quinta-feira, 10 de novembro de 2016

fala aí Ana Júlia

"O movimento estudantil nos trouxe um conhecimento muito maior sobre política e cidadania, do que todo o tempo em que estivemos sentados e enfileirados em aulas padrões". Ana Júlia, 16 anos

A roupa era colada no corpo, do decote até o tornozelo, o cabelo preso com um rabo de cavalo pendulava direita-esquerda-esquerda-direita, um corpão bem feito capaz de evocar desejos não sublimados de 8 a 80, e a voz continha decibéis muito além de minha capacidade de tolerância auditiva. O que saia daquela boca era ainda mais inacreditável... Eu, caminhando atrás desse fenômeno, imaginava que a qualquer momento a moça ensejaria uma sessão de pole dance, bem ali, no meio do corredor. Minha curiosidade carregada de inquietação não cansava de se perguntar qual seria a função daquela criatura naquele estabelecimento. E pergunto. A resposta me deixou ainda mais perplexa "conciliadora de conflitos escolares"...ai...meus sais...!!!

Enquanto minha cicerone desfilava aos berros pelos corredores, eu me entretinha como essa volta no tempo. Essa escola pública estadual aqui na rua da minha casa, tombada pelo acervo estadual, permanece com os mesmos corredores de ladrilho vermelho no piso, as paredes são pintadas até a metade com tinta óleo de tom amarelo desmaiado, alguns móveis da entrada são originais como um porta chapéu, por exemplo. Quem estudou em escola pública reconhecerá esse descrição.

Meu encanto se esvanece.Começo observar que todas as janelas tem grades, todas as portas tinham cadeados, a biblioteca tinha uma porta de madeira e outra porta de ferro sobreposta com cadeados, trancas, e tudo o mais que permitisse excluir os livros de qualquer acesso humano. Aliás, nunca era aberta aos alunos (muitos sequer sabiam de sua localização ...) A pessoa responsável pela sala estava de licença há alguns meses, um motivo a mais para permanecer trancada. De repente me dou conta que não sei mais onde estou e que a única diferença entre essa escola e a penitenciária é que quando entro numa penitenciária sei onde estou entrando e ali, no lugar de escola encontrei uma prisão, em todos os sentidos.

Desde que escola se transformou num business de sucesso, onde é possível manter o cliente fidelizado por longuíssimo prazo, aceitamos a falência da rede pública de ensino mandando os nossos filhos para colégios particulares, que nos arrancaram o coro sem dó nem piedade e que ainda assim, discursamos com veemência sobre a importância desse "investimento".

Tenho visto algumas críticas sobre a ocupação das escolas públicas e acho isso de uma injustiça cruel. Alguns carregam no verbo chamando os jovens de vagabundos/baderneiros. Penso que não. Estava mais do que na hora desses jovens que não tiveram ( e não terão) o mesmo ponto de partida de nossos filhos, botarem a boca do trombone. A discurso de Ana Júlia me emocionou e deveria ser a fala de muitos. Resta-nos enxergar que vivemos num pais que precisa mudar e, o único instrumento para isso chama-se educação com qualidade, com professores isentos que saibam iluminar caminhos ao invés de pregarem as suas próprias ideologias. A função primeira da educação é formar pessoas com capacidade para escolher. Ana Júlia "escolheu" quando foi discursar pra aqueles ignóbeis representantes da sociedade nacional. Nossos filhos, com a nossa anuência e patrocínio, poupados pela redoma do ensino particular, não seriam capazes de uma fala tão pertinente como a dela.

E ontem, nosso temerário presidente que quer mudar o ensino médio através de medida provisória criticou a ocupação de escolas no Paraná, começando sua fala assim: "...o que mais existe hoje é um desrespeito às instituições ..." Ele deve entender do que fala, não é mesmo?

Torço para que o movimento estudantil ressuscite a partir dessas ocupações e que outras Anas Júlias surjam como exceção pra a obviedade dos tão empobrecidos caminhos oferecidos pela falta que a educação tem nos feito. Quem sabe, assim, em 2018 algum candidato lembre de incluí-la prioritariamente em sua proposta de governo, porque estudante secundarista também vota!!


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