sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Pensando em Joãos

Hoje acordei olhando para meu fiilho. Quer dizer, para as lembranças dele que tenho dentro de mim. Está com dezesseis anos, viajando pela primeira vez só com amigos. Imagino o poder que essas férias terão para ele. Quanta novidade, quanta descoberta e como o  mundo é lindo!!! Cheio de possibilidades. Praias, amigos, meninas, primeiros passos, primeiros erros, primeiros tudo e primeiros nadas. Todos os primeiros que nunca vou ter possibilidade de saber. Somos mãe e filho. Ele gosta assim. E acho também saudável. Nunca quis ser a sua melhor amiga. Ele escolherá a sua própria. Tenho o lugar que me coube: mãe.

Começo retrocedendo àquele ser diminuto que mal cabia no meu colo, tão pequeno e enrugadinho. Com penugem na testa. Que susto. Pensei que ele fosse ser assim para sempre. Tinha os olhos enormes que mesmo antes de abri-los minha mãe me disse: " olha o tamanho dos olhos desse menino. Do nariz até a têmpora. Ele vai ser forte, é pequenininho mas tem os ombros largos".  Confiei nas previsões dela.

Não quis saber o sexo antes do nascimento. Fiz um enxoval adaptável, como também fiz a decoração do quarto. Queria surpresa total. Quando nasceu ficou quatro dias sem nome. Com a imprevisibilidade do sexo, não tínhamos chegado a um veredicto. Ficou sendo chamado de menino, até que minha mãe ( que nunca fala nada!!), falou: esse menino não vai ter nome? O pai acabou querendo Felipe ( depois de inúmeros nomes lançados e rejeitados) eu quis que se juntasse João. João Felipe.

Quando minha madrinha foi nos visitar ( era a pessoa que mais gostava de crianças que conheci...), observou que de um lado da nossa família ainda não tinha nenhum João. Mas que do lado dos Rosas tinha o Tio João. Demorei muito tempo para fazer essa associação: Tio João foi o homem que me levou para nascer. Numa madrugada de março, com as chuvas também de março, por uma estrada de terra que não chegava nunca na maternidade. Uma noite em que minha mãe via estrelas olhando para o escuro  e imaginava que eram vagalumes piscando na chuva, no meio do pasto. Como se essas duas possibilidades fossem possíveis.... E muitos, muitos anos depois escolho esse nome para ser o nome do meu filho.

Um dia olho para meu lado, no banco do carona está sentado um homem. Não consigo imaginar como ele saltou tão rápido da cadeirinha do banco de trás para cá. Tento puxar conversa mas desisto diante da falta de resposta, percebo que não vou conseguir vencer aqueles fios brancos que pendem de seus ouvidos. Deixo que adormeça e sigo sem música nem nada, sem me incomodar de dirigir quase quatrocentos quilômetros rumo ao inteiror. Tenho muito o que pensar. Tenho estórias para me contar.

Estava indo passar o Natal em família como há muito não fazia. Sentia uma coisa boa, bem intencionada. Acabamos fazendo algumas caminhadas por meio de sítios e fazendas do meu interior. Era cana que não acabava mais, sem mata, sem sombra e sem fresco. Estive bem próxima das minhas origens e aconchegada pelos passos das minhas irmãs que seguiam me ladeando.

Mana-caetana e eu decidimos ir visitar uns parentes no dia de Natal. Escolhemos usar a estrada de terra, já que todo mundo prefere o asfalto. Para nossa surpresa nossos filhos pediram para nos acompanhar (aqueles que nunca querem estar com a gente....). Rodamos e acabamos passando por onde morou nosso Tio João Rosa. A casa permanece igual. Sem conservação e sem mudanças. Descemos do carro e vem nos receber um homem alto e forte que quase quebra as juntas de nossas mãos,  com o seu aperto generoso. Era João também, o neto.Logo na varanda vemos um tampo redondo talhado pelo nosso bisavô, feito na ponta do machado. Tio João também era um exímio entalhador com canivete, qualquer pedacinho de raiz ou madeira acabava virando um ser animado.  Perguntamos se tinha alguma foto antiga. Parecia que nos esperava. Foi até o quarto, em num minuto, lançou centenas de fotos sobre o toalha de oleado com estampa de flores,  na mesa da sala. Nos divertimos os cinco naquele mosaico de rostos e almas em branco e preto, vendo estórias que não conhecíamos, revendo nossa parentada, numa profusão de homens caçando onças, o circo chegando na cidade, meu bisavô sendo fotografado antes de ser lançado ao túmulo (tinha visto aquela foto quando  criança e me perguntava o que ele estaria fazendo deitado em cima de uma churrasqueira...sendo erguido por vários homens...). Casamentos, batizados, nascimentos  e as poucas fotos de formatura, todas com dedicatórias. A foto da curva do Rio São Lourenço onde meu bisavô herdou do sogro,  cinquenta alqueires, medidos com um pedaço de corda e alí num tapera coberta de folhas de coqueiro começou a dar enredo às nossas vidas.

A dona da casa chegou e nos serviu o melhor café que já tomei na vida. E essa impressão não foi só minha. Quando meu sobrinho entrou no carro me disse:" nunca tomei um café tão bom!!". Ééé ...... Nicolau, tem mesmo  muita barista precisando  aprender a fazer café com a Hilda.

Seguimos e encontramos melancia e  manga madura pela beira da estrada.









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