domingo, 23 de fevereiro de 2014

A cordilheira nossa de cada dia

Acabo de ler, portanto,  me sinto agora naquele estado de orfandade reflexiva.  Nos sentimentos que nos acompanham por entre letrinhas, das junções que fazemos nas entrelinhas e dos encontros silenciosos que realizamos com nosso eu através de vivências alheias.

Nunca imaginei que fosse ler mas quem me presenteou teve a felicidade de pronunciar uma frase que me deixou curiosa para conhecer o seu conteúdo.  A medida do dar e receber na vida. Quem doou demais acabou morrendo, me disse Janine.

Um livro que não pretende mostrar atos de heroísmos,  nem tão pouco ser piegas ou fazer apologia de sofrimentos. Os dezesseis sobreviventes dos Andes ( que significa: as montanhas que se iluminam).  Onde não por acaso - ou por acaso - todos que conseguiram voltar com vida da montanha, relatam que enquanto permaneceram lá, eram melhores seres humanos do que puderam ser vivendo na sociedade real onde vivemos todos. Os relatos são tão subjetivos, carregados pelas sensações e reações que cada um teve diante da diversidade que é difícil imaginar que estivessem todos falando do mesmo acidente.

Diante do caos e pelo inglório de estarem ainda vivos, foi preciso criar uma nova sociedade: a sociedade da montanha. Com cinco pilares sólidos, essenciais e muito  simples: espirito de equipe ( a prática de esporte tinha-lhes ensinado isso, eram  um time de jogadores de rugby); persistência; afeto, inteligência e acima de tudo esperança.

Foi preciso inteligência para não chorar, pois com lágrimas perde-se potássio. E ali tudo precisava ser economizado. A única abundância era uma paisagem branca, estéril e gelada. Cada um desempenhou papel de fundamental importância para a manutenção do grupo, mesmo quem  achava que nada fazia, estava se mantendo calado para que discussões inúteis não desintegrasse um todo com tão poucas possibilidades de sobrevivência. Falavam entre si aos sussurros para que poupassem energia e para respeitar o enorme silêncio que a cordilheira branca  impunha.

Os Andes, as montanhas que se iluminam, iluminou-os à todos e iluminou-me nessa tarde cinza paulistana. "A sociedade da neve" de Paulo Vierci. Companhia das Letras.

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