quinta-feira, 16 de abril de 2015

Quase uma estória

Lençóis brancos estendidos na varal traziam um cheiro bom de limpeza, lembrava um pouco assepsia com sabão de cinzas, a cortina de voil dançava na janela da sala, dando suavidade à luz amarelada que vinha beirando a terra, entrando de viés, fazendo sombras, desenhando coisas. Uma voz mansa dizia algo, recitava, uma cantilena,  talvez uma reza antiga, não se sabe,  num tom de resignação mediado de saudade. Parecia ser bom, mas não era possível ter certeza ainda. Talvez alguém tivesse enlouquecido na casa, de tanto esperar, de tanto acreditar ou de tanto amar.

Era preciso cobrir os sofás, tirar a água dos vasos, deixar que as flores secassem desidratadas pelo tempo, voltar os livros na estante, olhar pela última vez aquele fim de tarde, fechar os olhos para que memória se retivesse. Nunca, nunca mais voltaria a por os pés naquele lugar. Decisão não foi. A vida se adiantou,  tomou a dianteira assinalando que não seria mais assim. E nem era de tristeza que arrumava as malas, atava zíperes, era tão somente a vida que guinava para o incerto, para o nada mais.

Tinha escolhido estar sozinha nessa hora de despedida das coisas, seria inoportuno responder o que faço com isso? vai querer levar? Muita coisa ganharia o caminho do lixo, melhor mesmo seria incinerar tudo. Apagar. Fazer virar cinzas. Não deixar fragmentos, nada que alguém pudesse descobrir cacos e imaginar estórias.  Não queria bisbilhotices adivinhando fatos, fazendo suposições, interrogando com os olhos,  incomodamente. Era um momento para ser vivido no silêncio. Nenhuma presença na casa minimizaria o fluxo dos sentimentos que ela ainda procurava nominar ou nem isso. Era tempo de nada, um tempo que ainda não tinha nome.

Um ar morno começou a invadir a cortina, a sala, a casa.  Fechando as janelas percebeu que chovia manso e que seria também a última vez que veria essa mansidão de águas, esse sopro vindo do quintal, que tantas vezes a fez parar diante do corredor , para ver depois tudo verdejando, iluminando, renascendo.

A noite passou entrecortada como as noites em que velamos nossos mortos. Cansaço lento que se sabe,  demorará muitos meses para passar. Ou anos. Ou vidas.
Olhou o dia amanhecendo pela última vez, trazendo umas nuvens baixas. Hoje,  nem teve vontade de alcançá-las com as pontas dos dedos, trancou a porta, começou a descer em direção à estrada, sabia que não poderia virar o rosto para olhar para trás. Ali, nunca mais o amor.





Imagem: KatiaGardin

quinta-feira, 9 de abril de 2015

No mundo das hipóteses e no mundo das coisas que não queremos falar. Dilma vem à publico manifestar-se contra a redução da maioridade penal (por orientação do partido). Temer diz que é para manter a neutralidade, pois, mais da metade da população apoia a medida ( muito provavelmente pelo o que a mídia tenta e consegue incutir na cabeça do cidadão, que necessitaria se informar de outras fontes para abalizar sua opinião, por exemplo: saber que os países que a instituíram, não obtiveram redução da violência). Eu não faço parte dessa metade e a mídia não faz a minha cabeça. Quem conhece a minha estória familiar sabe que teria todos os motivos para desejar a instituição da pena de morte. Escolhi outro caminho, um projeto que tenta resgatar essas pessoas, mesmo que seja uma única alma. Esse projeto me levou para trás das grades.
O projeto também acontece numa escola estadual. E sabe o que constato (com muita tristeza)? Que as duas instituições são muito parecidas. E sabe por que? Porque relegamos os nossos jovens, e estamos relegando mais uma vez com essa medida impensada.
O sistema punitivo ( e não ressocializante) do Brasil, vai te devolver esses jovens egressos como bandidos graduados. Quando saírem de lá, com a mácula de terem passado por uma instituição, você não vai empregá-los, nem eu! Mas o crime vai estar de braços abertos esperando esse novo "colaborador".
Quando escola e prisão se tornam parecidas é para acordarmos de que alguma coisa muito grave está acontecendo.
Prisão não será o remédio, somente um placebo para a falta de escolaridade. É interesse do Estado manter o baixo ( ou nenhum) nível de educação pública para continuar "desinformando" pessoas, que sem condições de decidirem sobre a própria sorte serão mandadas para o seu devido lugar: a prisão.
Numa hipótese absurda: se nosso sistema jurídico permitisse que a pena passasse da pessoa do réu ( no caso, os filhos brancos, estudados dos nossos parlamentares) corressem o risco de assumirem as dívidas de seus progenitores pelos crimes praticados contra a nossa nação, algum desses digníssimos parlamentares teriam votado a favor dessa redução?
Se os nossos filhos brancos e estudados corressem o risco dessa redução, de que lado estaríamos?
54% da população carcerária é negra ou parda
55% tem entre 18 e 20 anos ( veja que já temos muitos jovens...e que o Estado não oferece uma recuperação ...)
5.6% são analfabetos
13% apenas alfabetizados
46% apenas ensino fundamental
Temos a terceira maior população carcerária do mundo ( batendo quase 800.000 detentos, queremos mais?)
Nosso Estado não dá conta do sistema prisional que criou e quer te vender que essa redução vai te manter seguro pelas ruas, cuidado! Esse é um tiro certo para sair pela culatra.
Sem educação não haverá pais algum. Estamos enfraquecidos pelas instituições que ajudamos a soerguer (falo aqui com meu pares: a elite branca) e, a redução da maioridade vem corroborar nesse sentido. Melhor seria o Estado ter a coragem de promover mudanças na segurança pública e pensar na educação com fonte de formar pessoas e, que pudéssemos avaliar com responsabilidade, o que estamos desejando para um futuro...incerto.
Poderia falar aqui de culpa jurídica e culpa moral. E como a culpa jurídica (sem medidas de reintegração) exclui a culpa moral, devolvendo-nos o pior do substrato humano. Mas, fica para a próxima.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O PIB não quer a ciclovia
o pobre também quer o carro.
O homem não quer a mulher
A mulher não quer mais o homem.
O elo está perdido.
A confiança virou ameaça.
Os sonhos ficaram só para os loucos.
A esperança só para os tolos.
Mas ainda tem:
cheiro de grama cortada
cheiro de café coado
cheiro de homem recém banhado.
Um dia que amanhece bem cedo
varrendo de luz por debaixo das árvores,
flores caídas nas calçadas
guardando os últimos cheiros da madrugada,
de um espetáculo que aconteceu solitário
antes que as estrelas fossem apagadas.