comida não tinha. Apenas pão, água, alguma castanha e um amendoim que foi socializado entre nós cinco. Montamos nossas redes embaixo da palhoça, os dois meninos dormiram ao relento, o biólogo caiu num sono tão profundo que imaginei que estivesse morto. Seu Luiz prometeu que ficaria de vigília. Em algum momento, percebi que se retirou sozinho por um atalho da mata. Passou um tempo por ali, muito provavelmente conversando com alguma de suas entidades. Voltou anunciando que a noite estava garantida, que seria de sossego. Acho que acreditou tanto no que disse que o escutei roncar na rede ao lado. Eu, pelo meu turno, fui acometida de uma enxaqueca tão feroz, que não me deixou dormir a noite toda. Deve ter sido algo por encomenda do universo. A dor que não me deixou dormir, me fez perceber todos os barulhos da mata, posso garantir que aquilo é uma quizumba sem sossego, quando uns param outros começam. O mais variados alaridos, uivos, sons melancólicos, metálicos (que segundo o Seu Luiz era de escorpião, e a receita para que fosse picado era "só "se pendurar num galho de árvore, imitar o macaco prego, que o veneno sairia do corpo... eu pensando...como é que era isso de imitar um macaco...?). Ele disse também, que não me preocupasse com a onça. Ela seguia as passadas pela mata e com a pata direita colocada em cima das marcas humanas deixadas, se o passo fosse frio, a onça reconheceria quem tem medo, e era atrás dessa pessoa que ela viria... Ouvimos também as suas estórias de boto (e que ninguém ouse questionar sobre a veracidade desses fatos...) Acreditam tanto em boto como em Curupira. Era bom que eu acreditasse também, seria mais seguro me cercar de fé para que passasse uma noite sem as seduções e enganos da floresta
.
Sem pregar o olho, pude ver todo o percurso da lua por cima de nossa casa coberta com folhas de babaçu, até que a perdi de vista, no extremo oposto de onde a vi nascer. Enquanto estava por de cima da casa, pelos vão das palhas iluminava o chão de terra batida por debaixo da minha rede. Parecia que o céu tinha invertido-se e que meu chão tinha se transformado em um chão de estrelas. As árvores eram invadidas por sua luz prateada e foi graças a ela que durante a noite quando precisei ir ao banheiro, não pisei em uma aranha que tinha o tamanho da minha mão.
Não sou uma mulher de coragem para coisas tão naturais, ao contrário de minha intrépida companheira de viagem, que depois dessa noite me confessou que até o último minuto teve dúvidas sobre a minha ida até lá. O fato é que, em nenhum momento me senti desprotegida ou com medo por estar ali, tão distante e ao mesmo tempo tão próxima do que nos faz sentir apenas como essencialidade.
Não acredito em forças femininas que protegem as mulheres nas florestas. Não acredito em elfos, duende ou fadas. Acredito apenas que ao adentrar na mata devemos ter respeito e acima de tudo amá-la, respeitosamente.
De alguma forma o espirito da floresta esteve comigo naqueles momentos e não só naqueles momentos.
Quando o dia amanhecia tive a impressão de que chovia. Era um farfalhar de folhas docemente sopradas pelo vento da manhã. Era a voz do Tapajós sussurrando com suavidade intensa em meus ouvidos e por quem, antes que eu soubesse, já me encontrava completamente seduzida.
O Uirapuru não cantou, mas conheci o Paquerador que fica fazendo fiu-fiu pela mata.
Algumas experiências, ou talvez as mais significativas de nossas vidas, não são contadas na inteireza.
É preciso saber guardar algum silêncio para que o inefável aconteça.
*Kairós é o tempo qualitativo dos gregos, o momento oportuno e único e que esteve conosco nessa viagem.
Já não estava mais acostumada com a bondade do mundo e me intrigava um pouco as boas ações sem qualquer pretensão. Seu Luiz, nosso guia nativo, filho de índio, conhecedor de todas a plantas medicinais da mata foi nos buscar no porto de Santarém. Chegávamos de 40 horas de viagem rio abaixo, o percurso dura mais tempo nas épocas de seca, é preciso margear, centrar, margear de novo para fugir dos bancos de areia. Foi bastante tempo para ver o rio, aprender a gostar de dormir em rede e ver umas crianças lindas.
Com o sol amainado, entramos na floresta antes das quatro da tarde. Daria tempo de chegar com o fim do dia, no local onde passaríamos a noite. Na mochila somente o essencial, a rede, uma manta, um muda de roupa, água e nada mais. Não convinha levar peso para uma caminhada de quase 10 quilômetros.
De árvore em árvore Seu Luiz ia nos dizendo de sua propriedade, para que servia, como deveria ser utilizada. A lasca de quinino, dentro da garrafa de água, que deveria ser consumida aos poucos. Agachado no chão com um pedaço de galho começou a chafurdar num buraco a procura de algo que provaríamos: formiga. Minha única resistência era de que suas patas se agarrassem a minha traqueia, pelo mal feito de comê-las vivas. Tratei de mordê-las, o que veio depois da crocância foi um perfume que povoou o meu hálito com aroma de limão. Delicioso.
As árvores são altíssimas. Para que caibam todas na mata, crescem um com tronco muito longo, espigado, para só então bem lá no alto se abrir em copas. Algumas estavam reviradas com raiz e tudo e fiquei pensando na força do vento que foi capaz de arrancá-las inteiras. Nessas travessias Seu Luiz me ensinou a andar com 'pé de papagaio' sobre os troncos, o que significa espalmar os dedos no sentido diagonal para que não perder o equilíbrio.
Pedi a ele que me avisasse se o Uirapuru cantasse, o Eros amazônico. Dizem que, quem houve seu raro canto pode pedir o que quiser... Respondeu que não me preocupasse. Eu saberia caso ele cantasse. O canto é tão lindo e único que toda a floresta silencia para ouvi-lo quando de suas raras aparições.
A caminhada me colocou em bicas, não sou de transpirar mas esse caminhar me deixou como se tivesse passado dentro de um rio.
Quando finalmente chegamos na maloca onde passaríamos a noite, algo nos esperava: uma luminosa lua cheia, que permitia divisar os contornos das árvores. Foi feita uma fogueira para avisar aos bichos que estávamos fazendo um pouso por ali. Comida não tinha. Apenas pão, água, alguma castanha e um amendoim que foi socializado entre nós cinco. Montamos nossas redes embaixo da palhoça, os dois meninos dormiram ao relento, o biólogo caiu num sono tão profundo que imaginei que estivesse morto. Seu Luiz prometeu que ficaria de vigília. Em algum momento, percebi que se retirou sozinho por um atalho da mata. Passou um tempo por ali, muito provavelmente conversando com alguma de suas entidades. Voltou anunciando que a noite estava garantida, que seria de sossego. Acho que acreditou tanto no que disse que o escutei roncar na rede ao lado. Eu, pelo meu turno, fui acometida de uma enxaqueca tão feroz, que não me deixou dormir a noite toda. Deve ter sido algo por encomenda do universo. A dor que não me deixou dormir, me fez perceber todos os barulhos da mata, posso garantir que aquilo é uma quizumba sem sossego, quando uns param outros começam. O mais variados alaridos, uivos, sons melancólicos, metálicos (que segundo o Seu Luiz era de escorpião, e a receita para que fosse picado era "só "se pendurar num galho de árvore, imitar o macaco prego, que o veneno sairia do corpo... eu pensando...como é que era isso de imitar um macaco...?). Ele disse também, que não me preocupasse com a onça. Ela seguia as passadas pela mata e com a pata direita colocada em cima das marcas humanas deixadas, se o passo fosse frio, a onça reconheceria quem tem medo, e era atrás dessa pessoa que ela viria... Ouvimos também as suas estórias de boto (e que ninguém ouse questionar sobre a veracidade desses fatos...) Acreditam tanto em boto como em Curupira. Era bom que eu acreditasse também, seria mais seguro me cercar de fé para que passasse uma noite sem as seduções e enganos da floresta
.
Sem pregar o olho, pude ver todo o percurso da lua por cima de nossa casa coberta com folhas de babaçu, até que a perdi de vista, no extremo oposto de onde a vi nascer. Enquanto estava por de cima da casa, pelos vão das palhas iluminava o chão de terra batida por debaixo da minha rede. Parecia que o céu tinha invertido-se e que meu chão tinha se transformado em um chão de estrelas. As árvores eram invadidas por sua luz prateada e foi graças a ela que durante a noite quando precisei ir ao banheiro, não pisei em uma aranha que tinha o tamanho da minha mão.
Não sou uma mulher de coragem para coisas tão naturais, ao contrário de minha intrépida companheira de viagem, que depois dessa noite me confessou que até o último minuto teve dúvidas sobre a minha ida até lá. O fato é que, em nenhum momento me senti desprotegida ou com medo por estar ali, tão distante e ao mesmo tempo tão próxima do que nos faz sentir apenas como essencialidade.
Não acredito em forças femininas que protegem as mulheres nas florestas. Não acredito em elfos, duende ou fadas. Acredito apenas que ao adentrar na mata devemos ter respeito e acima de tudo amá-la, respeitosamente.
De alguma forma o espirito da floresta esteve comigo naqueles momentos e não só naqueles momentos.
Quando o dia amanhecia tive a impressão de que chovia. Era um farfalhar de folhas docemente sopradas pelo vento da manhã. Era a voz do Tapajós sussurrando com suavidade intensa em meus ouvidos e por quem, antes que eu soubesse, já me encontrava completamente seduzida.
O Uirapuru não cantou, mas conheci o Paquerador que fica fazendo fiu-fiu pela mata.
Algumas experiências, ou talvez as mais significativas de nossas vidas, não são contadas na inteireza.
É preciso saber guardar algum silêncio para que o inefável aconteça.
*Kairós é o tempo qualitativo dos gregos, o momento oportuno e único e que esteve conosco nessa viagem.
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