Foi preciso responder quatro páginas de questionamentos. Ainda ficou faltando uma. Fui ficando assustada. Me chamaram para dentro e começaram os tais preparativos. Ninguém te fala nada, ninguém te explica nada. Eu ali naquela sala branca, fui me sentindo imaculada. Ele me pergunta se quero uma manta para as pernas. Digo que não. Estou adorando o ar condicionado no máximo, contra os quarenta graus lá fora, na sombra. Resolvo perguntar quanto tempo vou ficar ali. Vinte minutos e sem se mexer, é a resposta. Como assim??!!!! Achei que seria coisa de segundos.....Me entregam uns protetores de ouvido e pergunto para que isso?! Por causa do barulho que faz lá dentro. Vinte minutos, lá dentro, sem se mexer, com frio e barulho...!! Algo mais que eu não saiba? Me mandam botar mãos ao alto. Não consigo ver mais nada que se passa atrás de mim, minha posição não me favorece. Colocam algo em minha mão direita, a avisam que é uma campainha, para o caso de algum problema. Sinto na palma da minha mão algo parecido com aquelas bombinhas dos aparelhos para medir pressão arterial.
Ouço alguns clicks de algo se acionando e a porta que bate. Foram-se todos. Estou só.
A última coisa que vejo é o logotipo da marca do fabricante de onde vou ficar imobilizada, ouvido barulho, passando frio. Até nessas horas os engenhosos homens de marketing estão em ação. Aiiiiii meu Deus!!!!!! Estão me deslizando para dentro. Lá vou eu, lá vou eu...lá vou euuuuu. É tudo irrepreensivelmente aceptico. Não posso entrar em branco, aliás em pânico. Me auto oriento a não abrir mais os olhos. Comecei a pensar no meu professor de yoga. Relaxa. Relaxa. Esse teto é baixo sobre mim, esse branco é sufocante. Tento lembrar de alguma coisa que me fez feliz na vida...huummmm já me lembrei. Acalme-se são só vinte minutinhos, e você já passou por coisas piores. Vou me lembrando do meu jardim de flores capiras. Ops! Estão me mandando mais para baixo, se não parar de deslizar vou apertar essa bombinha que botaram aqui na minha mão. Calma. Calma. Não abre mais os olhos. Esquece tudo, principalmete onde você está. Volto a pensar nas coisas que gosto, em empadinha de camarão. Em gin tônica. Em uma coisa de cada vez, porque não gosto de comer enquanto bebo. Nas contas que vou ter que pagar na hora que sair daqui. Na angústia de esperar o resultado. De saber que daqui pra frente a gente não tem mais sarampo nem catapora....ai meu Deus!!!! Tô indo de novo para baixo. Começo a pensar que nao posso ter acesso de riso nem tosse, senão me mexo e vai tudo pras cucuias. Minhas mãos ao alto ficam com saudade de alguma amiga por perto. Me veio a solidão das coisas que passamos sozinhas na vida, na falta que faz o elemento humano numa hora dessas. Ainda tem aquela estória de contraste. Outro dia li que uma mulher morreu fazendo um desses exames que eles chamam de "rotina". Esqueci de deixar a casa arrumada, jogar umas coisas fora e deixar uma carta para o meu João.
E por que ainda nao inventaram uma máquina dessas sem barulho????? Vou precisar reclamar com Thomas. Foi ele que criou a general eletric, daquele logo, que foi a última coisa que vi hoje.
Permaneci imóvel como haviam me orientado. Sou aquele tipo de pessoa extremamente obediente em algumas situações e rebelde sem causa e se efeito em outras. Fiquei imaginando se o mundo acabasse e milhares de anos depois quando fosse encontrada por estudiosos arqueólogos, relatariam que os humanos possuiam sofisticadas máquinas de dormir. Ou em outra hipótese, se acabasse a energia, por hipoinvestimentos no setor energético da nação e até que o gerador fosse acionado, bem....eu estaria...mudei de pensamento.
Felizmente chega uma hora na vida que tudo acaba e o enfermeiro veio me retirar daquela prisão branca e eu disse: aiiiiiii que meeedo!!! Ele se espantou. Medo de queeeee ??????? É só uma máquina!!!!!!!!!
Peguei os meus pertences, me despedi e pedi que não me avisassem se descobrissem algo de errado comigo.
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