sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A Peste

Fui ao teatro, domingo às 19h, horário mais que perfeito. Não encontrei entre meus pares alguém que idealizasse me acompanhar. Pelo nome e autoria do espetáculo seria denso. As pessoas não gostam mais de densidade, imagino que não gostam mais também de teatro. Comprei o ingresso na hora, tinha somente três opções de lugares vagos, espremidos entre outros. Felicitei-me intimamente. Ao apagar das luzes me dou conta que somente um terço da platéia está preenchida. Fazem isso para que o ator não se sinta solitário no palco (isso é o que pensam os bilheteiros, o ator de verdade em atuação imagino que a entrega seja tamanha que não veja as pessoas quantificadas). Acho admirável ainda que exista teatro e louvo a quem ainda ouse fazê-lo. Como também acho louvável que ainda existam sapateiros, amoladores de facas, sapatos sob medida e escritores.
Aqui na minha rua ainda passa um amolador de facas (e alicates... é preciso diversificar a clientela, plano B hoje é fundamental para qualquer tipo de sobrevivência). Pois bem, tem aquele apito que me lembra o vendedor ambulante de sorvetes, esse também admirável, que passa aos domingos silenciosos pela casa de minha mãe. Minha irmã diz que desde o dia que meu  pai comprou 20 picolés de uma tacada só, o sorveteiro pára na esquina dos silêncios e se esganiça perdendo o fôlego de tanto apitar para ver se meu pai aparece de novo com vontade dominical de chupar 20 sorvetes. O amolador de facas é bravíssimo, tenho medo, jamais lhe daria uma faca de açougue para afiar e ficaria ali plantada na sua frente esperando o resultado da lâmina. Imagino se as pessoas escolhem profissões com algo de inconsciente que lhes habitam a alma.

Fui ver então A Peste, de Albert Camus, um médico desesperadamente lúcido que tenta curar com os parcos recursos materiais que dispõe. Está manchado de carvão pelo rosto e vestimentas. Agonicamente, enquanto fala, transpõe com uma pá restos de madeiras carbonizadas de uma pilha para outra no palco. Tentando curar lida com outra circunstância muitíssimo particular, a população que não pode se dar conta da existência da peste, como se ao negá-la pudesse salvar os seus bem amados ou livrar-se de contágio. Rezam coletivamente ou se embriagam nos bares que ainda abrem para vender o ópio nosso de cada dia. Outra circunstância é lidar com as mentiras que nos contam as autoridades públicas, onde em situações de absoluta onipotência coletiva editam-se leis autorizando o egoísmo humano.

Quem neste vasto mundo, onde a verdade precisa estar maquiada para a festa que acontece todos os dias, ainda se disporia a ver espetáculos assim? Os teatros complexos seguem vazios. No inicio do espetáculo o diretor nos convida a postar nas redes sociais #experimenteteatro.

Em tempos de peste é absolutamente necessário sublimar através dos recursos que a arte nos oferece. Do contrário nos encontraremos todos em algum dos inúmeros templos da cidade, onde tudo pode ser comprado mas nada pode ser adquirido.

#experimenteteatro

 Antes, a questão era descobrir se a vida precisa de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado. Albert Camus




quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O Anjo Pornográfico e o Cântico Negro


Nesse começo de noite e fim de dia vou ler Nelson Rodrigues, na Casinha. Estou de saída, chove torrencialmente. Quando deixa de chover, o dia continua molhado.  Vou na frente, para tirar o carro da vaga, minha garagem é lugar de altíssima periculosidade.
João irá comigo nessa noite. Eu já com o carro na rua, ele, ainda no apartamento, sempre tem algo para finalizar nas horas de saída. Continua chovendo, a rua que tenho pela frente está completamente parada. Estaciono, espero João. Desligo o carro. Olho o transito na minha frente, começo a me atrasar. Enrique vai conosco, já espera na esquina da Teodoro com Oscar Freire. João demora, a chuva não passa. Resolvo telefonar. Eu não acredito que você vai me atrasar de novo. Mãe, você viu minha mensagem? NÃO. Estou preso no elevador. Estou me atrasando, a chuva não passa, estamos sem porteiro, sou a síndica do prédio. "Liga para essa plaquinha, onde tem o número da assistência e espera o técnico. MÃE! não acredito que você vai me deixar preso no elevador. Claro que sim, claro que NÃO! Ligo para o técnico, ele vai chegar logo, só depende da chuva. Ligo para Mirna, me espera, vou atrasar, estou com a chave da Casinha, tem nada não, as pessoas estão me esperando do lado de fora, na chuva. O Rubens me liga dizendo que está preso no trânsito nas Estados Unidos, tem nada não, meu filho está preso no elevador. O Enrique está esperando na esquina da Oscar Freire. Manobro, volto para minha garagem de altíssima periculosidade. Estaciono. Fico com medo de usar o outro elevador, subo de salto até o sétimo andar, meu joelho subitamente esquece-se de doer. Milagre. Na subida ofegante me liga o técnico, acalme o passageiro, não deixe que ele tente sair do elevador em HIPÓTESE ALGUMA, e repete e repete a hipótese alguma. Tento explicar a situação para a subsíndica. Sim ela está em casa, de pijama, por causa da chuva. O João não atende mais minhas ligações, chego ao sétimo andar, começo chamar João pelo vão da porta do elevador. Não responde. Não atende o telefone. Ligo de novo, de novo, ele atende "estou no segundo andar". Como assim? "O elevador andou e eu desci". Não sai daí, estou descendo de salto pelas escadas. Cadê o técnico, cadê a subsíndica de pijama? Subo em casa, faço três bilhetes desesperados para afixar no elevador, proibindo o uso, calço a porta do dito cujo com um banquinho da minha cozinha. Saio de novo com o carro da garagem, o João solto no banco do passageiro, o Enrique de capa impermeável vermelha tomando chuva na esquina da Oscar Freire. O Leo que já tinha avisado a uma hora e meia atrás, que estava preso na chuva, em Osasco. No volante, subindo a Teodoro tento me acalmar, repeti para mim mesma #leituracura, me aconselhei com Nelson: a vida como ela é.

Me atrasei apenas cinco minutos, respiro bem fundo. Me lembro da psicanalista que durante um atendimento, o lustre despencou na sala, ela continuou impassível ouvindo o paciente. Ou me lembro de mim mesma, durante um atendimento, num final de tarde outonal com uma leve brisa soprando a cortina de voil branca, meu paciente de frente para a janela, agarra as unhas o braço da poltrona, eu de costa para janela, não vejo o que acontece, a cara dele crispa-se como no grito de Munch, aiiii tem um gato preto entrando pela janela do segundo andar, viro suavemente, ahhhh, ele vai sair, o gato dá uma miada debochada, dá meia volta e saí pela mesma fresta da janela. Posso voltar para o meu lugar de sujeito suposto saber de analista... a vida como ela não é.

Começo a leitura da noite. A chuva ainda não passou, mas começa a cadenciar-se com o ritmo da sala, uma das convidadas boceja visceralmente enquanto mantém-se com os dedos pregados no celular. A vida como ela é.

Colacionei algumas frases de Nelson e começo por aí: Toda mulher bonita é um pouco namorada lésbica de si mesma. A mulher só se salva se for para o tanque, o tanque é a salvação da mulher. Toda mulher normal gosta de apanhar, só a neuróticas reclamam. É preciso amar sempre a procura do amar impossível. O meu teatro passou a irritar os cretinos de ambos os sexos. Amar é ser fiel a quem nos trai. A mulher pode trair o marido, o amante nunca. Toda unanimidade é burra. O sexo é o que estraga o amor.

Anjo pornográfico, tarado, sexista e machista.

Nelson Rodrigues, tem uma visão exagerada do mundo, naquilo que é mais ridiculamente humano, trazendo a grandiosidade da nossa pequenez. A força literária de Nelson Rodrigues é a atemporalidade, por isso um clássico. Toca no humano, naquilo que  não é datado, nos sentimentos pouco viáveis de confissão. Adultério, ciúme, hipocrisia do mundo burguês, o desmonte da família como instituição casta, o anominato (tem fixação por cartas anônimas), os desejos inconfessáveis, o que beira à perversão (lembrando que o perverso é o neurótico que age; o que determina a perversão é a passagem ao ato - se é só pensamento... não há perversão...).

Para Pondé, Nelson Rodrigues tem uma compreensão da psicologia dos afetos do lado de fora daquele que se imagina melhor, mais evoluído do que realmente é, como tão bem determina o pensamento dominante  de hoje, no que concerne ao "marketing afetivo". Nelson Rodrigues representa uma desconstrução do mundo politicamente correto de hoje, desmistifica, tira a máscara do sujeito que deseja ver o mundo como um lugar ideal, perfeito. Hoje em dia, não é mais civilizado sofrer de "baixarias humanas" (tipo inveja, ira, culpa, gula, luxúria). Nelson Rodrigues capturou o momento que estávamos preparando para acreditar na vida como uma enorme mentira social. "ninguém pode amar e ser feliz", Nelson captura aquele momento de que é uma ilusão pensar no amor como uma felicidade suprema. O amor não leva à felicidade, porque o amor (acaba) e porque ele muito mais real que a felicidade. A felicidade é algo abstrato, construída no plano da idealização. Nelson está chamando atenção para que a vida afetiva não necessariamente te leva para a felicidade. O tema da culpa é fortemente presente na obra de Nelson Rodrigues (vinculada à sua paixão por Dostoievski) - a prostituta, a adultera, o adultero - só os que sofrem (os neuróticos) através da culpa, verão a Deus.

O desejo é central na obra de Nelson Rodrigues. Como é central para a compreensão do sujeito na psicanálise.

Em "Moral sexual civilizada e doença moderna" (1908), Freud relata os danos psíquicos a que estamos sujeitos em nome de atender às demandas civilizatórias impostas pelos processos culturais, enfatizando que existe uma relação entre a alta incidência da doença nervosa e a moderna vida civilizada. As extraordinárias realizações dos tempos modernos, as descobertas e as invenções em todos os setores e a manutenção do progresso, apesar da crescente competição, só foram alcançados e só podem ser conservados por meio de uma grande esforço mental. Os nervos exaustos buscam refúgio em maiores estímulos e em prazeres intensos, caindo ainda mais em exaustão.

Em "Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor (1912), Freud nos diz que "existe apenas um pequeno numero de pessoas educadas em que as duas correntes (de afeição e sensualidade), se fundiram adequadamente; o homem quase sempre sente respeito pela mulher, que atua como restrição à sua atividade sexual, e só desenvolve potência completa quando se acha com um objeto sexual depreciado; e isto por sua vez , é causado, em parte, pela entrada de componentes perversos, em seus objetivos sexuais, os quais não ousa satisfazer com a mulher que ele respeita (p 168). "... quando amam não desejam e quando desejam não são capazes de amar"(p. 166, Vol XI - Obras Completas de S. Freud).

Na atualidade, podemos pensar que nos livramos da moral sexual civilizada? A obra de Nelson Rodrigues ainda provoca o sujeito da atualidade? Onde foi morar nosso desejo na atualidade? Onde é o lugar do desejo no mundo politicamente correto?

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Ao final das leituras em grupo sempre levo alguns livros de poesia. Costumo deixar o inconsciente do grupo guiar-me para a escolha da poesia, que irá arrematar nossos encontros.
No caso da leitura de ontem, eu já havia decido que ninguém mais além de José Régio, poderia representar Nelson Rodrigues. Terminamos a noite com "Cântico Negro".
Nelson é aquele que "não foi por ali", que escolheu perturbar com a sua escrita, para que a vida pudesse se tornar o que ela é.




domingo, 24 de novembro de 2019

Belisário Capa Preta


O nome dado em batismo foi Belisário, o acréscimo Capa Preta veio depois com vamos explicar no decorrer dessa história.

Belisário Capa Preta, o caçula, de uma família nem pobre nem rica, remediada. Sua mãe Dona Alzirinha era uma mulher muito prestimosa com a casa, cuidadora de tudo que era limpeza e higienização das crianças, comida sempre pronta e na hora certa, mas pouco se dava conta dos filhos. Mimos nem pensar! A arrumação naquela casa sempre veio antes da diversão. De modo que os leitores não ficarão surpresos que a Dona Alzirinha somente foi se dar conta que o filho não falava quando foi chamada na escola pela professora do primeiro ano.

O pai, um sujeito que não logrou êxito em entrar para a Cavalaria do Exército, contentou-se com o ofício de domar mulas, daí muitos atribuírem o comportamento bestial do filho ao ofício do pai.
O menino tinha umas manias esquisitas, gostava de brincar de “arminha”, sempre que alguém o cumprimentava na rua, dirigia-se ao outro como se estivesse empunhando uma cartucheira invisível e ameaçava disparar o gatilho. Ninguém jamais via nada de estranho nisso. Crianças são imaginativas e Belisário que não tinha aprendido a falar, tinha arrumado uma forma de comunicar-se com mundo. De vez enquanto ficava muito irritado a troco de que nunca ninguém sabia dizer porque. Saia dos recintos chutando cadeiras, dando cotovelas, como se tivesse de alguma forma defendendo-se de seres invisíveis. Não tinha paciência e nem civilidade para ficar em ambientes fechados, um dia foi no mercado buscar umas coisas pra mãe e como precisava esperar a sua vez de ser atendido, irritou-se chutando a banca de tomates maduros espatifando-os pelo chão, ainda tomado de fúria pegou a faca afiada de cortar queijo e começou a perfurar as embalagens de óleo, com o facão cortou caixas de leite, quebrou vidros, estilhaçou louça branca pra ser vendida. Não satisfeito entrou no galinheiro que existia no fundo na loja, decepou a cabeça de tudo o que viu pela frente e não tendo nada mais para matar, catou umas mangas maduras e saiu chupando pelo caminho.

Os prejuízos foram contabilizados pelo dono da venda e como o pai não tinha com o que pagar e precisava continuar comprando comida, ofereceu o irmão mais velho de Belisário para serviços gerais já que aquele potro, o filho mais novo, o único que ele não conseguia domar, teria que continuar sendo seu filho e as pessoas estavam cada vez mais dispostas em não o ter por perto. De modo que o menino que não falava foi assumindo uma postura soturna, cada vez mais desinteressada das relações com o outro.

Quando chegou o dia da procissão em que o Padre mais a Santa mais as flores que formava tudo praticamente um altar ambulante em cima de carroça puxada por um burro, descia a Ladeira da Misericórdia, Belisário Capa Preta fez das suas. Esparramou bolinhas de gudes que rodopiando pela única rua asfaltada da cidade entrando pelo meio dos cascos do cavalo, que tropeçando entre ferraduras, asfalto e bolinhas, o altar, a Santa e o Padre se esfalfaram no chão e a procissão precisou terminar pra acudirem o Padre que desde então ficou coxo e mal humorado.  Não aceitou Belisário para fazer o curso de catecismo na sua paróquia. Belisário tomou-se de tal fúria com essa recusa que passou a odiar a igreja, a cúria, até o dia que já sendo homem feito e falante precisou reatar a fé para realizar seus propósitos curriculares.
Quando finalmente é mandado para a escola, Dona Cotinha que já tinha ensinado muito menino que não gostava de aprender, achou que Belisário acabaria por interessar-se pelas aulas, pelas letras e pelas palavras. Foi então que se deu conta que o menino tinha alguma disfunção que ela não conhecia o nome, mas que impedia o garoto de falar.  Belisário Capa Preta que além de não conseguir aprender, por mais esforços que dona Cotinha fizesse, começou a grunhir uns sons estranhos que botavam os alunos indefesos e pequenos ainda mais com medo daquele menino briguento, feio, com os dentes inferiores desencontrados dos superiores, a mandíbula projetada para frente deixando a mostra os dentinhos cotocos de baixo, dando-lhe um certo ar de peixe.

A mãe, Dona Alzirinha, não se botou muito preocupada, achou que tudo se resolveria como Deus quisesse, que o menino mais hora menos hora ia enjoar de ser mudo e quando bem lhe desse na telha ou quando Deus quisesse, começaria a falar.

Dona Cotinha por outro lado, mestra dedicada e preocupada não se aquietou com o conformismo da mãe. Se a família nada fizesse, por falta de recursos ou por falta de vontade, ela iria dar um jeito na coisa. Pensou, pensou, pensou, até que teve a ideia de procurar o único farmacêutico da cidade, que por aquelas bandas tinha mais utilidade que o Padre. Seu Oswaldo tinha as vistas cansadas de tanto ler bula miudinha de remédio. Tinha uma bancada velha nos fundos da loja com uns livros esparramados e empoeirados com as folhas engomadas pelo suor dos dedos. Mesmo sendo de poucas palavras, costumava ouvir as pessoas com atenção e se não acertava pelo menos nunca tinha errado na indicação dos medicamentos. Tinha até curado Dona Laura de frescura, com umas pílulas de açúcar que só ele sabia do que eram feitas. De qualquer forma, essas pastilhas açucaradas para acalmar os nervos lhe deram a permissão para ser respeitado na cidade. Dona Cotinha, sentou, colocou a bolsa de domingo no colo e começou a explicar a situação do menino. Irascível, foi a palavra com a qual ela o resumiu no final. Mas, o que mais a preocupava era o fato do garoto não falar. Seu Oswaldo ouviu tudo muito silenciosamente, prometeu pensar em algo, que lhe desse alguns dias para estudar. Ia pesquisar o caso e ela que voltasse dali uns três ou quatro dias.

No fim do terceiro dia lá estava ela.

- Então, o senhor descobriu algum medicamento que faça o menino falar?
Seu Oswaldo coçou atrás da orelha, aprumou os óculos e lhe entregou um frasco com vários comprimidos. “É um laboratório americano muito conceituado, já fez muita pesquisa com medicamento aqui na América do Sul. Se o medicamento não mata índio ou pobre, eles colocam no mercado em grande escala. Primeiro vendem aqui, e assim vão testando em massas cada vez mais pulverizadas, até que comece a dar problema com quem tem dinheiro. Aí o DRUG&ADMINISTRACION entra em ação e proíbe a venda do medicamento nos Estados Unidos”. Dona Cotinha ficou pasma, não sabia que o Seu Oswaldo sabia falar inglês DRUG e o quê? Mas deixa para lá, era preciso pôr aquele selvagem em marcha, introduzi-lo na linguagem para se tornar um indivíduo civilizado. Dona Cotinha não sabia que seu Oswaldo falava inglês e nem Dona Cotinha imaginava que com esse pensamento ela poderia até ter sido professora do Levi Strauss. Correu atrás do seu selvagem.

Foi até a casa de Alzirinha que enquanto ela explicava como o medicamento tinha que ser ministrado, a dona da casa não parou um minuto de ajeitar coisas no armário da cozinha, mexer o tacho de arroz doce e dar ordens para as crianças menores. Quando Belisário chegou com sua cara de peixe, a mãe meio sem dar muita importância botou o frasco na frente dele e falou “Toma, uma vez por dia, sempre depois do almoço e arranca essas botas que tão me sujando o chão”.
Dalí uns quinze dias o remédio começou a surtir efeito. Belisário chegou na sala de aula, jogou a bolsa furada onde trazia misturado os cadernos, uns lápis sem ponta e um punhado de farelo de bolacha. Parou ao lado de dona Cotinha e puxou conversa:
- Stvrwq ptvbt stmnql
- Que isso menino?
- Stvrwq ptvbt stmngl!
E assim emitiu mais uma dezena de vezes esse emaranhado de desinteligência e como já começa a se pôr indócil diante da mestra a única pessoa capaz de entendê-lo, Dona Cotinha suspendeu as aulas, catou o menino pela mão, foi até a farmácia. Seu Oswaldo esperou que o menino falasse, foi até o fundo da loja pegou um frasco igual ao que tinha dado para Dona Cotinha. Leu, remexeu, coçou atrás da orelha, olhou de novo para o menino e pediu para que ele falasse alguma coisa: “Stvrwq ptvbt stmngl!” Belisário Capa Preta que já começa a se pôr em fúria, repetiu a mesma falta de sentido.
Seu Oswaldo chamou Dona Cotinha no fundo da loja e falou. “Acho que não deu certo. Pelo que li aqui na bula está escrito que esse frasco é das consoantes e até onde me lembro sobre o meu controle de estoque não veio nenhum frasco de vogais. Mas a senhora não se desespere, vou escrever ao laboratório e pedir que me mandem as vogais, enquanto isso continue com os comprimidos, assim, quando o medicamento complementar chegar, ele já vai estar mais familiarizado com as letras. Juntar tudo depois vai ser muito mais fácil”.

Dona Cotinha saiu da farmácia confiante, arrastando aquele menino pelas ruas mormacentas de dezembro. Depositou-o em casa e explicou que ele deveria continuar tomando o remédio. Olhou bem fundo nos olhos dele para extrair dalí algum grau de compreensão, para se garantir de que aquele parvo lhe entendia as ordens.

Esperou-se algum tempo até o dia que o frasco de comprimidos de vogais chegou e Belisário pode fazer seu tratamento completo. Ao cabo de um ano já falava de tudo: vogais, consoantes se transformaram em palavras incessantes e sem controle na boca daquele sujeito. Podia-se dizer que o problema de Belisário sempre foi a fala: no princípio a sua ausência e ao longo dos anos o seu excesso. Não demorou muito para que conseguisse fazer um contato com o conceituado laboratório farmacêutico americano que lhe havia proporcionado o dom da verborragia. O laboratório americano ficou tão entusiasmado com o sucesso do medicamento que resolveu levar o menino de primeira classe para os States para conhecer a Casa Branca e o Presidente da América.  Um caso de amor à primeira vista! Como não sabia onde enfiar as mãos no primeiro encontro bateu-lhe logo uma entusiasmada continência militar. Belisário teve uma identificação imediata com o acerejado mandatário daquela nação, passando a sofrer de um estado de êxtase doentio em relação a figura do Presidente, adotando-o como referência e modelo de supremacia da raça humana, praticamente um ser ariano. Admirava e propagava seus discursos, como se aquele espécime representasse um único e eficaz modelo a ser seguido. É admirável como o recalcado sempre retorna e nesse retorno do recalcado percebemos a índole de uma nação que sempre apreciou macaquear o que vem de fora.
Assegurado em suas bélicas certezas, Belisário dizia tudo que lhe viesse à mente, pois já se encontrava em estado avançado sua incontinência verbal. Voltou a cumprimentar as pessoas fazendo pose de “arminha” como fazia na sua infância (mais uma vez confirma-se aqui nossa tese quanto ao retorno do recalcado...) Passou a sustentar que o melhor para o mundo seria a construção de um muro. E não bastava que o muro fosse construído entre México e Estados Unidos, como queria seu idolatrado salve-salve! Muros deveriam existir em todos os lugares, principalmente em cidades grandes onde o povo estava ficando cada vez mais libertino. Começou a defender a ideia de que deveria existir muro para separar os que querem ser gays daqueles que querem viver uma vida com sexualidade normal. Que se construísse muros cada vez mais altos para separar os que acreditam na pátria, que defendem o Estado vestidos de camisetas amarelas da seleção de futebol. Muros para aqueles que querem portar armas. Muros para aqueles que defendem a tortura. Muros entre homens e mulheres que acreditam que mulheres feias não tem o direito de ser estupradas. Muros para separar aqueles que defendem índios daqueles que querem queimar florestas. Muros para separar aqueles que cagam todos os dias daqueles que só cagam uma vez por semana. Muros para separar quem gosta de ler, daqueles que querem queimar livros em praça pública. Com tantas ideias de muros acabamos voltando a ter cidades medievais devidamente amuralhadas, onde um mito passou a governar para cidadãos legitimamente emparedados.

Fundamos o fundamentalismo nos trópicos.

jardim das delícias -  Bosch - Museu do Prado





segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Enigma e insônia

Sou um enigma que me dá bom dia todos os dias. Às vezes tenho o hábito de não responder. Em busca de certezas perco cada vez mais minha própria razão. Razão é coisa do outro, nunca minha. O pulsar do incerto é que me acompanha durante o café da manhã, me rechaça durante a tarde e vem novamente me encontrar no fim do dia quando começa a escurecer. É sempre no fim da tarde que sinto vontade de voltar para casa. Dizem que 6 da tarde é a hora da solidão, a hora que os pássaros ser recolhem com uma cantoria diferente daquela que saíram para brincar quando o dia amanheceu. Os pássaros não são como gente. Estão sempre estridentemente felizes. Dizem que são muito inteligentes e que possuem sofisticados sistemas de navegação que faz da Nasa um laboratório de ciências como aquele que existia na meu colégio. É também a hora da Ave Maria, se algum sino ainda toca aqui na cidade ninguém é capaz de ouvir. Já desenvolvemos uma capacidade obstinada de não mais ouvir coisas. Acho que essa capacidade de não ouvir está criando um silêncio tal que me provoca insônia durante toda a noite. Aí sim qualquer prenúncio de barulho torna-se um barulhão, não são as coisas de fora e sim as de dentro que não me deixam dormir. Ser gente sempre implicou em solidão e não estou aqui a dizer que isso seja ruim. É o estar só no mundo que possibilita a criação, o encontro com a arte, a apreciação do claro-escuro-incerto que a vida oferece. Estar o tempo todo entre multidões sem encontrar-se com a sua solidão faz com que o mistério desapareça levando nas asas dos pássaros o enigma que precisamos tanto tentar resolver. O mistério de existir é rodeado do incerto, onde o lugar fica sem margens para que a imaginação possa encontrar novas maneiras de voar. É assim que me aproximo das estrelas, abro a janela e pálida de espanto sou capaz de ouví-las durante toda a noite. Não é errância, é poesia.

O PÁSSARO CATIVO
Armas, num galho de árvore, o alçapão.
E, em breve, uma avezinha descuidada, batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada, a gaiola dourada.
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo.

Por que é que, tendo tudo, há de ficar o passarinho
mudo, arrepiado e triste, sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorgeando a sua dor exalam, sem que os homens os possam entender.
Se os pássaros falassem,
talvez os teus ouvidos escutassem este cativo pássaro dizer:

"Não quero o teu alpiste!

Gosto mais do alimento que procuro na mata livre em que a voar me viste.
Tenho água fresca num recanto escuro.

Da selva em que nasci; da mata entre os verdores,
tenho frutos e flores, sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola de haver perdido aquilo que perdi...
Prefiro o ninho humilde, construído de folhas secas, plácido, e escondido.

Entre os galhos das árvores amigas...
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?

Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde, entoar minhas tristíssimas cantigas!

Por que me prendes? Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade...

QUERO VOAR! VOAR!..."

Estas coisas o pássaro diria, se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria, vendo tanta aflição.
E a tua mão, tremendo, lhe abriria a porta da prisão...
Olavo Bilac




quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Questão de amor

Existe duas formas de dizer o amor. Uma delas é dizer do amor sobre a perspectiva de quem ama (ou amou um dia), a  outra é a perspectiva de tentar explicar o amor. Nenhuma delas pode ser coincidente, obviamente, pois experimentar é sempre diferente de imaginar. Não que imaginar não seja um ingrediente poderoso para amar. Embora o amor seja um sentimento universal e humano (as outras espécies se agregam por sobrevivência - não estão preocupadas durante o  acasalamento se o pelo do leão A é mais macio que o pelo do leão B ou se a ameba A tem olhos azuis, uma covinha do lado esquerdo do rosto e fez mestrado numa instituição de primeira linha, o que poderia indicar um caminho para um bom emprego, um bom salário, uma vida confortável). Embora o amor seja um sentimento universal e humano, cada raça, etnia, território tem sua própria maneira de descrever o amor. Amor descrito não é o mesmo que amor vivido, certo? O mundo real não é como o mundo imaginado e talvez nisso o amor vivido encontre componentes para ser abandonado no primeiro round do que se pretendia como construção amororsa. Bauman que o diga.

A ideia de construção amorosa é bastante cultural. Se entendermos a cultura como um processo civilizatório que visa mais do que acolher, fazer como o que o sujeito receba um salvo conduto para viver em sociedade, teremos que muitos dos componentes que tentam balizar o amor são acometidos da visão histórica daquele momento. A cada época, a cada geração são criadas palavras novas para introduzir o amor como conceito e ideia. Nos anos 60, era a liberdade dos corpos garantida pela invenção da pílula anticoncepcional, nos anos 70 era tudo "paz e amor"; nos anos 80 era muito dancing days até que veio a AIDS, para mudar tudo o que tínhamos idealizados como "liberdade" para viver e experimentar o amor. O amor livre e dançante que tínhamos socialmente conquistado pisou o território da morte. Veio a WEB, mudou nossa relação com o mundo, numa velocidade estonteante de informações começou a engolir nossas certezas. O Outro tão fundamental para os exercícios da suposta construção amorosa passou a morar atrás de um teclado performático onde cada um pode aparecer e sumir pela força das mesmas pontas dos dedos que sequer chegaram a tocar o seu corpo. Ficou a saudade de uma amor imaginado como uma hipótese de felicidade e encontro.

A dificuldade do amor não está no tempo que ele dura, na intensidade com que nos alcança, nos caminhos conflitantes que nos aponta. A dificuldade do amor, é que, para me colocar diante do Outro com disponibilidade para criar laços preciso dizer para mim mesma quem sou eu; preciso pisar em territórios incertos, dar de cara como todas as minha dúvidas e incertezas sem que as inúmeras impossibilidades de encontros gerem desencontros reais; preciso entender que o amor traz sempre o seu par correlato em oposição: o abandono. Com tantas coisas que ainda preciso "entender", será que um dia ainda vou conseguir "viver o amor"...?






quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Um robô no mundo de Freud



Com tanta novidade por aí tenho vontade de gritar de novo: "terra à vista!". Mas como o tempo dos descobrimentos já passou e se calhar não tem mais terra para ser descoberta, teremos com a felicidade de bons ventos, desenvolver novas ideias para um velho mundo já descoberto e tão pouco provido de mistérios. Será?

Uma terapeuta de Stanford, Alison  Darcy, criou um aplicativo artificialmente inteligente que usa princípios da terapia cognitiva-comportamental para dar uma mãozinha quando você estiver sentindo necessidade de falar e não encontrar um terapeuta de carne e osso. Da mesma forma que vamos ao médico já pressupostamente diagnosticados pela informações colhidas via Internet, podemos a partir de agora fazer terapia sem sair de casa, sem nenhum custo de deslocamento e com ínfimos danos ao bolso, com a promessa de que, ao cabo de duas semanas, você estará se sentindo muito melhor com a sua terapia touch.

No mundo desnudo pelos descobrimentos tudo está à venda. Cabe a nós uma única e exclusivíssima oportunidade: a oportunidade de escolha. Por mais que a inteligência artificial venha a ter seu bom e necessário uso nas mais diversas formas de cuidados digitais, esse aplicativo (Woebot) me parece mais um dos inúmeros produtos à venda, num mundo que se coloca para ser vendido na vã tentativa de que esse mercado incessante possa trazer algo para o sujeito que o complete com meios paliativos de um forçoso bem estar.

Não tenho nenhum tipo de óbice em fazer terapia a distância com um paciente com o qual a transferência já esteja plenamente estabelecida, daí minha critica em relação ao aplicativo e tantos outros correlatos que possam "vender" como terapia algo que não passa de um instrumento de auto ajuda.
Tão pouco tenho a pretensão de colocar em discussão a evolução do conceito de transferência. Apenas seria interessante que o sujeito que pensa em fazer análise pudesse ter clareada as implicações do que significa a transferência em análise para que possa a partir daí decidir se pretende colocar-se diante de um analista ou de um robô.

Conceituar  transferência não é algo fácil em tão poucas linhas mas de forma bastante genérica "podemos conceituar o fenômeno transferencial como o conjunto de todas as formas pelos quais o paciente vivencia com a pessoa do analista, na experiência emocional da relação analítica, todas as representações que ele mesmo tem do seu self, as relações objetais que habitam o seu psiquismo, bem como os conteúdos psíquicos que estão organizados como fantasias inconscientes, com as respectivas distorções perceptivas, de modo a permitir interpretações do psicanalista que possibilitem a integração do presente, como o passado, o imaginário com o real, o inconsciente com o consciente" (David Zimermann, Manual da Técnica Psicanalítica).
Sem transferência não há análise.
Ao tratar de tantas intercorrências como representações, relações objetais, fantasias inconscientes, interpretações do analista, acha mesmo que um aplicativo vai dar conta de você?



















quarta-feira, 8 de maio de 2019

Ao pai

Acordo cedo, invariavelmente, entre 4:00 e 4 e tanto. Preciso falar com o acupunturista. Numa das minhas incursões de busca de conhecimento fiz um curso sobre acupuntura auricular e ouvi que quando acordamos em horários fixos durante a madrugada precisamos prestar atenção sobre qual o orgão de nosso corpo está em funcionamento.  Como essa questão fica sem resposta (como tantas outras ao longo do dia), vou para sala estudar. Estou com um novo paciente que me demanda algumas inquietações.

Às 5:23 já dialoguei entre Id e Ego, tomei café, o sono é inconciliável, me restam, portanto, os livros.

Meu pai enfartou, está na UTI, ligo para o hospital no interior e hospitais do interior não são como hospitais da Capital. Rosana não pode me dar nenhum um tipo de informação sobre seu estado. Meu Ego entra em ação para mediar o meu desejo de saber sobre o meu pai versus a realidade de não poder ter informações do mundo real. O principio da realidade impera, aquietando-me sobre respostas que não posso ter na forma e na hora que quero. É preciso esperar que o dia amanheça, que o horário de visitas chegue, que uma de minhas irmãs possa me dizer o que Rosana não pôde. Mas eu QUERO saber sobre o meu pai, CARAMBA! É isso que meu Id continua demandando.

Que são então essas duas figuras que não têm nada ver com o curso dessa estória? Que é isso de Id e Ego?

Freud já tentou me explicar isso "n" vezes. E como esse meu professor dá voltas diletantes sobre os conceitos que criou vou tentar uma síntese. A primeira questão é que no Id não há síntese. Comecemos, então, por aí. Tanto Id como Ego são partes do nosso aparelho mental ou instâncias psíquicas, se gostarem mais.

Não há uma linha divisória entre essas instâncias psíquicas do tipo aqui termina o Id e começa o Ego ou o seu muito pelo contrário. Porém, em situação de análise traçamos essa linha imaginária para perceber um pouco mais sobre o sujeito que nos fala por breves cinquenta minutos.

Para entender a relação entre Id e Ego, podemos imaginar uma casa. Se olho uma casa de fora posso ter "impressões" sobre como ela é - ou está - por dentro. Um jardim bem cuidado pode despertar minha curiosidade, detalhes da fachada podem me levar a pensar sobre o sujeito que vive naquele lugar. Essas "impressões" que tenho sobre a casa, sobre o sujeito que ali habita, etc, são informações alimentadas pela constituição do meu Id. Minha subjetividade presentifica meu universo imaginário. Dessa forma, podemos pensar que o Ego funciona como a fachada do Id e que sofre modificação pela influência do mundo externo (a realidade). Percebe aí minha inconformidade com Rosana, que não pode me dar informações sobre o meu pai? A Rosana, atendente do hospital, representa para mim a realidade, a insatisfação de um desejo pela imposição do Princípio da Realidade...  Nesse conflito entre o que meu Id quer ( mesmo sem saber que quer, pois desejos são sempre inconscientes..), meu Ego precisa dar as caras para fazer essa mediação entre a realidade e o Id. Meu Ego ajusta, calibra, faz conciliações para que eu possa esperar que no momento oportuno alguém possa me dizer que esteve com meu pai, que falou com ele, como está a potência da sua voz, se ele está sendo bem cuidado e se faz muito frio lá dentro da UTI.

O Id portanto pode ser representado sobre o interior dessa casa vista por fora (Ego). No interior da casa faço o que quero, afinal de contas a casa é minha, pago minhas contas e ninguém tem nada com isso. O ID, é  o lugar onde vivem todas as minhas "não sínteses", onde impera o Princípio do Prazer, onde meu quebra cabeça está com todas as peças jogadas por cima e por debaixo da mesa. O Ego, minha fachada (e por que não em muitos percalços da vida meu "telhado de vidro"?), é o mediador que aparece em meu socorro para organizar as coisas, para que eu não me torne "esquizo", não me divida, não faça cisões. O Ego representa, então, o Princípio da Realidade.

Ô pai! Eu estou aqui em casa pensando numa poesia para ler pra você. Sabe o que me veio na cabeça? Lembra daquela, que o Machado de Assis fez para a Carolina? Eu sei que você também adora. Mas meu Ego diz para esperar, que você está de coração novo e não pode se emocionar tanto.

A literatura, os livros, as leituras sempre representaram para mim uma forma de abstração e contrariamente uma maneira de não fazer cisão com o mundo. Me lançam e me retiram do mundo, fazem a homeostase entre o meu Id e meu Ego. Cada um se segura como pode. Se souber aproveitar a onda, ela acaba te levando para a praia.



A Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Joaquim Maria Machado de Assis











sábado, 27 de abril de 2019

Casablanca

Casablanca é uma palavra gostosa de se pronunciar, dá voltas à boca. Impossível não associar a cidade ao filme que a imortalizou. O filme é atravessado por muitas questões: a histórica, por ter sido lançado em plena Segunda Guerra Mundial, por detrás de seu aspecto puramente romântico fala sobre resistência ao nazismo. Nos fala também sobre ética quando Rick abre mão de seu amor por Llsa, concedendo-lhe o salvo conduto para que possa fugir dali com  o marido. Mas o aspecto que me chama bastante atenção é o efeito de nossas lembranças sobre nossa psiquê e o quanto pretendemos perpetuá-las utilizando como instrumento nossas fantasias.

Sai de Lisboa no final da tarde e com uma horinha de voo estava em Casablanca. Teria pouquíssimo tempo, era preciso eleger rapidamente o que fazer. Minha primeira escolha recaiu sobre uma visita do "Rick's Café". Jantar no local não seria possível pois requer um pouco mais de organização com reservas antecipadas. Mesmo sabendo que o filme não foi filmado ali, que o local não passa de uma reconstrução do cenário, me deixo levar e emociono-me. O bar está localizado no primeiro andar, uma enorme mesa de jogo com tampo de vidro serve compartilhadamente os visitantes de última hora, ao fundo numa televisão antiga o filme fica sendo reproduzido para manter ativas nossas lembranças. O atendimento é cordial e meu Dry Martini estava indefectivelmente correto. O restaurante espalha-se pelo térreo e segundo andar, numa confluência de abóbodas com meia luz, velas, luminárias marroquinas e garçons de FEZ compõem a cena. É lindo.

No outro dia, a rápida visita matinal não corresponde aos nossos ideais românticos do filme e nos revela uma cidade com trânsito caótico, sem rotatórias com conversões permitidas em todos os sentidos dá para se sentir uma visitante kamikase. A Mesquita não mexeu com os meus sentidos, dava para perceber sem consultar o google que a construção era recente (terminou em 1993). A cidade é banhada pelo Atlântico e pelo menos por onde passei não consegui ver beleza onde construções invadem a areia, criando um feudo somente para os que podem pagar para frequentar a praia. Isso já diz bastante sobre a circunstância social de um país. Andando uns cinco quilometros pela orla é possível identificar que existe um ajardinamento em curso, milhares de palmeiras foram plantadas e ainda escoradas esperam sobreviver, calçadas revolvidas por máquinas e entulhos dão a impressão de um terremoto recente. É óbvio que, como em todos os países, principalmente onde a pobreza impera sobre a riqueza, existem algumas "bolhas" onde mansões permanecem fortificadas mantendo distância das mãos pedintes. No geral,  minha sensação foi a mesma de estar transitando pela zona cerealista de São Paulo (que aliás gosto muito).

Realidade e fantasias se mesclam e se diluem  no meu imaginário. Parece algo como desejar revistar antigas paixões diante daquilo que resta em nós puramente como lembranças. Não é incomum desejarmos revisitar amores do passado. As estórias revelam que muito do que conservamos como lembrança são condições especialíssimas daquele momento vivido (ou inventado?). Como num filme, é possível editar os melhores momentos, voltar para as cenas que mais gostamos, ouvir a trilha sonora e amalucar situações. Já ouvi em algum lugar que apenas amamos uma vez, no mais fazemos tentativas para que esse amor se repita...
A frase monumental de Rick "sempre haverá Paris", dá o tom e a nota do que é manter um amor que não pode ser vivido e terá que morar apenas em lembranças.

Continuarei a amar para sempre Casablanca, o filme.

Nesse momento em que escrevo, minhas malas ainda não chegaram, encontram-se perdidas entre Lisboa, Casablanca e São Paulo. Somente a realidade dirá se um dia estarão novamente comigo. Há muito aprendi que  não controlamos nossas expectativas e talvez por isso enveredemos por lembranças, amores e malas que se perdem, sem saber priorizar a ordem dessas demandas.

Em tempo: esse voo é da Royal Air Maroc, o atendimento de cabine é singelo onde você não sabe se estão servindo o jantar, o café da manhã ou um lanche, vem de tudo na mesma bandeja. O comissariado é bastante simpático. A companhia oferece transfer, refeição e hospedagem por uma noite em Casablanca. As malas, como os amores,  seguem o seu próprio destino.








sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

eu não possuo nada
nem flores nem versos
nem poetas nem amantes

não possuo silêncios
nem demoras

tenho urgências
tenho medos
tenho arma
munição
porte
posse


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Livros proibidos



Existem muitas formas de extermínio de um livro. A primeira delas é não abri-lo. Proibi-lo tem sido prática constante todas as vezes que a palavra é sobrestada por tirania dos Estados.

Tinha notícias de livros queimados, banidos de circulação mas ainda não tinha tido notícia de livros que tivessem sido golpeados, violentados com marteladas e baionetas ou alvejados por armas de fogo.

A foto acima ilustra o trabalho de Fernando Vilela que acondicionou em caixas de ferro 110 livros "golpeados" pela ditadura militar, entre eles o manual de tortura  Kubark, utilizado para treinamento de oficiais brasileiros.

Esse trabalho está exposto na Biblioteca Mário de Andrade, onde vale a pena circular para que a palavra continue existindo como forma plural de entendimento.

Nunca é demais lembrar que uma nação não leitora pode ter sua história bem mal contada.

#bibliotecamariodeandrade #fernandovilela #leituracura



quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Fernando Pessoa e sua declarada histeria

Deixei todas as portas abertas e dormi solta e longamente. Despejei-me em sonhos, adoro quando tenho noites assim, por serem raras. Freud nos diz que todo sonho é a realização de um desejo. Realizei vários.

A última coisa que tinha lido antes de adormecer foi a carta de Fernando Pessoa ao crítico literário Adolfo Casais Monteiro (1935). Nessa carta Fernando Pessoa explica seu "manicômio" interno ao dizer como foram criados seus heterônimos: "A origem de meus heterônimos é o fundo traço de histeria existente em mim... a origem mental de meus heterônimos está em minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação..." Acho que adormeci pensando nessa relação entre a criação literária e a despersonalização; a histeria como o primeiro objeto de estudo de Freud rumo aos primeiros passos do que conhecemos hoje como psicanálise. 

Se Pessoa era ou não histérico interessa menos do que o fato de como soube valer-se de um sintoma para elaborar uma obra literária, colocando essa criação no lugar de sua angústia. Quantos outros seguiram o mesmo intento: Mario de Sá Carneiro? Virginia Woolf? Hemingway?  A ideia não é fazer uma relação obituária de escritores suicidas. Interessa perceber como os mecanismos para a criação de uma obra possam estar de tal forma tentando driblar uma condição psíquica.

Ao dormir com todas as portas abertas, deixar que o ar circulasse sem amarras o mesmo foi feito com os meus sonhos (e com os seus também acontece o mesmo). É no momento  que sonhamos quando realizamos um desprendimento de censura, deslocamos fatos, situações e pessoas, usamos nossos restos diurnos para permear nossos sonhos dando a possibilidade de colocá-los no lugar de uma realidade "não realizada", ao contrário do que acontece quando estamos em vigília . Daí serem os sonhos a realização de um desejo, quando nosso inconsciente fica de certa forma "solto" deixando que sonhemos livremente, sem preocupação com a criação de um pleonasmo.

E quem usufrui do que lê, que fenômenos estariam aí envolvidos psiquicamente, possibilitando essa despersonalização de que falou Pessoa? Eu poderia citar vários sem preocupação em ser conclusiva em minhas observações. Podemos pensar em sublimação, em levantamento de recalque? O que tem me interessado acima de tudo é perceber que a leitura pode conduzir-nos a um "não lugar". Muitas vezes esse 'não lugar' são  lugares onde "recusamos estar" mas que "desejamos estar".  Para continuar essa conversa é preciso dizer que nosso desejo é sempre inconsciente e talvez por isso a arte nos ajude tanto a usufruir do complexo mundo desconhecido de nossos afetos.

Melhor do que tentar explicar é abrir espaço para uma disponibilidade interna que nos conceda a liberdade de sonhar, possibilitando encantar-se como forma de continuar existindo.




quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Minha cara amiga

Ela escreve para desejar um bom ano e no final me pergunta se é tudo ilusão? Fico inquietada.  Alias já estava desde a última vez que reli  o Futuro de uma ilusão (1927) e O mal estar na cultura (1930), de Freud. 

Nesses ensaios Freud vai do social ao indivíduo (reciprocamente e vice versa) analisando e propondo questões várias sobre as influências da cultura em nossa formação psíquica, pontuando que a  religião  também é um  fenômeno cultural. Deixemos Freud de lado pois não gostaria de aborrecer minha amiga com questões tão intrincadas ou ser suprimida em minha liberdade de "iludir-me".

Querida, é tudo sim pura ilusão. Não tão pura assim pois não podemos deixar de supor que até mesmo nossas ilusões são firmadas, reafirmadas, cultivadas ou negadas por forças culturais  que nos permeiam sem que possamos dar conta dessa dimensão. Ou seja, nossas crenças ou ilusões já estão prontas pra nos receber sem que saibamos ainda como lidar com o vasto mundo que nos espera. Será por meio dessas "apresentações" que o mundo nos faz que moldaremos nossas virtuoses ou desvios vida a fora. 

Imagina você que tem uma autora escrevendo contos de fadas ao contrário. É preciso desde muito cedo contar histórias verdadeiras para as meninas. Nenhuma delas poderá mais acreditar em príncipes com cavalos brancos ou beijos que despertem de um sono eterno. Elas precisam saber desde os dois anos de idade que o mundo vai exigir delas competência, plano de carreira e saber lidar com divórcios para não serem enroladas juridicamente pelas espertezas das leis.

Outro dia estava deitada ao sol numa praça da cidade e comecei a ouvir o diálogo de uma mãe com um menino de uns cinco anos. Ele queria brincar de guerra, ter uma espada, matar o inimigo, a mãe dizendo que não. Que no mundo as pessoas são boazinhas e que não poderiam ser mortas por espadas, ela propõe outra brincadeira ao que o menino responde não querer mais brincar "de mundo chato". 

Outro dia estava assistindo um desenho animado na  TV Cultura. Tive muita vontade de chorar. Os diálogos engendrados pelas crianças era tão adulto e politicamente correto que me deu uma saudade louca daquele gato que vive querendo matar aquele rato anão que o tripudia, arrancando-o de sua atávica superioridade felina, obrigando-o a valer-se de suas sete vidas para sobreviver a um  rato pedante, esperto, ardiloso e vingativo.

A autora, a mãe e a televisão pretendem por vias diversas porém convergentes "desensinar" ou melhor negar qualquer condição de sermos humanos. A isenção de dor, da frustração, a negação da pulsão de morte coloca o humano no lugar inexistente do Olimpo. Não sendo deuses ou deusas teremos de dar conta do tamanho de nossa pequenez onde a não eternidade está posta nesse pacote. Tendo que lidar com o que somos dói de verdade. Como suportar esse aprendizado sem uma boa dose de ilusão?  Ou como não fazer das ilusões algo que nos infantilize no papel de adultos que temos o compromisso de nos tornarmos?

Minha amiga, eu não tenho essas respostas e receio não as ter caso você decida me fazer essa pergunta novamente em 2020.

O que acho sinceramente que cada um de nós procurar dar o seu jeito. Alguns trabalham incessantemente, outros gastam, outros viajam sem chegar a lugar algum, outros tantos vão para o shopping center, para farmácia, outros tem seus anjos e gurus particulares e assim vamos tocando.

Eu vou continuar te desejando que aquele príncipe encantado te apareça, que você tenha muitos dragões para matar com sua espada e que de vez em quando ligue a televisão para assistir Tom e Jerry.  No mais, se você foi criada como criança num mundo onde era possível "fazer de conta" certamente brincou com barro, construiu lagos na terra com uma latinha de massa de tomate enferrujada, foi feliz como proprietária de um rebanho de cavalos e vacas feitas com sabugo de milho, certamente encontrará nesses recursos as sementes para serem lançadas no ano novo.
Te desejo um ano com boas e surpreendentes ilusões, pois como diria o poeta a gente vai se amando, que sem esse carinho ninguém segura esse rojão.