quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Uma questão de anatomia

Hoje acordei pensando em sexo.  Na posição em que  foi situado anatomicamente em nosso corpo. Acho que sexo deveria estar na cabeça. Antenas, sei lá. Não escondido em regiões abssais, criando  fantasias, desatinos, desejos inconclusos e outras manifestações.

Imagine se fosse tudo às claras. Seria tudo mais simples. Olhou, viu, gostou, não gostou, desiste logo, apaixona-se à primeira vista, não precisa levar para jantar, contar todas as estórias da vida, as piadas desgastadas que nem você aguenta mais ouvir de tanto que já teve que repetir. E quantos mais forem as consquistas ao longo da vida, mais repertório será preciso editar. Conheço especialistas nesse segmento e acho que alguns estão até oferecendo cursos preparatórios nessa nobre arte. Muitas vezes, pessoas incautas servem-lhes de experimentos práticos para auferir como lhes está funcionando a vasta teoria que cultivam sobre o tema. Pessoas, cuidado!!

Tudo que disser aqui não estarei, obviamente, falando de homem ou de mulher. Não farei distinção por gênero. Portanto, homens e mulheres não se sintam apessoados.

Voltemos à anatomia. Ficando o sexo   escondido cobre-se de mistérios, de expectativas, no mais das vezes de frustações e algumas poucas vezes de completude. No meu caso por exemplo, desde que conheci Manuel Bandeira em a Arte de Amar, nunca mais funcionei direito. Vivi e vivo no dilema entre alma e corpo, o que seria totalmente resolvido se a sexo fosse um apêndice localizado em lugar visível como proponho aqui. Seria completamente fora de questão apaixonar-se, envolver-se, desejar algo mais. Com tudo às claras um simples beijo poderia concluir em cópula e esse mesmo ato ser repositor de ômega três, anfetaminas, colágeno, proteção contra raios U.V.A., vitamina "ser" (como dizia meu sobrinho com quatro anos), raiz quadrado do pi, risos, relacionamentos sinceros e semente de chia. E quem aspirasse a nobre missão de povoar o mundo que  escolhesse outras formas de se relacionar.

E imagine só...com tudo às claras,  passando diretamente do bom dia, como vai para as vias de fato as pessoas teriam que parar de mentir. Tanto quantitativamente como qualitativamente. Contam-se vantagens, peripécias, loucuras não acontecidas, jogadas ensaiadas, satisfação múltipla e recíproca. Quantitativamente dá tudo  super certo.Tem orgasmos generosos e generalizados para todo mundo. Qualitativamante poucos tem a contar.  Ninguém fala da paixão unilateral,  da ausência do outro, no fato de ter imaginado coisas que nunca aconteceram, na solidão do depois ou na ausência total de sentimentos. Dos micos.  Da saudade que sentiu , onde ninguém mais foi capaz de estar.

As experiências que de fato fizeram sentido não entram nas estatísticas, não são fruto de palavratório. São sorvidas no silêncio que pode durar toda uma existência ou guardadas nos  recônditos da eternidade para que não se percam nunca. Para que se guarde o seu sabor, a sua cor, num mundo de sensações que nos transcendeu e nos colocou onde jamais imaginamos que poderíamos estar um dia. E se lá estivemos, saimos transformados, não pelo sexo ou pelo que dizem ser  amor. Porque o que carece de distinção, também carece de definição. Se um dia nos fosse dado viver de verdade, que fosse o convite para ser parte desse grande espetáculo, onde só é permitido estar, sem permanecer.

Fiquemos, portanto, antenados. Quem sabe um dia tudo muda.



Nenhum comentário:

Postar um comentário