sexta-feira, 29 de julho de 2016

Chegar caminhando

Ele queria chegar até a vila mas não pela estrada. Tinha que ser pelo meio do pasto, atravessando o rio, pulando a cerca. Para não contrariar e porque ele nunca tem tempo de vir comigo, aceitei suas condições. As vacas para mim não são animais sagrados. Elas me olham com uma cara de muito pouco caso enquanto mascam. Meus sapatos não eram adequados, não gosto de pisar onde não vejo, com o capim até o joelho fica fácil pisar numa víbora adormecida. Elas são meu objeto de terror. Seguíamos e o dia quase indo. Quando penso que já tinha deixado para trás as cobras, o rio, as vacas, começo a ouvir latidos. Muitos latidos. Ele me diz que tem um sitio por onde temos que passar que tem muitos cachorros. Nessa hora estive ao ponto de cometer um infanticídio. Para que não me arrependesse de tê-lo matado, imaginei como pudesse subir em alguma daquelas árvores e ele que se virasse para ir na frente, chamar alguém para me resgatar. Cruzei os dedos em figa como fazia quanto criança na presença de cachorros, repetindo mentalmente "são-roque/são-roque/são-roque" e atravessamos os cães.

Liberta, começamos a conversar. Passou alguém a cavalo tocando uma vaca e ele me pergunta como era possível alguém pode viver num lugar daqueles, acordando e fazendo todos os dias as mesmas coisas, sem nunca ter saído dali para conhecer um outro mundo. Sugeri que quando encontrasse mais alguém pela estrada, fizesse essa pergunta. Mas que fosse sútil. Que começasse uma conversa pelas beiradas, puxando assunto devagar, de um jeito que parece que não sabemos mais como fazer.

Não demorou muito e apareceu um cachorro preto, logo atrás com passos lentos uma senhora de banho recém tomado, dava sentir o cheiro de sabonete misturado com roupa lavada e secada ao sol. Estava agasalhada, alí sempre faz um friozinho. Falamos primeiro com o cachorro. Chamava-se "Negrinho". Ela começou contando que ele estava sem pelos nas ancas porque alguém fez a mardade de jogar água fervendo nele. Que ficou muito queimado e ela com pena do bicho começou a cuidar dele, passando pomada com cinza de fogão à lenha e assim ele foi se fazendo dela. Agora, num larga mais dela de jeito nenhum. Onde ela ia o Negrinho ia atrás. Depois apontou a casa onde morava, falou dos filhos que tinham ido embora pra cidade, do neto que aparecia nas férias. Por fim veio a pergunta, se gostava de morar ali? Vixe Maria! Nasceu e morou ali a vida toda. Teve um ano em que os filhos quiseram levá-la pra cidade, ela foi. Acabou adoecendo e teve que voltar. Ali, era bom demais porque era sussegadinho.
Convidou para ir passear na casa dela qualquer dia desses. Despediu-se com um "Deus acompanhe" e  foi caminhando atrás do Negrinho.

Nós dois continuamos nossa volta para a casa, morro acima, dessa vez pela estrada de terra. Ali, o cachorro pode ser chamado de "Negrinho" sem que ninguém pense em fazer um boletim de ocorrência por preconceito em relação a uma raça inteira. Ali existem algumas outras coisas que estão além e aquém de normatizações sociais. Existe um tipo de sabedoria de quem trabalha a terra e sabe como lhe é difícil tirar frutos se não existir uma dose generosa de paciência, resignação e amor. Ali, existe uma forma de viver onde o mundo intelectualizado não consegue adentrar, porque está tão saturado de hipóteses, percepções teóricas, onde o ser humano passa a ser invisível por falta de uma tese que o acompanhe.
Não dissemos mais nada sobre isso. Não sei se João teve a resposta que procurava, se percebeu esse momento ou se ainda é muito jovem para entender o que os velhos dizem. Todos precisamos de um tempo para viver, perceber, e é bom que isso venha aos poucos, sussegadinho, para que a gente não tenha pressa em "contrariar" a natureza.




sábado, 16 de julho de 2016

quem pode amar?

Enquanto o dia nascia entre plúmbeo e um sol teimoso dourando os prédios, fui tomada por Eros.

Eros, sendo filho de Riqueza com Pobreza, não pode ser uma coisa nem outra. Filho que é, herdou essas duas possibilidades. Daí a imperfeição do amor.

O amor é aquilo que estamos dispostos a doar a ele. Se pouco ou muito, é o reflexo de nossa própria disponibilidade. Por outro lado (como tudo na vida), o excesso ou a falta perfazem o descompasso que tanto pode saciar irremediavelmente como carenciar insustentavelmente.

O amor não se mede em xícaras, colheradas, pitadas, como em uma receita.

O amor se mede tão somente pela nossa aptidão em adotá-lo, a capacidade para suportá-lo e nas ausências que se possam notar.

O amor é o maior dos desequilíbrios entre a falta e a completude e aí reside a sua natureza e sentido.

Não vivenciar esse desequilíbrio, perder-se em explicações nos faz esquecer o seu propósito

E para isso e só por isso foi feito: para amar...!

As explicações não revelam o amor e sim a sua falta.  Ou a falta que ele nos faz.



Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade ANDRADE, C. D. Obra poética, Volumes 3. Lisboa: Publicações Europa-América. 1989.