quinta-feira, 24 de abril de 2014

Razões para ler

Quando era criança  lá no interior, não existia livraria, nem banca de  jornal. Existiam uns moços que vendiam livros de porta em porta. Minha mãe adquiriu o hábito de dizer que algumas pessoas verborrágicas,  falavam mais que os vendedores de livros. Tinha o moço da Barsa que passava todo ano.  O mundo pululava em novidades, era preciso uns aditivos de textos complementares para corrigir o descompasso da edição anterior. Tinha os livros culinários, uma  coleção de cinco  volumes,  capa dura verde, com  um exemplar totalmente dedicado a receitas que crianças podiam fazer sozinhas (desde que pedissem para que algum adulto acendesse o forno, é claro). Nem era preciso saber ler, todinho ilustrado, me lembro até hoje dos desenhos com as explicações. Minha clássica receita era "Tomates Doces ao Forno",  um desperdício só,  ninguém comia, ia tudo para o lixo, ficando a assadeira para lavar, até que minha mãe proibiu-me peremptoriamente de fazê-los.

Em casa tinha o "Mundo da Criança", alguns  volumes ficaram todos despinguelados de tanto manuseio e uma  outra coleção que não sei o nome, com ilustrações incríveis. Tinha capa dura raiada,  cor de café com leite rosé,  com letras azul marinho. Está em uma prateleira na casa da minha irmã mais velha e não resisto em paquerá-los cada vez que passo por eles.  As vezes penso em surrupiar o volume que tem menininhas com corpinho de legumes e frutas. Nenhuma alusão às mulheres frutas de hoje em dia. A menina couve flor é a coisa mais meiga que já  vi.

Com uma dessas coleções, veio de brinde,  uns slides com um disquinho narrando a  chegada do homem na lua. Teve várias sessões de  cinema em casa, com a presença de todas as crianças da   vizinhança.  Todo mundo ficava mudo com boca aberta,  assistindo aquele grandioso feito interplanetário.  Os moços do filme usavam coturnos e eu usava botas (horríveis) ortopédicas, que me moíam os ossinhos do tornozelo.

Tinha também os vendedores especializados em títulos infantis e numa dessas meu pai adquiriu a coleção com vinte volumes, capa dura vermelha com letras douradas, de Monteiro Lobato.  Eu já sabia quem era esse senhor, pois meu pai costumava nos brindar com a leitura  do almanaque do Jeca Tatu. Um livreto que era propaganda do  Biotônico Fontoura, que fazíamos fila indiana para tomar antes de cada  almoço.
Como  ninguém se interessava em ler o  tal Lobato e meu pai não parava de reclamar o dinheiro gasto, decidi pôr fim ao falatório: acabei lendo a coleção todinha. Sorte a minha.

Mal sabia  que minha relação com Monteiro Lobato perduraria nessa minha fase mais que adulta. Há uns quinze anos atrás,  fui visitar uma amiga em Brasília,  vitima por uma cirurgia mal sucedida.  Carrego comigo o hábito interiorano de acordar com as galinhas, sou Jeca.  Eis que então,  acordo em um apartamento funcional, completamente desprovido de livros, numa casa onde as pessoas acordam tarde e não leem.  Na sala repousava solitário o único exemplar da casa,  em cima da mesa de centro.  Dediquei-me a folheá-lo e me deparei com uma  biografia do autor de Jeca Tatu. Mencionava os áureos tempos boêmios vividos ao redor do largo  São Francisco, em São Paulo e o vertiginoso destino de levá-lo de volta,  forçosamente, ao Vale do Paraíba para cuidar das fazendas de  café,  que o pai havia deixado em sua morte repentina. Aí é que,  Monteiro Lobato declarava que se não fosse pela enorme biblioteca existente na fazenda, teria se matado. Foi salvo do suicídio pelos livros e me veio à mente: "leitura cura". Esse sonho dormiu nos meu braços por todos esses anos, acordando agora nesse novo projeto que é o Leitura-Cura.

Pelos livros também estive em vários lugares, viajando por linhas, sabores, aromas e amores.

Adquiri o hábito de catalogar cartas de amores possíveis mas cheios de impossibilidades. Clamores de apaixonados que pediam para serem perdoados, esquecidos ou aguardavam ansiosos a  confirmação de mais um encontro mesmo que fosse o último e derradeiro. De enamorados que verteram lágrimas caudalosas, dos tímidos que se mantiveram em silêncio,  das amantes que deram tudo de si mas foram relegadas por outra prioridade.

Descobri que livro novo cheira melhor que Versense;  nutre mais que uma feijoada completa  e te faz delirar muito mais  que a erva do diabo de Castañeda. Que não cura dor de cotovelo, mas consegue te fazer entendê-la. Que te leva para qualquer lugar do mundo sem precisar entrar num avião. Nunca mais pude ver um homem saindo de um banheiro de aeroporto,  sem imaginar se ele não poderia ser o marido sumido, que Rosa Monteiro perdeu no livro "A Filha do Canibal". Uma estória muito divertida de  um casal exemplar que resolve   viajar talvez para comemorar algo mais exemplar ainda. Ele entra no banheiro do aeroporto e nunca mais aparece. A esposa começa desolada,  a procurá-lo  percorrendo todos os caminhos que ele fazia enquanto ainda era um marido presente. Passa, então,  a descobrir quem verdadeiramente foi o homem  com quem dividiu tantos anos de casamento. Surpresas não muito agradáveis teve essa senhora.

Ou então viajar pelo interior de Portugal, comer todas as comidas de que fala Miguel de Sousa Tavares em "Rio da Flores". Sentir o  cheiro das noites de outono, com perfume de flores ou quem sabe conhecer Pedro, aquele seu irmão rústico, sofrido e forte como são os homens que vivem da terra. Ou encontrar um amor estonteante como encontrou Bernardo, em "Equador", do mesmo autor.

Ter a poesia e a  beleza com que se pode construir as palavras.  Tentar imaginar para onde vai tudo o que não é dito, o que fica na ausência do dizer mas transborda na alma,  onde mora os sentimentos que se guardam, em "Um Trem Noturno para Lisboa".

Prestar atenção no que diz Moacyr Scliar e Rubem Alves em   "Conversas Sobre o Corpo e Alma": " é difícil extrair novidades de um poema, no entanto, a cada dia pessoas morrem miseravelmente, pela falta daquilo que ali se encontra".

Aprender que tudo o que não dissemos, porque não sabíamos como dizer ou porque ainda não tínhamos encontrado as palavras certas, alguém já disse, outrora,  em nosso nome.  Nominando sentimentos, descobrindo frases, encantando-se com a beleza,  até naquilo que um dia pode nos ter feito sentir menores, do que efetivamente somos. Ou ter nos agigantado num tamanho que só os sonhos conseguem ter.

Estar sempre acompanhada,  chorar e secar lágrimas com a ponta do lençol,  frequentar festas de famosos sem ser convidada, hospedar-se nos melhores hotéis do mundo de graça,  tomar um Dry Martini (de verdade!) no Ritz em Paris, por indicação de algum personagem que sabia das coisas e gostava de viver muito bem obrigado.

Caminhar pela Rambla de Montevideo, pensado que sorte seria a minha se de repente surgisse Eduardo Galeano caminhando com seu cachorro, na minha direção. Eu emudeceria, é claro!

Ser Lucrécia,  por quem Pluto é apaixonado em cadernos de Don Rigoberto, de Vargas Lhosa.

Mergulhar no cheiros de quem mais sentia o gosto de tudo: Gabriel Garcia Marques.  Nunca esquecer daqueles amantes em um de seus romances que fazem um combinado de  viajarem escondidos uma vez por ano, enquanto viverem. Ou aquele velho solitário que esteve com todas as mulheres da vida, "Memórias de Minhas Putas Tristes", porque nunca pode ter de verdade,  o amor que amou de verdade.

             " Deitada em minha rede com o livro sobre meu colo
               em êxtase puríssimo... não sou mais aquela menina
               com seu livro, mas uma mulher com seu amante...!!"
               Clarice Lispector


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