terça-feira, 16 de junho de 2015

Uma estrada sinuosa de terra, um milharal, uma fumaça vaporosa saindo de uma chaminé, uma simplicidade sem explicações era o que me atraia. Passar por ali me tirava o fôlego e preferia que não houvesse nenhum tipo de comentário, reminiscências, pensamentos que pudessem perturbar o silêncio de minhas vontades. Não sabia qual a razão mas,  sentia tanta falta e o desejo de minhas contemplações eram tão intensos e verdadeiros que poderiam ser mesmo uma paisagem num quadro. Mas tinha que ser aquilo. E quando avistava o que meus sonhos desejavam, imaginava algo impossível de acontecer, porque, primeiro pensava que tinha que ter uma casa no lugar de onde sou. Essa dúvida me perscrutava logo na sequência: de onde sou mesmo...?

Um mudar e errar de canto em canto, de casa em casa, de cidade em cidade, criou em mim uma ausência tal de lastros que mais tarde fui percebendo que os únicos laços que me atavam e afrouxavam eram os de minhas memórias. Das mais cândidas, preferencialmente, que delas fui criando a dependência de minha vivência.

Queria morar naquela casa na montanha, com a fumaça saindo da chaminé porque dela dependia um fogão à lenha. Nesse fogão tardeavam em pequenas tigelas coloridas tudo o que sobrava do fausto almoço na casa de minha avó paterna. Depois de brincar a tarde toda no pomar, batia uma fome brutalizada, e era no morno do fogão que encontrava as mais finas iguarias que jamais provei na vida. Embora vivêssemos no interior de São Paulo, minha avó tinha um sei lá o quê de mineira e cozinhava fazendo mineirices, uma porção vertiginosa de "misturas" como chamávamos na época. Lembro-me dela sentada com um alvíssimo avental branco, uma areadíssima bacia de alumínio no colo, uma faca de cabo curto, uma maço de couve firmemente atado pelas mãos idosas, que suspensas partiam a couve na finura de um fio de cabelo. Mais tarde descobri que para mim, essa cena era a essência de uma paciência de monja.

Do fogão não se guardava tão apenas minha iguarias de infância. Nos dias mais frios ajudava a aquecer as minhas mãos partidas pelo inverno, que ardiam à beça quando éramos obrigadas a untá-las com creme de amendoim para hidratá-las. Além disso, tinha a dona Yazinha, que trabalhou por mais de cinquenta anos com a minha avó,  sem cessar, num serviço emendando no outro e que eu adorava ficar acocorada no beira do fogo escutando as suas estórias, que de extremo cotidiano pareciam muito mais com um mantra do que um assunto de mulheres. Eu ficava aquecida e esquecida, observando a sua agilidade magrela em dar conta de tudo,  de ter as mãos tão grossas e calejadas, deformadas de tanto serviço bruto mas um coração tão puro e singelo quanto a fumaça que sopra vaporosa dos telhados onde vivem agora as minhas montanhas.