segunda-feira, 9 de março de 2015

Fruta roubada

O dinheiro comprou tudo.
Todos os homens do poder
a vaga no leito do hospital
e a da universidade também.

Comprou o sapato de salto alto
o chinelo de dedo
a sombra na praia
a vida opaca.

O dinheiro comprou as bolhas do champanhe
a cachaça, o carrão, a bicicleta,
o cansaço dos que perderam o encanto.

Comprou a cadeira de balanço na varanda,
a piscina que ninguém entra
o protetor solar, a falta de ar,

O gozo da prostituta, o amor da amante,
o silêncio das esposas.

O dinheiro comprou o sorriso da comissária first class,
o balanço no parquinho
a escola de samba, o samba enredo e as sandálias da passista.

Comprou a voz de quem perdeu a coragem
a alegria de quem já não tinha muita.
A falta de pudor
e a valentia dos que usam armas.

O dinheiro comprou o passe do jogador
o nocaute do lutador
e o brilho nos olhos dos que vieram para espetáculo.

Comprou a epifania das almas
e as faltas de todos os mistérios.

O dinheiro só não comprou o gosto da fruta roubada no pé
os olhos com que você me olha
as pontas de seus dedos
e os versos do poeta.


        Punta del Este

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