Essa quarentena fez de mim uma pessoa mais séria. Explico: sempre fui do gênero que coloca regras para não serem cumpridas, principalmente ao que se refere aos meus métodos de leitura. Propus-me a ler durante esse período, Santo Agostinho, mas não de qualquer jeito, de forma atabalhoada, com pressa. Dessa vez a leitura foi proposta com o freio de mão puxado. Tenho cumprido religiosamente a promessa. Escolhi para essa via sacra as priscas horas da manhã, quando sou povoada apenas pelo silêncio do nascimento do dia, impregnada de aurora, tendo um olho no texto, outro na montanhas, outro no fenômeno que mantém as vacas encarapitadas nas alturas.
Apenas um pequeno trecho por dia, com paradas obrigatórias, voltando sempre para não perder-me em minhas próprias idéias. Aqui o que interessa é ele (ou Ele...).
Em alguns momentos lamentei meus livros que ficaram em São Paulo, para que me subsidiassem nesse afazer. Lembrei-me muito de Antônio Conselheiro, na sua saga ideológica religiosa. Também pensei em Freud, em práticas religiosas e atos obsessivos. Foi bom não tê-los comigo. Fico mais livre para pensar sozinha com as minhas bobagens. Fica de certa forma mais coerente com a minha prática de leitura, não tenho pretensão de propor ensaios, não quero ser pesquisadora e tenho uma preguiça danada para a academia. Gosto imenso de poder ser tosca intelectualmente para me dar mais liberdade criativa onde minhas crenças sem eira e nem beira pululam à vontade. Fico mais alegre sem engessamentos de qualquer ordem: política, social, religiosa, intelectual etc e tal.
Paro no ponto do homem como imagem e semelhança de Deus. Nessa proposição alguém pecou por excesso de pretensão ou ingenuidade. Ou homem está pretensioso ou Deus é ingênuo. Não é possível que Deus tenha nos criado circunscrevendo num corpo humano a sua mesma bondade e compaixão.
Vejo as notícias sobre a explosão no Líbano. 250 mil pessoas sem casas para morar. A justiça elaborada pelos homens, com tantas regras, artigos, incisos e parágrafos únicos nunca produziu tanta injustiça. Toneladas de material explosivo armazenado de forma inadequada, aguardando desde 2013 um destino indeterminado pelos trâmites judiciais. Muitas vidas se foram.
O homem investido da bondade humana é a única espécie que produz excedente e gera a fome. Inventa mil peripécias para o sexo e não sabe mais como é fazer amor. Kama Sutra nenhuma vai te garantir um amor verdadeiro. Aqui me lembro de Bergson sobre o que nos traz felicidade e o que nos traz alegria.
Em nome de Deus e da proteção à família elege-se um genocida, que por ausência de piedade e de políticas públicas comemora o êxito de proteger famílias matando pessoas.
Percebo que estou em erro. Não posso encontrar Deus através do homem. É preciso, ao menos nessa manhã, compreender Deus através de si mesmo. Olho para essa manhã esplendorosa, não encontro explicação para meu êxtase, essa beleza que leva ao encontro do divino, que me proporciona todos os encontros universais, tantos os bons e memoráveis como aqueles que desejo esquecer. Não há a menor possibilidade de apagar a crença indelével que sou tão humana e perdida como o resto da humanidade. Uma parte de mim clama por sutilezas, outra parte de mim convive com essa insustentável leveza de não ser.
Vou seguir lendo e me confundindo. Deixem-me em paz com minha escolha retórica. Prefiro as dúvidas que as todas as certezas absolutas. Deus será sempre algo que está em mim, não no lugar onde desejaram que eu acreditasse que Ele pudesse estar. Me lembro agora de Ariano Suassuna que disse algo parecido com: gostaria de acreditar em Deus como uma criança. Mas creio Nele como um adulto, com hesitações e medos.