Era preciso cobrir os sofás, tirar a água dos vasos, deixar que as flores secassem desidratadas pelo tempo, voltar os livros na estante, olhar pela última vez aquele fim de tarde, fechar os olhos para que memória se retivesse. Nunca, nunca mais voltaria a por os pés naquele lugar. Decisão não foi. A vida se adiantou, tomou a dianteira assinalando que não seria mais assim. E nem era de tristeza que arrumava as malas, atava zíperes, era tão somente a vida que guinava para o incerto, para o nada mais.
Tinha escolhido estar sozinha nessa hora de despedida das coisas, seria inoportuno responder o que faço com isso? vai querer levar? Muita coisa ganharia o caminho do lixo, melhor mesmo seria incinerar tudo. Apagar. Fazer virar cinzas. Não deixar fragmentos, nada que alguém pudesse descobrir cacos e imaginar estórias. Não queria bisbilhotices adivinhando fatos, fazendo suposições, interrogando com os olhos, incomodamente. Era um momento para ser vivido no silêncio. Nenhuma presença na casa minimizaria o fluxo dos sentimentos que ela ainda procurava nominar ou nem isso. Era tempo de nada, um tempo que ainda não tinha nome.
Um ar morno começou a invadir a cortina, a sala, a casa. Fechando as janelas percebeu que chovia manso e que seria também a última vez que veria essa mansidão de águas, esse sopro vindo do quintal, que tantas vezes a fez parar diante do corredor , para ver depois tudo verdejando, iluminando, renascendo.
A noite passou entrecortada como as noites em que velamos nossos mortos. Cansaço lento que se sabe, demorará muitos meses para passar. Ou anos. Ou vidas.
Olhou o dia amanhecendo pela última vez, trazendo umas nuvens baixas. Hoje, nem teve vontade de alcançá-las com as pontas dos dedos, trancou a porta, começou a descer em direção à estrada, sabia que não poderia virar o rosto para olhar para trás. Ali, nunca mais o amor.
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| Imagem: KatiaGardin |

