sábado, 9 de novembro de 2024

A pergunta inusitada

Passei anos sem o ver. Não voluntariamente mas por contingências da vida e das distâncias. Na infância éramos como cão e gato. Ele 6 anos mais velho era um degrau geracional em algumas idades, depois as idades se aproximaram e começamos a envelhecer todos juntos. Eu com seis,  ele com doze, me provocava de todas as formas até me fazer perder as estribeiras quando me chamava por um apelido que não gosto...

Eu entrando na adolescência,  ele entrando na faculdade, foi meu provedor de livros. Era assinante do Círculo do Livro e me repassava tudo o que tinha lido. Leitora de segunda mão,  era assim que as coisas funcionavam na antiguidade,  aprendemos a compartilhar coisas pela dificuldade que tínhamos em comprar ou acessar bens. Livros chegavam pelo correio. Notícias chegavam pelo correio. Era um tempo em que ainda sabíamos esperar. Esperar respostas, esperar telefonemas.  Esperar a noite de Natal, única ocasião que com um pouco de sorte ganhávamos algum presente.

Esse meu primo era um sujeito que mesmo quando a ocasião não exigisse, estava de camisa abotoada até o último botão,  calça e sapato sociais. Eu...estava ficando meio hippie. Tomada de contra-cultura mas acho que no fundo no fundo era tão careta quanto ele.

Teve uma ocasião que meus pais foram viajar por 10 dias, deixando em casa 5 adolescentes  mais o primo que veio se juntar à nós.

Minha mãe sempre foi muito organizada e previdente. Deixou a casa toda abastecida para que a gente não passasse fome. Acho que calculou mal as provisões, diante da familicência da tribo. Comemos absolutamente tudo o que encontramos e o dilema era: como conseguir ir ao supermercado numa época em que não existia cartão de crédito,  pix e que os hipermercados nascedouros não aceitavam mais marcar na caderneta.

Meu pai tinha um amigo, uma versão do Elvis Presley,  casado com uma distintíssima senhora. Sempre feliz e bem humorado, olhos verdes, pestanas pretas. Nunca entendi exatamente a natureza da amizade dos dois, pois ele era levado na rédea curta enquanto meu pai sempre fez o que quis da vida...

Diferenças amistosas a parte  não sei de quem foi a ideia mas nossa única saída era pedir dinheiro emprestado para o Elvis. Apesar de nossa juventude éramos cerimoniosos. Por algum motivo coube a mim ser a porta voz do pedido de empréstimo e esse meu primo seria o motorista, já que naquela época eu era bem menor de idade e não tinha habilitação para dirigir o Corcel branco da minha mãe. 

Ensaiamos muito. Feroz e decidida a não passar fome, meti o dedo na campanhia e declarei nossa mendicância mesmo sob a ameaça de levar uma baita bronca do meu general-pai.

Quando já muito adultos nos encontramos,  eu e esse meu primo, ele poderia ter me feito qualquer pergunta. Poderia ter me perguntado sobre todos os livros que li nesses anos todos. A sua pergunta foi inusitadamente singela e rememorativa: e aí,  você continua com aquele apetite?